sábado, 15 de outubro de 2016

Todo professor é louco!

Todo professor é meio maluco. Meio maluco não, completamente maluco, um ser inteiramente insano, um alguém com parafusos soltos e em falta mesmo. Mas não se trata de uma loucura à toa, mas sim consciente, de um alguém que ouve mais do que outras pessoas, e prova disso é o fato dele ter ouvido um chamado, uma voz que vinha lá de longe, e que ele, mesmo sem distinguir o que dizia, entendeu os sentidos do som e, louco como é, agarrou a profissão e mergulhou nela de corpo e alma.
            A loucura de ser professor é uma coisa que deveria ser estudada seriamente por Freud ou por algum neurocientista, filósofo, psicólogo, sociólogo ou por algum estudioso de uma outra área, pois não existe nada que explique o fato desse maluco querer se dar tanto a uma profissão tão estigmatizada, que tem que conviver com, muitas vezes, tão precária estrutura, tão pouco valorizada pelos poderes públicos, por parte da sociedade e até por (pasmem) gestores da educação. E mesmo sabendo de tudo que lhe espera, o insano, ainda assim, sorri, e vai através de sua vocação, o que só se explicaria através de uma palavra: sádico. Isso mesmo, sádico!
            Todo professor-maluco é meio sádico, pois ele parece encontrar um imenso prazer naquele sofrimento que aquela profissão lhe inflige. Acordar cedo, quando todos em sua casa estão dormindo, para estudar mais um pouco para ministrar uma boa aula; passar finais de semana preparando aula, quando todo mundo saiu para passear, para curtir uma praia ou um cinema; passar noites em claro elaborando prova, corrigindo prova, organizando caderneta... Só sendo um completo sádico em encontrar prazer nisso tudo!
            Mas sabe por que o professor faz isso tudo? Porque ele ama o que faz e faz o que ama.
            Por mais que uma parcela da sociedade diga que ele não vai ser reconhecido, por mais que alguns gestores não façam o menor esforço em valorizar seu trabalho, por mais que o seu salário fique aquém de seu esforço e dedicação, por mais que tenha que sacrificar suas noites de sono, finais de semana e feriados para preparar aula, prova e organizar cadernetas e outras coisas mais inerentes à sua função, ele vai fazer tudo isso com um sorriso no rosto. Sua expressão pode até estar cansada, seu corpo poder até estar exigindo descanso, mas sua alma está leve, seu olhar demonstra determinação e amor por aquilo que faz e seu sorriso estampa a imensa satisfação que tem em poder dizer que é professor, e ele faz isso com imenso orgulho.
            O professor faz isso tudo não necessariamente por que ele escolheu tal profissão, mas por ter sido escolhido por ela, e ele, honrado, atendeu ao chamamento, e ele assim o fez motivado por um imenso amor, por ser um incorrigível idealista, por acreditar, ainda que tudo diga o contrário, que a educação é a chave de tudo, e ele quer ser um instrumento naquele trabalho que é mais do que formar um estudante, que é mais do que passar conteúdo, mas formar o indivíduo, formar o humano.

            O mundo ai fora pode estar louco (vemos loucuras sendo cometidas a torto e a direito a todo instante – loucuras que dão ibope, que, tenho a impressão, são orgulhosamente ostentadas), mas para nos proteger dessa loucura temos super-heróis que, munidos de suas loucuras, abraçaram uma causa e que fazem o possível e o impossível para, de alguma forma, ajudar na remediação, de salvamento do mundo, e para isso eles mergulham fundo e iniciam esse processo lá na base, ainda na infância, ensinando os pequeninos a usar uma arma mais poderosa, não de destruição em massa, mas de salvação individual (quiçá em massa, vá...) chamada Educação.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Voltar a ser menino

Eu queria voltar a ser menino, nem que fosse por cinco minutos em minha vida. Queria simplesmente ser menino, esquecer das coisas facilmente como só os meninos esquecem e manter vivas, na memória, outras. Queria não ter preocupação alguma, responsabilidade com nada, viver só e unicamente para mim, para aquele momento, e só. Queria poder ver a chuva caindo lá fora e não a temer, não me preocupar com ela; simplesmente poder abrir a porta de casa e sair, tomar um bom, revigorante e sempre rejuvenescedor banho de chuva. Eu queria voltar a ser menino para isso tudo, mas também para muito mais.
Queria poder ser livre, rir com um nada, brincar com um tudo, queria simplesmente viver. Queria ficar por uns instantes com a cabeça tão longe, pensando em algo que está tão perto. Queria poder me sentir como um pássaro no alto de uma árvore, colher uma fruta madura direto do pé e sentir o seu sabor doce como a vida. Queria poder brincar com um cachorro, correr atrás dele, depois deixar que ele me perseguisse numa corrida louca e desenfreada pela rua. Queria poder soltar pipa, jogar biloca (também conhecida como “bolinha de gude”), chupar confeito, mascar chiclete e me deliciar com outras tantas guloseimas. Queria poder ficar descalço, jogar futebol na rua, arrebentar-me inteiro numa queda de bicicleta e, quando ouvir minha mãe chamar, gritar um “já vou”.
            Eu queria voltar a ser menino simplesmente para brincar, para correr, para esconder-me e para achar-me, para ser o que eu era, para ser o que sempre fui e que nunca deixarei de ser – simplesmente menino.
            Eu queria voltar a ser menino para brincar na rua, para ter de volta, nem que fosse por um curto instante, medo do escuro à noite, medo dos trovões em noite de tempestade. Queria poder acordar de madrugada nessas noites escuras, frias e chuvosas e ir bater à porta do quarto de meus pais e pedir para dormir naquela cama enorme, entre meu pai e minha mãe, debaixo daquele cobertor, que estava sempre quentinho.
            Eu queria voltar a ser menino para, ao fechar os olhos, não pensar em nada, e ter, simplesmente, uma boa e longa noite de um sono reparador, que me deixaria pronto para o dia seguinte repleto de coisas novas, de novas, velhas e conhecidas brincadeiras.

            Eu não quero, não posso, nunca em minha vida, deixar de ser menino, porque deixar de ser menino é esquecer todos os maravilhosos momentos que vivi, que não voltarão nunca mais, que vivem eternamente em minha memória e só lá eu posso, sempre, voltar a ser o que sempre fui: um eterno menino.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Semear livros, cultivar leitores

A literatura é uma das mais democráticas expressões estéticas e artísticas, podendo ser apreciada, sem qualquer espécie de distinção, por leitores de todas as idades, nacionalidades, sexo, credo, classe social, cor, ideologia ou qualquer outro caractere distintivo. É tão plural e fantástica que existem livros para cada momento de nossas vidas, para cada estado de espírito que estamos atravessando. 
Se estamos tristes, há livros capazes de nos fazer sorrir, de levantar o nosso astral; se estamos felizes, há obras capazes de expandir e maximizar ainda mais a nossa felicidade; se estamos cansados, há aquele livro que é capaz de nos aliviar o peso opressivo que recai sobre nossos ombros; se estamos passando por um momento deveras difícil, sem saber nosso lugar no mundo, há aquelas obras de natureza reflexiva capazes não de nos dar respostas, mas ao menos de nos fazerem abrir os olhos, de nos orientar quanto a um caminho que possamos seguir; se buscamos inspiração, tem sempre um livro capaz de aguçar nossa sensibilidade; se buscamos um mero entretenimento, uma leitura leve, algo que nos ajude a apenas passar o tempo, há também inúmeras obras capazes de nos ajudar; se buscamos informação, há; se estamos à procura de ampliar nossos horizontes, de conhecimento, de instrução e formação, é a literatura a que recorremos; e se buscamos, acima de tudo, algo capaz de contribuir substancialmente na nossa formação humanística, é na literatura que encontramos a fonte da qual bebemos a água capaz de saciar a nossa sede de conhecimento, que nos acalma e que gentilmente assenta, tijolo a tijolo, os muros e pontes da nossa construção intelectual... 
São tantos “se” que tem na literatura uma resposta, uma fonte, um refúgio, que poderíamos nos estender até o fim dos tempos. A literatura é tão plural e extraordinária que até os que não têm amplo domínio da palavra escrita e falada se calam para ouvir as histórias e contemplar as imagens que saltam das páginas dos livros nas gravuras multicoloridas e nas melífluas palavras de um contador de história. 
Cada literatura, no entanto, há o seu devido tempo para ser semeada, cultivada, dia a dia, livro a livro, para ser colhida e devidamente saboreada. Pensando nisso e sabendo da nossa missão, sabendo do quão importante é o acesso à literatura nas mais diversas fases de nossa vida, principalmente naquela de formação de identidade e consciência, criamos o projeto, a ação #SemearLivros, que tem como objetivo Cultivar Leitores, que visa levar a literatura a alunos de escolas da rede pública de ensino. Muitas vezes, as escolas possuem um acervo deficitário em algumas áreas, e nós, muitas vezes, possuímos aqueles livros que ficam fechados, guardados nas nossas estantes, livros que não serão mais relidos e que clamam por vida nas mãos de novos leitores. Os livros foram feitos para serem lidos, para ganharem e darem vida a cada leitor que mergulha em suas páginas; e livros parados, fechados, são livros mortos, meros objetos; abertos, eles são como o guarda-roupa de Nárnia, que nos transportam para outro e fantástico universo. Aproximemos, então; abramos as múltiplas portas dos guarda-roupas de Nárnia para aqueles que anseiam por eles atravessar, para os que desejam crescer, abrir os olhos e se deleitar com a extraordinária arte-das-letras do mundo literário.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Carta aberta à Saraiva

Hoje estou ferido de morte. Justo eu, que tanto resisti a tantas pancadas, a tantos ferimentos, agora me entrego, pois olho para o céu desesperançado e o vejo negro.
O ferimento que eu sofri foi muito profundo e por ele escorre não o sangue pouco a pouco, mas corre aos borbotões, tirando-me uma das coisas para as quais tanto me dei, a qual, com tanto amor ajudei a construir: minha casa. O ferimento não me foi afligido de forma justa, mas me foi dado pelas costas, de forma vil, quando não estava preparado. O golpe por si só não me afetaria, não me feriria de todo, pois sou feito de ferro forte e seria capaz de logo “esquecer”, de me reerguer rapidamente e tocar a vida como sempre a toquei, mas acontece que esse golpe foi desferido contra amigos e alunos, sendo injusto para com estes, e injustiça é algo que eu não tolero.

Trabalhei durante dez anos e meio na livraria, começando na Siciliano (no tempo da franquia) e o tempo entre novembro de 2011 e outubro de 2015 já na Saraiva como responsável. Ouso dizer que ali construí uma casa feita não tijolo a tijolo, mas livro a livro, atendimento a atendimento, cliente a cliente, fazendo amigos e companheiros de leituras com quem trocava impressões e sensações das obras lidas. Ali, naquela livraria, passei a maior parte do meu tempo durante mais de uma década; ali passei meus aniversários, ali trabalhando perdi festas da família porque, devido a meu comprometimento e responsabilidade para com a empresa, não podia faltar ao trabalho; ali trabalhei doente, por vezes sem condições físicas ou psicológicas, sofrendo com dores nas costas ou no joelho, independente do dia da semana ou horário. 
Talvez alguém pode vir a me perguntar se me arrependo, hoje, de tanto ter me dado, de tanto ter amado aquele lugar. Eu respondo com convicção e leveza na alma de que não. Não me arrependo em nada do que fiz e como fiz, e o fiz não pela empresa (jamais faria o que fiz por empresa alguma), mas pela livraria, pelo que aquele ambiente significava para mim e, acima de tudo, pelos leitores que lá frequentam, pelos amigos que fiz e pelos clientes (fidelizei bem poucos clientes, diga-se de passagem, pois as pessoas que eu atendi ali, eu não as via como clientes, mas como leitores, como pessoas que buscavam algo mais que um produto para comprar, buscavam ali livros).
Amei aquele lugar e ainda amo o que ele representa para mim, mas mesmo com tanta dedicação, dali fui posto para fora no ano passado, e isso foi um golpe baixo, vil, mas eu entendi e encarei aquilo com positividade, pois estava por demais acomodado e precisava dar uma guinada na minha vida, buscar novos ares, e assim o fiz, descansando meu espírito, trabalhando em outras coisas, cultivando outros sonhos e me joguei de cabeça na carreira, com todo o amor que reside em meu peito, na carreira de professor e fomentador de literatura.
Essa carreira de professor de literatura começou pra valer, de forma mais efetiva, no segundo semestre do ano passado quando organizei, junto com minha esposa, o curso Panorama da Literatura Ocidental. O curso, um antigo projeto meu, veio a atender aos pedidos de muitos amigos, leitores e clientes da livraria, que queriam um programa sistematizado sobre alguns dos principais autores da Literatura Ocidental, um curso que pudesse responder questões do tipo “quem e por que ler?”. Quando organizei tudo, que montei o projeto, apresentei-o à Saraiva, explicando as vantagens para a empresa, que tinha muito a ganhar explorando o programa, a ideia, etc., e eu só pedi em troca a autorização de utilizar o espaço do auditório. Passei semanas e meses a fio argumentando, mostrando as vantagens, e recebi, durante muito tempo, apenas o silêncio como resposta da empresa (resposta padrão da empresa). Chegou um momento em que eu precisava de uma definição imediata, pois precisava começar as inscrições do curso e as pessoas estavam expectantes quanto às aulas. Mandei inúmeros e-mails, mais uma vez, fazendo mil e uma propostas e me predispondo até a pagar pela utilização do espaço. Sabem qual foi a resposta da Saraiva (quando eles finalmente dignaram a me responder)? Não! Isso mesmo. Não! O espaço do auditório estava vetado para mim e como justificativa deram respostas vagas.
Na época fiquei muito chateado, pensando em cancelar o curso (já havia realizado as matrículas de vários alunos/amigos), mas surgiu uma solução graças à intervenção de amigos (eu sou uma pessoa muito rica de amigos. Se me falta riqueza material, me sobram os amigos, o que vale muito mais do que ouro, diamante, carros de luxo e imóveis luxuosos). Consegui um espaço para a realização do curso e tudo transcorreu magnificamente bem.
Dai aconteceu que fui demitido e algumas coisas vieram à tona, entre elas o motivo de eu não poder ter utilizado o espaço do auditório. Explicaram-me que o veto partiu só e unicamente de uma pessoa, que disse que assim o procedeu porque “não queria confundir as coisas, o profissional com a pessoa (comigo)”! Como assim? Eu, que sempre fui profissional, que nunca confundi as coisas, que sempre agi de forma ética e responsável, confundir as coisas? Respirei fundo para não explodir, para não perder a razão e deixar que a emoção falasse mais alto. Tal pessoa, agindo agora como bom-samaritano, agora que eu não mais fazia parte da empresa, para mostrar como era justo, ético e correto, agora abria o espaço para que eu pudesse fazer ali meus cursos, não só aquele que já estava em andamento, mas futuros cursos!
Eu sou calmo por natureza e, por mais orgulhoso que seja, sei respirar fundo e aguentar certas coisas que poucas pessoas são capazes de aguentar (quem me conhece sabe muito bem disso), e aceitei as desculpas (aceitei mesmo, não guardando qualquer tipo de ressentimento).
O tempo passou, o curso foi finalizado, comecei a desenvolver mil e uma atividades, até que meus amigos/leitores/alunos (todos clientes da Livraria Saraiva, diga-se de passagem) começaram a me pedir para realizar um novo curso, com uma nova proposta, uma vez que a experiência do semestre anterior fora tão proveitosa e enriquecedora para todos. Assim, desenvolvi, novamente junto com minha esposa, o projeto, apresentei a proposta do curso para os leitores sedentos de conhecimentos literários e o mostrei à Saraiva (agora as portas da livraria estavam abertas para mim), para saber se poderia utilizar, como me fora prometido, o espaço do auditório. Aconteceram alguns contratempos, sim, mas tudo foi acertado sem maiores dificuldades, e só iniciei o curso porque recebi, agora, o aval da empresa. Reservei as datas e horários com bastante antecedência, tudo de forma meticulosa e organizada (como são minhas coisas), abrindo não um curso, dando apenas prosseguimento à turma anterior, mas dois, para que novos alunos/leitores pudessem usufruir das experiências e conhecimentos que compartilharíamos em cada aula.
Tudo correu perfeitamente bem até que ontem à tarde, quarta-feira, dia 06 de julho, recebi um estranho e-mail da parte da Saraiva “solicitando/comunicando gentilmente” o cancelamento do curso, rompendo, de forma abrupta, a parceria com a livraria. 
Li aquele e-mail duas, três, dez, quinze, um sem-número de vezes para entender o que ele dizia! Depois de entender o que ele significava, às vésperas do fim do curso (quando faltam apenas três encontros/aulas), respondi-o em busca de uma justificativa para aquela decisão insensata, injustificável. Recebi como resposta um polido e-mail falando em mudanças de planos, em “mudanças na parceria” e agradecendo a minha “compreensão”! Compreensão? Quem foi e estava sendo compreensivo? Eu é que não! Mandei imediatamente um outro e-mail chamando-os à razão, explicando a insensatez do cancelamento do curso, da proibição da utilização do espaço da livraria (que havia sido reservado desde o início do ano – e eu só o ofereci porque tinha onde realizá-lo, porque tinha o aval da empresa). Mandei, também, outro e-mail explicando não a minha situação como professor, como responsável por um curso sério, mas a dos alunos, leitores, que são clientes da livraria, que compram muitos livros ali. Sabe qual resposta recebi? O silêncio (padrão Saraiva de resposta)!
Fiquei muito, muito e muito chateado mesmo com essa punhalada, não em mim (como disse, sou feito de ferro forte e aguento a pancada), mas dada naqueles que tão assiduamente frequentaram o curso, que com tanto gosto compraram os livros (não foram poucos os livros que a Saraiva vendeu aos participantes/alunos), agindo de forma completa e inteiramente injusta (e injustiça eu não tolero).
Senti-me injustiçado, tendo recebido o mais duro, vil e covarde golpe: o espaço foi vetado para mim, justo eu que ostentava (e ostento) com tanto orgulho o fato de ter justamente construído não só aquele espaço, mas todo o ambiente que o cerca!
Senti-me expulso de casa que eu mesmo construí com tanto amor, dia a dia, atendimento a atendimento, livro a livro, e a decepção é tamanha que, se não chorei com os olhos, chorei com a alma ao ser tratado como fui e estou sendo tratado por essa empresa hipócrita, que nada tem de humana, que muito exige, que tem um belo discurso, que tem os “pilares”, que tem uma “missão”, mas que, na prática, tudo aquilo não passa de palavras, de discurso vazio.
Sinto-me tão humilhado, sendo tratado com tamanho desrespeito e falta de consideração que não me vejo mais indo àquela livraria, frequentando aquele ambiente. Logo eu, um alguém que se orgulha tanto de ter feito o que fez, de ter agido como agiu, de ter me dado como me dei! Se não respeitam e escorraçam o ex-funcionário, que respeitassem ao menos o que aquela pessoa, o que aquele profissional, o que aquele ser humano representou e representa para aquela livraria (não para a empresa, mas para a livraria).

E agora alguém pode vir a me perguntar se eu me arrependo de ter feito o que fiz como fiz e o quanto fiz. Eu respondo com a mesma e serenidade de sempre que não. Não me arrependo em nada do que fiz, como fiz e o quanto fiz pela livraria, mas me arrependo enormemente de tudo que fiz, como fiz e quanto fiz pela empresa, que sempre se mostrou, desde o início, uma empresa gerida não por livreiros, mas por pura e simplesmente por profissionais/diretores que nunca estiveram investidos do espírito livreiro, que sempre fizeram questão de desprezar o componente essencial para se ser reconhecido e prosperar nessa área de negócio: a paixão.
A Saraiva nunca foi, não é e nunca será uma verdadeira livraria que honre esse título; nunca foi, não é e nunca será uma empresa de palavra, que valorize os profissionais que merecem ser valorizados, que deram mais do que seu sangue para que ela se tornasse o que se tornou, que deram sua alma e paixão por aquilo que acreditavam (e ainda acreditam) para que a livraria fosse mais do que uma empresa e seus funcionários, mais do que simples “colaboradores”...

sábado, 20 de fevereiro de 2016

O Eco de uma voz


Ontem eu fui dormir triste.
Ministrei uma aula de literatura em que correu tudo bem: usei um belo e tocante vídeo (curta de animação) que contagiou e arrancou risos e lágrimas de algumas pessoas da plateia; a conversa sobre paixão pela arte das letras correu maravilhosamente bem, com as pessoas interagindo, anotando os nomes dos autores e livros que mencionei para, assim que terminasse a aula, pudessem correr à livraria mais próxima a fim de comprar as obras; ao final de aula, reservamos um espaço para discussões diversas e para uma breve, porém essencial, confraternização. Finda as formalidades da aula, sai do auditório com a sensação de dever cumprido, de que dei o meu melhor, de que a semente de literatura fora planta e que iria germinar, dar um pequeno broto, se tornar uma plantinha, que vai fincar bem fundo suas raízes, que se tornará uma frondosa árvore. Mas, ao chegar a casa, recebi uma triste de notícia que me deixou um tanto quanto abalado e me fez demorar a pegar no sono: Umberto Eco morreu!
Mas como assim, morreu?! Eu havia acabado de ministrar uma aula em que, mais uma vez, o usei como exemplo, mencionei suas obras, falei de sua importância não só para a literatura, mas para toda a cultura ocidental! E ao chegar a casa, a notícia que me tirou o chão, que me fez sentir um imenso vazio no peito e nas estantes onde guardo meus livros, que com que passasse sentir um sentimento de orfandade...
A literatura, ao longo dos séculos, passou por diversas transformações e evoluções. Vivemos uma Era de Formação, verdadeiramente Mitológica, em que nomes tão distante, mas ao mesmo tempo tão próximos, surgiram e moldaram a nossa forma de escrever, de ver o mundo, de sentir as palavras. Homero, Esopo, Sófocles, Eurípides, Virgílio, Dante, Shakespeare, Camões, Rabelais, Racine, Montaigne, Cervantes e tantos e tantos e tantos outros que fazem parte de nosso imaginário e que já foram incorporados ao nosso código genético, que tiveram e têm um papel fundamental na nossa formação humanística.
Depois dessa época, que lançou as bases e alicerces da nossa literatura e da nossa cultura, vivemos uma Era de Ouro entre o século XIX e primeiros anos do XX. A literatura se espalhou por todo o corpo. Se antes era somente o gene, agora passou a ser um aglomerado de células compondo um tecido, depois um órgão e, por fim, Sistema que propulsiona o nosso organismo e nos mantém vivos. Em todos os países surgiram gigantes que assombraram a literatura e a cultura mundial. Jane Austen, Charles Dickens, as irmãs Brontë, Stevenson e Thomas Hardy; Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós; Stendhal, Honoré de Balzac, Alexandre Dumas, Victor Hugo, Gustav Flaubert, Émile Zolá, Maupassant, Baudelaire e Malarmé; José de Alencar, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Machado de Assis, Lima Barreto e Olavo Bilac; Goethe, Schiller, Novalis, Heine e Rilke; Pirandelo e Lampedusa; Puchkin, Gógol, Turgueniev, Dostoievski, Tolstoi, Tchekhov e Gorki; Poe, Hawthorne, Melville, Whitman e Twain; Kazantzakis e Kavafis; isso para citar somente uns poucos, pois se fôssemos citar todos, não caberia num único texto.
Na primeira metade do século XX, ainda sob o eco da Era de Ouro, que vinha perdendo relativa força, as principais “potências culturais e literárias” europeia perderam um pouco de força, muito embora tenham nos legado grandes gênios como Kafka, Brecht, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Mário de Sá-Carneiro, Unamuno, Pasternak, Maikóvski, Oscar Wilde, Lawrence, Virgínia Woolf, James Joyce, Hesse, Thomas Mann, Proust, Sartre, Beauvoir e Sartre. Poucos comparado ao período anterior. Fato é que a literatura mudara de ambiente, e alguns dos grandes nomes nascia do outro lado do oceano. Borges, Casares, Mistral, Neruda, Donoso, Onetti, Octávio Paz e Juan Rulfo foram os que puxaram o boom latino-americano com sotaque hispânico; mais ao norte, Faulkner, Hemingway, Steinbeck, Salinger, Henry Miller, Capote e Eugene O’Neill; o Brasil viveu sua Era de Ouro entre as décadas de 1930 e 1950/60, com nomes como Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Graciliano Ramos, Rachel de Queirós, Jorge Amado, José Lins do Rego, Érico Veríssimo, João Guimarães-Rosa e Clarice Lispector; esses e outros passaram a assombrar o mundo com uma poderosíssima, mas até então desconhecida por muitos leitores, literatura, que passara subitamente a ser obrigatória em toda e qualquer estante de livros ao redor do mundo.
No entanto, mesmo com tantos nomes, mesmo com tantos autores tendo surgido num curto espaço de um século e meio, a maternidade literária, os tempos seguintes não foram tão generosos conosco, pobres e apaixonados leitores. Vieram, sim, Saramago, Garcia-Márquez, Llosa, Calvino, Philip Roth, Paul Auster, Kundera, Coetzee, Chimamanda Ngozi Adichie, Chinua Achebe, Pepetela, Ondjaki e Mia Couto. Poucos, pouquíssimos diante da nossa sede de literatura, da necessidade intrínseca que temos de mais, mais e mais grandes autores. Desses, Calvino, Saramago, Gabo e Achebe já nos deixaram; Roth se aposentou; Kundera há tempos não lança uma obra que nos deixe em êxtase, e mesma coisa se aplica a Coetzee; Llosa e Auster até lançam bons livros, mas nada que se comparam aos seus livros de alguns anos atrás. Resta-nos, portanto, a poderosíssima Chimamanda, uma verdadeira ilha literária que surge em meio a um tempestuosos oceano, que assombra por sua literatura lírica, poderosa e politizada, e os africanos de língua portuguesa, que, além de tudo, fazem um trabalho excepcional em prol da língua, divulgando mais do que literatura, promovendo em todo o mundo um vasto universo cultural que é produzido pelos falantes de língua portuguesa. Com estes, restam-nos pouquíssimos autores que ocupam “lugar de honra” nos nossos corações-literários e nas nossas estantes.
Com a recém-perda de Umberto Eco, um súbito vazio intelectual nos toma. Eco tornou-se uma figura presente, respeitada e admirada em todo o mundo por sua inteligência e postura, como um dos maiores intelectuais do século XX que se mantinha ativo. Mesmo quem o leu pouco, tendo tido a oportunidade se deleitar apenas com um ou outro texto, e até quem não o leu, tinha um respeito imenso pelo italiano. Conhecido sobretudo pelo seu romance O Nome da Rosa, que recebeu uma primorosa adaptação para o cinema na década de 1980, Eco é muito maior e muito mais labiríntico do que o romance que projetou sua carreira mundialmente. Crítico, filósofo, semiólogo, linguista, romancista e historiador... é difícil definir quem foi Eco e qual de suas faces é a que mais nos toca, a que mais nos engrandece e enriquece. Multifacetado, foi um intelectual que ultrapassou as barreiras do sec. XX e chegou ativo ao XXI, era em que nos vemos tão carentes de pessoas a quem admirar. Sua vida, ceifada tão bruscamente quando menos esperávamos, deixa um vazio imenso não só em nossos corações, mas também em nossas estantes de livros. Agora, quando mirarmos a estante e vermos seus livros ali expostos, imortais, que serão herança para futuras gerações de leitores, nos sentiremos órfãos, pois não mais aguardaremos ansiosos pelos seus próximos lançamentos. Além disso tem o agravante de que nessa época, tão escassa de intelectuais, não sabemos mais quem expor com orgulho numa prateleira de destaque como sendo “meu autor favorito vivo”.
Resta-nos, como leitores, apenas nos conformar, pois ele, mesmo que chegássemos a pensar e desejar o contrário, era mortal, como eu sou, como todos somos, e ler e admirar até o fim dos tempos a sua obra, toma-lo, mais do que nunca, como referência e ouvir o eco de sua voz, que calou como efeito sonoro, mas continua a reverberar em sua obra.