domingo, 18 de janeiro de 2009

A História de um Girassol - conto

Era um imenso campo de girassóis em flor, que, desde as primeiras horas da manhã seguiam o sol, em seu trajeto pelo firmamento. Mantinham-se eretas, firmes, esticando seus lânguidos corpos, como se desejassem se libertar das raízes que os prendiam ao chão e partirem de encontro àquele a quem tanto adoravam. Eram flores belas, exuberantes, de um amarelo tão intenso que parecia que a luz do sol havia se infiltrado em suas pétalas. Mesmo quando o sol, em dias nublados, mal aparecia por entre as nuvens, as flores o seguiam com seus olhos, ávidos por vislumbrá-lo nem que fosse por um único instante.
Mas havia uma planta, a única em todo o campo, que não era como as outras, que permanecia cabisbaixa durante todo o dia. Enquanto os outros girassóis ao seu redor se esticavam, a ponto de se libertarem das amarras, esse girassol ficava tão encolhido que os raios do sol mal lhe alcançavam. Ele, como todos os outros, amava, acima de tudo, ao sol, mas ele, consciente de sua pequenez, de tanto se esticar e nunca alcança-lo, desiludido, desistira, entregando-se à sua tristeza.
Sentia-se solitário toda vez que o sol surgia no horizonte e via seus companheiros voltarem seus olhos todos para o mesmo ponto enquanto ele baixava os seus, mirando suas raízes, que lhe prendiam ao chão. Como desejava libertar-se, sentir-se livre e voar como os pássaros no céu, aproximar-se do sol, toca-lo e beija-lo, tal como um beija-flor faz com suas flores.
Numa manhã, quando o sol nasceu mais cedo e incidiu seus raios diretamente sobre o girassol, que, desprevenido, recebeu a luz diretamente em seus olhos, quase ficou cego, mas isso o despertou, pois há tempos não vislumbrava o sol, e quase se esquecera de sua forma, de sua luz, do quão caloroso ele pode ser. Ao olhar diretamente para o sol, o girassol tornou a se abaixar, e, abatido como estava, começou a chorar. E suas lágrimas transformavam-se em sementes, que caíam no chão. Tomado pelo pranto, o girassol não se deu conta de que, com o nascer do sol, os pássaros acordavam, saíam de seus ninhos, batiam suas asas e cantavam. Mas um pássaro, o único que observava a reação do triste girassol todas as manhãs, diferente dos demais, que passavam o dia a contemplar o sol, aproximou-se, mal batendo as asas e, ao ver suas lágrimas secas ao chão, pousou a seus pés. O pássaro sabia o que afligia o girassol, então segurou, delicadamente, com seus diminutos pés, uma semente, abriu bem suas asas e alçou vôo.
A flor, ouvindo o bater de asas do pássaro, levantou os olhos e viu que em seus pés ele levava uma de suas sementes. Viu que o pássaro voava cada vez mais alto, passando por entre as nuvens, aproximando-se cada vez mais do sol. Ao chegar até ele, entregou a semente que trazia consigo. O sol recebeu aquele presente e seus raios foram como um sorriso para a flor, que lá onde estava, plantada no chão, os recebeu como a uma benção, e a partir daquele dia passou a acompanhá-lo todos os dias, em sua caminhada pelo céu.

Um comentário:

  1. Lima,
    Procurava textos, contos sobre girassóis e encontrei seu belo texto. Delicado, mas com profundidade. Parabéns,
    Um grande abraço,
    Antonise

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