quarta-feira, 23 de maio de 2012

A Águia e o Castor


Uma Águia planava soberana, reinando livre no céu, quando, com seus olhos claros, viu, lá longe, no chão, um Castor entretido em seus trabalhos na construção de sua barragem. Seu primeiro impulso, de caçadora, foi de fechar suas asas e mergulhar para pegar com suas garras aquela presa, que estava tão entretida, fechada em seu próprio mundo. Mas não agiu por impulso. Do alto, ela ficou a observá-lo, tão pequeno, tão solitário, tão frágil. Seria tão fácil, para ela, agarrá-lo, mas não o fez. Desceu lentamente, abrindo e fechando suas asas, sendo conduzida ao sabor do vento até se empoleirar numa árvore ao lado do riacho onde o Castor trabalhava. Ele não tinha percebido, de tão atarefado que estava, a presença de tão bela ave, até que, ao ir buscar um galho na árvore, a percebeu. A princípio, ficou assustado. Aquela beleza selvagem e imponente o deixou completamente sem ação. Ele a temeu, mas não havia nada capaz de fazer com que, mesmo em seu temor, se afastasse dela. Seus olhos estavam fixos nos dela e seus corações batiam no mesmo compasso.
            A Águia não mais abriu suas asas para reinar livre e soberana no céu. Passou a viver no chão, empoleirada nas árvores, para estar sempre perto do Castor, que dia após dia construía, de galho em galho, de graveto em graveto, não uma represa naquele riacho, mas um verdadeiro palácio onde ele e sua amada pudessem habitar para todo o sempre.
            Dias, semanas e meses passavam correndo para a Águia e o Castor, pois quando se está feliz, o tempo corre. Foram imensamente felizes, mas algo nela não estava bem, pois ela passou a, a cada manhã, assim que o sol nascia, ir ver os pássaros voando no céu. Olhava para si e via o estado de suas asas: sempre fechadas. Ela era livre e bela, a rainha dos céus, mas, em sua paixão, havia abdicado de seu reino, e só ao ver tantos pássaros livres, voando ao seu redor, foi que seu deu conta.
            Dia após dia, manhã após manhã, ela acordava antes do Castor para ver o nascer do sol, para sentir a suave e fria brisa matutina e ouvir o canto dos pássaros. Uma vez, tão contemplativa estava, que sequer se deu conta dos passos daquele se aproximavam lentamente, observando-a, sentindo o que ela sentia. O Castor depositou suavemente sua pata sobre a asa dela viu o que ela via, com os olhos dela. Uma lágrima brotou de seu olho, pois só então se dera conta do quão distantes eram seus mundos. Eles pertenciam a mundos diferentes. Desejou ter asas, para poder abri-las e voar ao lado de sua amada, livre pelos céus de todo o mundo. Construiu, para ela, um palácio, mas esqueceu de perceber que, provida de sua liberdade, o palácio se tornara uma prisão; vivia num castelo cujas paredes eram feitas de amor, mas que tal amor lhe roubava sua liberdade. Ela havia nascido para ser livre, para pousar no alto das montanhas, ao relento, para reinar sobre as outras aves, e não para viver um amor tão presa ao chão.
            Não externaram nada além daquele claro sentimento que se comunica entre seus olhos de dois seres vivos que se amam. Ela abriu lentamente suas asas e deixou que uma suave lufada de vento a impulsionasse para cima. Enquanto subia lentamente, ela olhou para trás, para baixo, e viu o Castor parado, com os pés presos ao chão.
            Afastaram-se um do outro, e foram, cada um, viver no mundo ao qual pertenciam, mas lá do alto, todos os dias, a Águia olhava para baixo e via o Castor, e o Castor olhava para o céu e seus olhares se encontravam no meio do caminho e sorriam um para o outro, apesar das distâncias que os separavam um do outro.

Um comentário:

  1. Jéssica Óliver23 de maio de 2012 15:23

    Simplesmente belíssimo... Você sabe dizer em palavras distintas, tudo o que é real. Beijos...

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