sábado, 26 de janeiro de 2013

A Melhor História está por vir



Há alguns autores e livros, que quando o lemos pela primeira vez, a primeira coisa que nos passa na cabeça, quando fechamos o livro, quando finalizamos a leitura é: quero ler, imediatamente, outro livro desse autor. Com María Dueñas isso aconteceu não só comigo, mas com certeza, com todos aqueles que se deliciaram, se envolveram e devoraram da primeira à última página do seu livro O Tempo Entre Costuras. No entanto, quando fechamos esse livro, surgiu um “ponto negativo”: a autora só havia lançado, no Brasil, esse livro. Senti-me, ao constatar isso (e tenho absoluta certeza de que todos os que leram o livro também se sentiram dessa maneira) frustrado, pois a necessidade e o desejo de mergulhar novamente nas histórias da maravilhosa escritora espanhola. Nós, leitores de Dueñas, sentimo-nos “órfãos de um livro só”, e passamos um longo tempo na expectativa, verdadeiramente sonhando com um novo livro da autora, que não fazíamos ideia de quando viria a ser lançado no Brasil.
            O tempo passou, mas o que não diminuiu foi a vontade de ler uma outra história escrita pela autora de O Tempo entre costuras, e quando começaram a surgir os primeiros rumores de que sua editora, aqui no Brasil, estava preparando o lançamento de seu segundo livro, nós, seus ávidos e sedentos leitores, passamos a contar os minutos para o dia em que seu livro estaria a nossa disposição, nas estantes das livrarias, para podermos, enfim, mergulhar em suas palavras, viver e fazer viver seus personagens. Mas o lançamento demorou, e quando mais demorava, mais nós ficávamos na expectativa, mais ansiosos ficávamos, já imaginando, de antemão, o que nos aguardava.
            Finalmente, o lançamento se confirmou. Já tínhamos o título, já sabíamos, em parte, do que se tratava a história, mas era pouco para quem esperava com tamanha ânsia por tal livro, e não queríamos apenas saber algo sobre o livro, queríamos tê-lo o quanto antes em nossa mão e devorá-lo, tal como o fizemos com o primeiro livro (publicado no Brasil) da autora. Vimos a capa, belíssima, simples e que dizia tanta coisa, e cada detalhe novo era, para nós, um motivo para aguçar a nossa curiosidade, para aumentar a nossa necessidade de ter o livro em mãos.
            O livro demorou muito para ser lançado (queríamos tê-lo lido logo após o fechamento de O tempo entre costuras), mas tudo foi esquecido, perdoado, quando o pudemos, finalmente, vê-lo (tê-lo) nas livrarias. Lê-lo (devorá-lo) era uma verdadeira necessidade fisiológica que tínhamos.
A Melhor História está por vir não decepciona em nenhum momento, e fez valer a pena a angústia da espera pelo seu lançamento, muito embora não tenha o ritmo tão alucinado quando o primeiro livro da autora, no entanto, possui personagens tão bem construídos e cativantes que compensam (e superam, talvez) quando comparamos (inevitável fazer isso!) os dois livros da autora.
Blanca Perea é uma professora universitária de meia-idade, que recebe um tremendo baque quando um furacão varre a tranquilidade e paz de sua vida: seu marido, com quem vivia um casamento de mais de vinte anos, sai de casa e se envolve com uma outra mulher, mais jovem. Sem saber o que fazer nem o que pensar, sua única alternativa (ela assim entende) é se afastar para poder refletir melhor sobre o que passava, agora, a ser sua vida. Passa a ver possibilidades de ir para uma outra universidade, em um outro país, para ficar de longe de tudo e de todos, e resolve aceitar a proposta de ir para os Estados Unidos, mesmo o projeto não lhe sendo de todo de seu interesse acadêmico, só e unicamente pelo único motivo de ser o local mais longe para onde poderia ir.
A professora Perea se depara com um projeto de organizar para resgatar todo o legado de um ex-professor, seu compatriota, da Universidade de Santa Cecília, Califórnia. Todo esse trabalho lhe é, de certa forma, indiferente, e ela não demonstra qualquer maior interesse pessoal ou profissional com tal resgate. Entende, sim, óbvio, tudo o que o ex-professor, Andrés Fontana deixou para o Departamento, mas apesar de todas as palavras entusiastas e saudosas por parte de todos os que ali trabalha e principalmente daqueles que conviveram com o professor, que fora chefe daquele mesmo departamento tantos anos antes, até a ocasião de sua morte num acidente trágico, ela mantém-se “emocionalmente distante” do trabalho.
Mas na medida em que vai se aprofundando no trabalho, Blanca passa a se afeiçoar e a conhecer mais e mais aquele simples estudante que viera tanto tempo atrás para aquela mesma universidade e acabara ficando, adotando e sendo adotado por aquela universidade, vivendo como uma espécie de autoexilado naquele país tão diferente do seu.
Conhece inúmeros professores e membros do departamento, entre eles o sedutor Luis Zárate e o engajado nas hispanidades Daniel Carter, e a medida em que se envolve com esses homens, novas janelas se abrem naquela pesquisa, no resgate da história e legado do professor Fontana. Todos, naquele departamento, de uma forma ou de outra, estão, em maior ou menor grau, envolvidos com Andrés Fontana, e Blanca passa a mergulhar no mundo de cada uma delas, principalmente no do professor Carter, que fora tão próximo do antigo chefe daquele Departamento.
A melhor história está por vir é um livro de descobertas, de resgates e de eternos reinícios, nos mostrando que o melhor momento de nossa vida, a melhor história que estamos vivendo, é justamente aquela que está por vir.

domingo, 20 de janeiro de 2013

A morte das lembranças



O amor o mantivera vivo por todos aqueles longos anos. Quando se sentia cansado, bastava fechar os olhos e relembrar de sua infância, do bairro em que viveu, da casa em que nasceu, dos barulhos e risos. Enquanto estava se lembrando, ele se pegava rindo sozinho ao sentir um vislumbre da felicidade que sentira em tais momentos, e isso, essas lembranças, lhe acalmavam a alma, era com um elixir de uma eterna juventude: sempre que precisava, relembrava de sua infância e juventude, e ele se sentia rejuvenescer.
            Mas naquele dia, já tão avançado em sua idade, ele não queria rejuvenescer apenas por lembrar, não queria rejuvenescer apenas sua alma: precisava algo mais, ver com seus próprios olhos e caminhar descalço por aquelas ruas tão suas conhecidas. Ele precisava se sentir novamente o menino que fora um dia.
            Sentia-se e estava ficando velho, e só fechar os olhos e lembrar-se dos momentos tão felizes que vivera já não eram tão claros, e ele, aos poucos, começava a se esquecer daquilo que o mantivera tão vivo durante tanto tempo. A memória já não era a mesma, já não tinha a mesma clareza e força, e ele sentia as boas lembranças escoarem por entre seus dedos juntamente com sua vida. Por isso pedira ao seu filho mais velho que o levasse à sua antiga casa, para visitar seu antigo bairro.
            No carro, no trajeto, o velho homem olhava pela janela, mas nada via da paisagem que passava velozmente. Seu pensamento vagava livremente sem se deter em nenhum lugar, em nenhuma lembrança. O filho havia percebido a melancolia do pai e a todo instante tentava fazê-lo falar algo, mas ele a medida que se aproximava de sua antiga casa, mais e mais se refugiava em seu silêncio.
            Longas avenidas que cortavam a cidade de ponta a ponta acabaram por levá-los, pai e filho, aquela região distante, desconhecida para um, enquanto para o outro só era conhecido através de vagas lembranças.
            O velho homem, agora com a atenção voltada para o que via ao seu redor, olhava de um lado para o outro, tentado reconhecer algum ponto que remetesse ao velho bairro onde vivera, mas por mais que olhasse, nada reconhecia. Fechava os olhos com força, tentando lembrar, mas quando tornava a abri-los, não reconhecia nada do que via ao seu redor. Não havia mais árvores, não havia mais as ruas de terra, não havia mais campo de futebol algum, por mais que procurasse naquele bairro distante onde haviam parado. Abriram as portas e desceram, pois seria mais fácil encontrar aquela antiga casa caminhando pelas ruas do bairro e perguntando as pessoas.
            As ruas estavam cheias, mas não de pessoas, como outrora, mas de carros, que passavam a toda velocidade, e os poucos transeuntes que ousavam caminhar por aquelas ruas, iam tão apressados que sequer percebiam aqueles dois homens, um mais jovem apoiando o outro, que parecia envelhecer décadas a cada passo que dava. O idoso homem retirou os sapatos, na vã tentativa de sentir em seus pés o chão que pisara há tempos, mas tudo o que conseguiu foi machucar os pés nas pedras duras do calçamento. Parou diversas vezes para massagear os pés. Seu filho insistiu para que ele voltasse a calçar os sapatos, mas ele não quis. Caminhava distraído, absorto com tudo que via, tentando reconhecer algo, uma casa que seja, que pudesse lhe servir de algum norte que o guiasse até onde precisavam chegar.
            Pai e filho caminhavam de mãos dadas, mas em papeis trocados, pois era o filho quem tentava, naquele aperto de mão, passar segurança ao pai, ensinando-o onde deveria ir, onde pôr o pé.
            Passaram longas horas caminhando por ruas todas iguais que eram tão diferentes daquelas que o velho homem se lembrava.
            As lembranças que pretendia reavivar ao visitar aquele bairro estavam morrendo lentamente em seu coração. Todos os cantos pelos quais tinha caminhado não mais existiam e as pessoas que em sua inocência imaginava reencontrar não estavam mais ali. Senti-se cada vez mais velho a cada passo que dava. Seus pés pesavam, sua garganta estava seca e se esforçava para não deixar transbordar as lágrimas que começavam a escorrer vindas de sua alma.
            De tanto andar por tantas ruas, seus pés acabaram por levá-los a uma rua que parecia esquecida pelo tempo, localizada no coração do bairro. O velho homem sentiu seu coração disparar quando reconheceu, na esquina, traços de uma casa da qual se lembrava vagamente, que, apesar das inúmeras reformas feitas ao longo dos anos, continuava sendo aquela mesma casa de esquina que ele e seus amigos, quando crianças, costumavam dizer que era mal-assombrada. Ele parou em frente à casa que agora não lhe inspirava mais medo algum. Sabia e sentia que estava chegando perto de sua antiga casa, mas seus pés cada vez pareciam pesar mais e mais.
            Seguiram por aquela rua que parecia abandonada por sua própria alma. O velho homem caminhava devagar, segurando com força a mão do filho e a medida que se aproximava da casa que ficava bem no meio daquela rua seus passos ficavam mais lentos, como se seus pés se negassem a levá-lo até ali, como se quisessem poupá-lo de uma dor ainda maior do que aquela que sentia no peito. Mas ele, apesar das dores e do peso dos pés, continuava caminhando.
            Demoraram uma eternidade para caminhar poucos metros, e quando chegaram a frente daquela casa em ruínas, o velho homem sentiu suas pernas fraquejarem e teve que ser amparado pelo filho. Diante dele estava a casa que ele havia nascido e vivido os melhores momentos de sua vida. Ali não havia pessoas, não havia barulho, não havia gritos e sorrisos, ali havia apenas uma casa velha e em ruínas. Ao ver aquela triste cena diante de seus olhos, os olhos do velho homem não foram fortes o suficiente para conter aquela torrente de lágrimas. As lembranças que a custo recordava, lhe tomaram de assalto repentino ao ver que o local onde todas elas se concentravam não mais existia, tornando-se apenas uma ruína, um reflexo impreciso daquilo que um dia fora.
            Soluços convulsionavam o peito do homem, que agora deixava as lágrimas banharem seu rosto, fazerem seu curso natural sulcando suas rugas e lavarem a sua alma. Quando se sentiu mais aliviado do pranto, olhou para o filho e apertou sua mão.
            - Vamos embora – disse ele e calçou os sapatos. Aquele chão lhe feria os pés.
            Seguiram calados, cada um absorto por seus próprios pensamentos, e o velho homem sentindo um peso no peito por sentir que as lembranças que por tanto tempo cultivadas, aquelas lembranças que o faziam rejuvenescer estavam morrendo, pois os locais onde nasceram não mais existiam e só habitavam nos confins de sua memória, cada vez mais difíceis de serem resgatadas.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Próxima Estação: Nova Vida

Um frio no estômago foi o que ele primeiro sentiu ao pisar naquela terra desconhecida.
Havia viajado por longos dias e noites ininterruptos dentro daquele vagão de trem que seguia lentamente sobre aqueles trilhos que cortavam florestas, que mergulhavam no coração de montanhas, que atravessavam pontes precárias, que ameaçavam a qualquer instante se soltar e mergulhar a locomotiva no vazio de uma queda sem fim, e que mergulhavam em descidas íngremes que pareciam lhe levar ao centro do mundo. Viajava sozinho, como que fugido, não de uma pessoa ou por conta de algo que fez ou deixou de fazer, mas de si mesmo. Fugia da vida, que deixava para trás, e ia em busca de um outro eu, de um sentido para sua vida, em busca de uma nova existência.
Escolheu aquele trem por ser o que partia antes do nascer do sol. Queria ver o nascer do sol longe de casa, sentindo pela primeira vez o sabor daquela liberdade, longe daquele sentimento de vazio que vinha o oprimindo há tempos. Ninguém veio se despedir dele, pois ele não havia anunciado sua partida. Não houve lágrimas por parte dele, pois embora não estivesse sorrindo, sentia uma felicidade por saber que aquilo era o que ele precisava fazer por si.
Não sabia para onde se dirigia, mas a medida que os dias foram sucedendo as noites, as noites, os dias, que os dias se transformaram em semanas e que ele passou a perder a noção do tempo, soube que estava cada vez mais longe daquele lugar que um dia chamara de casa, daquilo que um dia chamara de vida. Agora respirava aliviado ao saber que seu lar era onde estivesse, que a sua vida passaria a ser aquela na qual mergulhava, imprevisível, que deveria ser vivida dia a dia.
Não abriu a boca uma única para falar durante toda a viagem. Seus sentidos, para compensar, estavam todos mais do que abertos aos cheiros, sabores, toques, sons e vistas que se descortinavam perante seus olhos. A cada novo instante, era bombardeado por mil e uma diferentes sensações. A chuva que caia lhe parecia ora bela, ora tristes, lembrando lágrimas que o céu deixava escapar de seus olhos. E quando via o céu chorando, olhava para trás, ao longe, tentando ver, por mais longe que estivesse, sua casa, onde todos davam por sua falta e onde, acreditava ele, alguns até já tinham derramado lágrimas, exatamente como aquelas que o céu derramava. O nascer do sol e o canto dos pássaros ao saldar o novo dia lhe renovavam as esperanças, palavra esta que ele, em sua vida anterior, já nem sequer usava, nem sequer se lembrava e há tempos não pronunciava. E na viagem, ele a pronunciava a cada manhã, sempre que abria a janela do vagão que ocupava para saldar e ser saldado por um novo dia. As noites, por mais escuras e longas que fossem, não lhe eram assustadoras, pois a lua, sempre majestosa, estava a lhe iluminar e lhe iluminar com sua luz prateada, assim assustando todos os seus fantasmas, seus medos, suas inseguranças que por ventura viesse a sentir. Quando se sentia só e carente, ele se deixava tocar e acariciar pelo vento, que com seus dedos finos e toque suave, o abraçava por inteiro.
Uma manhã, ele, ao acordar, que abriu a janela, olhou ao longe e soube que se aproximava da ultima estação do trem. Sua viagem chegaria ao fim, mas sua jornada estaria apenas começando. Naquele dia, passou-o inquieto, andando de um lado para outro tal qual um animal enjaulado e a medida que a estação se aproximava, mais e mais ansioso ele ficava. Não sabia o que iria encontrar nem em que terra iria em breve pisar pela primeira vez.
O sol foi seguindo lentamente seu trajeto ao longo do dia e ao se pôr no horizonte, deu lugar a uma noite sem lua. Era a primeira noite sem lua desde que ele iniciava aquela viagem. Sentiu, a princípio, medo, por se sentir pela primeira vez só, mas dai olhou para o céu e o viu coalhado de milhões de diminutas estrelas e se lembrou que elas são como os sonhos, que a gente não pode tocá-los, é bem verdade, mas que podemos e devemos ser guiados por elas! Sentou-se e esperou pacientemente pelo fim da viagem e início de sua jornada, de sua nova vida.
Na manhã seguinte acordou, como sempre, antes do nascer do sol, e percebeu que o trem ia diminuindo pouco a pouco a sua velocidade, pois se aproximava da última estação. Permaneceu sentado, esperando pacientemente. Respirava fundo, sentindo o ar entrar em seus pulmões e se espalhar por todo o seu corpo.
O trem diminuiu sua velocidade aos poucos até parar completamente. Pela janela ele olhou a estação apinhada de pessoas que iam e vinham. Uns que chegavam eram saudados e abraçados por aqueles que os esperavam, enquanto outros desciam com suas grandes malas e ficavam olhando de um lado para o outro, esperando, por certo, por alguém que não viria, abaixavam a cabeça e seguiam a pé, sozinhos, em meio àquela multidão.
Tentava prolongar aqueles últimos momentos antes de desembarcar naquele desconhecido mundo. Pegou a única mochila que trouxera de casa com umas poucas mudas de roupa, jogou-a sobre os ombros e abriu a porta do seu vagão. Antes de descer aquele degrau que o separava do mundo, respirou fundo mais uma vez.
Pôs seus pés firmemente no chão e sentiu um frio repentino no estômago que se espalhou por todo o seu corpo. Fechou seus olhos e sentiu seu coração bater acelerado. Só quando se acalmou, abriu os olhos, olhou em torno de si e então percebeu que o trem havia dado uma volta completa no mundo e o trazido de volta para casa. Mas ele sabia que o trem não havia lhe trazido para a mesma casa, de volta para viver a mesma vida, pois ele, naquela viagem, havia se tornado um outro homem, e estava prestes a iniciar uma nova vida. Deu um primeiro passo misturando-se à multidão, sendo não mais um, mas um único homem em meio aquelas tantas pessoas.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Presságio



Leio Leonardo Barros desde o seu primeiro livro, O Amor de Yoni e tenho, desde então, acompanhado a sua carreira como escritor. O seu primeiro livro, com uma forte conotação erótica, me chamou a atenção não pelo erotismo em si, mas pela sua linguagem, pela sensualidade latente inerente a cada uma das personagens, mas também pelo seu humor. O seu livro seguinte, O Maníaco do Circo, eu tive a oportunidade/ privilégio de ler antes do lançamento oficial, que aconteceu na Bienal do livro do Rio de Janeiro de 2009. Neste livro, notei uma mudança drástica quanto a forma do escritor, quanto às historias que se desenrolavam nesse segundo romance. No segundo livro, Leonardo Barros apresentou uma face mais perversa, tendo uma forte carga psicológica permeando toda a história, sem deixar, nunca, de ser Leonardo Barros, com seu toque de sensualidade nas personagens, seu erotismo velado e, nesse livro em específico, um tom de um humor mais ácido, mais negro.
Livro após livro, Leonardo Barros não foi apenas se superando, mas sim evoluindo, tanto que quando ouvimos rumores sobre o lançamento de seu próximo livro, a primeira pergunta que fazemos é: “o que será que ele vai aprontar agora?”.
É sempre bom ler um livro, lançamento, de Leonardo Barros, e olhar para trás e rever, reviver todas as histórias já lidos dele, e ao ler Presságio me envolvi com a história, vi traços, sim, óbvio, do primeiro Leonardo Barros, no entanto acabei me surpreendendo ao ver um novo autor, mais maduro, mais conciso, mais direto, que sabe onde quer chegar, que sabe melhor conduzir a história, que sabe prender mais o leitor. Leonardo Barros tem várias faces, e em Presságio encontramos todas essas expostas na medida certa. Um toque de mistério/ suspense, pitadas de um característico humor (provocado pela inusitada situação em que personagens se metem), uma sensualidade (dessa vez mais sutil e disfarçada, e por isso mesmo, talvez, mais provocante e imaginativa para o leitor), tramas psicológicas e momentos de tensão capazes de deixar o leitor com o coração acelerado e a sensação de boca seca.
Fiquei tenso em algumas passagens, ri de determinadas circunstâncias da história, torci em outros momentos, fiquei curioso para saber onde iria dar todo aquele "emaranhado" em que se tornou a trama e só me dei por satisfeito de verdade quando li a última palavra e vi um último ponto final na última página, quando pude fechar satisfeito o livro, e comprovar, mais do que nunca, o momento ímpar que vive Leonardo Barros, o seu momento de notável e grande evolução.

sábado, 5 de janeiro de 2013

O pior de todos os medos



Abre os olhos e sente desnorteado. Não sabe onde está, que dia é, que horas são, não sabe sequer quem é! Sua visão demora a se normalizar e pisca os olhos com força. Respirar é difícil e o ar que entra em seus pulmões e se espalha por todo o seu corpo, oxigenando suas células parece pesado. Sente um gosto ruim na boca e sua garganta dói. Abre a boca para falar algo, para chamar alguém, mas por quem deveria chamar? Solta um som que vem do fundo de seu peito que mais parece um grunhido, um som não humano, e só o que ouve como resposta é o eco desse próprio som que emitiu. Espera um longo tempo deitado com os ouvidos atentos a qualquer som que indique a aproximação de alguma pessoa, mas tudo o que consegue ouvir é o silêncio e o do vento que entra sem pedir permissão por alguma janela deixada aberta em algum canto naquele lugar onde ele estava.
            Ainda com os olhos fechados ele tenta se lembrar de algo que o faço se lembrar do que aconteceu antes de pegar no sono. Só algumas vagas lembranças lhe vem à mente. Lembra bem da sensação de medo que sentia, da sensação do coração batendo acelerado, ameaçando sair pela sua boca ou explodir dentro de seu peito. Está correndo, fugindo, com outras pessoas, mas não se lembra quem são elas, lembra unicamente que está com muito medo, mas que não pode demonstrá-lo, pois há pessoas, ali, que dependem e confiam nele, na coragem que ele não tem naquele momento. Não sabe há quanto tempo foi aquilo nem se lembra do que o fez sentir tanto medo.
Abre lentamente os olhos para ver onde está, o que há ao seu redor. Encontra-se num quarto escuro e está deitado sobre uma cama cujo colchão está sujo e fedendo. A porta encontra-se aberta. Chama novamente, com sua voz rouca, mas não ouve nada como resposta. Tenta se levantar, mas não consegue. Suas mãos e pernas estão amarradas com correias de couro. Não tem forças para rompê-las, então torna a chamar por um alguém. Grita. Não chama por nome algum, pois não se lembra sequer do próprio nome, quanto mais do nome de pessoas que deveriam estar ali e poderiam ajudá-lo e explicar tudo o que está acontecendo. Grita, grita e grita até sua garganta doer ainda mais, mas ninguém aparece. Está suado, sente-se fraco, mas tenta se mexer para se libertar.
De tanto puxar e mexer, consegue libertar um braço, pois o couro estava ressecado e quebradiço. Depois consegue soltar o outro braço. Só esse esforço o fez se sentir extenuado a ponto de perder a consciência.
Acorda sobressaltado, sem saber por quanto tempo ficou desacordado. Já é noite, isso ele sabe, pela luz prateada da lua que ele vê através de um buraco no teto, e pela temperatura, que está mais amena. Senta-se na cama e estica o braço para soltar as pernas. Quando consegue, deita-se de novo. Qualquer esforço que faz, o deixa mais sem força do que já está. Fica um longo tempo deitado, respirando fundo, tentando recuperando as energias. Sente fome, sente sede, sente-se inteiramente desnorteado. Tenta buscar novamente na memória algo sobre o que aconteceu, sobre quem é.
Lembra-se do momento em que, de tanto fugirem, encontram um alívio, algo que julgam uma salvação, como uma ilha em pleno oceano numa noite de mar tempestuoso, quando veem uma cidade aparentemente deserta. Ele guia aquele grupo, que começou tão numeroso, mas que se reduzira a tão poucos. Onde ficaram os outros, ele não consegue se lembrar. Ainda sente medo, mas já consegue controlá-lo, não se deixa tomar por ele. Olha para os rostos daquelas pessoas e só vê medo expresso neles. Olha para o longe, de onde fugiram, e só vê uma espessa e escura névoa cobrindo tudo. Dá as costas àquilo que lhe dá tanto medo, de onde havia fugido, e entra na cidade. São poucos os que restaram e todos tem medo de se separar, mas precisam cada um ir para um canto, buscar ajuda, ver se encontram alguém naquela cidade. Cada um segue em uma direção, e dali a alguns minutos voltam para a pequena praça no centro da cidade, onde haviam ficado de se encontrar. Ninguém encontrou nada, e alguns demoraram a voltar, enquanto outros sequer voltaram. Ficaram, os que voltaram, esperando durante longos minutos, chamando pelos que haviam sumido, e não ouvindo resposta, resolveram, juntos, irem procurá-los. Andaram pelas ruas desertas, entraram em casas que foram reviradas antes da fuga daqueles que um dia moraram ali, mas não encontraram qualquer sinal de viva alma.
Sentiu uma dor aguda no peito, o que cortou bruscamente suas lembranças. Tudo o que sentia era dor, tanta que acabou perdendo a consciência novamente. Quando acordou, pouco depois, a lua estava encoberta por uma nuvem escura, ele pôde perceber isso pela buraco no teto. Sentiu medo e um estranho pressentimento lhe tomou e lhe fez gelar o sangue em suas veias. Seu coração começou a bater descompassado e um suor frio começou a brotar de sua têmpora. A respiração tornou-se difícil e ele se levantou de uma vez, o que lhe causou uma tontura. Sentado na cama, pôs os pés no chão e tentou se levantar, mas acabou indo ao chão, pois não tinha forças para se manter de pé. Mas tinha que fazer algo, então, se arrastando foi até a porta e a fechou, ficando com as costas apoiadas a ela, tentando se proteger daquilo que estava do lado de fora e que poderia vir a encontrá-lo. Ficou ali, sentado, quase sem respirar, tentando controlar as batidas do seu coração, com os ouvidos atentos a qualquer som que viesse do lado de fora. Ouviu apenas o barulho de um vento que passou cortante pelo corredor carregando e gelando o que havia pela frente. Ele tremia por inteiro, com medo, com o coração batendo tão forte que chegava a lhe doer os ouvidos.
A lua já havia dado lugar a um sol que brilhava com uma luz mortiça, que quase nada aquecia, quando ele deu por si ainda sentado naquela posição incômoda, tremendo, com medo. Tentou se por de pé, usando a porta e a parede como apoio, mas caiu, fazendo barulho, o que fez o medo de ser descoberto ficar ainda maior. Não conseguia controlar seus braços e pernas, tamanho era o tremor que tomara seus membros. Deitado em posição fetal, segurou as próprias pernas.
Naquela posição, tremendo daquele jeito, ele se lembrou de quando restavam só mais dois ou três de todos aqueles que ele guiava, dois ou três que continuavam vivos e sãos apesar de tudo pelo que passaram. Fugiam de cidade em cidade, atravessando florestas, bosques, rios, subindo montanha, descendo desfiladeiros, tudo para fugir e sobreviver. O medo os perseguia o tempo todo. Estavam exaustos e famintos, a ponto de desistir e se deixarem serem pegos por aquilo do que fugiam. Mas o medo os impelia a continuar naquela fuga que, no fim das contas, não iria resultar em nada, pois, no fim das contas, iriam ser pegos e aconteceria com eles o mesmo que acontecera com todos os outros. Continuavam, sempre, a correr, tentando ficar perto um do outro, mas aconteceu que acabaram se perdendo, até que ficou só ele e um outro. Chamaram pelos que haviam ficado para trás, mas não ouvindo resposta alguma além do barulho daquele vento, resolveram continuar a correr numa fuga desenfreada, até que encontraram uma casa no alto de uma colina. Abriram a porta e entraram. Fecharam a porta usando umas cadeiras e móveis velhos. Andaram pé ante pé pela casa, olhando os cômodos, até que ele viu aquela cama tosca, velha, com colchão sujo, e disse que não aguentava mais correr, mas que para isso precisaria ser amarrado. O outro poderia ir, fugir até onde conseguisse, mas ele não, queria se entregar. Seus membros doíam, estava esgotado física e mentalmente, e não queria mais fugir, queria se entregar e ficar ali, e esperar que aquele ou aquilo de que fugiam, viesse pegá-lo. O companheiro não queria, mas ele insistiu, e se deixou amarrar. O outro ainda hesitou em ir embora ou ficar ali, mas o seu instinto de sobrevivência lhe disse que continuasse a fuga. Despediram-se com muitas lágrimas. Pouco depois, um grito na noite, uma voz para quebrar o silêncio das trevas.
Ele, então, se lembrou de quem era, mas não teve tempo para passar as boas lembranças da vida diante de seus olhos, pois ao abri-los e se dar consciência de tudo pelo que passara, a porta se escancarou, sendo arrancada de por mãos invisíveis. Ele não viu nada até da escuridão entrar no quarto e lhe tocar. Sentiu os dedos longos e frios lhe apertando. Sentiu o peso no peito lhe oprimindo, impedindo-o de respirar. Num último átimo de consciência, usando de todas as poucas forças que ainda lhe restavam, tentou gritar, mas o grito morreu sufocado em sua garganta. Fora engolido pela escuridão que trazia escondido o seu seio o pior dos medos já concebido pelo Homem.