domingo, 30 de novembro de 2014

Nós e nossas leituras

Desde que nascemos, somos bombardeados por informações mil, por influências mil que farão parte e nos acompanharão, lado a lado, durante aquele instante ou fase nossa vida, e que, algumas, até certo grau, far-se-ão tão imprescindíveis, deixarão marcas tão profundas que nos acompanharão até o fim de nossos dias. Fazemos escolhas, selecionamos e até deixamos que um algo nos marque mais do que um outro, mas há casos que algo nos marca tal que nem nos damos conta, naquele momento, de sua importância e até onde vai sua influência.
            Quando crianças, as nossas escolhas são fáceis. É algo entre o personagem favorito, o ídolo do momento ou que canal de televisão e desenho assistir, e essas escolhas nos acompanharão pelo resto da vida, embora só consigamos nos dar conta bem na frente, quando nos bate aquela “seção nostalgia” e percebemos o quanto tal personagem nos marcou e temos dele, o quanto rimos e nos divertimos com tal desenho, etc. Na adolescência, já temos, talvez, que ser mais criteriosos e menos impulsivos como quando criança, pois nessa fase é que começamos a desenvolver o nosso senso crítico e começamos a ter a nossa própria opinião/posição diante daquilo que temos que escolher. Continuamos a ter os ídolos, sim, como em tempos passados, mas eles adquirem outro status e importância em nossa vida. Fazemos nossas escolhas em cima de critérios rígidos que desenvolvemos (se bem que por vezes nem tão rígidos assim). Escolhemos as nossas bandas favoritas, as músicas favoritas, e, em determinada fase da adolescência, devemos fazer uma opção crucial, que pode fazer com que a nossa vida tome um definitivo rumo, que é o de que curso fazer e que carreira seguir. Também nesta fase de nossa vida é que, por sermos mais criteriosos, passamos a sentir mais as influências de nossas escolhas e das experiências marcantes que vivemos. Quando adultos, as escolhas tornam-se ainda mais difíceis, pois entra, nessa fase, o quesito responsabilidade. As influências que sofremos, embora saibamos lidar com elas (na maioria das vezes), também são muito fortes.
            Algo de que muitas vezes não nos damos conta (por motivos diversos), e que nos influenciaram enormemente em nossa trajetória de vida, são as leituras que fizemos ao longo dos anos, de quais os livros que mais nos marcaram e quais colocamos como mais importantes para a nossa formação.
            Na infância, embora muitas vezes sequer nos lembremos, devemos fazer os devidos agradecimentos às leituras dos quadrinhos, que, muitas vezes, representam uma abertura de portas para o hábito da leitura. Personagens como os da Turma da Mônica nos deixam, até hoje, mesmo já adultos formados, fascinados e despertam em nós o gosto dos tempos passados. Além dos quadrinhos, devemos prestar homenagens aos autores formadores dessa fase, como Ziraldo, Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Monteiro Lobato, entre outros tantos, que acompanharam todas as fases do nosso letramento e que foram, em muitos casos, os primeiros livros que tivemos e que tivemos o prazer de ter lido. Lemos coleções diversas, acompanhamos os personagens e nos deixamos ser guiamos pelas gentis mãos de um habilidoso e (por vezes) fantasioso escritor.
            Na fase da adolescência, os livros e leituras adquirem um outro papel e são outras as motivações que nos levam a escolhê-los. É nessa fase que muitos de nós começamos a desenvolver efetivamente o hábito da leitura, que começamos a desenvolver a disciplina necessária para o cultivo sobre como a literatura irá semear a nossa vida e nossa personalidade. Continuamos, muitas vezes, a ler quadrinhos, mas muitas vezes negamos os que temos como infantis (afinal de contas, nessa fase de nossa vida tendemos a ser suicidas, negando muito do que diz respeito aos personagens e hábitos de certas leituras desenvolvidas na infância). Lemos os super-heróis das revistas da Marvel e DC. No que se refere aos livros, começamos a nos identificar com determinados gêneros e autores. Tomamos conhecimento, num primeiro momento, de alguns clássicos, por vezes em versões adaptadas para a linguagem adequada a tal fase da vida, uma vez que os textos na íntegra, no original, nos parecem tão pouco atrativos, nos aventuramos junto com determinados personagens, como Sherlock Holmes, que, além de ajudar a desenvolver o hábito da leitura, aguça o nosso raciocínio. Também fazem parte dessa fase a leitura de “livros do momento”, que lemos por impulso e influência de outros colegas de leitura, escola ou familiares. Quando adolescentes numa fase mais avançada, já com o hábito da leitura solidificado, começamos fazer as nossas próprias escolhas ao iniciar a leitura de livros de cunho fantasioso, como as de Tolkien, ficamos com o “cabelo em pé” com as de terror do Stephen King, aprendemos com as filosóficas e lúdicas obras de Jostein Gaarder. Começamos, já, em determinada fase da adolescência, a ler obras de maior “peso”, uma espécie de primeiros clássicos que lemos na íntegra, e a partir desse momento nossa vida, como leitores, começa a mudar profundamente.
            Na fase adulta, por vezes, já com a leitura fazendo parte de nosso dia a dia, nos deixamos levar e desafiar pelas mais diversas leituras. Por vezes, quando cansados, para não ficar sem ler nada, pois isso é algo que não conseguimos, nos aventuramos numa leitura de entretenimento, nas páginas de um bom (e bem selecionado) best-seller, que irá nos “arejar a mente”, que irá nos distrair e nos envolver com uma cativante e empolgante história. Deixamo-nos, também, envolver com a leitura de romances históricos, nos vemos “com a boca seca” com as histórias de suspense e mistério de Allan Poe, nos aventuramos nas narrativas detetivescas de Conan Doyle e Agatha Christie, lemos crônicas diversas, romances que nos tocam e marcam, mas é nos edificantes clássicos que nos deleitamos e nos sentimos, como leitores, mais completos.
            É na fase adulta que realmente tomamos conhecimento das chamadas altas literaturas e deixamos que elas lancem profundas marcas na maneira como passaremos a compreender o mundo. Lemos os essenciais gregos através dos épicos de Homero e sentimo-nos tragados pelas obras do teatro, escritas há tantos séculos, mas que influenciaram fortemente a nossa cultura e que continuam, mesmo (devido) com o passar dos anos, tão atuais. Nos deparamos com os italianos como Virgílio e Dante, este tão importante para não só a literatura, mas pelo forjamento de uma ideologia religiosa que prevaleceu durante tantas séculos e que tem forte influência, ainda hoje, no pensamento ocidental. Os ingleses dispensam apresentações e comentários. Afinal de contas, o que falar sobre Shakespeare, Dickens, Jane Austen, as irmãs Brönte (cada uma mais genial do que a outra), Walter Scott, Joyce, Oscar Wilde, Virgínia Woolf, entre tantos outros? Sobre os franceses, quais citar? Dumas, Victor Hugo, Stendhal, Zola, Balzac, Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Rabelaire, etc. fora La Fontaine, Perrault, autores de obras que fazem parte de nosso imaginário. E o que falar de Saint-Exupery, autor de uma obra que é eternamente nova a cada vez que a lemos? Não podemos deixar de mencionar o espanhol Cervantes, o alemão Goethe ou os portugueses Camões, Pessoa, Eça de Queiroz e Saramago. Os norte-americanos, apesar de como nação representarem um império que é com justeza criticado, na literatura nos deram autores formidáveis, principalmente no século XX, como Fitzgerald, Hemingway, Steinbeck e Salinger, foram os contemporâneos Paul Auster e Phillip Roth. E os russos, que marcam profundamente a alma de todos aqueles que se aventuram em suas narrativas densas e marcantes? Puchkin, Gogol, Leskov, Dostoievski, Turguêniev, Tolstoi, Gorki, Tchekhov, Pasternak, Nabokov. Existem tantos outros, de tantas outras nacionalidades, como Kawabata, Gabriel Garcia Marquez, Mia Couto, Jorge Luiz Borges, Kazantzakis... e que brasileiros mencionar? Falamos tantos, elogiamos tanto tantos autores estrangeiros e acabamos por relegar os nossos gênios da literatura. Machado de Assis é o maior deles, fato indiscutível, mas a nossa literatura não se limita só e unicamente a ele. Temos também os formidáveis Gregório de Matos, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Aloisio de Azevedo e os romancista dos movimento romântico brasileiro, temos o “príncipe dos poetas”, Olavo Bilac, temos os fenomenais pré-modernistas como Augusto dos Anjos, Lima Barreto e Monteiro Lobato, temos os modernistas de primeira fase e os geniais poetas e romancistas da segunda, surgidos principalmente a partir da década de 1930, como Carlos Drummond, Cecília Meireles, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado e Érico Veríssimo, há os que começaram a se distanciar do modernismo, representando um novo momento da nossa literatura, como Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, Ariano Suassuna, Nelson Rodrigues, Fernando Sabino, Lygia Fagundes Telles.
Como se vê, somos quase que um quebra-cabeça formado por mil e uma leituras que vamos fazendo, colecionando ao longo de nossa vida, que ora nos influencia mais, ora um pouco menos, mas que foram, todas, essenciais para a nossa formação humanística.
            Algumas pessoas usam o ditado popular “diga-me com quem andas, e te direi quem és”, mas nós, leitores, podemos parafrasear tal pensamento e dizer algo do tipo “diga-me o que lês, e te direi quem és”!

Somos, como seres dotados de consciência e senso crítico, fruto de nossas experiências de vida, e as leituras feitas estão entre as experiências que mais se mostram essenciais na nossa formação humanística, tendo elas sido realizadas lá atrás, como primeiro contato e experiência de leitura, seja via um livro ou revista, seja a leitura que acabamos de finalizar ontem, de um livro escrito na semana passada ou de um cujas palavras foram grafadas numa primeira edição há tantos séculos.

domingo, 16 de novembro de 2014

Escrevezinhar

Escrever é como cozinhar: envolve todo um longo processo, que executamos com imenso carinho, que vai desde a escolha do prato a ser preparado, escolha dos ingrediente ao paciente preparo e arranjo do prato para que seja melhor apreciado e degustado.
            O escritor, assim como o cozinheiro, precisa escolher bem o prato de acordo com a situação e os convidados que vai receber, se bem que de vez em quando, é bem verdade, surgem imprevistos, e é necessário se agir rápido, sem pensar muito. Às vezes o cozinheiro, assim como o escritor, não está muito inspirado, mas cozinhar, assim como escrever, se faz necessário, e ele prepara algo simples, como um feijão com arroz e bife, que vai saciar a fome imediata, mas vai, ao mesmo tempo, deixar nele a impressão de que poderia ter feito algo diferente, algo mais, como ter dado ao texto-prato um toque diferente, como ter posto um tempero capaz de surpreender os degustadores.
            O cozinheiro, assim como o escritor, escolhe bem os ingredientes necessários à preparação do prato-texto. Apalpa, sente a textura, cheira, vê se estão maduros, se estão “no ponto” para o preparo, coloca-os cuidadosamente na sua cestinha de supermercado, depois os passa no caixa e os organiza cuidadosamente numa sacola. Já em casa, quando vai iniciar o preparo do texto-prato, retira, um a um, os ingredientes, na ordem que vai utilizá-los. Descasca cuidadosamente os vegetais-palavras, corta com precisão as carnes, dando ponto finais às frases e vai vendo, pouco a pouco, o seu prato, mesmo ainda cru, tomar forma.
            O escritor, assim como o cozinheiro, não pode ter pressa no cozer de seu prato-texto. Não adianta querer acelerar ou atrasar a comida-texto. Se ele deixar passar do ponto, corre-se o risco do texto queimar, e se o retirar antes da hora, o texto não vai ter apurado devidamente os sabores dos condimentos e corre-se o risco, até, de, na pressa, o ter retirado ainda cru. Há textos-pratos que podem demorar até meses para serem preparados, pois, por vezes, falta um ingrediente específico que só pode ser colhido/encontrado em determinada época do ano e em determinado local. O cozinheiro, assim como o escritor, fica no dilema de seguir ou não no preparo do prato-texto, mas sabendo que ele, quando pronto, valerá a pena, opta por esperar, e enquanto o ingrediente que dará o sabor ao texto-prato não vem, ele seguirá preparando aperitivos, deixando os seus convivas entretidos a saborear pratos diversos, até que Voilà! surge ele, passando pelas portas da cozinha, equilibrando nas mãos uma travessa com tão belo e apetitoso prato, e os convivas, ao verem o esmero com que foi preparado, têm a certeza de que valeu a pena cada segundo daquela espera.
            O cozinheiro, assim como o escritor, é um ansioso, e olha com especial atenção as feições daqueles que provam seu texto-prato, analisando cada reação, de aprovação (ou não!), e só consegue soltar o ar de seus pulmões quando o outro, depois de mastigada a primeira garfada, exprime, com sinceridade, a sua opinião sobre o prato-texto. Se aprovada a comida-história, o escritor-cozinheiro, respira aliviado, satisfeito, mas se não, fica a rememorar cada passo dado no preparo, fica a se perguntar se usou os ingredientes na medida certa, fica sem saber se faltou uma pitada de sal, deixando o texto insosso, ou se colocou uma palavra a mais, fazendo com que o prato tenha passado do ponto, ficando salgado.
            O escritor, assim como o cozinheiro, é um solitário nato. Por vezes até tem uns alguéns por perto, opinando de que deveria escrever sobre isso, preparar um assado de tal maneira, explorar melhor esse personagem, deixar mais tempo a comida no fogo a fim de melhorar apurar os temperos, e essas ajudas são bem-vindas, sim, por mais que ele, por vezes, diga tê-las rejeitado, mas ele se sente, realmente, bem, quando sozinho, quando se sente rei do reino da cozinha ou de seu escritório, onde reina soberano, estando de posse de sua coroa e cetro, papel e caneta ou panelas e facas.

            Ambos, cozinheiro e escritor, são artistas. Um, prepara pratos finos para saciar a fome do corpo do homem, o outro, lapida palavras e as prepara num texto coeso e saboroso para saciar seu intelecto. São ambas as artes quedas quais o homem precisa para sobreviver, mas que precisa aprender a melhor apreciar, comendo devagar, garfada por garfada, lendo devagar, palavra por palavra.

domingo, 12 de outubro de 2014

A lucidez e o fim da inspiração

Não consigo mais escrever. Não sei o que se passa comigo, que fico horas e horas a fio com uma folha de papel em branco e uma caneta em mãos, e, quando me dou conta, vi que os ponteiros do relógio deram uma volta completa e a folha continua ali, em branco, mesmo eu estando de posse de um instrumento capaz de riscá-la por inteiro. Mas não! Eu simplesmente não consegui riscá-la, não consegui empunhar a espada/caneta e, tal qual Dom Quixote, ver, na folha em branco, um dragão e lutar contra ele. Talvez veio a mim o que, felizmente, não chegou (ou chegou muito tarde) ao Cavaleiro da Triste Figura: a lucidez!
            Talvez seja isso mesmo: eu estou lúcido! e, para escrever, se é necessária certa dose de desprendimento, certa inlucidez, certa toque de fantasia, e eu não consigo mais fantasiar. Talvez esteja com a minha fantasia aprisionada ou talvez esteja simplesmente preso por um algo que, mais cedo ou mais tarde, sempre nos alcança e exige de nós mais do que podemos dar: a rotina. A rotina é cruel. Ela aprisiona, toma a nossa inspiração, a nossa disposição (física e mental) e nos rouba inteiramente o nosso precioso tempo. Da rotina ninguém consegue fugir. No máximo a gente a vai enrolando, e ela, esperta como é, acaba se deixando levar. Mas chega uma hora que ela nos pega, nos abraça e diz que dela ninguém escapa! E quando se é realmente pego pela rotina, quando se está em suas mãos, nos tornamos seus escravos e lhe damos tudo que nos é mais precioso, e o maior castigo, justamente por termos tentado nos esconder dela, reside na lucidez. Ela exige que sejamos, sempre, durante as 24 horas do dia, lúcidos. Não nos é permitida sequer devaneio nem quando estamos sonhando. Os sonhos tornam-se verdadeiras projeções de nosso dia a dia, e não é permitido, nem ali, a entrada da fantasia.
            A rotina, portanto, está intrinsecamente relacionada à lucidez, e esta, por sua vez, age como uma carcereira da fantasia, e com isso perde-se a inspiração, seja ela a serviço do que for. O pintor, sem fantasia, sem inspiração, já não consegue mais pintar, e se o tenta, suas pinceladas saem grosseiras, sem cor, sem brilho, como que artificiais. O músico já não mais compõe, e, se tenta, o máximo que consegue extrair dos instrumentos são barulhos idênticos aos das buzinas dos carros e aos dos passos das pessoas correndo apressadas de um lado para o outro. O escritor, como que cego, já não mais vê poesia. Em ambos os casos o que há comum está no fato de que o que antes eram seus instrumentos de trabalho, agora são verdadeiras armas contra e com as quais têm que lutar diariamente em busca da inspiração perdida/aprisionada.
            O artista, seja ele aquele que empunha um pincel, uma caneta ou um instrumento musical, é um não-lúcido nato, é um fantasista, é um alguém que, mesmo quando engolido pela rotina, consegue encontrar um misero segundo, uma brecha no espaço-tempo e fugir, e nessa mera fração de tempo construir um mundo à parte em que segundos são valiosos como uma eternidade.

            Ser artista e viver e ver a sua inspiração limitada/aprisionada é sofrer em silêncio, é engolir o choro a cada vez que tenta produzir e liberar a sua arte e vê que nada sai de suas mãos. Mas ele, mesmo sofrendo, por amar e acreditar naquilo que faz, no poder de sua arte, ainda continua, persistente, a tentar tirar leite de pedra, como se diz popularmente, por mais que a pedra, por vezes, não lhe dê leite, no entanto ele continua a tentar, pois crê que, mais cedo ou mais tarde, irá encontrar uma que lhe dará de bom grado o néctar necessário à vida, à sua arte.

domingo, 28 de setembro de 2014

Mea culpa

Ninguém mais precisa procurar pelo culpado por tudo, por todas as “desgraças” que estão acontecendo em nosso país: eu sou o culpado.
            Eu sou o grande culpado por toda essa corja de políticos que está aí no poder, pelas pessoas a quem dei o cargo, a quem escolhi para me representar no dia da eleição, por todos esses que ao invés de política se entregaram ao vício e práticas da politicagem. Eu sou o grande culpado, portanto, por toda a desgraça que a política nacional tem causado. Sou o único culpado por escolher pessoas que vão ocupar os cargos para defender os meus interesses, particulares, de minha classe, ao invés de pensar em defender os interesses da nação, de todas as pessoas.
            Sou o único culpado pela inatividade, pela passividade perante tudo que acontece. Poderia e deveria lutar mais, ter feito mais barulho, me fazer entender, gritar mesmo, mas, ao invés disso, preferi/ optei, pelo conforto e a paz de meu lar, e fingir que tudo que está acontecendo não me diz respeito. Se estoura mais um escândalo de corrupção, finjo indignação quando estou com amigos e até sinto certa ojeriza ao meu país quando assisto a um noticiário ou leio notícias dessa ordem num jornal qualquer, mas é um sentimento de repulsa passageiro, e logo estou agindo como se tudo aquilo não fosse comigo. Vejo noticia após notícia em telejornais, de escândalos após escândalos de corrupção, de mil e uma CPIs, das práticas políticas (ou, melhor dizendo, das politicagens) tão comuns, e a única coisa que penso é “mais uma” e “não vai acontecer nada de mais com nenhum dos envolvidos”, e pronto. Minha única ação é desligar a televisão ou mudar de canal, ou fechar a revista ou o jornal.
            Sou eu quem coloca os Renans Calheiros, os Bossonaros, os Dirceus, os Jenuinos e os Felicianos da vida onde eles estão, sou eu quem lhes dá amplos poderes.
            Sou eu o responsável por tantas leis defasadas, pela justiça injusta, por deixar que tanta coisa aconteça tanto “a torto e a direito”, só e unicamente por que “não estou nem aí”, porque não me preocupo, porque não fiscalizo. Sou eu aquele que não mais se choca com as injustiças...
            E eu sou culpado não só por isso, pelo que está acontecendo com o país; sou o verdadeiro e único culpado, também, por todas e tantas as miudezas que causam mal a tanta gente e as quais ninguém se dá conta.
            Sou o culpado pela televisão que temos, pelos BBBs de número intergaláctico que ainda estão por vir, só e unicamente por que eu lhes dou audiência, apesar de reclamar, reclamar e reclamar. Tais reclamações, confesso, são da boca pra fora, apenas. Quando estou só, em casa, quando ninguém mais vê, ligo a TV e coloco no canal a que tanto critico, acreditando que só nele eu vou estar bem informado, acreditando que ele é o detentor da única e universal verdade, que ele é o imparcial, que retrata os fatos tal como eles são, que ele só mostra o que me imprescindível, e se não é noticiado algo de que todos falam, algo que é importante, significa que é importante para um alguém, que não é importante para mim e não me diz respeito.
            Sou o culpado pela sujeira na rua, no bairro e na cidade, pois sou eu quem não joga o lixo no lixo, quem joga o papel quando ninguém está olhando na lixeira, quem joga o lixo pela janela do carro no meio da rua. E ainda tenho o descaramento de reclamar, para todo mundo ouvir, da sujeira!
            Sou eu quem não fiscaliza, quem “deixa pra lá”, que digo que aquilo não me diz importância, embora saiba, em meu íntimo, que aquilo, sim, é de meu interesse, que se eu ‘deixar pra lá” agora, depois não vou estar aqui, e o problema já não irá mais me afetar, já não mais “me dirá respeito”.
            Sou eu o grande e único responsável por toda essa baixeza que vemos na televisão e ouvimos nas rádios, pois sou eu quem lhes dá a audiência.
            Sou eu aquele que se julga “o puro”, “o incorruptível”, “o de consciência limpa”, sendo o primeiro a tentar proveito de algo, a oferecer “um trocado” para um guarda de trânsito para que ele não me multe, sou o que fura a fila, quem não respeita as leis.
            Sou eu aquele típico brasileiro, aquele que acredita e cuja lei universal é a do “jeitinho”.
            E sou eu, principalmente, aquele que está perpetuando tudo isso, quem está espalhando o mau exemplo, quem está deixando todo esse legado, toda essa herança maldita para as gerações vindouras, para que elas vivam nesse mesmo país que eu vivo, para que esse país viva sempre a se iludir naquele jargão de “Brasil, o país do futuro”, mas de um futuro nunca irá se tornar presente.
            Eu sou o culpado, e torno aqui, pública, a minha culpa. Não procurem mais por ninguém, não apontem mais seus dedos para ninguém, pois aqui estou eu, de consciência limpa, ao menos uma vez na vida, tirando um peso das costas, da consciência, ao me entregar para ser julgado, condenado e para cumprir minha pena, só e unicamente por ser o responsável por toda uma série de desgraças que têm acontecido no país e na sociedade.

domingo, 21 de setembro de 2014

O conto da cidade fantasma

Aquela era uma cidade fantasma. Abandonada há décadas, até mesmo pelas almas dos que viveram e foram enterrados naquele velho cemitério localizado atrás da única igreja onde não era rezada uma missa há décadas. Até as árvores perderam a vida naquela cidade, com os troncos ressecados, inteiramente sem folhas e só não vinham inteiramente ao chão por que até os ventos não sopravam mais ali. O mato havia crescido nos primeiros anos por todos os lados, em todas as casas, no meio das ruas, mas depois deixou de crescer, secou, e jazia abandonado, em grandes tufos, por todos os cantos. Ali, animal algum pisava. Os pássaros não cantavam pela manhã, para saldar o novo dia que começava. O único rio que cortava a cidade não mais corria em direção ao mar. Ficou parado durante tanto tempo ali que acabou morrendo. Ali não havia estações do ano. No verão o sol jamais conseguia aparecer por entre as nuvens, no inverno não chovia, na primavera não havia vida para desabrochar e no outono as árvores não perdiam as folhas, pois já a haviam perdido há tempos.
            Não havia ninguém vivo que se lembrava da existência daquela cidade, pois todos os que nasceram e, em algum momento da vida viveram ali, já estavam mortos ou tinham se esquecido completamente da cidade que um dia tivera vida. Não havia qualquer registro, dados e informações oficiais sobre a existência da cidade, de forma que ela não fazia parte da jurisdição de qualquer Estado ou País. Não havia placas indicando como chegar àquele lugar, mesmo por que, aquele lugar não existia. As rodovias que outrora levavam àquela cidade tinham sumido, como que consumidas pelo tempo. A antiga ferrovia também.
            Tudo ali era um completo e absoluto silêncio, pois não havia nenhum vivente por perto disposto quebrá-lo.
            Mas apesar de tudo, de todo o abandono, aquela cidade fantasma não estava totalmente morta.
            Um homem, em viagem de um lugar qualquer para outro desconhecido, acabou se perdendo e saiu da estrada. Rumou sem destino por longas horas até que percebeu que a gasolina de seu carro estava acabando. Já era quase noite, e ele percebeu isso ao olhar para o relógio, pois pela janela do carro, olhando para o céu, não conseguiria distinguir que horas eram, se quem estava no céu era o sol ou a lua, já que não se via nenhum sinal de ambos.
            O barulho dos pneus do carro em contato com a terra e as pedras quebrou subitamente o silêncio naquela região deserta, mas logo o silêncio voltou a surgir quando o carro parou.
            O homem abriu a porta profundamente aborrecido. Só lhe faltava aquela mesmo: ficar no meio do nada, perdido, sem ninguém por perto. Bateu a porta com força ao fechá-la. Olhou ao redor, como que procurando alguém que pudesse lhe dar alguma informação ou ajuda, que pudesse pelo menos lhe dizer onde estava. Não encontrando, passou a mão no rosto, pensando no que poderia fazer naquele momento, naquele lugar. Olhou mais uma vez para o céu e de novo para o relógio, e percebeu que este havia parado. Tirou o relógio do pulso e o jogou no chão.
            - Que droga! Só me faltava essa agora – disse ele, consigo próprio. Começou então a dar alguns passos incertos, em qualquer direção, chamando por algum alguém. Mas ninguém lhe respondeu. Talvez só quem tenha lhe ouvido foi a cidade, que naquele momento, como que acordada em pleno sono, se mostrou, pela primeira vez em anos, a olhos mortais.
            A neblina que cobria a que outrora fora a entrada da cidade, afastou-se e o homem, ao ver aquela cidade sem vida que subitamente voltava a respirar, sentiu um arrepio correr por toda a sua espinha e um frio percorrer todo seu corpo.
            - Oi? Tem alguém aí? – chamou ele. Mas ninguém respondeu. Só então se deu conta de que estava completamente sozinho, na entrada daquela cidade.
            Hesitou por longos minutos, sem saber o que fazer. Pegou seu celular no bolso, mas para sua decepção, estava sem sinal. Chegou a tentar ligar para vários números, a fim de pedir ajuda, mas só o que ouviu foi o ruído estranho. Respirou fundo duas ou três vezes e com passos curtos e hesitantes, se dirigiu à cidade. A todo instante, olhava ao seu redor, a procura de alguém, de algo que lhe indicasse onde estava ou de pelo menos algum ser vivo. Aquela total ausência de vida ao seu redor lhe deixava inquieto. Mas precisava fazer algo, e continuou sua caminhada em direção à cidade, com cada passo mais lento do que o anterior.
            - Oi? Tem alguém aí? – tornou a chamar.
            Como o silêncio se fechava ao seu redor, ele retrocedeu e, ao olhar para trás, viu que a espessa neblina tinha descido, impedindo-o mesmo de ver seu próprio carro. Atemorizado, deu alguns passos incertos para o local onde julgava estar seu carro, mas tropeçou a acabou se machucando na queda.
            - Onde estou? Que cidade é essa? Onde foram as pessoas dessa cidade? – perguntava, como que sussurrando.
            À duras custas conseguiu se levantar e, mancando, foi caminhando até uma casa próxima de onde estava. Bateu na porta, chamou, mas não ouviu nada em resposta além do eco que reverberava pelos corredores e cômodos da residência. Empurrou a porta e viu que estava aberta, mas não ousou entrar na casa. Olhou para a rua, inteiramente deserta, viu as árvores nuas, mortas, inteiramente ressecadas. O único som que lhe chegava aos ouvidos era o de seus próprios passos.
            A cada dois passos que dava, ele parava e chamava, mas como nunca lhe chegava uma resposta, ele continuava a andar. Parou quando chegou a uma praça abandonada. Viu os bancos quebrados, um balanço com as correntes inteiramente enferrujadas e as pedras da calçada fora de lugar, como se alguém as tivesse retirado de seus devidos lugares, revirando-as.
            Já cansado e com a perna dolorida, ele se senta num banco daquela triste praça. Fica olhando ao redor, imaginando as pessoas que viviam ali e o que tinha acontecido a elas e à cidade para que o local tivesse se tornado aquilo que ele via diante de seus olhos.
            Perdido em seus próprios pensamentos, ele se esqueceu que estava sozinho num lugar desconhecido, até que ouviu um barulho longínquo, como de algo muito pesado sendo arrastado. Levantou-se de um salto e aguçou os ouvidos. Silêncio. Ele pensou que sua imaginação estava lhe pregando peças quando escutou novamente, o mesmo barulho, dessa vez mais próximo. E de novo e de novo. Assustado, procurou um lugar onde pudesse se esconder. Correu até uma casa grande, no final da rua, que estava com os portões e a portas abertas. Entrou e ficou escondido, num canto, agachado, abraçado às próprias pernas, esperando ouvir novamente aquele barulho, que ele não sabia do que se tratava. O único barulho que ouvia, no entanto, era o de sua própria respiração.
            Quanto tempo ficou ali, naquela posição, tremendo de medo, ele não sabia, mas tinha a impressão de que havia passado uma eternidade.
            A cidade inteira havia mergulhado, novamente, em seu mais completo silêncio, e ele resolveu sair de onde estava. Suas pernas ainda tremiam e seus passos eram inseguros. Percebeu que, do lado de fora, a neblina se adensara a ponto dele não conseguir enxergar absolutamente nada do que estava à sua frente. Chegou a esbarrar no portão de frente a casa e a tropeçar numa calçada. Caminhava com os braços esticados para frente, como se procurasse algo em que pudesse tocar. Tinha a impressão de que havia algo escondido naquela névoa, que o observava. Sentia um frio percorrendo todo o corpo e apressou os passos, para escapar daquilo que o estava escondido na névoa, mas parou quando esbarrou em algo. Algo se aproximava dele, e ele sentia isso. Escutou novamente aquele mesmo barulho, mais próximo, ao seu lado, junto ao seu ouvido. Suas pernas tremiam e algumas lágrimas começaram a lhe vir ao rosto. Sentia como se mil mãos lhe pegassem as pernas e o estivessem carregando para algum lugar. Tentou gritar, mas o silêncio ao seu redor era tão denso que sufocou sua voz. Sem mais forças para se manter de pé, ele desabou no chão, ainda consciente. Algo o estava sufocando de dentro pra fora e ele foi perdendo pouco a pouco a consciência. Sentia a neblina ao seu redor, densa, lhe abraçando, lhe engolindo pouco a pouco até que, por fim, fechou os olhos e caiu num sono profundo do qual nunca mais voltaria a acordar.

domingo, 14 de setembro de 2014

Uma folha de papel em branco

Todos em casa dormiam, mas ele estava acordado. Há meses vinha pensando naquilo, mas não sabia como fazê-lo nem qual o momento certo. Agora estava no mais absoluto silêncio, ouvindo os sons dos sonhos de cada pessoa da sua família, a respiração alta acelerada de um, o ronco de outro e o silêncio de sua mãe. Justamente sua mãe seria a pessoa que mais sentiria a sua falta. Iria sofrer no início, vendo-o em todos os cantos, sem saber para onde ele tinha ido, até que pouco a pouco se acostumaria com a sua ausência, mas jamais iria esquecê-lo, pois as mães nunca esquecem. Seu pai, perante todos, iria se mostrar forte e quem sabe até passaria a admirá-lo por seu ato e falar nisso para os amigos, mas no fundo também estaria despedaçado. Suas irmãs, uma sentiria a sua falta, mas a outra ficaria até feliz, pois poderia insistir com sua mãe para ficar com o quarto dele, já que ele não estava mais ali.
            Ninguém iria saber de seu paradeiro, ninguém sequer sabia que ele nutria aquele desejo de ir embora, pois ele jamais o confidenciou a ninguém, nem mesmo ao melhor amigo ou ao espelho. Nenhuma palavra à ninguém. Sofreu por longas semanas e meses com aquilo guardado no peito, com aquele plano impensado. Sentia-se inseguro por muitas vezes até, mas ora parecia tão determinado... Mas agora sentia, sabia que havia chegado a hora. Daria o primeiro passo sozinho ou correria para os braços dos pais. Pensou até em bater à porta do quarto deles e pediria para se deitar e dormir entre eles, como fazia quando era criança. Agora se sentia tão indefeso e confuso quanto uma criança, precisando de um amparo. Mas agora ele não tinha em quem se amparar, se realmente fosse fazer aquilo, dar aquele tão longo e difícil passo.
            Aquele silêncio opressivo àquela hora da noite lhe deixava em dúvida. Estava, já, imóvel, sentado à mesa, há horas. Seus olhos pesados, queriam se fechar; sentia um enorme peso sobre seus ombros, que faziam com que ele se curvasse. Talvez fosse aquele o peso da responsabilidade, da tão difícil decisão que tinha de tomar naquele momento: voltar para seu quarto e dormir, como se nada tivesse acontecido, e passar o resto da vida se sentindo um fracassado, um covarde, ou dar aquele passo rumo ao imprevisível.
            Levantou-se, sentindo todos os músculos de seu corpo doerem e começou a andar de um lado para o outro. Foi até o quarto de suas irmãs e as viu dormindo, cada uma em sua cama. Se fosse embora sentiria falta delas. Quem seria o “irmão mais velho” se ele fosse embora? Fechou delicadamente a porta do quarto, para não acordá-las. Foi até o quarto dos pais e, da porta, os viu dormindo, cada um de um lado da cama. Uma lágrima dolorosa e silenciosa escapou de seu olho e escorreu por sua face quando os viu.
            Voltou à mesa e se sentou, derramou lágrimas silenciosas e dolorosas. Ficou longos minutos com a respiração entrecortada, tendo cuidado para não fazer qualquer barulho que pudesse acordar alguém. Olhou para a sua mochila no chão, à porta do seu quarto, olhou para a porta de casa, fechada, mas que ele poderia abrir com tanta facilidade. Distava apenas alguns poucos metros daquela porta, mas, para ele, naquele momento, parecia uma distancia tão longa. Se fosse embora, talvez não pudesse mais voltar; se ficasse, talvez nunca mais fosse embora, ficando preso para sempre. Eram dúvidas que lhe atormentavam, que lhe doíam no peito e faziam sua cabeça explodir.
            Tinha uma folha de papel em branco à sua frente e uma caneta na mão. Pensava no que poderia escrever, no que poderia dizer em tão curto espaço. Que palavras diria? Pediria desculpas? Diria que um dia iria voltar? Que sentiria falta de todos? Como expressar tanto, falar tanto e com quem palavras num momento como aquele? Nada que escrevesse, numa simples carta, seria suficiente para expressar tudo o que sentia, tudo o que teria para dizer.
            Suas pernas doíam, seus ombros pesavam, mas ele se levantou. Andou de um lado para outro, sofrendo com as dúvidas e incertezas. Foi até a porta, girou a chave, mas não girou a maçaneta. Ela lhe parecia muito dura e lhe queimava a mão.
            Olhou para trás uma última vez e viu a casa que tanto conhecia, onde podia andar com os olhos fechados sem esbarrar em nada. Sentiria falta da casa, da mãe, do pai, das irmãs e de cada cantinho que lhe trazia lembranças.
            Abriu a porta. Agora era só uma questão de um passo; de um único tão longo e difícil passo, um passo para frente, e nada mais, mas se o desse, não poderia mais voltar atrás. Olhou a porta aberta à sua frente e tudo o que estava deixando para trás. Prendeu a respiração, mergulhando, agora, no desconhecido, no incerto, e deu aquele derradeiro passo. Sentiu um alívio e opressão no peito ao fazer aquilo. Agora não podia voltar atrás, teria que ser sempre em frente.
Assim que o amanhecesse, iriam procurar por ele por todos os cantos da casa, iriam dar mil e um telefonemas, para todos os parentes e seus conhecidos, a fim de saberem algo sobre o seu paradeiro, mas ninguém saberia de nada. A essa altura, ele já estaria longe, onde, nem ele mesmo sabia. A única coisa de concreta que havia deixado para trás, como uma lembrança, foi uma folha de papel em branco e uma caneta.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

As palavras não ditas

Faltou-lhe coragem. Passara tanto tempo esperando por aquele momento, ensaiara tantas vezes em frente ao espelho, imaginando-a bem ali, do outro lado da fina camada de vidro. Mas quando a teve ao alcance de um abraço, que viu seu lindo sorriso, as palavras ficaram presas na sua garganta, teimando em não lhe sair pela boca. Ela ficou vendo-o paralisado, confuso, esperando pelas palavras que tentava articular, mas completamente mudo. Ela abaixou os olhos, decepcionada com as palavras que não ouviu. Ele abaixou os olhos, decepcionado consigo mesmo. Esperara tanto por aquele momento, e quando acontecera, não fora se realizara. Disse, para si mesmo, um sem-número de vezes, que aquele não era o momento para falar aquelas palavras que ensaiara.
            Separaram-se. Nunca mais trocaram uma única palavra, um único olhar. Suas vidas tomaram rumos distintos, mas passaram a viver vidas artificiais, sem esquecer, em momento algum, o fato que nunca aconteceu. Ela ficava ouvindo os ecos das palavras que nunca ouviu e ele ficava a sentir o gosto das palavras que não conseguiu pronunciar. Se tudo tivesse acontecido como havia sido planejado, teria sido tão diferente...
            O tempo passa lentamente, gotejando dia após dia, e as palavras passaram a soar apenas como ecos distantes, tão distantes que nenhum dos dois mais as ouvia, e elas jaziam adormecidas, esquecidas, trancadas numa gaveta da memória.
            Um dia, ele, já velho, ao se olhar no espelho, se deu conta do quanto o tempo tinha passado sem que ele sequer se desse conta. Tentou se lembrar do momento exato quando o tempo tinha passado, de onde tinha ido parar o tempo que havia perdido, mas não conseguiu precisar como e quando isso tinha acontecido. Foi então que se lembrou daquele fatídico dia, daquele instante e das palavras não ditas. Chorou, envergonhado, de sua falta de coragem, depois se justificou, já que, naquela época, dizia agora para si mesmo, não poderia ter dito aquelas palavras.
            Saiu de casa e deixou que seus passos o guiassem livremente. Eles o levaram até um lugar que ele já não ia há tempos, do qual sequer se lembrava. Estava em tudo diferente, tendo envelhecido, tanto quanto ele, mas, mesmo assim, com a força da lembrança pela qual fora tomado, via-o exatamente como era outrora. Ele abraçou com os olhos todo aquele lugar.

            Fechou os olhos e caminhou por aqueles descaminhos empoeirados, com desníveis mil no chão onde pisava, até que se viu parado naquele mesmo lugar onde parara, onde as palavras emudeceram em sua boca. No chão ainda estavam as marcas de suas pegadas, já quase apagadas pelo tempo. Ele ficou ali, parado na mesma posição que ficara há tantos anos, com os olhos fechados, e pronunciou as palavras que deveriam ter sido ditas no passado. Um vento que passava ali as ouviu e as levou nos braços para depositá-las lá longe, onde a mulher as esperava. Ela não tinha mais o mesmo viço da juventude, mas, ao ouvir aquelas palavras ditas, mesmo vindas de tão longe, as palavras que ela sempre quis ouvir, se sentiu rejuvenescer, e a maior prova deste rejuvenescimento foi seu sorriso, lindo como sempre fora, como o desabrochar da primeira flor da primavera após um longo e gélido inverno.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Irmão-mais-velho


Há uma época de nossa vida em que achamos o nosso irmão-mais-velho a pessoa mais chata do mundo! Isso tudo por que, só por ser ele o mais-velho, e nós, o mais-novo, recebe a incumbência de ficar de olho em nós, coitados, quando os olhos de nossos pais não estão presentes. Ele, chato como é, na nossa concepção da época, assume tal tarefa com uma rigidez militar, e toma conta mesmo, vigia cada um de nossos passos para que, quando damos um passo em falso (que em nossa opinião da época não foi em “tão falso assim!”), ele vá imediatamente falar para nosso pai (ou mãe) que fizemos algo de errado, se fomos onde não deveríamos ir, se falamos o que não deveríamos falar, se começamos a implicar com determinado amigo ou mesmo que nos metemos numa pequena confusão ou briga-de-menino. Quando isso acontece, que ele nos dedura, lançamos, em sua direção, um olhar psicopata-assassino que ele entende e nos devolve com um do tipo “eu bem que avisei (e avisou mesmo) que você não deveria fazer isso”, ou um do tipo “estou responsável por você, portanto, não crie banque o menino-teimoso e não faça nada de errado”. E o pior é quando não corre para falar aos nossos pais de nosso “deslize”, mas resolve, ele mesmo, nos chamar a atenção e nos pôr para dentro de casa. Nessas circunstâncias, mesmo a contragosto, mesmo desejando jogar-lhe na cara um “você não é meu pai e não manda em mim!”, “abaixamos a crista” e obedecemos não a sua ordem, mas o seu conselho, mesmo assim.
            O tempo passa, e nós, os mais-novos, já sendo adolescentes, mesmo com todo aquele espírito de rebeldia e de natural desejo-de-independência, começamos a mudar a opinião sobre o irmão-mais-velho. Ele não é mais o chato de outra época, de alguns anos atrás, mas, ainda assim, nós ainda insistimos, só para nós mesmos, em rotulá-lo, injustamente, como tal. Ele não é mais o vigilante, o que vai nos enredar aos nossos pais, o que vai nos dizer que é hora de entrar ou que não devemos fazer isso ou aquilo, mesmo porque, nessa época, nós mesmos já sabemos distinguir (na nossa opinião) o que é certo e o que é o errado, mas, mesmo assim, continua a nos observar atentamente, dessa vez com um olhar mais brando, não militar como de outrora, mas com um olhar de cuidadoso observador. Fingimos, por vezes, que não, mas lhe damos ouvidos quando ele, tomando o seu lugar e a responsabilidade de direito, vem nos dirigir uma palavra, um conselho de um alguém já amadurecido, calejado pela vida, que só quer o nosso bem, que quer nos guiar pelo caminho certo. Nós, rebeldes, por vezes, como somos, só de pirraça, fazemos questão de mostrar que faremos as coisas de nosso jeito, mas que, tão logo ele vira a cara, desapontado por nós “não lhe termos dado ouvidos”, que não está mais olhando (só para não lhe dar o gostinho!), nos pomos no mais completo silêncio e a pensar em cada palavra dele, e vemos que ele tem razão, e resolvemos seguir passo a passo o que e como ele aconselhou a fazermos.
            Na idade adulta, já com todo o peso, responsabilidade, amadurecimento e justiça que tal idade traz, ao olhar para trás, que revemos e revivemos cada momento, cada lembrança que temos de nosso irmão-mais-velho, percebemos o quão injusto fomos com ele no passado, principalmente na infância. Notamos que, olhando para dentro de nós, temos mais dele do que ele jamais imaginaria. Guardamos bem mais doces lembranças dele do que lembranças chatas.
            Lembramos da felicidade que era o dia em que ele resolvia limpar suas coisas, que ia rever o que não mais queria, e que nos dava aquele objeto-de-desejo que era determinada coisa que olhávamos com olhos tão cobiçosos por tanto tempo, e quando recebemos tão presente, o pegamos nas mãos como se fosse uma o mais precioso e delicado cristal do mundo e passamos dias sem fim sem larga-lo. Lembramos com especial prazer dos brinquedos dele, que ele cuidou com tanto zelo durante tantos anos, e do júbilo que foi o dia em que os recebemos como herança que ele nos lega, em que, mentalmente, juramos fazer por onde tê-los merecido por herdá-los, que juramos zelar por eles da mesma forma que ele zelou para que a próxima geração possa ter o prazer de brincar com aqueles brinquedos que são tão preciosos e cheios de histórias. Ficamos com o coração despedaçado quando vemos a geração seguinte (normalmente os primeiro sobrinho) destruir os brinquedos que duraram tantos anos, que passaram tantos anos para chegar até eles, serem destruídos assim, em fração de segundos. Ficamos com vontade de esganá-los, não por ele ter destruído um brinquedo que foi nosso, mas por ter acabado com algo que foi de nosso irmão-mais-velho.
            O irmão-mais-velho é aquele de quem herdamos as coisas, e não apenas as materiais, como os brinquedos, que foram destruídos pelo primeiro sobrinho, mas as coisas imensuráveis, imateriais. Herdamos gostos, como o pela leitura dos quadrinhos, que começou a ser adquirido quando acompanhamos ele e nosso pai a banca de jornais, e que por ver o patriarca comprando uma revista para o primogênito exigimos o nosso direito de ganhar, também, a nossa, mesmo que a gente não as leia. Mas só em ir, mensalmente, à banca, acabamos por, aos poucos, ir olhando com outros olhos para as revistinhas e começamos a tomar o primeiro gosto pela leitura, seguindo os passos do primogênito.
            Como legítimos herdeiros, herdamos, também, o gosto pela leitura, seguindo os mesmos passos dele, mesmo por que são dele os primeiros livros que pegamos de empréstimo (e alguns a gente até esquece, propositalmente, por vezes, de devolver, torcendo para que ele se esqueça do livro e nós possamos herdar o nosso primeiro livro). Herdamos, também, os gostos pelas músicas sem que a gente perceba. Começamos a gostar das mesmas músicas que ele, a ter os mesmos ídolos, a ter a mesma rilha sonora de nossa vida, mesmo sem saber, ainda, quem são aquelas pessoas que tocam aquelas músicas e quais os nomes dos artistas e das bandas, mesmo sem saber o que quer dizer a letra daquela canção.
            O irmão-mais-velho é aquele alguém que é uma espécie de banco a quem recorremos, principalmente na adolescência, quando ainda não trabalhamos e os vemos, já, ganhar seu próprio dinheiro. Chegamos meio timidamente e pedimos dinheiro emprestado (que nunca pagamos) para ir ao cinema, fazer um lanche ou para sair com a nossa primeira namorada.
            Somos eternamente gratos ao irmão-mais-velho por ter sido ele o que nos levou ao primeiro show, que nos levou para passar o primeiro carnaval longe dos pais, numa casa de praia com um monte de amigos, justamente o mais legal carnaval de nossa vida.
            O irmão-mais-velho é aquele que nos orienta a seguir os passos dele, pois ele já sabe os atalhos e, por querer tanto o nosso bem, nos conduz tão suavemente, nos dando as opções, não nos influenciando, mas nos orientando pelo que ele julga (e sabe) ser o melhor.
            É ele um dos que mais vibra quando passamos no vestibular, que nos ensina onde ir no dia de fazer a matrícula na universidade, que se preocupa em saber se estamos de posse de toda a documentação, que quer saber como foi o primeiro dia de aula, que incentiva na árdua procura pelo primeiro estágio e que liga quando saímos de nossa primeira entrevista de emprego e que vibra e quer comemorar quando conseguimos o primeiro emprego.
            É o irmão-mais-velho aquele que, no dia de nosso aniversário, é dos primeiros a ligar e faz questão de querer sair para almoçar ou jantar fora, para comemorar, afinal de contas, “data tão especial não pode passar em branco”.
            Olhando para trás, vemos que o irmão-mais-velho não é só um irmão, um alguém com quem temos um laço sanguíneo, com quem compartilhamos o mesmo sobrenome e o mesmo quarto durante grande parte de nossa vida, mas um alguém a quem muito respeitamos, amamos. Temos mais em nossa alma do irmão-mais-velho do que nos damos conta e do que ele mesmo é capaz de perceber. O irmão-mais-velho é e significa tudo isso e muito mais. O irmão-mais-velho é um alguém especial, mais-que-único em nossa vida, um alguém que seguimos os passos, a quem queremos ser igual quando crescermos.

sábado, 23 de agosto de 2014

A leitora

Eu sou aquele tipo de pessoa estranha, dessas que ao entrar num ônibus olha os assentos ocupados e vejo todas aquelas pessoas, cada uma ocupada com seus computadores de mão (vulgos smartphones!), jogando algum joguinho sem graça, conversando no WhatsApp ou mandando e recebendo mensagens SMS, entretidos em algum aplicativo baixado na noite anterior ou simplesmente conversando alto e fazendo questão que todo mundo que está no ônibus ouça tudo; vejo, também, pessoas distraídas, ouvindo suas músicas, e algumas até mexendo os dedos ou batendo suavemente o pé na cadência da música; vejo também pessoas distraídas, olhando a paisagem ou pensando em como aquele dia tende a ser longo e cansativo; vez por outra tem aqueles que estão conversando alto e incomodam a metade do ônibus; e de vez em quando antes mesmo ouço antes de ver um daqueles desprezíveis DJs de ônibus, ouvindo suas músicas de qualidade duvidosa e incomodando o ônibus inteiro, e sempre que vejo (digo, ouço) tal ser, minha vontade é de pedir parada e descer imediatamente.
            Pois bem, eu não me enquadro em nenhuma dessas categorias (se bem que de vez em quando eu ouço minha música – com fones de ouvido, óbvio), e ao entrar no ônibus, ao me deparar com tão familiares figuras, busco com os olhos um lugar onde possa me sentar (normalmente à janela, no lado do sol – não me pergunte por que opto por me sentar no lado do sol). Devidamente sentado, sentindo-me confortável (por vezes nem tão confortável assim), abro minha mochila e tiro de dentro dela um objeto estranho, um livro, e ao fazer isso muitas pessoas me olham com certa estranheza, como se eu fosse um ser de outro mundo e portando um objeto deveras perigoso, talvez desconhecido (pelo menos no ambiente de um transporte público coletivo) para a maioria daquelas pessoas.
            Um dia desses tudo me parecia igual a todos os dias. Entrei no ônibus, procurei com os olhos um assento e me dirigi para lá. Infelizmente não era na janela, mas pelo menos era do lado do sol (!). Sentei-me e ao começar a abrir a mochila, olhei para o lado e vi que havia um elemento estranho naquele ônibus, um alguém que havia ocupado o meu lugar de “elemento estranho, extraterrestre, portador de um objeto deveras perigoso e desconhecido”. Eu, como bom curioso, procurei discretamente (se bem que não tão discretamente) averiguar que livro era aquele que aquela moça estava lendo e que a tinha fisgado de tal forma que ela estava profundamente concentrada na leitura. Quase dou um jeito no pescoço para ver a capa daquele livro, que fazia com que a leitura tivesse uma reação diferente a cada virar de página. Quando finalmente consegui ver a capa, já tendo chamado a atenção daquele que estava sentado ao meu lado e de algumas pessoas próximas, que àquela altura devia já ter me julgado um louco, quase me desequilibro ao constatar que a moça lia um de meus livros. Olhei bem para ela, tentando reconhecê-la entre uma daquelas a quem recomendei a leitura na livraria onde trabalho, mas por mais que me esforçasse, não conseguia lembrar de seu rosto. Fiquei me perguntando como aquele livro tinha lhe caído nas mãos, mas deixei esse questionamento de lado e comecei a reparar em suas reações, para constatar se ela estava ou não gostando, e pelas expressões de seu rosto e seu leve arquear das sobrancelhas, creio que sim. À essa altura, as pessoas no ônibus já estavam me olhando, vendo como eu reparava naquela leitora ao meu lado. Deviam achar que eu me tratava de algum maníaco-pervertido-com-fetiches-por-mulheres-que-leem-em-ônibus (se bem que eles, nesse sentido, têm certa razão). Fiquei pensando se deveria ou não me apresentar a ela como o autor daquele livro, aquele quem escreveu aquela história (uma crônica – tratava-se de um de meus livros de crônicas) que naquele momento lhe arrancava uma sonora gargalhada que acabou chamando a atenção de outros passageiros do ônibus, que olharam para ela com um olhar de estranheza e censura (pensando, por certo, se ela era louca para estar rindo “sozinha”!). Resolvi deixá-la quieta, em paz, final de contas é sempre mais engraçado e interessante ler um livro e suas histórias, se divertir e se identificar com elas do que conhecer aquele quem as escreveu.

            Quando dei por mim, minha parada estava chegando e eu tive que me levantar. Naquela manhã, um dia incomum, eu não li uma única páginas e sequer chegara a abrir a mochila. Quando, já de pé no corredor do ônibus, em frente à porta, olhei para trás, não resisti e dei mais uma espiada para trás, para aquela leitora desconhecida, e quando a vi sorrir novamente me dei conta de que a decisão que havia tomado, de não me apresentar, fora a mais sensata, afinal de contas, como disse, a leitura do livro era muito mais interessante e divertida do que conhecer seu autor.

domingo, 10 de agosto de 2014

Asas

Quando nascem, todas as crianças têm asas para poder ir aonde quiserem, para fazer o que bem desejarem, pois são inteiramente livres, pois pertencem só e unicamente a si mesmas. Elas brincam livres no céu, sob os olhares estupefatos dos adultos, invejosos daquela liberdade e alegria a que é permitido só aos que possuem alma de criança.
            No céu, as crianças se sentiam inteiramente donas de si, e podiam viajar livremente nos braços dos ventos, mas havia uma em especial que era mais livre do que as outras: um menino que tinha um riso capaz de sobrepujar o barulho dos trovões nas noites de tempestade, que tinha asas tão grandes que ele as usava para abraçar a si mesmo quando estava com frio nas noites de inverno. Ele, junto com seus amigos, voavam pelos céus e chegavam perto do sol, mas só ele, ousado como era, ousava se aproximar o suficiente para sentir seu calor a lhe queimar a pele, e fazia isso com tanta frequência que sua cor era de um saudável bronzeado. Nas noites de luar, todas as crianças eram livres para ficar até tarde acordadas, e algumas, quando sentiam sono, podiam mesmo dormir planando no ar ou nos braços de uma estrela, mas diante de tanta alegria e felicidade, eram raras as que sentiam sono. Umas, mais afoitas, voavam bem alto em torno na lua, enquanto outras, mais alegres, brincavam com as estrelas, jogando-as de um lado para o outro, e os adultos, infantis, imaginavam tratar-se de uma “estrela cadente”, quando, na verdade, era apenas uma estrela que se deixava fazer de brinquedo pelas crianças.
            As crianças eram inteiramente felizes e livres, mas aquele menino era mais do que todas as outras, e primeira vez que seu sorriso lhe sumiu do rosto foi quando viu um adulto segurando uma criança, um amigo seu, pelo pé, impedindo-a de voar, prendendo suas asas num abraço apertado para que elas não abrissem. Ele então entendeu que aquele era o primeiro indício de uma obrigação a que os adultos impunham às crianças: o crescimento. Aquela foi a primeira criança que ele via dar seus primeiros sinais de crescimento a que os adultos e o mundo impunham, e ficou triste por dias a fio, sem ânimo sequer para voar. Mas logo esqueceu, como todas as crianças esquecem rapidamente das coisas, pois tinha muitos outros amigos para brincar durante os dias e noites de sua eterna infância.
            Um dia, quando estava no céu a brincar com uma nuvem, fazendo cócegas nela para obriga-la a tomar a forma de um animal, viu uma criança com os pés plantados no chão. Ele a chamou, mostrando como estavam a se divertir, ele a nuvem, convidando-a a participar da brincadeira, ao que ela respondeu com um olhar triste, mostrando que suas asas pendiam inertes. Ele ainda fez menção de ir até ela e voar com ela nos braços, ao que ela recusou, dizendo que a partir daquele momento não poderia mais voar, pois seu lugar era ali, com os pés bem firmes no chão. Ficou com uma lágrima presa na garganta, mas se aquele era o desejo daquela criança, tudo bem, ele respeitaria. Ainda havia, mesmo assim, algumas crianças livres, com enormes asas, embora não tão grandes quanto as suas, com quem poderia brincar e voar livremente pelo céu.
            Passadas algumas semanas, ele, num voo solitário num início de manhã, percebeu que havia menos crianças do que o normal, e olhou para baixo e viu um massacre acontecendo diante de seus olhos: adultos ignorantes prendiam as asas das crianças para que elas não pudessem mais voar, e outros iam ainda mais longe e arrancavam as asas para que nunca mais elas pudessem ser livres. Dessa vez, ele chorou, e suas lágrimas caindo eram como uma tempestade a desabar sobre a cabeça dos incautos que faziam aquilo com as crianças, prendendo-as no chão.
            Algumas crianças, mesmo livres, começaram a não conseguir mais voar tão alto e pouco a pouco foram perdendo, naturalmente, capacidade de voar, e estas, quando punham seus pés no chão e não tinham mais forças nas asas, choravam tão alto que até as estrelas no céu se compadeciam de suas novas condições, presas ao chão. Outras, para evitar perderem suas capacidades de voar, suas preciosas liberdades, tentavam viver uma vida dupla: na terra, como todos, e no céu, livres; mas a estas logo as obrigações do dia-a-dia, as infindáveis rotinas prendiam, a ponto de elas se esquecerem de como se faz para voar, e suas asas caíam inertes ao longo do corpo.
            Uma a uma, as crianças começavam a ficar presas ao chão, umas por que eram obrigadas, com os adultos obrigando-as a se plantarem no chão, enquanto outras tinham as asas as asas brutalmente arrancadas, para que nunca mais pudessem voar livremente no céu.
            Todas aquelas crianças que um dia foram livres não mais voavam, com a exceção daquele menino, que agora brincava sozinho. Ia de uma nuvem a outra, brincava de esconde-esconde com o sol, conversava, à noite, com a lua e ainda jogava, vez por outra, uma estrela de um lado para o outro. Quando olhava para baixo e via um de seus antigos amigos, agora transformados em adultos, chamava por eles, mas eles, tão ocupados em suas rotinas, ou não ouviam, ou não escutavam ou chamado, ou fingiam não ouvir aquele chamado, e seguiam sempre em frente, com a cabeça baixa e os pés bem firmes plantados no chão.  Ele, mesmo percebendo que mais que chamasse os outros não olhariam para cima, continuava a chamar até cansar. E quando eles não podiam mais ser vistos, seja porque entravam em um ônibus, carro ou se trancavam num escritório ou dentro de casa, sentia-se cansado e triste e perdia, por um instante, a vontade de voar, e em uma ocasião quase foi pego por um adulto, que desejava lhe podar as asas.
            Sentia-se só, agora que não tinha uma outra criança com quem brincar e compartilhar as alegrias e sorrisos, e essa solidão foi lhe pesando dia após dia a ponto de tal peso lhe impedir de voar tão alto como gostava. Um dia, não aguentando mais tal peso, resolveu se deixar cair lentamente, tal qual uma pluma que se deixa levar ao sabor do vento. Pousou suavemente no chão e dobrou delicadamente suas asas e começou, a partir daquele dia, a viver como uma pessoa comum, a seguir uma rotina, a ter suas responsabilidades.
            Passaram-se muitos anos e ele cresceu, como toda criança cresce, e, tão ocupado como estava em viver a vida, se esquecia do menino que um dia fora. Nunca olhava para o céu, seja durante o dia seja à noite, e sua pele, antes bronzeada, perdeu a beleza da cor e o viço.
            Mas um dia, enquanto voltava de seu trabalho para casa, parou subitamente, como que algo estivesse a lhe chamar. Era noite e não havia uma única nuvem no céu e ele, ao olhar para cima, ao ver tantas estrelas e a lua a brilhar majestosa no firmamento, e foi então que um turbilhão de lembranças lhe tomou de assalto e ele sorriu e chorou ao lembrar do menino que um dia fora e do qual havia se esquecido. Olhou para as costas e viu as asas abrindo lentamente e sorriu ao perceber que elas ainda estavam vivas e possuíam vigor suficiente para levá-lo ao céu. Respirou fundo duas ou três vezes e deixou suas asas livres para baterem e lhe levarem de volta aos braços do céu. Sentiu seus pés iam pouco a pouco se soltando do chão e ele pôde se tornar o primeiro homem, adulto, a poder voar. Seguia suas rotinas e tinha suas responsabilidades do dia-a-dia, sim, mas sempre que, cansado, voltava para casa, parava, olhava para o céu e ao ver as estrelas e a lua, podia voltar a ser o menino livre que um dia fora, e voar livremente pelo céu, privilégio este que só é dado aos que possuem uma eterna alma de criança e aos que fazem devido uso de suas asas

domingo, 3 de agosto de 2014

Pássaro-livre

Aquele era um pássaro em muito diferente dos de sua espécie. Não era preso às convenções, mas sim inteiramente livre. Não tinha que migrar no inverno, em busca de calor e alimento, como seus iguais, mas ia e ficava onde o sol lhe aquecia e onde podia alimentar sua alma independente da estação do ano. Não cantava só e unicamente nas primeiras horas da manhã, como tantos outros faziam, mas enchia o peito e soltava a voz a qualquer hora, seja para louvar o sol e agradecer-lhe pelo calor, seja para declarar seu amor à lua ou às estrelas. Tinha uma forma peculiar de bater as asas, com um gingado que tornava o seu voar muito mais belo e suave, tendo mesmo certo “quê” de sensualidade. Despertava, sim, por ser como era, certa inveja de alguns pássaros, mas a maioria, o admirava e tinham por ele uma saudável inveja.
Gostava de, pela manhã, ao sentir os primeiros raios de sol a tocar seus olhos, ao sentir os suaves dedos da brisa matutina, estufar o peito e cantar em louvor a vida. Gostava de, quando todos os outros estavam parados, empoleirados numa árvore qualquer, abrir suas asas e sair a bailar livremente pelo céu, tendo como parceiro o vento que o conduzia em passos suaves naquela dança. Gostava até mesmo de, para espanto dos de sua espécie, voar em dias de chuva, deixando que aquelas gotas mágicas que caiam do céu banhassem seu corpo e encharcassem sua alma.
Por ser como era, por chamar a atenção como chamava, começou a chamar a atenção de outros seres de outras espécies, que ficavam pasmos, perguntando como aquele pássaro podia e conseguia ser tão diferente de outros que lhe pareciam tão iguais aos olhos. Por ser livre como era, não notava os olhares cobiçosos que alguns desses seres lhe lançavam e não percebeu quando um homem começou a lhe seduzir com presentes belos, mas tolos, a fim de tê-lo não mais livre, onde todos pudessem contemplar, mas somente para si.
O pássaro, de espírito puro e inocente como era, se deixou seduzir e começou a pousar sem medo perto do homem, que a cada dia o trazia para mais perto de si. Foi o homem ganhando, pouco a pouco, mais e mais, a confiança do pássaro a ponto deste chegar, de certa feita, a pousar em seu ombro e ali ficar por longos minutos e até a se deixar tocar e acariciar suavemente por aqueles dedos rudes.
Certa vez, quando já tinha ganhado a total confiança do pássaro, o homem lhe trouxe um presente: uma gaiola. Encheu aquele ambiente de elogios, dizendo que lhe traria segurança e conforto, e o ofereceu humildemente ao pássaro, que se deixou engabelar por aquelas palavras tão elogiosas e entrou na gaiola. Experimentou-a mas ficou meio desconfiada daquelas paredes vazadas, que lhe permitiam ver o mundo exterior, mas que, mesmo assim, eram paredes, e lhe transmitiam apenas uma ideia de falsa liberdade. Saiu da gaiola, onde se sentia sufocado e voou para bem longe.
No dia seguinte voltou, e o homem lhe ofereceu novamente a gaiola. O pássaro não se sentia confortável naquela clausura, mas vendo o sorriso do homem, e se deixando iludir por aquelas melífluas palavras, acabou por entrar mais uma vez. A mesma sensação de sufocamento lhe tomou, e ele saiu mais uma vez. No outro dia, a mesma coisa. No outro e no outro também, até que começou a se sentir relativamente bem na gaiola, muito embora aquelas paredes lhe transmitissem a sensação de estar enclausurado. Saia se sentindo sufocado daquela gaiola, que por maior e mais confortável que fosse, não deixava de ser o que era: uma gaiola.
Um dia o pássaro veio e se aproximou do homem, que lhe ofereceu, como sempre vinha fazendo nos últimos dias, a gaiola. O pássaro a rejeitou, mas diante daquele sorriso e daquelas palavras, acabou cedendo e entrando, mais uma vez, por aquela porta. Andou um pouco, observou um pouco o mundo através daquelas paredes, e quando já se sentia farto daquele ambiente, quando ele começava a se sentir sufocado, que quis sair, viu a porta fechada e através dela o homem, que lhe contemplava com um sorriso diferente.
- Agora você é meu, passarinho! – disse ele.
O pássaro tentou fugir, jogando-se sobre as paredes, tentando abrir uma pequena brecha por onde pudesse passar, mas por mais que fizesse, por maior que fosse a força que desprendesse, não conseguia mover aquelas grades. Ficou triste como jamais estivera em sua vida.
O homem passou a exibir com orgulho o seu pássaro, que continuou, sim, a cantar, mas não era um canto feliz, de louvor à liberdade e à vida, mas um canto de notas baixas como um lamento.
O pássaro, dentro de pouco tempo, devido ao uso limitado de suas asas, começou a senti-las atrofiar e de onde a sua gaiola ficava empoleirada, ele via, lá embaixo, algumas outras gaiolas que pertenceram outrora a outros pássaros, que em outros tempos foram seduzidos por aquele homem e feitos cativos.
Dia após dia ele começou a ficar mais e mais triste. Suas asas, devido ao uso limitado, começaram a atrofiar e sua garganta a secar, pois seu canto não era mais espontâneo. Quando o homem vinha vê-lo de manhã, que o via naquele estado de espírito, procurava estimula-lo, conversando e imitando, com um assovio, um canto de um pássaro. Mas nada que o outro fizesse seria capaz de fazê-lo voltar a se sentir e a ser o que era antes, pois agora ele não era mais um pássaro livre, mas sim um pássaro engaiolado.
Começou a definhar mais e mais e o seu único consolo era ver, através das grades de sua prisão, os pássaros livres a voar no céu. Um ou outro seu companheiro de outrora vinha pousar perto dele e até sobre a sua gaiola, o que lhe trazia certo conforto, pois isso reavivava o seu sonho/desejo de vir a ser novamente livre e sentir novamente o vento bater sob as suas asas. Quando o outro pássaro ia embora, que ele o via se afastar até se tornar não mais que um minúsculo ponto no horizonte, se deixava tomar por uma aguda depressão.
O homem, preocupado, compadecido com a tão latente dor de seu pássaro, tentava, de todas as maneiras, reanima-lo, mas quando via o olhar dele tão distante, fitando o horizonte infinito, sentia-se impotente, sem saber como trazer de volta o espírito daquele pássaro pelo qual se apaixonara e afeiçoara.
Mas o pássaro definhava à olhos vistos e o homem, não aguentando vê-lo morrer lentamente, abriu a porta da gaiola e atraiu o pássaro para fora. O pássaro, tão fraco estava que mal conseguia se mover, mas fez um imenso esforço para conseguir sair da gaiola que se acostumara a chamar de casa. Ao se ver fora da gaiola, finalmente de posse da liberdade pela qual sonhara, mas que acreditava que nunca mais iria readquirir, ficou desnorteado, sem saber o que fazer. Suas asas pesavam, e o homem, ao perceber tudo isso, o pegou delicadamente e procurou reensina-lo a forma correta de abrir as asas e batê-las. O vento, que passava perto, ao ver seu parceiro de dança naquele estado, resolveu ajuda-lo e soprou suavemente em sua direção. O pássaro, ao sentir aquele delicado toque no rosto, sorriu e abriu as asas. Não precisou batê-las, não precisou fazer qualquer esforço, precisou, apenas, se deixar levar nos braços do vento, que o conduziu suavemente nos passos daquela dança e o levou para o alto, de onde podia ver o mundo todo se descortinar perante seus olhos. O homem ficou, emocionado, a contemplar o pássaro readquirir seu antigo viço e prometeu, naquele momento, que nunca mais iria aprisionar pássaro algum.

O pássaro desceu num voo rasante e pousou no ombro do homem e cantou como cantara em outros tempos, e sua canção, e suas palavras eram de agradecimento por ele ter-lhe restituído a liberdade que, num ato impensado, lhe havia roubado. O homem sentiu-se feliz e honrado ao ouvir aquele canto entoado só e unicamente para ele. O pássaro, então, abriu novamente as asas e voou para longe, sendo novamente o pássaro livre que sempre fora, dançando seu balé no ar, cantando em louvor à vida, à liberdade.

domingo, 13 de julho de 2014

Perdemos em campo, mas fora dele fomos muito bem (obrigado!)

A "seleção brasileira" (entre aspas mesmo) foi um fracasso, e foi bem mais longe do que imaginávamos. O "time" nunca foi competitivo, e chegamos, mesmo, a nos enganar, dando crédito a ele, por conta daquela exibição atípica na final da Copa das Confederações do ano passado. Sentimo-nos verdadeiramente maravilhados e começamos a acreditar que, sim, que podíamos ganhar a copa (quanta ingenuidade - ou "sabe de nada, inocente", foi o que ganhamos em troca por nos ter deixado iludir tão facilmente). Mas nunca tivemos um time à altura da nossa Seleção, um grupo que pudesse, efetivamente, nos levar ao título. No entanto, a mídia contribuiu para que acreditássemos nesse conto de fadas do hexa.
Curioso é que o contrário aconteceu justamente com a organização da Copa. a mídia nos fez acreditar na incapacidade de organização do evento. Sei que tem MUITA COISA ERRADA, muita coisa não foi entregue no seu devido tempo e tivemos que lidar com a nossa tão conhecida e já batida "maquiagem", mas não podemos nos focar só e unicamente no errado (deu tudo errado?), mas sim, também, ver o que houve e ficou de positivo, colocar os dois lados numa balança e ver se o bom e ruim, pesando-os para ver para que lado tomba, e se formos justos, se nos despirmos de preconceitos ideológicos, se deixar de lado a politicamente e discursos socialoides ou direito-fascistas, vamos ver que, sim, que fomos MUITO BEM no que tange à organização do evento.
Sempre acontece de o crédito (ou descrédito) ser dado a quem está à frente naquele momento, ao que responde pelos atos, por assim dizer. Assim sendo, devido ao "sucesso" (aspas porque não foi de todo sucesso, dada os atrasos nas entregas das obras, devido aos erros cometidos ao longo do processo de organização do evento e preparação das cidades, etc., mas enfatizando, ao mesmo tempo, a palavra, pois foi, sim, pesando na balança, um sucesso) devemos dar um troféu pela competência na organização do evento ao Governo Federal (sim. na hora de "meter o pau" a gente não mete? então por que não podemos dar o braço a torcer e dizer que sim, que o PT merece créditos pela organização do evento? sejamos justos, despidos de preconceitos e discursos descerebrados!).
O nosso time, o que esteve em campo nos representando, teve uma atuação pífia (apesar de parte de a mídia promover o contrário até o jogo antes da semifinal), mas o nosso Governo (volto a dizer que na hora de "descer o sarrafo" o fazemos, mas na hora de reconhecer não fazemos! por que isso? por que essa injustiça?), que já tinha fracassado antes do início do evento, mostrou-se um vencedor, surpreendendo a todos e a tudo.
Como apreciador de futebol, como torcedor, gostaria, sim, de ter visto a minha Seleção (a verdadeira, não essa fajuta que esteve em campo) vencer, mas, convenhamos, muito melhor foi ter visto, é saber que saímos vencedores, com cabeça erguida, por termos, justamente, conseguido triunfar na organização do evento.

O que nos resta, então, é ver que nesta Copa aconteceu justamente o contrário de tudo que se vinha pregando: saímo-nos perdedores (ah, como essa palavra dói) dentro de campo, mas, em contrapartida, vencedores fora dele! Não sei se falar em Copa das Copas, como vem se falando, seria um exagero, uma vez que só o tempo pode dar o devido valor, rótulo e créditos ao evento, mas que nos saímos muito bem é inegável.

domingo, 6 de julho de 2014

O homem que guardou seus sentimentos



Ele parou em frente ao espelho, mas não mirou imediatamente aquele que lhe olhava tão fixamente no reflexo, através daquela parede de fino vidro. Estava cansado. Respirou fundo duas ou três vezes, e só então levantou os olhos e viu, para seu espanto, um alguém já velho, diferente  daquele que ele guardava a lembrança, com a pele ressecada, marcada por profundas cicatrizes que o tempo lhe deixara. Tinha os olhos secos e a boca fechada. Olhos que não choravam e boca que não se abria num único sorriso sequer. Foi subitamente tomado por uma lembrança; a lembrança do dia em que se investira daquela expressão, em que se fechara para o mundo, em que decidira se proteger por trás daquela grossa carapaça que nada poderia ultrapassar.
            Foi quando, com o coração em frangalhos, começou a vagar, deixando que seus pés o guiassem livremente. Mesmo com o corpo cansado, não parou de caminhar, até que, extenuado, se deixou cair pesadamente no chão. Aquela não foi a primeira vez em que se vira sofrendo com tanta intensidade, não foi a primeira vez em que sentira tamanha dor no peito, mas decidira, naquele momento, que seria a última das vezes. Cansado de sofrer, decidira que aquela fora a última vez que sofrera aquela dor.
            Eram tantas as dores que trazia no peito, eram tantos os sofrimentos que ficaram marcados no fundo de sua alma, que se sentia cansado de viver-sofrer. Não tinha mais forças, não aguentaria mais viver uma nova dor. Parado, ali, de joelhos, humilhado por aquele sentimento que lhe consumia por inteiro, por aquele sofrer, resolvera tomar uma atitude radical e expurgar tudo aquilo, todos aqueles sentimentos que lhe poderiam, de alguma forma, lhe fazer se decepcionar, lhe trazer alguma dor. Não queria mais sentir aquele gosto ruim na boca, não queria mais senti-lo se espalhar por todo o seu corpo, nos poros de sua pele, em suas veias, lhe turvando a visão, lhe pretendo a respiração, lhe roubando os sentidos. Pegou então, uma faca, mas não tinha coragem de tirar sua própria vida. Então se pôs a apunhalar todos aqueles sentimentos causadores de dor. Percebeu, no entanto, que os que lhe causavam de dor estavam intrinsecamente ligados aos que lhe traziam felicidades, os que lhe arrancavam lágrimas eram gêmeos dos que lhe abriam sorrisos, mas ele não deu importância para isso, e continuou em sua atitude intempestiva. Quando terminou, percebeu que tinha ao seu redor tantos sentimentos que não cabiam numa caixa, onde pretendia trancá-los para que nunca mais pudessem sair, então os pôs dentro de um container. Selou os sentimentos, todos os que viviam em seu peito, naquela imensa caixa de metal, e os guardou para sempre, escondendo em um local protegido nas profundezas de sua alma, onde ninguém, nunca, poderia chegar.
            Levantou-se lentamente, livre de toda e qualquer dor, de todo e qualquer sentimento. Pôs-se, então, a viver uma vida tranquila, cumprindo todas as suas obrigações, vivendo uma rotina sem reclamar, nunca, de nada. Não chorava, mas também não ria; não ficava triste, mas estava, também, livre de pequenas felicidades. Quando recebia um convite para alguma coisa, atendia com um “sim” ou um “não”, indiferente, pois “sim” e “não” para ele eram a mesma coisa, as faces de uma mesma moeda. Casou, mas sem se apaixonar, simplesmente porque precisava se casar, porque impuseram isso a ele. Traiu porque tinha que trair, e mesmo na traição era indiferente com relação àquela com quem ia para a cama, e com aquela que ficava a lhe esperar, aguardando-o em casa para esquentar o seu jantar e desenrolar seu cobertor para que pudesse dormir confortavelmente. Perdeu inúmeros entes queridos, como todos perdem no processo natural da vida, mas mesmo nos velórios e enterros, não derramava uma única lágrima sequer.
            Viveu toda uma vida inteira livre de sentimentos tristes, mas também dos felizes. Teve um filho, e mesmo ao segurar o recém-nascido pela primeira vez, não derramou uma única lágrima de felicidade. Viu a criança crescer, lhe dar os braços, lhe chamar de “pápá”, segurar na sua mão quando queria segurança, lhe chamar à noite quando tinha medo, viu-a caminhar com as próprias pernas, tomar as próprias decisões, viver sua própria vida, e em nenhum momento ele deixou que sentimentos escapassem, pois estes estavam tão bem guardados naquele container que até ele mesmo tinha se esquecido de sua existência.
            Na mesma medida em que viu o seu filho nascer, crescer, aprender a caminhar e ir embora, viu sua esposa, a quem não amava nem odiava, ir envelhecendo, perdendo as forças e tendo a sua centelha de vida se apagando pouco a pouco, até que, por viu, a viu fechar os olhos. Viu as pessoas, todas próximas, mas nunca próximas demais dele, chorando pela perda de uma pessoa tão querida, mas ele, em nenhum momento, teve os olhos úmidos. Recebeu palavras de consolo e a todas elas dizia apenas um “obrigado”, não porque estava tocado pelo que ouvia, não porque se sentia grato, mas porque devia, ao menos, retribuir às palavras com uma outra, nem que esta fosse apenas da boca pra fora.
            A cada conquista que o filho tinha, este lhe mandava uma carta, lhe ligava para compartilhar suas vitórias, e ele, como sempre, emitia palavras vagas, mas que, para aquele, feliz, lhe soavam encorajadoras. Viu-o envelhecer, vencer e, também, sua centelha se vida se apagar, e nem quando percebeu que o caixão dele pousou no fundo da cova, ele chorou, já que estava livre de todo e qualquer sentimento que pudesse lhe causar dor.
            Viu as pessoas que um dia lhe foram próximas, todas, uma a uma, indo embora, e só ele ficava, sozinho, sem derramar uma única lágrima pelas perdas.
            Agora, vendo-se só, olhando nos olhos daquele que lhe mirava do outro lado do espelho, se perguntava pela primeira vez em todos aqueles anos, se valera a pena ter tido aquela vida tão livre de sentimentos de dor. Pela primeira vez, em todos aqueles anos, olhou para baixo, respirou fundo e se deu conta de que viver é sentir dor, e em quem a vida não dói, não vive. Foi então que sentiu aqueles sentimentos adormecidos, guardados naquele container há tantos anos, ganhando novamente viva, acordando de seu longo torpor. Eram tantos e tão fortes, agora, que arrebentaram as paredes de ferro daquela prisão, arrebentaram as comportas que mantinham seguras tantas lágrimas contidas há tantos anos. Ele chorou até seus olhos cansarem, até que todos aqueles sulcos marcados em sua pele encharcarem. Quando as lágrimas cessaram, ele se deixou cair no chão e ficou ali, imóvel, por longos e longos minutos. Sentiu, pela primeira vez em anos, o seu coração bater. Ele batia acelerado, com uma imensa força, arrebentando por dentro, pois não suportava tantos sentimentos libertados de uma única vez. Ele foi fechando os olhos lentamente, sendo tomado por um sono. Revia toda a sua vida passar diante de seus olhos em uma fração de segundos, viu todos os sentimentos que deixou de viver pelo medo de sofrer, e chorou mais uma vez, arrependido. Esperou sua centelha de vida, aquela vida que não vivera, se apagar lentamente e no exato instante em que sentiu seu coração bater pela última vez, sorriu o primeiro sorriso em tantos anos.