domingo, 30 de janeiro de 2011

Eu tive infância

Eu tive infância, tanto que me pego constantemente me lembrando dessa maravilhosa fase de minha vida. Nunca me canso de lembrá-la, de me pegar devaneando, desejoso de poder voltar no tempo, nem que fosse por apenas cinco minutos, para reviver a época mais doce de minha vida.
            Época de férias escolares, antes do início do ano letivo, era como o “auge do ano”, como se fosse o momento mais importante para ser vivido, já que quando as aulas começassem, o tempo para as brincadeiras ficava mais restrito e não se tinha tempo para nada, além de estudar, estudar e estudar, para  não se correr o risco de ficar em recuperação ou mesmo de se ser reprovado. O auge do verão, em pleno mês de janeiro, significava o auge das brincadeiras. Era quando organizávamos os campeonatos de futebol, em que praticamente cada rua tinha seu time, composto por cinco jogadores e um goleiro. Reserva? Isso não existia, pois todos faziam questão de jogar todos os jogos, do início ao fim, sonhando ser ele o responsável pelo gol que daria um simbólico título de campeonato de verão daquele ano. Mas se por um acaso chegasse algum primo distante, um amigo bom de bola, dávamos um jeito de colocá-lo no time e sacrificar aquele menino pereba, normalmente o mais novo, que só jogava por que era o dono da bola, ou por que precisávamos dele para completar o time. Tudo bem, ele sempre ameaçava levar a bola pra casa e acabar com o campeonato, mas sempre se dava um jeito de convencê-lo com a condição de deixá-lo entrar no início do segundo tempo.
            As brincadeiras daquela época eram inocentes. Até mesmo as mais “maliciosas” eram inocentes, bem diferentes das que vejo as crianças (tanto as de meninos quanto  as de meninas), em que há um certo “quê” de malícia até nas que parecem as mais inocentes. Mas isso deve, ou ser fruto de minha imaginação ou fazer parte do processo natural de “evolução dos tempos”. Enfim, vamos em frente.
            À noite, quando não se podia jogar bola, já que não havia iluminação no campo, adorávamos brincar de esconde-esconde, tica, polícia e ladrão, e no caso desta brincadeira havia sempre confusão, pelo simples fato de ninguém querer ser polícia, pois toda a graça tinha em se correr muito e fugir, sendo o ladrão da brincadeira. Mas também havia outros tipos de brincadeiras, os jogos de tabuleiro eram muito bem quistos, alguns do grupo brincavam de resta um ou de pega vareta. Havia, lógico, um ou outro, mais velho no grupo, que podia se aproximar dos mais velhos e participar de uma partida de aliado ou de dominó, quem sabe até fazer dupla numa partida de totó ou mesmo ser chamado para jogar sinuca, mas mesmo este, via-se claramente, não se divertia tanto quanto nós.
            Naquela época praticamente não havia shopping e nem todo o apelo comercial que se há hoje em dia (pelo menos, se havia, não prestávamos atenção nisso). O shopping, pelo menos o único que havia na época, não despertava o nosso interesse e preferíamos, lógico, ficar brincando com os amigos na rua a ir “passear” no shopping (coisa mais sem graça das férias de verão). Hoje em dia, toda criança quer viver dentro de um shopping sem graça e acha que isso é diversão... elas não sabem o que é ser criança, não sabem o que é se divertir pra valer!
            Internet, óbvio, não existia, e o brinquedo que representava o maior avanço tecnológico de que dispúnhamos era um vídeo-game, um Atari ou, quando muito, um Master Sistem. Mas mesmo estes eram inofensivos e não brincávamos muito, somente o necessário para zerar esse ou aquele jogo. Logo abusávamos e íamos procurar algo mais interessante para brincar. Vídeo-Game não viciava e não nos deixava dependentes, e estes são grandes perigos que eu vejo as crianças de hoje passando.
            Televisão até tinha, mas dávamos tão pouca atenção a ela que nem vale a pena se falar dela nessa crônica.
            Brinquedos havia às centenas. Tudo bem que não eram tão bonitos, coloridos, tão articulados e fizessem tanta coisa quanto os de hoje em dia, mas o que realmente importava, na minha época, era a imaginação. Tendo imaginação, gostando e querendo simplesmente de brincar, a diversão estava garantida.
            Brincava-se de biloca e pião, fazia-se bolinha de sabão e havia brincadeira só de menino e só de menina, e raramente nos misturávamos. Soltava-se pipa e a víamos lá no alto, tão longe, voando como a nossa imaginação naquele sublime momento.
            Mas talvez a melhor hora do dia, a tão esperada, era quando chovia. Tudo bem que era verão, que o calor era de rachar, e talvez por isso mesmo vibrávamos quando se avistava uma nuvem no céu, nem que fosse uma nuvenzinha pequena, que podia pressagiar uma chuva, que por mais fina que fosse, ajudava a refrescar o dia e lavava a nossa alma.
            Eu lembro cada uma dessas brincadeiras e tenho uma imensa saudade desses tempos. Às vezes tenho vontade de deixar de ser, por cinco minutos, o adulto que sou e deixar renascer o menino que sempre fui. Mas sei que isso, hoje, é impossível. O que me resta fazer é relembrar, se ser feliz por tudo que se viver, e bater no peito, com orgulho, e dizer aos quatro cantos do mundo que eu, sim, tive infância.

4 comentários:

  1. pensei que ia ler uma certa crônica hoje... rsrsrs

    Parabéns, ficou muito lindo o texto.

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  2. a tal crônica não vai ser bem uma crônica, mas sim um verdadeiro conto. não finalizei o texto, ainda, mas acredito que no próximo final de semana ela será publicada aqui, no blog.

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  3. Vc tem razão amigo... As vezes acho q tambem me perdi na evolução do mundo...

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