domingo, 20 de agosto de 2017

E o Brasil, tem jeito?

Eu sou o tipo de pessoa que gosta de conversar sobre tudo, desde que meu interlocutor seja uma pessoa aberta a ouvir e a falar, que seja uma pessoa inteligente, pois acredito que não existe nada mais estimulante, que mais enriqueça nosso intelecto do que uma boa conversa. Podem me chamar para conversar sobre história antiga, medieval, contemporânea ou sobre futebol; podem me chamar para falar sobre política, religião, filosofia ou sobre “a febre de memes”; podem me chamar para falar e ouvir sobre o que quer que seja, que eu vou, e um dos tema que mais me fascina, que mais me deixa empolgado, atualmente, é a tal da política. Adoro conversar com pessoas de ponto de vista antagônico ao meu, pois assim, acredito eu, tenho mais oportunidade de “conhecer o outro lado”, de enriquecer meu conhecimento sobre o assunto. Em um diálogo sobre política eu fico empolgado, querendo falar, expor minha opinião, mas quero, mais ainda, absorver tudo que a outra pessoa tem a falar. No entanto, toda aquela energia, quando o diálogo cessa, vai embora, eu fico muito mal. Sinto como se estivesse completamente exaurido de esperanças, pois, quando meu interlocutor vai embora, que olho ao redor, vejo a minha cidade, o meu município, o meu país tal como ele está, tal como ele é, e não mais como deveria, de fato, ser.
            Na semana passada, num desses estimulantes diálogos (dessa vez via Messenger do facebook) com um aluno me que fazia perguntas, querendo saber minha opinião sobre política e alguns assuntos relacionados a ela, ele me fez um questionamento que me fez ficar em silêncio por alguns minutos, verdadeiramente desconcertado, pois não soube o que responder de bate-pronto. “Lima, o Brasil tem salvação?”, ele perguntou. Quando eu li aquela pergunta, eu abaixei a cabeça, fechei os olhos e respirei fundo. Ao abrir os olhos e, ao reler a pergunta no chat, fiquei em silêncio, sem saber o que responder ao jovem tão sedento de esperanças. Eu respondi a essa pergunta como sempre respondo a questões desse tipo, sobre a esperança de nosso país, sobre o futuro de nossa nação: sou um otimista nato e acredito que, por mais que estejamos vivendo tempos nebulosos e tenebrosos, mais cedo ou mais tarde a maré irá virar e uma florzinha de primavera irá surgir e uma nova estação, dessa vez menos outonal, irá aparecer diante de nossos olhos e alegrar nossos dias.
            Falar em política, ao mesmo tempo em que me empolga, que me excita, me exaure e tira, momentaneamente, a minha esperança. Falar em política, após o calor de uma discussão, deixa, em mim, uma sensação de frio provocado pelo temor do que possa vir pela frente, pela sensação de desesperança.
            Acho extraordinário o fato de, hoje, em nosso país, estarmos falando tanto em política, de vermos tantas pessoas de todas as idades e condições sociais e econômicas se interessando pelo assunto, e vejo como positivo, em muitos aspectos, esse momento que estamos vivendo. Estamos, todos nós, brasileiros, aprendendo muito, estamos começando a entender o que é o tal do “jogo político”, estamos começando a ver que errado não é A nem B, não é X nem Y, mas todos, pois, no jogo político, todo o nosso sistema está corrompido, e somente com uma mudança séria, tocada por pessoas sérias e comprometidas, é que conseguiremos chegar ao cerne da questão e realizar uma mudança profunda no sistema, e somente assim poderemos voltar a ter esperança no futuro de nosso país.
            Acredito que novos tempos hão de advir, mas acho que só serão realmente sentido mais a frente, e o tempo que essa mudança vai de fato se iniciar tem em 2018, ano de eleição, um marco. Acredito que 2018 será um ano chave na história de nossa democracia (não que seja o momento derradeiro, não que seja a última esperança, mas que é um momento chave, isso ninguém pode negar), uma vez que, a depender do vencedor, teremos um direcionamento do que pode vir a acontecer conosco quanto nação no que tange a questões políticas, econômicas e, principalmente, sociais; é 18 um ano em que as mudanças de que tanto necessitamos, quanto nação, quanto cidadãos, podem ser de fato tocadas, podem ser aceleradas, ou podem sofrer retrocessos...
Não acredito que a escolha única e inequívoca deva ser por optarmos por A ou B, X ou Y, mas que devemos, todos nós, chegarmos a um alguém que represente não a polarização de um lado ou outro, mas que possa ser um alguém que possa dialogar com ambos e que possa pacificar os extremos. Mais do que optarmos por direita ou esquerda, devemos seguir juntos por um mesmo caminho, por uma mesma via, uma vez que todos somos brasileiros e devemos querer o mesmo grandioso futuro para nosso país; mais do que optarmos por ostentar a cor Vermelho-Comunista-PêTê ou Amarelo-Pato-FIESP, devemos escolher uma multicor que represente, e bem, toda a pluralidade que é o Brasil.
Desde pequenos aprendemos a admirar a pluralidade de nosso país, o quanto somos diversos e que sabemos respeitar as nossas diferenças. Então por que, de repente, começamos a ser intolerantes e a ser inimigos de nós mesmos? Será que, mesmo em nossa pluralidade, nós nunca respeitamos tanto assim as nossas diferenças e, devido ao clima maniqueísta que estamos vivendo em nossa política, esse desrespeito, essa intolerância só veio a acordar, como se estivesse sempre ali, latente, o tempo todo? Então tudo que admiramos em nós, quanto nação, não passava de balela?!
Vejo o nosso país, ainda, como “o país do futuro”, mas que, para chegarmos a um futuro realmente digno, precisamos pensar em nosso presente e, para isso, precisamos, primeiros, em nos dar as mãos, aprender a nos respeitar a nós mesmos, a parar de polarizar as discussões e a pensar a história como um processo em constante construção.

Estamos hoje, sim, com a autoestima baixa, como que acabados, completa e inteiramente desesperançados, mas não podemos e não devemos ficar assim por muito tempo. Podemos até ficar de ressaca por uma manhã ou outra, mas não devemos deixar que essa ressaca se estenda por muito tempo, pois quanto mais tempo demorarmos, mais vamos demorar para darmos um jeito no nosso país; quanto mais tempos demorarmos a pensar, a refletir, a agir, mais vamos demorar a construir o nosso futuro, ficando, se não o fizermos hoje, presos, para sempre, num presente que flerta com um passado.

sábado, 17 de junho de 2017

Retalho de vidas

Eu sou um imenso retalho de memórias, um constructo dos tempos vividos, de dores sofridas, de lágrimas derramadas, de superações, mas, acima de tudo, de sorrisos, de batalhas bem lutadas e, por vezes, vencidas. Não tenho qualquer tipo de vergonha em ser assim, em, no meio de uma conversa qualquer, rememorar um fato acontecido há cinco minutos, no mês passado, há anos ou há séculos e, dessa memória, tecer uma longa trama que conduz a um caminho que por vezes foge do caminho originalmente traçado, mas que vai chegar, cedo ou tarde, a dar em algum lugar.
            Sou como uma Penélope, mas que nunca desfaz o trabalho realizado ao longo dos dias, mas que vai construindo, dia a dia, noite a noite, um imenso tapete sobre o qual caminhar numa longa e infindável jornada.
Sou um alguém que constantemente olha para trás para poder olhar para mim mesmo, para saber quem eu sou e porque estou ali, naquele momento, naquela condição, para só então olhar para frente, para um pontinho distante, que nem ao menos sei localizar ao certo, nem sei como chegar nem o que tem lá que me atrai tanto, mas que sei que cedo ou tarde, chegarei lá, tendo sob meus pés o chão coberto pelo tapete de memórias que me trouxera até ali.
            Sou assim, bastante sentimental, por mais que esconda tais sentimentos por baixo de uma carapaça grossa que parece, num primeiro momento, intransponível, mas que, na verdade, é tão tênue quanto um véu feito de nuvens. Sou assim, protegido e vulnerável, tentando esconder a nudez da minha alma por trás de um véu translúcido que não esconde nada de ninguém.
            Sou um alguém que ama o abstrato e que por vezes é indiferente ao concreto, que topa numa pedra por não tê-la visto por estar com os olhos voltados para o céu, observando sua imensidão, seu vazio, que mira ao longe e se descuida do que está ao alcance de um suspiro, mas sou, também, um alguém que observa o pequeno, aquilo que ninguém mais vê, que olha uma flor, que percebe o bailar das árvores conduzidas numa suave dança com o vento.
            Sou um alguém assim, multifacetado, difícil de entender, sim, mas ao mesmo tempo extremamente simples de compreender através de meus atos, como uma biblioteca que tem um milhão de exemplares de livros rarocomuns, cada um explicando uma faceta de mim, sendo eu um imenso retalho de vidas vividas ao longo das páginas de cada um daqueles livros ali expostos, estando todos ao alcance das mãos de qualquer um que se aproximar para pegar um livro.

            Sou assim: simples-complexo; um retalho de vidas, de momentos, de vivências, de tempos passados, de presentes sendo vividos e de futuros sonhados; um alguém que sonha com os olhos abertos, que contempla o nada e se perde em devaneios; um alguém que fecha os olhos para poder enxergar melhor; um alguém que é, em sua essência, um solitário, mas que só sabe viver em conjunto, por e para o grupo; um alguém que é como as ondas do mar, em constante movimento, num eterno vai-e-vem, que não sabe se é um nada ou se é um tudo; um alguém que é como um prédio que está em constante construção, subindo andar a andar, pondo tijolo a tijolo de minha própria existência; um alguém que é como uma montanha, que foi formada a partir de um choque de duas placas tectônicas na profundeza das terras e que vive eternamente a subir, subir e subir até que, por fim, um dia consiga tocar as nuvens com as próprias mãos.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Todo mundo tem um pouco da Hannah e um muito dos porquês

No que se refere a filme e seriados, eu sou aquele a que se chama popularmente de herege. Não acompanho lançamentos, não leio críticas dos especialistas, não ligo para aquilo que está sendo comentado, desisto no meio de uma temporada de uma série que começo a acompanhar, enfim, sou uma pessoa não muito legal para se conversar sobre o assunto. Mas não sei por que cargas d’água resolvi começar a assistir os treze porquês.
      Tinha acabado de assistir Orphan Black (não me pergunte por que assisti a essa série. Nem eu mesmo sei. Tentei abandoná-la umas vinte vezes, mas a curiosidade era sempre maior e eu continuava a assistir um capítulo após o outro nas minhas tardes de sábado) e comecei a zapear pelo NetFlix em busca de algo que me chamasse a atenção, algo que fosse diferente e que não fosse tão badalado (curto meio esse negócio de assistir coisas que ninguém assiste). Coloquei umas cinco diferentes séries, com diferentes temáticas, na minha lista, e nesse bolo joguei também Thirteen Reasons Why, logo que a plataforma de streaming a lançou. Na época, ninguém comentava e eu não fazia nem ideia do que se tratava. A sinopse me chamou a atenção e eu resolvi fazer um test-drive.
            Assisti ao primeiro episódio e confesso não ter curtido muito. A ideia era interessante, mas nada que me fizesse, por si só, num primeiro momento, me fazer ficar uma tarde de sábado assistindo vários episódios na sequência. Não gostei do cenário que remete ao estereótipo norte-americano e da pegada meio teen (preconceitos). Deixei a série de lado e fui experimentar outras, vendo se alguma das que estavam na minha lista me agradava mais. Nesse meio tempo, entre o meu primeiro contato com a série e a minha indecisão sobre que série acompanhar, houve uma verdadeira enxurrada de comentários em tudo quanto é site e redes sociais sobre “aquela série que fala de bullying e suicídio”. Minha timeline do facebook estava simplesmente tomada por artigos diversos, tanto elogiosos quanto de pessoas desaconselhando a série, e por muitos, muitos e muitos alunos comentando. A primeira coisa que me veio à mente quando vi tanta gente acompanhando e comentando foi a de abandoná-la imediatamente e retirá-la da minha lista.
            Passados alguns dias, e eu não tinha escolhido ainda que série assistir/ acompanhar, resolvi, como quem não quer nada, dar uma oportunidade aos 13 porquês, para ver havia ali ao menos um para que eu a mantivesse na minha lista.
            Completamente armado, repleto de preconceitos, assisti ao segundo episódio e a primeira impressão foi levemente amenizada, mas nada que me fizesse ter aquela baita vontade de assistir vários episódios um após o outro. Fato é que aquele segundo episódio me fez ao menos prestar um pouco de atenção aos personagens, aos tipos humanos e aquele mundo de escola.
            Como quem não quer nada, mas agora já querendo alguma coisa, comecei (agora sim!) e acompanhar a trama e aos dramas dos personagens quando assisti ao terceiro capítulo, e dali em diante comecei a assistir um a um os episódios, vendo-os devagar, em doses homeopáticas, tentando compreender o psicológico dos personagens, tentando entender cada um daqueles porquês.
            Assisti sem pressa, acompanhando o ritmo daquele que escutava paulatinamente as fitas deixadas por Hannah, tentando entender o que se passava não só na alma da atormentada suicida, mas também na dele e na de cada um dos rapazes e moças que apareciam nos capítulos daquela história. Fui, aos poucos, me envolvendo com a trama, sem o afã de uns ou o olhar demasiado crítico de outros.
            Quando terminei o último capítulo, fiquei alguns minutos em silêncio, digerindo tudo aquilo que tinha assistido nas últimas semanas, revendo como cada personagem se encaixava naquela simples e complexa trama, procurando entender o tormento que afligia cada um.
            O seriado, no geral, não é para ser endeusado e alçado ao posto de “melhor série de todos os tempos”, como alguns jovens estão fazendo, mas também não deve ser demonizado e desaconselhado, como alguns “críticos especializados” e “psicólogos” se lançaram numa cruzada para “livrar os jovens do mal – amém”. Mas esses extremismos são provocados, na minha opinião, pela leitura errada que está sendo feita da série. Estão se atendo só e exclusivamente a duas questões que estão mais em evidência, o bullying e o suicídio, mas esquecendo de algo primordial que permeia toda a série: a questão humana.
            Os treze porquês me chamou a atenção por ser uma série extremamente humana, que trata de questões a que pouco damos a devida atenção com rara sensibilidade, sem deificar nem demonizar um lado nem outro, sem criar heróis nem bandidos, retratando com realidade mais do que o ambiente escolar, mas muitas das nossas relações interpessoais.
            A série é um grito humano de dor, de solidão, de incompreensão, da maneira como somos plurais na maneira como sentimos cada coisa que nos é feita, como somos, por vezes, cruéis e inconsequentes em nossos atos, como somos covardes e frágeis, por mais que tentemos nos esconder sob a proteção de uma aparentemente intransponível armadura/ carapaça. Quantos de nós somos Hannah? Quantos de nós somos, sem nem ao menos saber e sem qualquer intenção de sê-lo, um dos porquês?
            A série mostra isso ao longo dos 13 episódios: como somos sensíveis como Hannah; como somos excluídos como Tyler; como somos “aluados” e não sabemos ler sorrisos como Clay; como não vemos os dramas o que há por trás do sorriso de Justin, sendo insensíveis à sua dor; como não conseguimos nos aceitar como Courtney; como somos bem-intencionados, apesar de nossa arrogância, como Ryan; como não conseguimos ver pessoas como Skye; como somos insensíveis e não percebemos os sinais que os outros não dão, como fez Sr. Porter; ou como somos cada um dos demais personagens da série.

            A série Os treze porquês não deve, de forma alguma, ser desaconselhada, pois retrata muito bem muitas de nossas relações humanas, e o faz com notável sensibilidade, mas precisa ser melhor discutida, para que se abra o leque de leituras e interpretações com o intuito de que não se foque só e unicamente em questões como suicídio, mesmo porque, para que uma pessoa chegue a tal extremo é preciso se entender um pouco de sua psicologia, suas motivações, suas dores, sua sensibilidade e suas forças, mesmo porque o seriado não fala de morte, mas sim de vidas.

terça-feira, 21 de março de 2017

Salvo por São Visa

Ontem eu recebi um sinal vindo do céu.
Estava eu andando pelo shopping quando resolvi ir à livraria (uma livraria que tinha de tudo: games, revistas, material de papelaria, celulares... tinha até livros!). De repente paro em frente à mesa de celulares e comecei a olhar um, olhar outro, analisar um terceiro, pensar na possibilidade de adquirir um quarto, etc. Olhei para o meu celular, que já está cansado após cerca de três anos de uso e comecei a pensar em comprar um novo. Mas dai veio a dúvida "estou realmente precisando e posso comprar um celular novo?". Fui almoçar remoendo a dúvida cruel.
Após o almoço, voltei à livraria e continuei pensando no celular, ainda na dúvida sobre qual comprar, se REALMENTE precisava comprar e SE PODIA comprar.
Mesmo em dúvida sobre a necessidade da aquisição de um celular novo, resolvi me dar ao luxo. Escolhi um modelo deveras interessante, com mil e um recursos (tinha tantos recursos que até fazia e recebia ligações – coisa rara nos celulares de hoje em dia!) e fui ao caixa. Na fila do caixa, ainda estava com dúvida sobre a real necessidade de comprar o celular (o meu Microsoft 535, afinal de contas, ainda não está quebrando o galho?). Quando o caixa me chamou, foi com um peso no coração e na carteira que entreguei ao atendente o pedido de compra.
Na minha cabeça, enquanto ele registrava o pedido, eu rezava, mas sem saber pra nem, se para a compra passar ou não. Quando ele inseriu o cartão na maquineta, eu quase choro, pedindo mais alguns meses para pensar. Enquanto digitava a senha, era com um enorme pesar que eu pressionava as teclas. Quando o caixa olhou pra mim e disse que a compra não tinha sido autorizada, pude, enfim, soltar o ar que estava preso nos pulmões. Expirei aliviado, entendendo e sentindo que o céu tinha me enviado uma mensagem através de seu anjo-demônio São Visa, dizendo para eu não comprar o dito celular.
Enquanto guardava o cartão de meu Santo Salvador na carteira, o cartão do Demônio da Tentação, São Master, que em outros tempos fora um Anjo que acabou caindo nos pecados do capital, começou a me tentar. Mas fui mais forte, não caindo na tentação oferecido pelo Demônio São Master, ouvindo o sábio conselho de meu Santo Protetor.

Sai da loja sem o celular novo, mas feliz por não ter comprado algo sem necessidade, afinal de contas, o meu 535 ainda funciona bem...

domingo, 1 de janeiro de 2017

O nascimento do jardim-floresta

Eles vinham caminhando lentamente, como que contando os passos e não se olhavam, mas tinham plena consciência um da presença do outro, comunicando-se apenas pelo suave toque de suas mãos.
            O sol já havia iniciado sua trajetória descendente quando pararam. Ao redor não havia nada vivo e tudo era completo silêncio, não se ouvindo nenhum som trazido pelo vento. Ele então se virou para ela e segurou suas duas mãos.
            - É aqui. Eu sinto que é aqui! – disse ele, com os olhos repletos de ternura.
            Ela também havia sentido a mesma certeza que ele.
            Aproximaram-se um do outro e ele depositou-lhe um suave beijo nos lábios e lhe entregou e diminuto e precioso bem que trazia consigo. Ela recebeu a pequenina semente, passou a ela o beijo que ele havia lhe dado, agachou-se lentamente e com as mãos cavou um pequeno buraco onde a guardou. Cobriu com lençóis de terra a semente e a regou com lágrimas de alegria e ternura.
            Durante curtos-longos meses, eles vieram todas as manhãs, junto com os primeiros raios de sol, ao local onde repousava o seu tesouro. Não chovia, não havia água para regar o solo, mas ela sempre chorava de ternura e suas preciosas lágrimas umedeciam o chão e transmitiam toda a força de que a pequenina semente necessitava para crescer.
            Eles tinham pressa para vê-la despontar naquela terra, queriam tocá-la com delicadeza, sentir o toque de seda de sua folha-pele, um pequenino broto, mas sabiam que ela tinha seu tempo e abriria seus olhos e despontaria para o mundo no seu devido tempo, nem mais cedo nem mais tarde um único dia, que no dia que abriria os olhos e os braços, o som de sua voz, de seu riso, anunciaria a sua chegada.
            Após tão longa espera, quando eles chegavam de mãos dadas, que viram ao longe algo diferente na terra, algo pequenino-gigante, apertaram a mão um do outro e correram em direção àquela por quem tanto ansiavam a chegada. A pequenina planta, que mesmo com sua fragilidade havia rompido com imensa força a terra que a cobria, sorriu para aqueles que a contemplavam, e seu sorriso anunciava a primavera que se iniciava.
            Aquela pequenina planta cresceu rápido e logo proporcionou a todos uma gostosa sombra onde todos podiam se abrigar. Não cresceu muito em altura, mas em generosidade e ao seu redor foram depositadas outras sementes que foram igualmente regadas com ternura, mas agora protegidas pela sombra daquela primeira árvore que crescia dia a dia.
            O silêncio que antes havia era quebrado todas as manhãs por uma revoada de pássaros que vinha se abrigar e voar em torno das árvores daquela floresta-jardim que se multiplicava aos poucos sob a proteção e amor dos dois jardineiros, que aos poucos foi deixando que o jardim crescesse por si só.

            O jardim cresceu, e muito, sobre a sombra de frondosas árvores, que acolheram seus jardineiros e a forma como a primeira árvore encontrou para agradecer-lhes foi dando-lhes o primeiro fruto para que eles cuidassem e para que ele quando plantada a sua semente e crescesse, pudesse cuidar deles.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Balanço anual de leitura - 2016

Todo início de ano, como milhões de pessoas fazem ao redor do mundo, eu também traço planos e metas para serem cumpridas ao longo dos 365 dias que estão por vir, no entanto, diferente da maioria das pessoas, eu traço planos e metas de leitura.
            Tudo bem que, como todo mundo, eu traço planos mirabolantes e metas impossíveis de serem alcançadas, como algo do tipo Ler 200 livros ou Iniciar a leitura de Ulysses, mas pelo menos eu corro atrás dos 200 livros, embora sabendo que nunca vou alcançar tal marca, já quanto a Ulysses... Tenho o livro há mais de dez anos e só o abri uma vez para ver como era ao menos seu início, e vendo que não estou preparado para empreender tal leitura, o fechei imediatamente.
            Foi, no fim das contas, 2016, apesar de ser um ano trevoso em muitos aspectos, imensamente feliz no que tange à minhas leituras. Não consegui bater a meta dos 200 livros, mas li 47 (e nesse ano, pela primeira vez, contei a quantidade de páginas e cheguei a marca de quase 11.000!), e nunca um ano foi tão bom e me ofereceu momentos de êxtase literário tão intensos, fazendo com que eu, como leitor, me perguntasse onde foi e em que mundo eu vivi para não ter lido aquele livro ainda! Livros que me deixaram angustiados, que me tocaram fundo na alma, que me abriram os olhos, aguçaram a minha sensibilidade, que me fizeram rever certos conceitos, que me ensinaram muito sobre a vida, o universo e tudo o mais...
            Se em anos anteriores foi difícil listar os livros destaques entre as leituras empreendidas ao longo do ano, nesse ano de 2016 foi difícil listar só alguns, pois foram tantos que eu, hoje, dia 31 de dezembro, olho para trás, para todos os livros lidos desde o início do ano, e respiro aliviado dizendo mentalmente um “que ano bom...”.
            Em 2016, como já é tradição minha, iniciei o ano lendo uma obra referência na literatura mundial, de relevância para a tradição de seu país. Meu primeiro livro foi O Mestre e Margarida, do russo Bulgákov e o último, O Idiota, do também russo Dostoievski. Entre esses dois, li muitos clássicos das mais diversas tradições literárias. Li A Letra Escarlate, de Hawthorne, Gargântua, de Rabelais, Eugênio Oneguin, de Pushkin, O Avarento, de Molière, Memórias do Subsolo e Gente Pobre, de Dostoievski, Águas Primavera, de Turgueniev, Cândido, de Voltaire, Esperando Godot, de Beckett, Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, entre outros tantos clássicos da literatura mundial. Isso fora as adaptações em quadrinho de grandes obras que li. Ou seja, no que se refere à leitura de clássicos, meu ano foi magnífico. Dos quadrinhos baseados em grandes clássicos da literatura, destaco a leitura dos brasileiros Grande Sertão: Veredas e Vidas Secas, obras magníficas que foram primorosamente adaptadas para a linguagem dos quadrinhos, resguardando a sensibilidade das obras originais sem contudo ter um toque de originalidade. Dos baseados em obras de literatura estrangeira, destaco Oliver Twist, que me deixou tão fascinado que resolvi ler a obra na íntegra no início de 2017.
            Dos contemporâneos e do século XX, tive grandíssimas surpresas, descobrindo obras estupendas.  Não saberia dizer qual livro me fascinou mais: se Tirza, de Grunberg, ou Stoner, de John Williams; qual me encantou mais: se A Última Estação, de Parini, O Olho de Vidro do meu avô, de Bartolomeu Campos de Queirós, ou se Extraordinário, de R. J. Palacio (este último capaz de nos fazer rir em chorar em questão de parágrafos); qual o mais sensível no trato a temas duros: se Uma História de Solidão, de John Boyne, ou A Vida em Tons de Cinza, de Sepetys; qual, dentre os contemporâneos já consagrados, qual o mais forte, intenso e magnífico: se Desonra, de Coetzee (autor laureado, inclusive, do Nobel de Literatura), Hibisco Roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie (nigeriana que vem se destacado no cenário literário e como uma das mais atuantes feministas da atualidade), ou A Balada de Adam Henry, de Ian McEwan (um dos mais importantes autores britânicos contemporâneos); ou qual quadrinho mais me fascinou: se Maus, de Spiegelman, ou Três Sombras, de Pedrosa.
            Alguns livros que li, é bem verdade, me decepcionaram um pouco, como O Senhor das Moscas, de Golding, e não gostei tanto de O grande Gatsby, de Fitzgerald, mas nada que chegasse a macular o meu magnífico ano de leituras.
            Em 2017, que é daqui a pouco, espero ter um ano tão repleto de descobertas literárias quanto foi o meu 2016. 

sábado, 26 de novembro de 2016

Fim de um ciclo e início de outro

Nos últimos onze anos e meio, entre 13 de abril de 2005 e hoje, 26 de novembro de 2016 (período que fora interrompido apenas entre 19 de outubro de 2015 a 02 de junho deste ano), eu vivi intensamente uma profissão, tomando-a não como minha “profissão”, como meu “ganha pão”, mas assumindo-a como minha verdadeira função. Fui não só um profissional, mas um homem, que sempre disse abertamente que amava o que fazia e fazia o que amava.
Fiz tudo o que podia pelas livrarias em que trabalhei (Siciliano, Saraiva e Leitura), ajudando no crescimento de cada uma dessas empresas. Mais do que fidelizar clientes, enquanto atuei na área, cativei leitores, construindo uma relação de respeito, confiança e admiração por cada uma daquelas pessoas que adentrava pelo mágico portal da livraria. Cada palavra trocada com leitores, entre as mesas, em frente às estantes, era uma palavra enriquecedora, era única e podia até não ser necessariamente sobre literatura (mas de uma forma ou de outra, em algum momento, aquela conversa iria acabar num livro). Trocar impressões e sensações que a leitura de tal livro nos causou era o ponto alto de cada conversa, o momento mais prazeroso de cada dia.
Fiz inúmeros amigos que carregarei até o fim de minha vida. Amizades intensas, verdadeiras, eternas, tanto aqueles com quem tive a imensa honra e grande prazer de trabalhar, quanto aqueles com quem me perdia numa prazerosa conversa.
Fiz tudo isso e muito mais, e se eu tivesse que viver a minha vida novamente, faria tudo exatamente igual. No entanto, a vida é repleta de ciclos, de momentos, de desafios, e o meu ciclo na livraria, trabalhando, seguindo a rotina, já vinha chegando ao fim. Não foi um fim súbito, nem foi algo como um amor que se apaga, uma paixão que esmorece, pois carregarei esse amor e essa paixão por minha profissão e pelos ambientes em que trabalhei para o resto da vida, mas sim algo natural, algo que chegou sem estardalhaço, como uma sementinha que fora plantada e regada lentamente, gota a gota.
Desde 2014 eu me descobri professor, e minha paixão por literatura se expandiu, vendo que podia atuar em outra área de forma conjunta à livraria. Dei aula naquele ano, intensifiquei as palestras ministradas nas escolas e em cada oportunidade que tinha para falar para várias pessoas no ambiente da escola eu me encontrava mais e mais; em cada vez que punha os pés numa escola me sentia mais e mais em casa.
Em 2015, ministrei o primeiro curso de literatura, experiência esta que me serviu para ver e sentir que ali, na frente de uma sala de aula, eu me sentia bem, à vontade, perfeitamente integrado. Em 2016, um novo módulo do curso foi oferecido e percebi que o meu ciclo em livrarias estava chegando ao fim, que migrar para o ambiente escolar era só uma questão de tempo.
Em meados deste ano voltei a trabalhar numa outra livraria, recebi uma oportunidade na Leitura e atendi ao chamado após ter ficado um tempo ausente no mercado de trabalho (logo após a demissão da Saraiva). Voltei a trabalhar como sempre trabalhei nessa nova empresa: com imensa paixão, dando o meu melhor, ajudando no crescimento da livraria.
Paralelo ao trabalho na Leitura, as palestras ministradas em escolas se intensificaram ainda mais (acontecendo toda semana, toda quarta-feira para ser mais preciso, e por vezes até duas vezes num mesmo dia!), e em cada escola que eu visitava, eu sentia que aquele ambiente me chamava, e cada vez que eu saía de uma escola, olhava para trás para dizer um “me espere só mais um pouquinho”. Durante essas vivências nas escolas, passei a ver pontos positivos e onde podia atuar para buscar melhorias não só para a instituição, mas principalmente para os alunos.
A semente que fora plantada passou a ser regada abundantemente.
Junto com amigos, fomentamos e criamos o projeto Semear Livros, e comecei a me sentir mais e mais atraído pela ideia de ficar, de uma vez por todas, numa daquelas escolas. Comecei a sondar amigos a fim de conseguir uma vaga para trabalhar como professor ou em outra função, desde que estivesse intrinsecamente relacionada à educação, desde que eu passasse a habitar aquele ambiente mágico chamado escola.
Eis que numa conversa, na última quarta-feira, com meu amigo Josiberto Rego, quando falamos justamente sobre o meu desejo de ir para escola, ele me fez propostas. Disse que tinha vaga para professor, sim, mas que tinha em mente “algo mais legal e importante”, uma função na qual eu poderia fazer algo maior em prol dos alunos, desenvolver meus projetos, ser e atuar como idealista que sou. Pediu apenas um ou dois dias para organizar umas coisas, para só então ele fazer a “proposta formal”. Na última quinta, dia 24, quando chegava em casa, por volta das 22h, meu celular toca. Era Josiberto. Mal eu disse “alô”, ele já soltou de supetão, já fez a proposta “irrecusável”: trabalhar na diretoria pedagógica do Colégio CDF. Nem no meu momento de maior insanidade havia pensado em algo daquele tamanho, daquela importância, em enfrentar um desafio de tal tamanho!
Tivemos uma conversa longa e séria, em que ele me explicou os processos, as ideias que ele tem para a escola, o que espera de mim, etc.
Como disse, a proposta era irrecusável, e por diversos motivos. Era algo do tipo “pegar ou largar”, e eu a peguei, já mergulhando de corpo e alma nela, assumindo minha função antes mesmo de ocupar o cargo.
Não foi fácil viver os últimos dias. Quase não dormi, tamanha a ansiedade que sentia pulsar na minha cabeça, no meu peito e em todo o meu corpo.
Não foi fácil anunciar a minha decisão de sair da livraria ao gerente, às coordenadoras, não foi fácil me despedir das pessoas com quem trabalhei nos últimos meses, não foi fácil olhar para cada canto daquela livraria uma última vez, dizendo “voltarei aqui, sim, mas em outra posição, não mais como vendedor, mas como cliente, pois estou de mudança, minha casa será outra daqui a pouco”.
Fiz tudo que estava ao meu alcance, sim, pelas livrarias onde trabalhei, volto a dizer. Não fiz, é bem verdade, tudo o que gostaria e poderia ter feito e tenho orgulho do que fiz, mas lamento imensamente pelo que ainda poderia ter feito. Mas mesmo com o não feito, sinto imenso orgulho pelo que alcancei nos últimos onze anos e meio, e agora chegou o momento de fazer mais em outra área.
Fiz muito pelas empresas, pelas livrarias e principalmente pelos leitores, e agora chegou o momento de fazer pela escola, pela educação e principalmente pelos alunos, pelos indivíduos.
Chegou o momento de encarar novos desafios, que não serão nada fáceis, mas que me sinto, mais do que nunca, preparado. Lutarei batalha a batalha, dando sempre o meu melhor, atuando não só com profissionalismo, mas com extrema paixão.

sábado, 15 de outubro de 2016

Todo professor é louco!

Todo professor é meio maluco. Meio maluco não, completamente maluco, um ser inteiramente insano, um alguém com parafusos soltos e em falta mesmo. Mas não se trata de uma loucura à toa, mas sim consciente, de um alguém que ouve mais do que outras pessoas, e prova disso é o fato dele ter ouvido um chamado, uma voz que vinha lá de longe, e que ele, mesmo sem distinguir o que dizia, entendeu os sentidos do som e, louco como é, agarrou a profissão e mergulhou nela de corpo e alma.
            A loucura de ser professor é uma coisa que deveria ser estudada seriamente por Freud ou por algum neurocientista, filósofo, psicólogo, sociólogo ou por algum estudioso de uma outra área, pois não existe nada que explique o fato desse maluco querer se dar tanto a uma profissão tão estigmatizada, que tem que conviver com, muitas vezes, tão precária estrutura, tão pouco valorizada pelos poderes públicos, por parte da sociedade e até por (pasmem) gestores da educação. E mesmo sabendo de tudo que lhe espera, o insano, ainda assim, sorri, e vai através de sua vocação, o que só se explicaria através de uma palavra: sádico. Isso mesmo, sádico!
            Todo professor-maluco é meio sádico, pois ele parece encontrar um imenso prazer naquele sofrimento que aquela profissão lhe inflige. Acordar cedo, quando todos em sua casa estão dormindo, para estudar mais um pouco para ministrar uma boa aula; passar finais de semana preparando aula, quando todo mundo saiu para passear, para curtir uma praia ou um cinema; passar noites em claro elaborando prova, corrigindo prova, organizando caderneta... Só sendo um completo sádico em encontrar prazer nisso tudo!
            Mas sabe por que o professor faz isso tudo? Porque ele ama o que faz e faz o que ama.
            Por mais que uma parcela da sociedade diga que ele não vai ser reconhecido, por mais que alguns gestores não façam o menor esforço em valorizar seu trabalho, por mais que o seu salário fique aquém de seu esforço e dedicação, por mais que tenha que sacrificar suas noites de sono, finais de semana e feriados para preparar aula, prova e organizar cadernetas e outras coisas mais inerentes à sua função, ele vai fazer tudo isso com um sorriso no rosto. Sua expressão pode até estar cansada, seu corpo poder até estar exigindo descanso, mas sua alma está leve, seu olhar demonstra determinação e amor por aquilo que faz e seu sorriso estampa a imensa satisfação que tem em poder dizer que é professor, e ele faz isso com imenso orgulho.
            O professor faz isso tudo não necessariamente por que ele escolheu tal profissão, mas por ter sido escolhido por ela, e ele, honrado, atendeu ao chamamento, e ele assim o fez motivado por um imenso amor, por ser um incorrigível idealista, por acreditar, ainda que tudo diga o contrário, que a educação é a chave de tudo, e ele quer ser um instrumento naquele trabalho que é mais do que formar um estudante, que é mais do que passar conteúdo, mas formar o indivíduo, formar o humano.

            O mundo ai fora pode estar louco (vemos loucuras sendo cometidas a torto e a direito a todo instante – loucuras que dão ibope, que, tenho a impressão, são orgulhosamente ostentadas), mas para nos proteger dessa loucura temos super-heróis que, munidos de suas loucuras, abraçaram uma causa e que fazem o possível e o impossível para, de alguma forma, ajudar na remediação, de salvamento do mundo, e para isso eles mergulham fundo e iniciam esse processo lá na base, ainda na infância, ensinando os pequeninos a usar uma arma mais poderosa, não de destruição em massa, mas de salvação individual (quiçá em massa, vá...) chamada Educação.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Voltar a ser menino

Eu queria voltar a ser menino, nem que fosse por cinco minutos em minha vida. Queria simplesmente ser menino, esquecer das coisas facilmente como só os meninos esquecem e manter vivas, na memória, outras. Queria não ter preocupação alguma, responsabilidade com nada, viver só e unicamente para mim, para aquele momento, e só. Queria poder ver a chuva caindo lá fora e não a temer, não me preocupar com ela; simplesmente poder abrir a porta de casa e sair, tomar um bom, revigorante e sempre rejuvenescedor banho de chuva. Eu queria voltar a ser menino para isso tudo, mas também para muito mais.
Queria poder ser livre, rir com um nada, brincar com um tudo, queria simplesmente viver. Queria ficar por uns instantes com a cabeça tão longe, pensando em algo que está tão perto. Queria poder me sentir como um pássaro no alto de uma árvore, colher uma fruta madura direto do pé e sentir o seu sabor doce como a vida. Queria poder brincar com um cachorro, correr atrás dele, depois deixar que ele me perseguisse numa corrida louca e desenfreada pela rua. Queria poder soltar pipa, jogar biloca (também conhecida como “bolinha de gude”), chupar confeito, mascar chiclete e me deliciar com outras tantas guloseimas. Queria poder ficar descalço, jogar futebol na rua, arrebentar-me inteiro numa queda de bicicleta e, quando ouvir minha mãe chamar, gritar um “já vou”.
            Eu queria voltar a ser menino simplesmente para brincar, para correr, para esconder-me e para achar-me, para ser o que eu era, para ser o que sempre fui e que nunca deixarei de ser – simplesmente menino.
            Eu queria voltar a ser menino para brincar na rua, para ter de volta, nem que fosse por um curto instante, medo do escuro à noite, medo dos trovões em noite de tempestade. Queria poder acordar de madrugada nessas noites escuras, frias e chuvosas e ir bater à porta do quarto de meus pais e pedir para dormir naquela cama enorme, entre meu pai e minha mãe, debaixo daquele cobertor, que estava sempre quentinho.
            Eu queria voltar a ser menino para, ao fechar os olhos, não pensar em nada, e ter, simplesmente, uma boa e longa noite de um sono reparador, que me deixaria pronto para o dia seguinte repleto de coisas novas, de novas, velhas e conhecidas brincadeiras.

            Eu não quero, não posso, nunca em minha vida, deixar de ser menino, porque deixar de ser menino é esquecer todos os maravilhosos momentos que vivi, que não voltarão nunca mais, que vivem eternamente em minha memória e só lá eu posso, sempre, voltar a ser o que sempre fui: um eterno menino.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Semear livros, cultivar leitores

A literatura é uma das mais democráticas expressões estéticas e artísticas, podendo ser apreciada, sem qualquer espécie de distinção, por leitores de todas as idades, nacionalidades, sexo, credo, classe social, cor, ideologia ou qualquer outro caractere distintivo. É tão plural e fantástica que existem livros para cada momento de nossas vidas, para cada estado de espírito que estamos atravessando. 
Se estamos tristes, há livros capazes de nos fazer sorrir, de levantar o nosso astral; se estamos felizes, há obras capazes de expandir e maximizar ainda mais a nossa felicidade; se estamos cansados, há aquele livro que é capaz de nos aliviar o peso opressivo que recai sobre nossos ombros; se estamos passando por um momento deveras difícil, sem saber nosso lugar no mundo, há aquelas obras de natureza reflexiva capazes não de nos dar respostas, mas ao menos de nos fazerem abrir os olhos, de nos orientar quanto a um caminho que possamos seguir; se buscamos inspiração, tem sempre um livro capaz de aguçar nossa sensibilidade; se buscamos um mero entretenimento, uma leitura leve, algo que nos ajude a apenas passar o tempo, há também inúmeras obras capazes de nos ajudar; se buscamos informação, há; se estamos à procura de ampliar nossos horizontes, de conhecimento, de instrução e formação, é a literatura a que recorremos; e se buscamos, acima de tudo, algo capaz de contribuir substancialmente na nossa formação humanística, é na literatura que encontramos a fonte da qual bebemos a água capaz de saciar a nossa sede de conhecimento, que nos acalma e que gentilmente assenta, tijolo a tijolo, os muros e pontes da nossa construção intelectual... 
São tantos “se” que tem na literatura uma resposta, uma fonte, um refúgio, que poderíamos nos estender até o fim dos tempos. A literatura é tão plural e extraordinária que até os que não têm amplo domínio da palavra escrita e falada se calam para ouvir as histórias e contemplar as imagens que saltam das páginas dos livros nas gravuras multicoloridas e nas melífluas palavras de um contador de história. 
Cada literatura, no entanto, há o seu devido tempo para ser semeada, cultivada, dia a dia, livro a livro, para ser colhida e devidamente saboreada. Pensando nisso e sabendo da nossa missão, sabendo do quão importante é o acesso à literatura nas mais diversas fases de nossa vida, principalmente naquela de formação de identidade e consciência, criamos o projeto, a ação #SemearLivros, que tem como objetivo Cultivar Leitores, que visa levar a literatura a alunos de escolas da rede pública de ensino. Muitas vezes, as escolas possuem um acervo deficitário em algumas áreas, e nós, muitas vezes, possuímos aqueles livros que ficam fechados, guardados nas nossas estantes, livros que não serão mais relidos e que clamam por vida nas mãos de novos leitores. Os livros foram feitos para serem lidos, para ganharem e darem vida a cada leitor que mergulha em suas páginas; e livros parados, fechados, são livros mortos, meros objetos; abertos, eles são como o guarda-roupa de Nárnia, que nos transportam para outro e fantástico universo. Aproximemos, então; abramos as múltiplas portas dos guarda-roupas de Nárnia para aqueles que anseiam por eles atravessar, para os que desejam crescer, abrir os olhos e se deleitar com a extraordinária arte-das-letras do mundo literário.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Carta aberta à Saraiva

Hoje estou ferido de morte. Justo eu, que tanto resisti a tantas pancadas, a tantos ferimentos, agora me entrego, pois olho para o céu desesperançado e o vejo negro.
O ferimento que eu sofri foi muito profundo e por ele escorre não o sangue pouco a pouco, mas corre aos borbotões, tirando-me uma das coisas para as quais tanto me dei, a qual, com tanto amor ajudei a construir: minha casa. O ferimento não me foi afligido de forma justa, mas me foi dado pelas costas, de forma vil, quando não estava preparado. O golpe por si só não me afetaria, não me feriria de todo, pois sou feito de ferro forte e seria capaz de logo “esquecer”, de me reerguer rapidamente e tocar a vida como sempre a toquei, mas acontece que esse golpe foi desferido contra amigos e alunos, sendo injusto para com estes, e injustiça é algo que eu não tolero.

Trabalhei durante dez anos e meio na livraria, começando na Siciliano (no tempo da franquia) e o tempo entre novembro de 2011 e outubro de 2015 já na Saraiva como responsável. Ouso dizer que ali construí uma casa feita não tijolo a tijolo, mas livro a livro, atendimento a atendimento, cliente a cliente, fazendo amigos e companheiros de leituras com quem trocava impressões e sensações das obras lidas. Ali, naquela livraria, passei a maior parte do meu tempo durante mais de uma década; ali passei meus aniversários, ali trabalhando perdi festas da família porque, devido a meu comprometimento e responsabilidade para com a empresa, não podia faltar ao trabalho; ali trabalhei doente, por vezes sem condições físicas ou psicológicas, sofrendo com dores nas costas ou no joelho, independente do dia da semana ou horário. 
Talvez alguém pode vir a me perguntar se me arrependo, hoje, de tanto ter me dado, de tanto ter amado aquele lugar. Eu respondo com convicção e leveza na alma de que não. Não me arrependo em nada do que fiz e como fiz, e o fiz não pela empresa (jamais faria o que fiz por empresa alguma), mas pela livraria, pelo que aquele ambiente significava para mim e, acima de tudo, pelos leitores que lá frequentam, pelos amigos que fiz e pelos clientes (fidelizei bem poucos clientes, diga-se de passagem, pois as pessoas que eu atendi ali, eu não as via como clientes, mas como leitores, como pessoas que buscavam algo mais que um produto para comprar, buscavam ali livros).
Amei aquele lugar e ainda amo o que ele representa para mim, mas mesmo com tanta dedicação, dali fui posto para fora no ano passado, e isso foi um golpe baixo, vil, mas eu entendi e encarei aquilo com positividade, pois estava por demais acomodado e precisava dar uma guinada na minha vida, buscar novos ares, e assim o fiz, descansando meu espírito, trabalhando em outras coisas, cultivando outros sonhos e me joguei de cabeça na carreira, com todo o amor que reside em meu peito, na carreira de professor e fomentador de literatura.
Essa carreira de professor de literatura começou pra valer, de forma mais efetiva, no segundo semestre do ano passado quando organizei, junto com minha esposa, o curso Panorama da Literatura Ocidental. O curso, um antigo projeto meu, veio a atender aos pedidos de muitos amigos, leitores e clientes da livraria, que queriam um programa sistematizado sobre alguns dos principais autores da Literatura Ocidental, um curso que pudesse responder questões do tipo “quem e por que ler?”. Quando organizei tudo, que montei o projeto, apresentei-o à Saraiva, explicando as vantagens para a empresa, que tinha muito a ganhar explorando o programa, a ideia, etc., e eu só pedi em troca a autorização de utilizar o espaço do auditório. Passei semanas e meses a fio argumentando, mostrando as vantagens, e recebi, durante muito tempo, apenas o silêncio como resposta da empresa (resposta padrão da empresa). Chegou um momento em que eu precisava de uma definição imediata, pois precisava começar as inscrições do curso e as pessoas estavam expectantes quanto às aulas. Mandei inúmeros e-mails, mais uma vez, fazendo mil e uma propostas e me predispondo até a pagar pela utilização do espaço. Sabem qual foi a resposta da Saraiva (quando eles finalmente dignaram a me responder)? Não! Isso mesmo. Não! O espaço do auditório estava vetado para mim e como justificativa deram respostas vagas.
Na época fiquei muito chateado, pensando em cancelar o curso (já havia realizado as matrículas de vários alunos/amigos), mas surgiu uma solução graças à intervenção de amigos (eu sou uma pessoa muito rica de amigos. Se me falta riqueza material, me sobram os amigos, o que vale muito mais do que ouro, diamante, carros de luxo e imóveis luxuosos). Consegui um espaço para a realização do curso e tudo transcorreu magnificamente bem.
Dai aconteceu que fui demitido e algumas coisas vieram à tona, entre elas o motivo de eu não poder ter utilizado o espaço do auditório. Explicaram-me que o veto partiu só e unicamente de uma pessoa, que disse que assim o procedeu porque “não queria confundir as coisas, o profissional com a pessoa (comigo)”! Como assim? Eu, que sempre fui profissional, que nunca confundi as coisas, que sempre agi de forma ética e responsável, confundir as coisas? Respirei fundo para não explodir, para não perder a razão e deixar que a emoção falasse mais alto. Tal pessoa, agindo agora como bom-samaritano, agora que eu não mais fazia parte da empresa, para mostrar como era justo, ético e correto, agora abria o espaço para que eu pudesse fazer ali meus cursos, não só aquele que já estava em andamento, mas futuros cursos!
Eu sou calmo por natureza e, por mais orgulhoso que seja, sei respirar fundo e aguentar certas coisas que poucas pessoas são capazes de aguentar (quem me conhece sabe muito bem disso), e aceitei as desculpas (aceitei mesmo, não guardando qualquer tipo de ressentimento).
O tempo passou, o curso foi finalizado, comecei a desenvolver mil e uma atividades, até que meus amigos/leitores/alunos (todos clientes da Livraria Saraiva, diga-se de passagem) começaram a me pedir para realizar um novo curso, com uma nova proposta, uma vez que a experiência do semestre anterior fora tão proveitosa e enriquecedora para todos. Assim, desenvolvi, novamente junto com minha esposa, o projeto, apresentei a proposta do curso para os leitores sedentos de conhecimentos literários e o mostrei à Saraiva (agora as portas da livraria estavam abertas para mim), para saber se poderia utilizar, como me fora prometido, o espaço do auditório. Aconteceram alguns contratempos, sim, mas tudo foi acertado sem maiores dificuldades, e só iniciei o curso porque recebi, agora, o aval da empresa. Reservei as datas e horários com bastante antecedência, tudo de forma meticulosa e organizada (como são minhas coisas), abrindo não um curso, dando apenas prosseguimento à turma anterior, mas dois, para que novos alunos/leitores pudessem usufruir das experiências e conhecimentos que compartilharíamos em cada aula.
Tudo correu perfeitamente bem até que ontem à tarde, quarta-feira, dia 06 de julho, recebi um estranho e-mail da parte da Saraiva “solicitando/comunicando gentilmente” o cancelamento do curso, rompendo, de forma abrupta, a parceria com a livraria. 
Li aquele e-mail duas, três, dez, quinze, um sem-número de vezes para entender o que ele dizia! Depois de entender o que ele significava, às vésperas do fim do curso (quando faltam apenas três encontros/aulas), respondi-o em busca de uma justificativa para aquela decisão insensata, injustificável. Recebi como resposta um polido e-mail falando em mudanças de planos, em “mudanças na parceria” e agradecendo a minha “compreensão”! Compreensão? Quem foi e estava sendo compreensivo? Eu é que não! Mandei imediatamente um outro e-mail chamando-os à razão, explicando a insensatez do cancelamento do curso, da proibição da utilização do espaço da livraria (que havia sido reservado desde o início do ano – e eu só o ofereci porque tinha onde realizá-lo, porque tinha o aval da empresa). Mandei, também, outro e-mail explicando não a minha situação como professor, como responsável por um curso sério, mas a dos alunos, leitores, que são clientes da livraria, que compram muitos livros ali. Sabe qual resposta recebi? O silêncio (padrão Saraiva de resposta)!
Fiquei muito, muito e muito chateado mesmo com essa punhalada, não em mim (como disse, sou feito de ferro forte e aguento a pancada), mas dada naqueles que tão assiduamente frequentaram o curso, que com tanto gosto compraram os livros (não foram poucos os livros que a Saraiva vendeu aos participantes/alunos), agindo de forma completa e inteiramente injusta (e injustiça eu não tolero).
Senti-me injustiçado, tendo recebido o mais duro, vil e covarde golpe: o espaço foi vetado para mim, justo eu que ostentava (e ostento) com tanto orgulho o fato de ter justamente construído não só aquele espaço, mas todo o ambiente que o cerca!
Senti-me expulso de casa que eu mesmo construí com tanto amor, dia a dia, atendimento a atendimento, livro a livro, e a decepção é tamanha que, se não chorei com os olhos, chorei com a alma ao ser tratado como fui e estou sendo tratado por essa empresa hipócrita, que nada tem de humana, que muito exige, que tem um belo discurso, que tem os “pilares”, que tem uma “missão”, mas que, na prática, tudo aquilo não passa de palavras, de discurso vazio.
Sinto-me tão humilhado, sendo tratado com tamanho desrespeito e falta de consideração que não me vejo mais indo àquela livraria, frequentando aquele ambiente. Logo eu, um alguém que se orgulha tanto de ter feito o que fez, de ter agido como agiu, de ter me dado como me dei! Se não respeitam e escorraçam o ex-funcionário, que respeitassem ao menos o que aquela pessoa, o que aquele profissional, o que aquele ser humano representou e representa para aquela livraria (não para a empresa, mas para a livraria).

E agora alguém pode vir a me perguntar se eu me arrependo de ter feito o que fiz como fiz e o quanto fiz. Eu respondo com a mesma e serenidade de sempre que não. Não me arrependo em nada do que fiz, como fiz e o quanto fiz pela livraria, mas me arrependo enormemente de tudo que fiz, como fiz e quanto fiz pela empresa, que sempre se mostrou, desde o início, uma empresa gerida não por livreiros, mas por pura e simplesmente por profissionais/diretores que nunca estiveram investidos do espírito livreiro, que sempre fizeram questão de desprezar o componente essencial para se ser reconhecido e prosperar nessa área de negócio: a paixão.
A Saraiva nunca foi, não é e nunca será uma verdadeira livraria que honre esse título; nunca foi, não é e nunca será uma empresa de palavra, que valorize os profissionais que merecem ser valorizados, que deram mais do que seu sangue para que ela se tornasse o que se tornou, que deram sua alma e paixão por aquilo que acreditavam (e ainda acreditam) para que a livraria fosse mais do que uma empresa e seus funcionários, mais do que simples “colaboradores”...

sábado, 20 de fevereiro de 2016

O Eco de uma voz


Ontem eu fui dormir triste.
Ministrei uma aula de literatura em que correu tudo bem: usei um belo e tocante vídeo (curta de animação) que contagiou e arrancou risos e lágrimas de algumas pessoas da plateia; a conversa sobre paixão pela arte das letras correu maravilhosamente bem, com as pessoas interagindo, anotando os nomes dos autores e livros que mencionei para, assim que terminasse a aula, pudessem correr à livraria mais próxima a fim de comprar as obras; ao final de aula, reservamos um espaço para discussões diversas e para uma breve, porém essencial, confraternização. Finda as formalidades da aula, sai do auditório com a sensação de dever cumprido, de que dei o meu melhor, de que a semente de literatura fora planta e que iria germinar, dar um pequeno broto, se tornar uma plantinha, que vai fincar bem fundo suas raízes, que se tornará uma frondosa árvore. Mas, ao chegar a casa, recebi uma triste de notícia que me deixou um tanto quanto abalado e me fez demorar a pegar no sono: Umberto Eco morreu!
Mas como assim, morreu?! Eu havia acabado de ministrar uma aula em que, mais uma vez, o usei como exemplo, mencionei suas obras, falei de sua importância não só para a literatura, mas para toda a cultura ocidental! E ao chegar a casa, a notícia que me tirou o chão, que me fez sentir um imenso vazio no peito e nas estantes onde guardo meus livros, que com que passasse sentir um sentimento de orfandade...
A literatura, ao longo dos séculos, passou por diversas transformações e evoluções. Vivemos uma Era de Formação, verdadeiramente Mitológica, em que nomes tão distante, mas ao mesmo tempo tão próximos, surgiram e moldaram a nossa forma de escrever, de ver o mundo, de sentir as palavras. Homero, Esopo, Sófocles, Eurípides, Virgílio, Dante, Shakespeare, Camões, Rabelais, Racine, Montaigne, Cervantes e tantos e tantos e tantos outros que fazem parte de nosso imaginário e que já foram incorporados ao nosso código genético, que tiveram e têm um papel fundamental na nossa formação humanística.
Depois dessa época, que lançou as bases e alicerces da nossa literatura e da nossa cultura, vivemos uma Era de Ouro entre o século XIX e primeiros anos do XX. A literatura se espalhou por todo o corpo. Se antes era somente o gene, agora passou a ser um aglomerado de células compondo um tecido, depois um órgão e, por fim, Sistema que propulsiona o nosso organismo e nos mantém vivos. Em todos os países surgiram gigantes que assombraram a literatura e a cultura mundial. Jane Austen, Charles Dickens, as irmãs Brontë, Stevenson e Thomas Hardy; Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós; Stendhal, Honoré de Balzac, Alexandre Dumas, Victor Hugo, Gustav Flaubert, Émile Zolá, Maupassant, Baudelaire e Malarmé; José de Alencar, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Machado de Assis, Lima Barreto e Olavo Bilac; Goethe, Schiller, Novalis, Heine e Rilke; Pirandelo e Lampedusa; Puchkin, Gógol, Turgueniev, Dostoievski, Tolstoi, Tchekhov e Gorki; Poe, Hawthorne, Melville, Whitman e Twain; Kazantzakis e Kavafis; isso para citar somente uns poucos, pois se fôssemos citar todos, não caberia num único texto.
Na primeira metade do século XX, ainda sob o eco da Era de Ouro, que vinha perdendo relativa força, as principais “potências culturais e literárias” europeia perderam um pouco de força, muito embora tenham nos legado grandes gênios como Kafka, Brecht, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Mário de Sá-Carneiro, Unamuno, Pasternak, Maikóvski, Oscar Wilde, Lawrence, Virgínia Woolf, James Joyce, Hesse, Thomas Mann, Proust, Sartre, Beauvoir e Sartre. Poucos comparado ao período anterior. Fato é que a literatura mudara de ambiente, e alguns dos grandes nomes nascia do outro lado do oceano. Borges, Casares, Mistral, Neruda, Donoso, Onetti, Octávio Paz e Juan Rulfo foram os que puxaram o boom latino-americano com sotaque hispânico; mais ao norte, Faulkner, Hemingway, Steinbeck, Salinger, Henry Miller, Capote e Eugene O’Neill; o Brasil viveu sua Era de Ouro entre as décadas de 1930 e 1950/60, com nomes como Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Graciliano Ramos, Rachel de Queirós, Jorge Amado, José Lins do Rego, Érico Veríssimo, João Guimarães-Rosa e Clarice Lispector; esses e outros passaram a assombrar o mundo com uma poderosíssima, mas até então desconhecida por muitos leitores, literatura, que passara subitamente a ser obrigatória em toda e qualquer estante de livros ao redor do mundo.
No entanto, mesmo com tantos nomes, mesmo com tantos autores tendo surgido num curto espaço de um século e meio, a maternidade literária, os tempos seguintes não foram tão generosos conosco, pobres e apaixonados leitores. Vieram, sim, Saramago, Garcia-Márquez, Llosa, Calvino, Philip Roth, Paul Auster, Kundera, Coetzee, Chimamanda Ngozi Adichie, Chinua Achebe, Pepetela, Ondjaki e Mia Couto. Poucos, pouquíssimos diante da nossa sede de literatura, da necessidade intrínseca que temos de mais, mais e mais grandes autores. Desses, Calvino, Saramago, Gabo e Achebe já nos deixaram; Roth se aposentou; Kundera há tempos não lança uma obra que nos deixe em êxtase, e mesma coisa se aplica a Coetzee; Llosa e Auster até lançam bons livros, mas nada que se comparam aos seus livros de alguns anos atrás. Resta-nos, portanto, a poderosíssima Chimamanda, uma verdadeira ilha literária que surge em meio a um tempestuosos oceano, que assombra por sua literatura lírica, poderosa e politizada, e os africanos de língua portuguesa, que, além de tudo, fazem um trabalho excepcional em prol da língua, divulgando mais do que literatura, promovendo em todo o mundo um vasto universo cultural que é produzido pelos falantes de língua portuguesa. Com estes, restam-nos pouquíssimos autores que ocupam “lugar de honra” nos nossos corações-literários e nas nossas estantes.
Com a recém-perda de Umberto Eco, um súbito vazio intelectual nos toma. Eco tornou-se uma figura presente, respeitada e admirada em todo o mundo por sua inteligência e postura, como um dos maiores intelectuais do século XX que se mantinha ativo. Mesmo quem o leu pouco, tendo tido a oportunidade se deleitar apenas com um ou outro texto, e até quem não o leu, tinha um respeito imenso pelo italiano. Conhecido sobretudo pelo seu romance O Nome da Rosa, que recebeu uma primorosa adaptação para o cinema na década de 1980, Eco é muito maior e muito mais labiríntico do que o romance que projetou sua carreira mundialmente. Crítico, filósofo, semiólogo, linguista, romancista e historiador... é difícil definir quem foi Eco e qual de suas faces é a que mais nos toca, a que mais nos engrandece e enriquece. Multifacetado, foi um intelectual que ultrapassou as barreiras do sec. XX e chegou ativo ao XXI, era em que nos vemos tão carentes de pessoas a quem admirar. Sua vida, ceifada tão bruscamente quando menos esperávamos, deixa um vazio imenso não só em nossos corações, mas também em nossas estantes de livros. Agora, quando mirarmos a estante e vermos seus livros ali expostos, imortais, que serão herança para futuras gerações de leitores, nos sentiremos órfãos, pois não mais aguardaremos ansiosos pelos seus próximos lançamentos. Além disso tem o agravante de que nessa época, tão escassa de intelectuais, não sabemos mais quem expor com orgulho numa prateleira de destaque como sendo “meu autor favorito vivo”.
Resta-nos, como leitores, apenas nos conformar, pois ele, mesmo que chegássemos a pensar e desejar o contrário, era mortal, como eu sou, como todos somos, e ler e admirar até o fim dos tempos a sua obra, toma-lo, mais do que nunca, como referência e ouvir o eco de sua voz, que calou como efeito sonoro, mas continua a reverberar em sua obra.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

O Livro do Rei dos Gatos

A pequena Karolinne andava segurando firmemente na mão protetora de sua mãe. Tinha medo de se perder no meio daquela multidão, com pessoas andando apressadas de um lado para o outro. Sua mãe caminhava apressada, pois ainda tinha muito até o final daquele dia, e vez por outra, quando a pequena menina diminuía o passo para observar algo que lhe chamava a atenção, a mulher a puxava bruscamente.
            Era meio dia, horário em que as pessoas estão mais apressadas, seja para correrem para casa a fim de fazerem uma breve refeição e retomarem em seguida para a segunda parte de sua jornada de trabalho, seja para fugirem do sol inclemente, buscando desesperadamente por uma sombra. O barulho das ruas era ensurdecedor, com carros buzinando, com o barulho dos motores, com as lojas anunciando as ofertas em alto-falantes, com as pessoas falando alto para poderem se fazer ouvir, e a menina, cansada, era quase arrastada por sua mãe, que queria fugir o quanto antes daquele caos urbano de centro de cidade. Karolinne estava com calor e ao ver um carrinho de sorvete, pediu para sua mãe comprar um. A mulher, a princípio relutante, pois não queria se atrasar, negou o pedido da filha, mas não conseguiu resistir aqueles lindos e brilhantes olhos suplicantes.
            - ‘Tá bom, Karol! Vou comprar seu sorvete, mas fique exatamente aqui – falou a mulher, deixando a filha sentada num banco enquanto ia comprar o que a filha pedira.
            A menina, comportada, ficou exatamente como e onde a mãe mandara, sentada e protegida sob sombra de uma frondosa árvore, vendo a mulher se fundir à multidão. Ficou balançando suas perninhas curtas, olhando as pessoas caminhando apressadas, indo de um lugar para o outro. Olhava, vez por outra, para o céu, que estava de um azul claro, belo, naquele horário, sem nenhuma nuvem. As folhas da árvore não se moviam um centímetro sequer e a menina sentia o suor deixando grudados fios de cabelo no alto da cabeça. Fechou os olhos e sentiu uma suave e fria brisa lhe envolver. Quando abriu os olhos, viu, parado, a poucos metros de onde estava, um gato cinza lhe olhando nos olhos. A menina achou estranho um gato ali, despercebido entre tantas pessoas. Sorriu para ele e o chamou com sua mãozinha, mas o gato não deu um único passo em sua direção, mas balançou o rabo e se virou. Com um andar suave, começou a passar por entre as pernas das pessoas, que sequer o notavam. A menina, curiosa, olhou para o lado, para onde sua mãe tinha ido, e a viu ainda na fila para comprar o sorvete, e olhou para onde o gato sumira, e viu apenas a ponta de sua cauda. Não pensou duas vezes e saltou no chão e correu em direção ao gato, chamando-o. Passou esbarrando nas pessoas, que desviavam dela e gritavam às suas costas “cuidado por onde anda, menina!”. Perdeu de vista duas ou três vezes o gato, mas logo encontrava seu rastro, a ponta de seu rabo dobrando uma esquina ou outra. Corria o máximo que lhe permitiam suas pernas curtas. Passou por becos estreitos por onde só andavam umas poucas pessoas, atravessou ruas antigas pelas quais ela não lembrava de ter passado, até que se viu sozinha num beco aparentemente sem saída. Com a certeza de que tinha se perdido, sentiu as lágrimas lhe vindo aos olhos e a garganta ficar apertada com um soluço, quando viu, pouco a sua frente, o gato, que estava como que lhe esperando. Ele miou e se virou, atravessando as grades de uma enorme casa. A menina correu até onde estava, implorando para que o bichano a esperasse, mas ele não lhe deu ouvidos.
            Karolinne parou em frente a um casarão abandonado, com erva daninha cobrindo toda a entrada e com as grades enferrujadas. Sentiu certo medo, pois casarões daquele tipo lhe lembravam os fantasmas e bruxas que habitavam casas daquele tipo nas histórias que li e nos filmes que assistia, mas ao ver o gato entrando por aquela porta, seu medo se dissipou e ela empurrou o portão enferrujado, que abriu facilmente, dando-lhe passagem. Ela correu até a porta, que estava parcialmente aberta, e a empurrou para poder entrar, e tal não foi a surpresa ao ver, ao invés de um interior deteriorado, de uma casa velha como sua fachada deduzia, uma imensidão de estantes e livros, tudo organizado, bonito, convidativo a um passeio nas páginas e melífluas palavras de um autor.
            Andou pelos corredores atulhados de livros, com estantes do chão ao teto dos mais variados títulos e se perdeu e se achou um sem número de vezes, deixando-se guiar apenas pelo instinto. Passava a mão nas lombadas dos livros e vez por outra tirava um ou outro para folhear. Um livro lhe chamou a atenção, e ela sentiu uma força irresistível vindo dele, como se ele estivesse clamando para ser lido. Karolinne o retirou da estante. Era um livro comum entre tantos outros livros iguais na sua aparência, tinha uma capa dura e não era tão volumoso, era repleto de belas ilustrações e a história era a de um Rei Gato. Só então, ao ver o título do livro, foi que ela se lembrou que tinha esquecido completamente do gato que seguira, que a conduzira até ali. Fechou o livro de supetão e levantou a cabeça e se espantou a ver não só um gato, mas vários ao seu redor, e entre eles, aquele gato cinza que a trouxera até ali. Sentiu o coração acelerar ao se ver cercada por tantos gatos, mas aquele que havia seguido deu um passo á frente dos demais, abriu a boca, mas ao invés de soltar um miado, falou suavemente.
            - Não tenha medo, Linda Menina. Nós não lhe faremos nenhum mal. Eu só lhe trouxe até aqui para que você encontrasse entre esses tantos livros que aqui estão, aquele que nos é o mais precioso, o que tem a mais bela história, e queria que você o lesse para nós.
            A menina ficou estática, pois nunca tinha visto um gato falando. Olhou para os outros e os viu sentando-se e assentindo, esperando para que ela abrisse novamente o livro e iniciasse a leitura. Eram tantos gatos, de todos os tamanhos, cores e idades, todos expectantes, observando-a detidamente. Um a um, os gatos começaram a abrir a boca e falar, pedir, suplicar para que ela lesse aquele precioso livro para eles, e ela sorriu ao ver tantos gatos falando.
            - Tudo bem. Eu irei ler pra vocês! – disse ela.
            Os gatos soltaram gritos e miados entusiasmados ao ouvirem aquilo. Ela então se sentou e abriu o livro no colo, e os gatos logo a cercaram. Alguns se empoleiravam em seus ombros para melhor verem as letras graúdas e as imagens, uns esticavam os pescoços para melhor verem e seguirem a história, enquanto outros simplesmente ficavam perto, deitando-se e fechando os olhos para melhor imaginarem e viverem aquela fantástica história.
            Karolinne ficou longas horas lendo a história do lendário Rei dos Gatos, que havia sumido há séculos, mas que deixara um importante legado e uma infinidade de súditos que deveriam aguardar pelo seu retorno, que aconteceria quando aquele livro fosse lido por mil e uma meninas especiais, que acreditassem naquelas palavras e lessem aquele livro para mil e um gatos nos dias seguintes à descoberta do livro, na janela de sua casa, e espalhassem aquela história para todos os gatos do mundo, e quando isso acontecesse, que todos os gatos soubessem da história do Rei dos Gatos, ele retornaria e seu reino seria restabelecido, e todas as pessoas do mundo não mais ouviriam os miados dos gatos, mas sim suas verdadeiras vozes.
            A menina terminou a história e respirou fundo duas ou três vezes e ficou completamente em silêncio antes de se dar conta de que estava novamente sozinha entre aquelas estantes. Dos gatos, todos que antes estavam ali, somente um, aquele que a trouxera, permanecia. Ela então se deu conta de que um longo tempo já tinha se passado, de que sua mãe devia estar preocupada com seu sumiço, e saiu correndo daquela casa, levando consigo o livro debaixo do braço.
            Seu instinto a guiou pelas mesmas ruas e becos que tinha percorrido antes, até encontrar o mesmo banco sob a mesma árvore. Correu até lá e ao se sentar, viu sua mãe vindo em sua direção com um sorvete.
            - Trouxe de baunilha, seu sabor favorito – disse a mulher, entregando para a filha o sorvete.
            Karolinne olhou para a mãe, e só então se deu conta de que o tempo não tinha passado. Se perguntou se aquela aventura, aquela perseguição ao gato, a leitura, a história e o livro tinham realmente acontecido.
            - O que é isso? Onde você achou esse livro? – perguntou sua mãe, apontando para o livro que estava embaixo do braço da menina.
            - Esse livro? Ah, eu achei! – falou ela, dando a resposta mais óbvia que toda criança daria numa situação daquelas. A mulher apenas sorriu, passou a mão na cabeça da filha e esperou que ela terminasse de tomar seu sorvete.
            Foram para casa, mas sem pressa de chegar, com Karolinne protegendo seu precioso tesouro.

Naquela noite e nas noites seguintes, assim que todos iam dormir, ela abria a janela de seu quarto e no silêncio da noite, esperava que um gato qualquer passasse por ali, e quando isso acontecia, ela abria o livro e lia a história do Rei dos Gatos. Quando terminava, o gato soltava um miado de aprovação, pulava o muro e ia embora, e ela fechava o livro e ia dormir. Fez isso por muito tempo, por exatas mil e umas noites seguidas, lendo a história e difundindo-a para mil e um gatos. Quando terminou a milésima primeira leitura, fechou o livro e o guardou na sua prateleira de livros.
            O tempo passou, e Karolinne já não era mais uma pequena menina como outrora, e muitas coisas que vivera na infância já eram apenas, agora, vagas lembranças. Havia se tornado uma bela mulher e tinha uma linda filha. Karolinne estava apressada, como sempre andava nos últimos tempos, e caminhava esbarrando nas pessoas pelo centro da cidade, carregando pela mão a filha, que reclamava do calor e do cansaço.
            - Mãe, eu quero um sorvete – pediu a menina.
Karolinne, contrariada, queria ir para casa, onde tinha muita coisa a fazer, mas a filha realmente estava cansada e adorava sorvete. Levou-a até um banco de praça e pediu para que ela ali ficasse, e foi comprar o sorvete da filha.

Enquanto estava na fila para comprar o sorvete, viu a menina se levantar e sair correndo. Pensou, por um instante, em gritar, chamando-a, pois ela poderia se perder, quando viu o que havia chamado a atenção da menina: um gato, o mesmo gato que ela seguira outrora. Ela sorriu por dentro, tomada um turbilhão de lembranças. Comprou um sorvete para si mesma e ficou esperando que filha retornasse, para só então comprar o dela e ver, reconhecer, o livro que ela traria para casa e leria para os gatos, através da janela aberta, pelas mil e uma noites seguintes.