sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Malefícios de uma TV a Cabo - crônica


Cansado da mesmice dos programas de televisão e da péssima qualidade da programação, um homem, responsável como era, pensando em sua família, resolveu fazer uma assinatura de uma televisão a Cabo, com milhões de canais disponíveis, com Sinal de Alta Definição, com canais de outros países, tantos que recebeu até como bônus, inteiramente grátis, para assistir durante dois meses, a programação de uma Rede do Afeganistão e outra da Zâmbia!
Agora o homem, ciente do bem que tinha feito à sua família, podia sair de casa, para ir trabalhar, descansado, pois sabia que seus filhos menores assistiam aos melhores desenhos pela manhã, sua esposa prepara uma belíssima refeição, assistindo ao melhor programa de receitas da televisão mundial, uma de suas filhas assistia à programação vespertina, recheada de boa informação e cultura, enquanto o filho mais velho podia assistir aos seus seriados favoritos e à noite a família inteira se reunia de frente à televisão para assistir a um filme. Além disso, sua esposa podia assistir ás melhores novelas, sua outra filha podia assistir à programação de documentários sobre o mundo animal até seu cunhado deu para lhe visitar todas às terças-feiras para assistir àquele programa que, pelo jeito, só passava em sua televisão.
E o que era só satisfação na primeira semana, logo se tornou uma preocupação, pois o homem percebeu que sua televisão ficava ligada vinte e quatro horas por dia. Era comum ele acordar de madrugada e quando se dirigia à cozinha para pegar um copo d’água ver um de seus filhos assistindo a reprise do programa que tinha perdido na manhã anterior ou simplesmente assistindo-o novamente!
A fama de sua televisão, dos canais que havia assinado era tamanha que logo todos em seu condomínio vinham assistir televisão em sua casa, de forma que era comum, agora, ele chegar a sua casa e se deparar com o vizinho de frente saindo, enquanto a de cima vinha chegando, e o de lado sentando-se no seu lugar favorito do sofá.
Houve uma ocasião, até, que ele teve que pedir licença para entrar em sua própria casa, de tanta gente que tinha lá para assistir às notícias sobre uma nova beldade do mundo pop da última semana.
Ele não conseguia assistir aos programas que mais gostava, pois a televisão estava sempre ocupada e ele não conseguia sequer chegar perto do controle remoto, pois este era um verdadeiro motivo de disputa, gerava grandes discórdias, e conquistá-lo era o mesmo que chegar a tomar a bandeira do adversário numa batalha campal.
Mas a gota d’água foi quando ele chegou em casa e viu o seu vizinho, aquele com quem mal falava, abrir a sua geladeira e pegar uma cerveja, aquela latinha que ele tinha deixado dentro do congelador na manhã para que, quando chegasse em casa, à noite, ela estivesse bem gelada, como ele gostava, e mais ainda quando a síndica do condomínio lhe pediu para que ele trouxesse mais pipoca. Ele respirou fundo duas ou três vezes, contou até mil, mas não houve jeito de segurar o ódio que sentia naquele momento ante tamanho descaramento, com pessoas tão folgadas quanto aquelas, e gritou, em altos berros, para que todos saíssem de sua casa imediatamente. Mas a única coisa que conseguiu foi a resposta de uma pessoa, que pediu que ele falasse mais baixo, pois queria escutar o que o apresentador do programa falava, e de outro, que perguntou se ele poderia esperar só até o final do programa, depois iria embora.
Não se contendo em si, o homem pegou uma a uma, aquelas pessoas, e as levou para fora de sua casa e quando achou que tinha terminado, viu que ainda faltava um: aquele seu vizinho mala, que só escutava som no último volume e que sempre que o via lhe alugar horas e horas para falar sobre política-religião-economia-futebol, lhe perguntar, ao ver a sala vazia:
- Onde está todo mundo? Eu perdi o melhor do programa?
O homem, então, já inteiramente sem paciência, o expulsou de sua casa, sem que o outro soubesse o motivo daquela falta de educação. E ainda falou, quando teve a porta fechada à sua cara:
- Que homem mais mal educado! A gente não pode mais nem assistir televisão em paz, na casa dele!
Bufando, o homem convocou todos em sua casa para anunciar que iria cancelar a assinatura da TV a Cabo.
Houve muito choro e promessas para que ele não fizesse aquilo, mas o homem estava irredutível, e ligou imediatamente para a assistência técnica, pedindo para que um técnico viesse imediatamente à sua casa para levar embora o equipamento e cancelar a assinatura.
Cansado, o homem se jogou no sofá e enquanto esperava pelo técnico, ligou a TV, justamente na hora em que começava o jogo de seu time de futebol do coração. Começou a assistir ao jogo e se esqueceu do mundo ao seu redor, tanto que nem escutou a campainha, e sua esposa teve que vir abrir a porta e ver de quem se tratava.
- Amor? – chamou ela.
Ele nem olhou, de tão entretido que estava com o jogo.
- Amor?
- Oi?
- O rapaz da TV a Cabo está aqui.
- O que houve? Algum problema?
- Você mandou chamá-lo.
- Ah, foi mesmo! Manda ele voltar aqui depois, quando acabar esse jogo – disse o homem. Levantou-se de um salto, para comemorar, pois seu time acabara de marcar um gol.
A esposa, então, dispensou o técnico, e o homem continuou a assistir televisão, esquecendo-se completamente do que tinha acabado de acontecer, tomando a decisão de, assim que acabar o jogo, ligar para fazer a assinatura para assistir a todos os jogos de seu time no campeonato daquele ano.

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