
Desde o lançamento do livro Cidade do Sol, ocorrido em 2007 (no Brasil), temos nos sentido meio
órfãos de Khaled Hosseini. Apenas dois anos antes, tínhamos sido arrebatados
pelo primeiro livro do autor, O Caçador
de Pipas, e nesse segundo livro, nossa ansiedade era tamanha, que não
tivemos a oportunidade de saboreá-lo, acabando, pois, por devorá-lo. Foram
esses, dois livros muito intensos, com carga emocional muito forte, com
personagens muito bem construídos, com dramas muito reais. Depois desse segundo
livro, ficamos a viver num estado letárgico, numa expectativa, numa
ansiedade-comedida-silenciosa, até que ouvimos rumores (a princípio, eram
apenas informações passadas de boca a boca, em que ninguém tinha nada de mais
concreto para nos transmitir) sobre o lançamento de novo livro do autor. Nós,
leitores órfãos, começamos, então, a deixar transparecer a nossa ansiedade. A
cada nova notícia oficial que era vinculada, nossas expectativas aumentavam
cada vez mais. Divulgaram o título, e ficamos imaginando qual seria o enredo;
divulgaram uma primeira sinopse, ficamos ainda mais ansiosos. Passamos, então,
a contar os dias para o lançamento do livro (torcendo para que não acontecesse
nenhum atraso de um diazinho que seja!), até que finalmente os livros estavam
ali, ao alcance de nossas mãos, nas mesas e prateleiras de todas as livrarias.
Os órfãos
correram às livrarias para serem os primeiros a adquirirem seus exemplares e
serem os primeiros a ler e a opinar sobre o livro. Eu, por mais ansioso e
expectante que estivesse, preferi esperar uns dias, para ouvir as primeiras
opiniões e também para terminar de ler o livro que estava lendo. Fiquei feliz
com algumas opiniões, mas também triste, pois vi no semblante de algumas
pessoas, leitores desde sempre de Hosseini, certo “desapontamento” com esse
novo livro. Alguns destes falaram que “o livro era bom, mas nem tanto”, que ele
“tinha se perdido”, que ele “não era o mesmo autor que escreveu O caçador de pipas e Cidade do sol”, que ele “não era o mesmo
Hosseini de outros tempos”, e coisas do tipo. Eu fiquei “com o ouvido em pé”
ante tais críticas, e mais curioso ainda para ler tal livro. Mas seguirei um
pouco minha ansiedade, esperando que a “poeira baixasse um pouco”, para ouvir,
só então, as opiniões melhor formada de algumas pessoas/ leitores.
Chegou,
finalmente, a hora. Peguei o livro, mas para não incorrer no risco de ser
injusto num julgamento sobre a obra, preferi deixá-lo “apurando” na minha
estante, enquanto terminava a leitura de um outro livro. Quando senti que
chegava o momento para lê-lo, que me sentei (deitei) em meu sofá, respirei
fundo duas ou três vezes, e mergulhei de cabeça nas páginas e palavras mágicas
de Hosseini.
O Silêncio das Montanhas é, realmente,
um livro muito diferente dos anteriores, e concordo em parte com a opinião de
alguns que dizem que “nem parece Hosseini...”, no entanto, mesmo não sendo o mesmo, o autor, esse tão nosso
(des)conhecido consegue nos surpreender enormemente. Nesse livro, Hosseini nos
apresenta uma face sua que talvez tenha passado despercebida nos seus outros
livros. Em O Silêncio das Montanhas
transborda um lado mais lírico e suave do autor. Continuamos, é bem verdade, a
nos deparar com o cenário tão nosso conhecido, com o lado imensamente belo do
Afeganistão, dos valores sagrados da terra, do belo orgulho do seu povo, de
seus apegos e suas belezas, mas também nos deparamos com histórias tristes,
solitárias, com grandes e mais complexos dramas, o que nos faz viajar no tempo
e voltar alguns anos (e livros) atrás e nos faz reviver o prazer da leitura de O Caçador de Pipas e A Cidade do Sol.
À medida
que mergulhava e permanecia submerso nas inúmeras histórias de O Silêncio das Montanhas, fui percebendo
o fundamento das críticas de alguns leitores e entendendo parte de suas
decepções. Esse novo livro do Hosseini, é como uma teia de fatos que se
relacionam, uma teia de personagens, mundos e histórias que parecem soltas,
diferente dos livros anteriores, em que há uma história e um foco mais centrado
na vida de determinado personagem, em dramas específicos. Nesse, a história é
conduzida mais solta, sem um foco específico dentro da história. Sim, há um
fato em comum que liga a vida de todos aqueles personagens, há um drama em
comum que mudou a vida de todos eles em determinado momento de suas vidas, e
isso, essas ligações, faz com que reconheçamos o nosso tão familiar Khaled Hosseini.
O Silêncio das Montanhas é um livro
lírico, bem diferente dos outros livro do autor, é bem verdade, mas que possui
a marca tão familiar, tão nossa conhecida de Khaled Hosseini. É uma obra que
possui o tradicional pendor para o poético das imagens, uma saudável nostalgia
da antiga Cabul que as palavras do autor exalam e um lado humano, que chora,
que sente dor, mas que ri e que ama intensamente a vida.
O Silêncio das Montanhas é um livro que
guarda muito do “antigo Hosseini”, mas que tem acrescido muito de um novo autor
que surge, que cativa, que envolve e que nos mantém mergulhados da primeira à
última página do livro, que nos mantém presos da primeira à última história.