terça-feira, 25 de abril de 2017

Todo mundo tem um pouco da Hannah e um muito dos porquês

No que se refere a filme e seriados, eu sou aquele a que se chama popularmente de herege. Não acompanho lançamentos, não leio críticas dos especialistas, não ligo para aquilo que está sendo comentado, desisto no meio de uma temporada de uma série que começo a acompanhar, enfim, sou uma pessoa não muito legal para se conversar sobre o assunto. Mas não sei por que cargas d’água resolvi começar a assistir os treze porquês.
      Tinha acabado de assistir Orphan Black (não me pergunte por que assisti a essa série. Nem eu mesmo sei. Tentei abandoná-la umas vinte vezes, mas a curiosidade era sempre maior e eu continuava a assistir um capítulo após o outro nas minhas tardes de sábado) e comecei a zapear pelo NetFlix em busca de algo que me chamasse a atenção, algo que fosse diferente e que não fosse tão badalado (curto meio esse negócio de assistir coisas que ninguém assiste). Coloquei umas cinco diferentes séries, com diferentes temáticas, na minha lista, e nesse bolo joguei também Thirteen Reasons Why, logo que a plataforma de streaming a lançou. Na época, ninguém comentava e eu não fazia nem ideia do que se tratava. A sinopse me chamou a atenção e eu resolvi fazer um test-drive.
            Assisti ao primeiro episódio e confesso não ter curtido muito. A ideia era interessante, mas nada que me fizesse, por si só, num primeiro momento, me fazer ficar uma tarde de sábado assistindo vários episódios na sequência. Não gostei do cenário que remete ao estereótipo norte-americano e da pegada meio teen (preconceitos). Deixei a série de lado e fui experimentar outras, vendo se alguma das que estavam na minha lista me agradava mais. Nesse meio tempo, entre o meu primeiro contato com a série e a minha indecisão sobre que série acompanhar, houve uma verdadeira enxurrada de comentários em tudo quanto é site e redes sociais sobre “aquela série que fala de bullying e suicídio”. Minha timeline do facebook estava simplesmente tomada por artigos diversos, tanto elogiosos quanto de pessoas desaconselhando a série, e por muitos, muitos e muitos alunos comentando. A primeira coisa que me veio à mente quando vi tanta gente acompanhando e comentando foi a de abandoná-la imediatamente e retirá-la da minha lista.
            Passados alguns dias, e eu não tinha escolhido ainda que série assistir/ acompanhar, resolvi, como quem não quer nada, dar uma oportunidade aos 13 porquês, para ver havia ali ao menos um para que eu a mantivesse na minha lista.
            Completamente armado, repleto de preconceitos, assisti ao segundo episódio e a primeira impressão foi levemente amenizada, mas nada que me fizesse ter aquela baita vontade de assistir vários episódios um após o outro. Fato é que aquele segundo episódio me fez ao menos prestar um pouco de atenção aos personagens, aos tipos humanos e aquele mundo de escola.
            Como quem não quer nada, mas agora já querendo alguma coisa, comecei (agora sim!) e acompanhar a trama e aos dramas dos personagens quando assisti ao terceiro capítulo, e dali em diante comecei a assistir um a um os episódios, vendo-os devagar, em doses homeopáticas, tentando compreender o psicológico dos personagens, tentando entender cada um daqueles porquês.
            Assisti sem pressa, acompanhando o ritmo daquele que escutava paulatinamente as fitas deixadas por Hannah, tentando entender o que se passava não só na alma da atormentada suicida, mas também na dele e na de cada um dos rapazes e moças que apareciam nos capítulos daquela história. Fui, aos poucos, me envolvendo com a trama, sem o afã de uns ou o olhar demasiado crítico de outros.
            Quando terminei o último capítulo, fiquei alguns minutos em silêncio, digerindo tudo aquilo que tinha assistido nas últimas semanas, revendo como cada personagem se encaixava naquela simples e complexa trama, procurando entender o tormento que afligia cada um.
            O seriado, no geral, não é para ser endeusado e alçado ao posto de “melhor série de todos os tempos”, como alguns jovens estão fazendo, mas também não deve ser demonizado e desaconselhado, como alguns “críticos especializados” e “psicólogos” se lançaram numa cruzada para “livrar os jovens do mal – amém”. Mas esses extremismos são provocados, na minha opinião, pela leitura errada que está sendo feita da série. Estão se atendo só e exclusivamente a duas questões que estão mais em evidência, o bullying e o suicídio, mas esquecendo de algo primordial que permeia toda a série: a questão humana.
            Os treze porquês me chamou a atenção por ser uma série extremamente humana, que trata de questões a que pouco damos a devida atenção com rara sensibilidade, sem deificar nem demonizar um lado nem outro, sem criar heróis nem bandidos, retratando com realidade mais do que o ambiente escolar, mas muitas das nossas relações interpessoais.
            A série é um grito humano de dor, de solidão, de incompreensão, da maneira como somos plurais na maneira como sentimos cada coisa que nos é feita, como somos, por vezes, cruéis e inconsequentes em nossos atos, como somos covardes e frágeis, por mais que tentemos nos esconder sob a proteção de uma aparentemente intransponível armadura/ carapaça. Quantos de nós somos Hannah? Quantos de nós somos, sem nem ao menos saber e sem qualquer intenção de sê-lo, um dos porquês?
            A série mostra isso ao longo dos 13 episódios: como somos sensíveis como Hannah; como somos excluídos como Tyler; como somos “aluados” e não sabemos ler sorrisos como Clay; como não vemos os dramas o que há por trás do sorriso de Justin, sendo insensíveis à sua dor; como não conseguimos nos aceitar como Courtney; como somos bem-intencionados, apesar de nossa arrogância, como Ryan; como não conseguimos ver pessoas como Skye; como somos insensíveis e não percebemos os sinais que os outros não dão, como fez Sr. Porter; ou como somos cada um dos demais personagens da série.

            A série Os treze porquês não deve, de forma alguma, ser desaconselhada, pois retrata muito bem muitas de nossas relações humanas, e o faz com notável sensibilidade, mas precisa ser melhor discutida, para que se abra o leque de leituras e interpretações com o intuito de que não se foque só e unicamente em questões como suicídio, mesmo porque, para que uma pessoa chegue a tal extremo é preciso se entender um pouco de sua psicologia, suas motivações, suas dores, sua sensibilidade e suas forças, mesmo porque o seriado não fala de morte, mas sim de vidas.

terça-feira, 21 de março de 2017

Salvo por São Visa

Ontem eu recebi um sinal vindo do céu.
Estava eu andando pelo shopping quando resolvi ir à livraria (uma livraria que tinha de tudo: games, revistas, material de papelaria, celulares... tinha até livros!). De repente paro em frente à mesa de celulares e comecei a olhar um, olhar outro, analisar um terceiro, pensar na possibilidade de adquirir um quarto, etc. Olhei para o meu celular, que já está cansado após cerca de três anos de uso e comecei a pensar em comprar um novo. Mas dai veio a dúvida "estou realmente precisando e posso comprar um celular novo?". Fui almoçar remoendo a dúvida cruel.
Após o almoço, voltei à livraria e continuei pensando no celular, ainda na dúvida sobre qual comprar, se REALMENTE precisava comprar e SE PODIA comprar.
Mesmo em dúvida sobre a necessidade da aquisição de um celular novo, resolvi me dar ao luxo. Escolhi um modelo deveras interessante, com mil e um recursos (tinha tantos recursos que até fazia e recebia ligações – coisa rara nos celulares de hoje em dia!) e fui ao caixa. Na fila do caixa, ainda estava com dúvida sobre a real necessidade de comprar o celular (o meu Microsoft 535, afinal de contas, ainda não está quebrando o galho?). Quando o caixa me chamou, foi com um peso no coração e na carteira que entreguei ao atendente o pedido de compra.
Na minha cabeça, enquanto ele registrava o pedido, eu rezava, mas sem saber pra nem, se para a compra passar ou não. Quando ele inseriu o cartão na maquineta, eu quase choro, pedindo mais alguns meses para pensar. Enquanto digitava a senha, era com um enorme pesar que eu pressionava as teclas. Quando o caixa olhou pra mim e disse que a compra não tinha sido autorizada, pude, enfim, soltar o ar que estava preso nos pulmões. Expirei aliviado, entendendo e sentindo que o céu tinha me enviado uma mensagem através de seu anjo-demônio São Visa, dizendo para eu não comprar o dito celular.
Enquanto guardava o cartão de meu Santo Salvador na carteira, o cartão do Demônio da Tentação, São Master, que em outros tempos fora um Anjo que acabou caindo nos pecados do capital, começou a me tentar. Mas fui mais forte, não caindo na tentação oferecido pelo Demônio São Master, ouvindo o sábio conselho de meu Santo Protetor.

Sai da loja sem o celular novo, mas feliz por não ter comprado algo sem necessidade, afinal de contas, o meu 535 ainda funciona bem...

domingo, 1 de janeiro de 2017

O nascimento do jardim-floresta

Eles vinham caminhando lentamente, como que contando os passos e não se olhavam, mas tinham plena consciência um da presença do outro, comunicando-se apenas pelo suave toque de suas mãos.
            O sol já havia iniciado sua trajetória descendente quando pararam. Ao redor não havia nada vivo e tudo era completo silêncio, não se ouvindo nenhum som trazido pelo vento. Ele então se virou para ela e segurou suas duas mãos.
            - É aqui. Eu sinto que é aqui! – disse ele, com os olhos repletos de ternura.
            Ela também havia sentido a mesma certeza que ele.
            Aproximaram-se um do outro e ele depositou-lhe um suave beijo nos lábios e lhe entregou e diminuto e precioso bem que trazia consigo. Ela recebeu a pequenina semente, passou a ela o beijo que ele havia lhe dado, agachou-se lentamente e com as mãos cavou um pequeno buraco onde a guardou. Cobriu com lençóis de terra a semente e a regou com lágrimas de alegria e ternura.
            Durante curtos-longos meses, eles vieram todas as manhãs, junto com os primeiros raios de sol, ao local onde repousava o seu tesouro. Não chovia, não havia água para regar o solo, mas ela sempre chorava de ternura e suas preciosas lágrimas umedeciam o chão e transmitiam toda a força de que a pequenina semente necessitava para crescer.
            Eles tinham pressa para vê-la despontar naquela terra, queriam tocá-la com delicadeza, sentir o toque de seda de sua folha-pele, um pequenino broto, mas sabiam que ela tinha seu tempo e abriria seus olhos e despontaria para o mundo no seu devido tempo, nem mais cedo nem mais tarde um único dia, que no dia que abriria os olhos e os braços, o som de sua voz, de seu riso, anunciaria a sua chegada.
            Após tão longa espera, quando eles chegavam de mãos dadas, que viram ao longe algo diferente na terra, algo pequenino-gigante, apertaram a mão um do outro e correram em direção àquela por quem tanto ansiavam a chegada. A pequenina planta, que mesmo com sua fragilidade havia rompido com imensa força a terra que a cobria, sorriu para aqueles que a contemplavam, e seu sorriso anunciava a primavera que se iniciava.
            Aquela pequenina planta cresceu rápido e logo proporcionou a todos uma gostosa sombra onde todos podiam se abrigar. Não cresceu muito em altura, mas em generosidade e ao seu redor foram depositadas outras sementes que foram igualmente regadas com ternura, mas agora protegidas pela sombra daquela primeira árvore que crescia dia a dia.
            O silêncio que antes havia era quebrado todas as manhãs por uma revoada de pássaros que vinha se abrigar e voar em torno das árvores daquela floresta-jardim que se multiplicava aos poucos sob a proteção e amor dos dois jardineiros, que aos poucos foi deixando que o jardim crescesse por si só.

            O jardim cresceu, e muito, sobre a sombra de frondosas árvores, que acolheram seus jardineiros e a forma como a primeira árvore encontrou para agradecer-lhes foi dando-lhes o primeiro fruto para que eles cuidassem e para que ele quando plantada a sua semente e crescesse, pudesse cuidar deles.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Balanço anual de leitura - 2016

Todo início de ano, como milhões de pessoas fazem ao redor do mundo, eu também traço planos e metas para serem cumpridas ao longo dos 365 dias que estão por vir, no entanto, diferente da maioria das pessoas, eu traço planos e metas de leitura.
            Tudo bem que, como todo mundo, eu traço planos mirabolantes e metas impossíveis de serem alcançadas, como algo do tipo Ler 200 livros ou Iniciar a leitura de Ulysses, mas pelo menos eu corro atrás dos 200 livros, embora sabendo que nunca vou alcançar tal marca, já quanto a Ulysses... Tenho o livro há mais de dez anos e só o abri uma vez para ver como era ao menos seu início, e vendo que não estou preparado para empreender tal leitura, o fechei imediatamente.
            Foi, no fim das contas, 2016, apesar de ser um ano trevoso em muitos aspectos, imensamente feliz no que tange à minhas leituras. Não consegui bater a meta dos 200 livros, mas li 47 (e nesse ano, pela primeira vez, contei a quantidade de páginas e cheguei a marca de quase 11.000!), e nunca um ano foi tão bom e me ofereceu momentos de êxtase literário tão intensos, fazendo com que eu, como leitor, me perguntasse onde foi e em que mundo eu vivi para não ter lido aquele livro ainda! Livros que me deixaram angustiados, que me tocaram fundo na alma, que me abriram os olhos, aguçaram a minha sensibilidade, que me fizeram rever certos conceitos, que me ensinaram muito sobre a vida, o universo e tudo o mais...
            Se em anos anteriores foi difícil listar os livros destaques entre as leituras empreendidas ao longo do ano, nesse ano de 2016 foi difícil listar só alguns, pois foram tantos que eu, hoje, dia 31 de dezembro, olho para trás, para todos os livros lidos desde o início do ano, e respiro aliviado dizendo mentalmente um “que ano bom...”.
            Em 2016, como já é tradição minha, iniciei o ano lendo uma obra referência na literatura mundial, de relevância para a tradição de seu país. Meu primeiro livro foi O Mestre e Margarida, do russo Bulgákov e o último, O Idiota, do também russo Dostoievski. Entre esses dois, li muitos clássicos das mais diversas tradições literárias. Li A Letra Escarlate, de Hawthorne, Gargântua, de Rabelais, Eugênio Oneguin, de Pushkin, O Avarento, de Molière, Memórias do Subsolo e Gente Pobre, de Dostoievski, Águas Primavera, de Turgueniev, Cândido, de Voltaire, Esperando Godot, de Beckett, Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, entre outros tantos clássicos da literatura mundial. Isso fora as adaptações em quadrinho de grandes obras que li. Ou seja, no que se refere à leitura de clássicos, meu ano foi magnífico. Dos quadrinhos baseados em grandes clássicos da literatura, destaco a leitura dos brasileiros Grande Sertão: Veredas e Vidas Secas, obras magníficas que foram primorosamente adaptadas para a linguagem dos quadrinhos, resguardando a sensibilidade das obras originais sem contudo ter um toque de originalidade. Dos baseados em obras de literatura estrangeira, destaco Oliver Twist, que me deixou tão fascinado que resolvi ler a obra na íntegra no início de 2017.
            Dos contemporâneos e do século XX, tive grandíssimas surpresas, descobrindo obras estupendas.  Não saberia dizer qual livro me fascinou mais: se Tirza, de Grunberg, ou Stoner, de John Williams; qual me encantou mais: se A Última Estação, de Parini, O Olho de Vidro do meu avô, de Bartolomeu Campos de Queirós, ou se Extraordinário, de R. J. Palacio (este último capaz de nos fazer rir em chorar em questão de parágrafos); qual o mais sensível no trato a temas duros: se Uma História de Solidão, de John Boyne, ou A Vida em Tons de Cinza, de Sepetys; qual, dentre os contemporâneos já consagrados, qual o mais forte, intenso e magnífico: se Desonra, de Coetzee (autor laureado, inclusive, do Nobel de Literatura), Hibisco Roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie (nigeriana que vem se destacado no cenário literário e como uma das mais atuantes feministas da atualidade), ou A Balada de Adam Henry, de Ian McEwan (um dos mais importantes autores britânicos contemporâneos); ou qual quadrinho mais me fascinou: se Maus, de Spiegelman, ou Três Sombras, de Pedrosa.
            Alguns livros que li, é bem verdade, me decepcionaram um pouco, como O Senhor das Moscas, de Golding, e não gostei tanto de O grande Gatsby, de Fitzgerald, mas nada que chegasse a macular o meu magnífico ano de leituras.
            Em 2017, que é daqui a pouco, espero ter um ano tão repleto de descobertas literárias quanto foi o meu 2016. 

sábado, 26 de novembro de 2016

Fim de um ciclo e início de outro

Nos últimos onze anos e meio, entre 13 de abril de 2005 e hoje, 26 de novembro de 2016 (período que fora interrompido apenas entre 19 de outubro de 2015 a 02 de junho deste ano), eu vivi intensamente uma profissão, tomando-a não como minha “profissão”, como meu “ganha pão”, mas assumindo-a como minha verdadeira função. Fui não só um profissional, mas um homem, que sempre disse abertamente que amava o que fazia e fazia o que amava.
Fiz tudo o que podia pelas livrarias em que trabalhei (Siciliano, Saraiva e Leitura), ajudando no crescimento de cada uma dessas empresas. Mais do que fidelizar clientes, enquanto atuei na área, cativei leitores, construindo uma relação de respeito, confiança e admiração por cada uma daquelas pessoas que adentrava pelo mágico portal da livraria. Cada palavra trocada com leitores, entre as mesas, em frente às estantes, era uma palavra enriquecedora, era única e podia até não ser necessariamente sobre literatura (mas de uma forma ou de outra, em algum momento, aquela conversa iria acabar num livro). Trocar impressões e sensações que a leitura de tal livro nos causou era o ponto alto de cada conversa, o momento mais prazeroso de cada dia.
Fiz inúmeros amigos que carregarei até o fim de minha vida. Amizades intensas, verdadeiras, eternas, tanto aqueles com quem tive a imensa honra e grande prazer de trabalhar, quanto aqueles com quem me perdia numa prazerosa conversa.
Fiz tudo isso e muito mais, e se eu tivesse que viver a minha vida novamente, faria tudo exatamente igual. No entanto, a vida é repleta de ciclos, de momentos, de desafios, e o meu ciclo na livraria, trabalhando, seguindo a rotina, já vinha chegando ao fim. Não foi um fim súbito, nem foi algo como um amor que se apaga, uma paixão que esmorece, pois carregarei esse amor e essa paixão por minha profissão e pelos ambientes em que trabalhei para o resto da vida, mas sim algo natural, algo que chegou sem estardalhaço, como uma sementinha que fora plantada e regada lentamente, gota a gota.
Desde 2014 eu me descobri professor, e minha paixão por literatura se expandiu, vendo que podia atuar em outra área de forma conjunta à livraria. Dei aula naquele ano, intensifiquei as palestras ministradas nas escolas e em cada oportunidade que tinha para falar para várias pessoas no ambiente da escola eu me encontrava mais e mais; em cada vez que punha os pés numa escola me sentia mais e mais em casa.
Em 2015, ministrei o primeiro curso de literatura, experiência esta que me serviu para ver e sentir que ali, na frente de uma sala de aula, eu me sentia bem, à vontade, perfeitamente integrado. Em 2016, um novo módulo do curso foi oferecido e percebi que o meu ciclo em livrarias estava chegando ao fim, que migrar para o ambiente escolar era só uma questão de tempo.
Em meados deste ano voltei a trabalhar numa outra livraria, recebi uma oportunidade na Leitura e atendi ao chamado após ter ficado um tempo ausente no mercado de trabalho (logo após a demissão da Saraiva). Voltei a trabalhar como sempre trabalhei nessa nova empresa: com imensa paixão, dando o meu melhor, ajudando no crescimento da livraria.
Paralelo ao trabalho na Leitura, as palestras ministradas em escolas se intensificaram ainda mais (acontecendo toda semana, toda quarta-feira para ser mais preciso, e por vezes até duas vezes num mesmo dia!), e em cada escola que eu visitava, eu sentia que aquele ambiente me chamava, e cada vez que eu saía de uma escola, olhava para trás para dizer um “me espere só mais um pouquinho”. Durante essas vivências nas escolas, passei a ver pontos positivos e onde podia atuar para buscar melhorias não só para a instituição, mas principalmente para os alunos.
A semente que fora plantada passou a ser regada abundantemente.
Junto com amigos, fomentamos e criamos o projeto Semear Livros, e comecei a me sentir mais e mais atraído pela ideia de ficar, de uma vez por todas, numa daquelas escolas. Comecei a sondar amigos a fim de conseguir uma vaga para trabalhar como professor ou em outra função, desde que estivesse intrinsecamente relacionada à educação, desde que eu passasse a habitar aquele ambiente mágico chamado escola.
Eis que numa conversa, na última quarta-feira, com meu amigo Josiberto Rego, quando falamos justamente sobre o meu desejo de ir para escola, ele me fez propostas. Disse que tinha vaga para professor, sim, mas que tinha em mente “algo mais legal e importante”, uma função na qual eu poderia fazer algo maior em prol dos alunos, desenvolver meus projetos, ser e atuar como idealista que sou. Pediu apenas um ou dois dias para organizar umas coisas, para só então ele fazer a “proposta formal”. Na última quinta, dia 24, quando chegava em casa, por volta das 22h, meu celular toca. Era Josiberto. Mal eu disse “alô”, ele já soltou de supetão, já fez a proposta “irrecusável”: trabalhar na diretoria pedagógica do Colégio CDF. Nem no meu momento de maior insanidade havia pensado em algo daquele tamanho, daquela importância, em enfrentar um desafio de tal tamanho!
Tivemos uma conversa longa e séria, em que ele me explicou os processos, as ideias que ele tem para a escola, o que espera de mim, etc.
Como disse, a proposta era irrecusável, e por diversos motivos. Era algo do tipo “pegar ou largar”, e eu a peguei, já mergulhando de corpo e alma nela, assumindo minha função antes mesmo de ocupar o cargo.
Não foi fácil viver os últimos dias. Quase não dormi, tamanha a ansiedade que sentia pulsar na minha cabeça, no meu peito e em todo o meu corpo.
Não foi fácil anunciar a minha decisão de sair da livraria ao gerente, às coordenadoras, não foi fácil me despedir das pessoas com quem trabalhei nos últimos meses, não foi fácil olhar para cada canto daquela livraria uma última vez, dizendo “voltarei aqui, sim, mas em outra posição, não mais como vendedor, mas como cliente, pois estou de mudança, minha casa será outra daqui a pouco”.
Fiz tudo que estava ao meu alcance, sim, pelas livrarias onde trabalhei, volto a dizer. Não fiz, é bem verdade, tudo o que gostaria e poderia ter feito e tenho orgulho do que fiz, mas lamento imensamente pelo que ainda poderia ter feito. Mas mesmo com o não feito, sinto imenso orgulho pelo que alcancei nos últimos onze anos e meio, e agora chegou o momento de fazer mais em outra área.
Fiz muito pelas empresas, pelas livrarias e principalmente pelos leitores, e agora chegou o momento de fazer pela escola, pela educação e principalmente pelos alunos, pelos indivíduos.
Chegou o momento de encarar novos desafios, que não serão nada fáceis, mas que me sinto, mais do que nunca, preparado. Lutarei batalha a batalha, dando sempre o meu melhor, atuando não só com profissionalismo, mas com extrema paixão.