Mostrando postagens com marcador solidão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador solidão. Mostrar todas as postagens

domingo, 10 de março de 2013

O muro



Ele tinha medo, tanto que construiu ao seu redor uma intransponível muralha onde nada nem ninguém pudesse entrar. Ali, no alto de uma torre, ele ficava vigilante dia e noite, zelando por sua própria segurança. No início, pessoas e sentimentos ousaram se aproximar, mas vendo que por mais que tentassem, não conseguiam entrar naquela fortaleza nem que o homem que vivia ali dentro ousava abrir as portas e sair, desistiram.
            Ele não cansava, nunca, e sua resolução de se manter seguro e salvo para sempre era tamanha que passava noites em claro só com o intuito de ficar vigiando, para que nada se aproximasse e tentasse atravessar os muros de sua fortaleza.
            Com o passar do tempo, no entorno da fortaleza tudo se tornou deserto, tudo de tornou um imenso mundo estéril onde nada era capaz de sobreviver, e só quando isso aconteceu ele pôde, finalmente, se sentir seguro, pôde pregar os olhos e dormir uma tranquila noite de sono.
            Fechou os olhos e deixou que o silêncio e a paz o tomasse, mas, estranhamento, aquele silêncio guardava em seu seio algo pior do que todos aqueles medos que ele procurava manter do lado de fora, longe. Olhou ao seu redor, mas nada encontrou. Tentou conciliar o sono, mas não conseguiu. Seu coração batia com força em seu peito e sua respiração estava pesada. O medo tinha entrado e se escondido nas estranhas daquele silêncio, e agora o homem, estava perigosamente a sós, trancado naquela fortaleza, com ele.
            Abriu as janelas para que a luz de fora, seja do sol, seja da lua – ele não sabia que horas eram, pois havia perdido completamente a noção do tempo – pudesse entrar, mas percebeu que os muros que tinha construído eram tão espessos, altos e intransponíveis que sequer a luz do dia ou da noite conseguia entrar.
            Estava sozinho com algo que lhe metia tanto medo que lhe turvava os sentidos, e não havia nada que pudesse fazer, pois fora ele mesmo que se trancara ali com aquela solidão. Corria de um lado pro outro, desesperado, mas por mais que se afastasse, por mais rápido que fosse, jamais chegaria a ficar longe ou se afastar daquilo que temia; gritava, mas a única resposta que lhe chegava aos ouvidos era a voz solidão lhe dando com única resposta o eco das suas próprias palavras que reverberavam nas paredes de sua fortaleza.
            Desesperado, correndo de um lado pro outro, tentando fugir da solidão que o perseguia, ele parou em frente ao portão que o comunicaria ao mundo exterior e tentou abri-lo, mas não conseguiu. Deixou-se cair ali, e se deixou abraçar por aquela inexorável solidão que vinha em seu encalço, e quando sentiu os braços dela se fechando em torno de si, olhou para o alto, para os muros de sua fortaleza, e se deu conta de que havia construído não um local onde pudesse se manter seguro, mas sim a sua própria prisão, que tinha a exata forma de seu próprio mausoléu.

sábado, 1 de setembro de 2012

Um rosto estranho no espelho


Somente quando se olhou no espelho foi que se deu conta de que sequer se lembrava de seu próprio rosto. Aquele que o fitava nos olhos era um desconhecido. Aqueles olhos não eram seus, assim como aqueles lábios que não sorriam. Seu rosto havia se transformado em pedra.
            Buscou em sua memória, mas não conseguiu lembrar como nem quando se tornara pedra, quando se fechara dentro de si mesmo. Talvez tenha sido há muito tempo, quando lhe mandaram jogar aquilo que sentia no lixo, e ele, em sua insensatez, jogou, mas jogou junto todo o resto, tudo o que ele era, livrando-se, assim, não apenas de sua dor, mas também de quem ele era, de quem sempre foi. Ali, talvez, tenha sido o primeiro momento, o primeiro real motivo para ele vir a se fechar em torno de si mesmo, criando aquela carapaça intransponível de pedra que ele fitava agora diante do espelho.
            Tentou se reconhecer, ali, naquela imagem refletida, mas não conseguiu. Além de não se lembrar de seu próprio rosto e não conseguir ver qualquer relação entre si mesmo e o seu reflexo, aquele que o fitava do outro lado do espelho parecia o ser não-humano. Passou a mão no rosto e viu, no reflexo, uma mão dura e áspera tocando aquele rosto que não era o seu. Tentou arranhá-lo com as unhas, mas a sua pele era tão dura que a ponta de seus dedos doeram.
            Como pudera chegar àquele total estado de esquecimento?! Fechou os olhos na tentativa de retroceder no tempo em busca de explicações para tudo aquilo. Lembrou-se vagamente de um cheiro, um aroma doce e viu vagas luzes piscando. Lembrou que, poucos dias depois, quando inspirou fundo em busca daquele reconfortante cheiro e do brilho daquele sorriso, ele não estava mais ali.
            Abriu bem os olhos, entre surpreso e assustado, quando sentiu uma leve rachadura na sua pele de pedra. Passou o dedo sobre a rachadura, a fim de quebrar um pedaço da casca. Viu surgir, pouco a pouco, um pedaço de sua verdadeira pele que ainda existia por baixo da casca de pedra. Uma pele branca, que não tomava sol, que não era aquecida há tempos.
            As lembranças lhe vinham escassas, tão lentamente quanto o tempo que demora uma eternidade para passar. Lembrou-se da imagem de uma flor que vira certa vez brotar num terreno estéreo, uma flor tão bela, tão delicada no meio, no coração daquela terra seca e dura. Foi um longo tempo que aquela flor ficou ali, solitária, até que, não conseguindo mais suportar a aridez do terreno e o peso da solidão, acabou murchando e morrendo.
            Uma solitária lágrima brotou de seu olho e escorreu por sua face. Por onde passava, lascas da casca de pedra iam caindo, até que parte de sua verdadeira face ficou exposta, mas não, ainda, o suficiente para que ainda pudesse se ver como realmente era.
            Veio então, de supetão, uma lembrança recente, de um momento de frio, de muito frio, de uma longa noite de inverno em que estava sozinho, desesperado, desejoso de ver o primeiro raio de sol surgir no horizonte e aquecê-lo, tal como aquece um abraço num momento de solidão. Percebeu que há tempos não sabia o que era o calor do sol, muito menos o de um abraço.
            Agora chorava copiosamente, lembrando-se de tudo, dos reais motivos que o fizeram se tornar aquilo, a vestir e se fechar dentro de si mesmo, daquela pedra. Pouco a pouco, com as lágrimas que escapavam de seus olhos e escorriam por seu rosto, sua verdadeira face ia surgindo, e então ele se lembrou de tudo: de quem era, de tudo por que passara, de todos os pequenos e grandes motivos que o levaram a chegar até ali, naquele estado, transformado e sentindo-se seguro, protegido por uma grossa camada, como uma casca de pedra que recobria todo o seu corpo, mas que na região do peito era mais espessa.
            Todo o seu rosto estava despido da casca de pedra e ele via, finalmente, sua verdadeira e única face. Seu corpo também fora lavado pelas lágrimas e estava inteiramente livre dos muros de pedra que o protegiam e mantinham o mundo afastado dele, que o fazia ficar afastado do mundo. Viu-se de corpo inteiro, transformado não mais em uma pedra, mas em um homem de carne e osso. Percebeu, no entanto, que nem todo o seu corpo ficara livre da couraça de pedra: havia uma parte, no peito, que continuava pedra, uma pedra tão dura que ele, sozinho, não conseguia quebrar e que, talvez, quisesse mantê-la do jeito que estava: feito pedra, pois pedra doi menos, sente menos, e foi justamente por que, certa vez, sentiu, que tinha se tornado pedra por inteiro, e pedra por inteiro ele não desejava voltar a ser.

domingo, 8 de julho de 2012

Crônica da Solidão III

Não há nada nem ninguém ao meu redor. Está tudo tão escuro que sequer tenho a minha sombra como companhia ou será que o medo e o peso que sinto sobre meus ombros chamado solidão escureceu-me a visão? Andando de um lado para o outro por esse amplo espalho vazio chamo por diversos nomes de amigos que não tenho e de pessoas que não conheço só para invocar um alguém que, mesmo não existindo, viesse me fazer companhia. Mas por mais que eu chame, que grite, que clame, ninguém aparece, a única resposta aos meus chamados que me chega é o eco de minha própria voz.
            Caminhando sem rumo, andando em círculos, ouço o reverberar do eco de meus passos pelos corredores e chego a pensar, iludindo-me, de que são passos de um alguém que se aproxima. Então paro e fico a escutar, e o som, eco, dos passos, também para. Volto a andar, só para ouvir novamente a ilusão do eco de passos dos que se aproximam.
            Em minha cabeça ouço apenas as vozes silenciosas daqueles pensamentos que se calaram e que se negam a falar comigo, por mais que eu clame por ouvir suas vozes, pois estas são as únicas que ouço, pois eles são os únicos fantasmas de minha imaginação que se prezam a falar comigo.
            Paro de repente e apuro os ouvidos e escuto um algo ou alguém que se aproxima, e dessa vez não se trata de um eco, de algo provocado pela minha imaginação, mas se de algo real, de algo tão real que posso até sentir em minhas mãos. Parado, não ouso sequer respirar, com medo de que aquele que se aproxima resolva dar a volta a fugir de mim, deixando-me novamente sozinho, sem ter sequer a minha sombra para me fazer companhia. Fico a esperar por longos e intermináveis minutos de angústia até que a sinto o seu hálito perto da minha nuca. Sinto todos os pelos de meu corpo se eriçarem, mas não me viro, pois desejo prolongar aquele encontro ao máximo, só para ter aquele, ou aquela, que por tanto tempo espero, fique por mais tempo comigo. É Ela! Sinto que é Ela, e agora tenho absoluta certeza, pois Ela não está só. Ela veio abraçada com aquela que tem me acompanhado por tantos e tão longos anos. Viro-me lentamente, só para olhá-la de frente, para ver sua face antes do abraço.
            Eu A vejo tão calma, tão bela de tal forma que me sinto seduzido e tentado para me jogar em seus braços. Ela, como bem imaginava e sentia, não está só: Ela está abraçada à minha Solidão. Ela sorri para mim. Tem um sorriso tão lindo e transparente, um sorriso que é o que é, que nada esconde. Ela é o que é, Ela é a Loucura, que veio abraçada à minha Solidão, e veio para que eu me deixe embalar em seus braços e mergulhar em seu seio. Não sei se sorrio ou se choro, se minhas lágrimas sinto brotar em meus olhos são de medo ou se apenas sinto os primeiros efeitos da Loucura que abre os braços para me receber e me estreitar em um abraço apertado. Não resisto, pois é inevitável, e me aproximo Dela e me jogo em seus braços. Ela sorri, eu a sinto sorri enquanto me acaricia. Sou guiado, seguro por uma mão por Ela, e pela outra pela Solidão.
            Sinto-me confortado, pois agora terei uma verdadeira companhia além da Solidão e de minha própria sombra; terei, a partir de agora a Loucura como inseparável companhia, que guiará meus passos e jamais vai me deixar ficar a sós.

domingo, 1 de julho de 2012

A maldição da vida eterna


Em minha cegueira, eu acreditava ter sido abençoado com a juventude e vida eterna, e só depois de muito tempo, quando olhei ao redor e não vi mais nenhum dos que eu tanto amei ao longo de minha longa vida, foi que me dei conta de que o que tinha sido jogado sobre mim não uma benção, mas sim uma maldição.
            Não sei dizer quando e como tudo começou. Talvez tenha sido no dia, no exato instante em que olhei para a única mulher de minha vida, a quem tanto amei e, em meu desespero, desejei tê-la para sempre, viver eternamente para amá-la. Amei-a com tamanha intensidade desde o primeiro instante, desde que nossos olhares se cruzaram pela primeira vez, desejando que aquele instante durasse para todo o sempre que fechei os olhos e, em minha insensatez, pedi para viver para sempre. Na manhã seguinte, ao abrir os olhos e vê-la ao meu lado, sorrindo enquanto sonhava, soube, senti dentro de meu peito, no fundo de minha alma, que o meu desejo tinha sido, de alguma forma, por algum alguém, atendido.
            Amei-a desesperadamente, como se cada dia fosse o último de nosso amor, mesmo sabendo que este amor era eterno. A cada novo dia, a cada vez que eu a via sorrir enquanto dormia, quando a via despertar, abrindo preguiçosamente os olhos e sorrindo quando me via, eu me sentia mais e mais feliz, sentindo-me mais e mais abençoada a cada nascer do dia. Eu tinha todo o tempo do mundo para amá-la para todo o sempre, mas tinha uma eterna pressa, e mesmo sabendo da eternidade de nosso amor, tinha medo de perdê-la.
            Nosso amor, de tão intenso, deu muitos frutos, e tivemos muitos filhos aos quais amei cada um de uma maneira, mas com o mesmo amor. Curti cada momento de cada um de meus filhos, ouvindo suas primeiras palavras e ajudando-os em seus primeiros passos. Eles cresciam, pouco a pouco, mas a passos largos e decididos. Os bebês tornaram-se crianças saudáveis, as crianças, adolescentes, e os adolescentes, adultos, seguindo a lei natural envelhecendo dia após dia. Ao ver isso, ao ver que meus filhos já eram adultos, me dei conta de que eles já eram mais velhos do que eu. Foi só quando me dei conta disso, de que não podia envelhecer junto com meus filhos, que, pela primeira vez, senti o peso da maldição que carregava.
            Ao me ver no espelho percebi que tinha a mesma face de tantos anos atrás, apesar de sentir o peso da idade sobre os ombros, de sentir a alma envelhecida, e pela primeira vez em todos aqueles anos, chorei. Minha amada esposa, ao escutar o meu lamento, veio até onde eu estava, pegou-me pela mão e me guiou para longe de mim, onde eu podia me refugiar em seus braços e esquecer ou pelo menos não sentir com tanta intensidade o peso daquela maldição que carregava. Em seu colo, com os olhos fechados, eu conseguia não pensar, mas quando abria os olhos, que a olhava, que percebia o quão ela tinha envelhecido, o quão os anos pesavam sobre seus ombros, e me dava conta deque tudo precisava ter um fim, inclusive a vida.
            Passei dias a fio trancado no quarto, sem ver ninguém, sem falar com ninguém, perdido em meus próprios pensamentos quando me dei conta de que não podia ter uma vida plena, de que não podia envelhecer junto com aqueles a quem tanto amava. Senti o peso da solidão que se aproximava lentamente de mim.
            Minha esposa, minha amada esposa, abençoada como era, teve uma vida plena, envelheceu e foi agraciada com uma morte tranquila enquanto dormia. Na manhã seguinte, quando me levantei e vi que ela ainda dormia, senti, mesmo sem tê-la tocado, mesmo sem tê-la chamada e sem ouvir sua resposta, que ela já não mais vivia além de aqui, dentro de mim. Não chorei.
            Meus filhos, meus amados filhos a quem vi crescer e envelhecer dia a dia, foram agraciados com uma vida plena e morreram, um a um quando tinham completado o seu ciclo nessa vida. Eu não chorei com suas mortes.
            Meus amigos, todos os que tive em minha longa vida, foram tomando seus rumos, vivendo suas vidas, de forma que acabamos nos separando, e soube, muitos anos depois, quando tentei reencontrá-los, que todos tinham morrido. Também não chorei suas mortes.
            Meus netos e bisnetos vieram ao mundo e os amei, e quando vi que eles cresciam e ficavam mais velhos do que eu, preferi me afastar por que não queria ter que não chorar por suas mortes.
            Os meus olhos estão secos, assim como a minha alma, pois olho ao meu redor e não vejo ninguém, nenhum dos que eu tanto amei em minha vida. Julgava ter sido abençoado com a vida eterna, quando, na verdade, fui amaldiçoado com a solidão ao ver que todos a quem amava iam, um a um, deixando este mundo, deixando-me sozinho.

domingo, 24 de junho de 2012

O gosto da liberdade

Naqueles longos e intermináveis anos em que passou na prisão, ele contou os dias. Fazia marcações nas paredes usando uma pequena faca que guardava escondida debaixo de uma pedra sobre sua cama. A cada dia, quando o sol se punha, ele fazia a marca, até que quase não havia mais espaço nas paredes. Era um preso privilegiado, pois tinha uma cela só pra si, diziam os outros detentos e os carcereiros, num pavilhão afastado dos outros, onde ficavam trancados os que cometeram os piores crimes, mas ele não sentia possuidor de qualquer privilégio, preferindo ter que dividir a cela com mais alguns detentos, pois pelo menos teria com quem trocar algumas palavras, a estar ali, naquele minúsculo cubículo, sozinho, tendo como única companhia sua sombra. As poucas palavras que trocava eram com os carcereiros, quando estes vinham lhe trazer suas refeições ou leva-lo para um breve “banho de sol”. Ele tentava entabular uma conversa, puxar um assunto qualquer, mas os carcereiros muitas vezes o olhavam com pena e outros com ódio, e se limitavam a ficar em silêncio.
            No início ele recebia umas poucas visitas de amigos, familiares e de sua amada esposa, por quem ele esperava ansiosamente, mas aos poucos deixou de vê-los e até de receber suas cartas. Passou dias a fio sem comer de tão apreensivo que estava, andando de um lado pra outro, perguntando-se o motivo da ausência de todos aqueles que amava e que o amavam. Cansou de escrever cartas que nunca eram recebidas, até que acabaram os papeis e acabou a tinta das canetas. Ele desculpava, mesmo assim, suas ausências, imaginando como deve ser duro, lá fora, ter que aguentar todo o preconceito das pessoas ignorantes por terem um ente querido preso e ter que visita-lo. Sonhava com o dia em que, livre, iria procurar essas pessoas que o abandonaram para abraça-las e beijá-las, para fazê-las ver e sentir que estavam desculpadas e pedir-lhes desculpas, pois, sabia, todo aquele sofrimento tinha sido ele a causa.
            Mais de vinte anos contando os dias e a medida que os poucos espaços das paredes iam acabando sabia que se aproximava o dia em que seria posto em liberdade, após ter pagado pelo seu crime. Sua liberdade estava próxima, e quase podia senti-la entre os dedos, segurando-a.
            Num fim de dia, assim que o sol se pôs, fez a última marca naquela parede, e soube que no dia seguinte viriam pegá-lo para leva-lo embora. Não dormiu naquela noite, de tão ansioso que estava e os carcereiros encontraram-no já de pé, vestido e com um sorriso no rosto, pronto para ir embora, para poder sentir, após tantos anos, o gosto da liberdade. Algemaram-no pela última vez enquanto era levado pelos corredores estreitos sendo saudado por uns e insultado por outros que ainda tinham pena a cumprir. Via o céu sobre sua cabeça tão azul como ele nunca tinha visto e ouviu o canto dos poucos pássaros que se vinham pousar nos tetos dos pavilhões. Sua respiração estava pesada e ele se sentia sufocar a cada novo passo que dava. Imaginava quem o estaria esperando do lado de fora, quando atravessasse aquele imenso portão.
            Sentiu quando lhe tiravam as algemas e um dos carcereiros lhe deu um leve tapa no ombro, o mais próximo de um carinho que ele recebeu em todos aqueles anos. Viu quando o portão era aberto lentamente e quando, por fim, teve espaço suficiente para ver do lado de fora, não viu ninguém a lhe esperar. Deu alguns passos inseguros, pois suas pernas tremiam, rumo a liberdade por que tanto esperava, com a expectativa de ver alguém a lhe esperar, imaginando que um alguém qualquer tinha contado os dias do lado de fora, livre, da mesma forma que ele contava do lado de dentro, preso. Mas não havia ninguém ali. Não havia um abraço, um beijo ou uma palavra. Não havia absolutamente nada disso nem ninguém. Olhou para o alto e viu um manto de nuvens diáfanas cobrir parcialmente o céu; olhou mais uma vez para trás e viu o imenso portão sendo fechado às suas costas. Parado, ele respirou fundo duas ou três vezes, criando coragem e força para seguir seu caminho, agora que sua liberdade havia sido restituída, e ir à procura daqueles a quem não via há tantos anos.
           
Tudo estava mudado. As ruas pareciam ais largas e os carros corriam desenfreados de um lado para o outro naquele bairro. Ele custou a encontrar o caminho de casa, pois não reconhecia mais quase nada após tantos anos. Guiou-se pelo instinto, reconhecendo uma árvore, que havia sido poupada pelo progresso aqui ou ali, até que reconheceu uma onde tinha deixado, certa vez, uma marca. Tocou seu tronco ainda pulsante de vida e procurou com os olhos aqueles nomes que tinha escrito, deixando uma cicatriz na árvore, com a ponta de um canivete, mas o tempo os havia apagado. Sentiu um frio de tristeza lhe percorrer todo o corpo, pois imaginava que aquela marca seria eterna...
            No coração do bairro, onde vivera toda a sua infância e adolescência, de onde fora tirado para cumprir sua pena pelo crime cometido, as mudanças também tinha chegado, mas em bem menor escala. Algumas casas ele reconhecia, o campo de futebol ainda continuava o mesmo, mas a praça onde costumava, quando criança, ficar até tarde da noite até que sua mãe vinha chama-lo estava em ruínas. Dali, onde jazia o esqueleto da praça, ele podia fechar os olhos e se deixar guiar, pois seus passos o levariam até sua casa.
            Enquanto caminhava pelas ruas de seu bairro, era apontada pelas pessoas e ele sorria de volta, mas elas não reconheciam nele aquele menino que corria pelas ruas, descalço, que jogava bola naquele campo, que ficava até tarde da noite sentado nos bancos daquela praça e que fora envolvido num crime do qual ele queria esquecer e se arrependia amargamente, que lhe roubara não só sua liberdade, mas boa parte da sua vida.
            Chegou, por fim, à sua rua, que continuava praticamente a mesma de tantos anos antes. Viu a árvore em frente a sua casa e teve vontade de correr e tocá-la uma vez, abraça-la e subir em seus galhos.
            Ficou um longo tempo em frente a sua casa, sem ousar se aproximar do portão e ver se ele continuava aberto. Deu alguns passos e viu que estava trancado com uma grossa corrente e um cadeado. “Estranho”, ele pensou, “o portão de casa sempre ficou aberto dia e noite”. Olhou um lado e outro, em busca de uma campainha, mas não a encontrando, resolveu bater palmas e chamar pelos de sua família. Demorou até que alguém respondesse e viesse abrir o portão. Quando ele viu, era uma senhora idosa abrir uma brecha no portão e olhá-lo de cima a baixo.
            - Vá embora. Hoje eu não tenho nada para você – disse ela, fechando o portão.
            Ele ainda tentou impedi-la, tentando segurar o portão, dizendo que ela tinha se enganado, que não o tinha reconhecido.
            - Mas mãe, sou eu. A senhora não me reconhece?
            - Eu não tenho mais filho. Ele morreu há anos. Agora vá embora ou eu chamo a polícia, seu vagabundo.
            Ele imaginava que seria recebido de mil e uma maneiras, menos daquela. Então era aquilo que sua mãe pensava, que não tinha mais filho? Sentiu aquelas palavras como uma punhalada no peito. De cabeça baixa, ele se sentou no chão, encostado à árvore e deixou que aquela tristeza daquele primeiro contato com sua mãe se diluísse. Esperou quase uma hora naquela posição, sequer atentando para as pessoas para as pessoas que passavam à sua frente apontando e fazendo gestos de desaprovação. Levantou-se lentamente, com as pernas pesando mais do que chumbo e foi novamente até a frente do portão, para tornar a chamar sua mãe.
            Implorou e chegou a chorar, mas não havia nada que pudesse demovê-la. Para ela, ele tinha morrido, sido sepultado dentro daquela prisão e esquecido, e tornou a ameaça-lo: se não fosse embora, iria chamar a polícia.
            Abatido, ele deixou que seus passos o levassem para outras ruas, para a frente de outras casas conhecidas suas em outros tempos. Estava cansado e triste, após tão longos anos, não ser reconhecido, ser recebido daquela maneira pela sua própria mãe!
            Foi até a rua onde moravam alguns amigos e ficou um tempo em frente a casa de alguns, com medo de se anunciar. Tinha medo de ser escorraçado, pelos amigos, da mesma forma que fora por sua própria mãe. Chegou até a lanchonete que fora outrora gerida pelo pai de seu melhor amigo. Sentou-se num banco alto em frente ao balcão e esperou ser atendido, o que demorou um grande tempo. Seus cabelos estavam grandes, despenteados, tinha olheiras profundas e uma basta barba a fazer. Ficou olhando as pessoas indo e vindo e a intensa movimentação dentro do estabelecimento, até que seus olhos caíram sobre um homem que gerenciava o negócio, atendia aos clientes e cuidava do caixa. Reconheceu-o imediatamente, pois apesar do tempo que passou, seu amigo continuava com o mesmo jeito enérgico e com o mesmo olhar. Tentou chamar sua atenção e ele o olhou de frente, mas não o reconheceu. Fez apenas um gesto com a cabeça indicando-o para que um funcionário fosse ver seu pedido. Só então se deu conta de que não tinha um único centavo nos bolsos, e o funcionário ao notar isso, tratou de coloca-lo pra fora.
            - Mas eu preciso falar com ele – falou, apontando para o amigo, que tinha parado seus afazeres para ver quem era aquele indigente que entrara em seu estabelecimento sem dinheiro para comprar nada e estava tendo que ser expulso para não incomodar os outros clientes. O amigo ficou impassível, se o reconhecer em absoluto, por mais que ele falasse, que dissesse seu nome, que tentasse força-lo a lembrar.
            - Não o conheço – foi a única coisa que disse, virando as costas e voltando aos seus afazeres, pedindo desculpas a um cliente pelo contratempo.
            Deixou que seus passos o levassem, mais uma vez, para longe, para perto da pessoa que ele tinha certeza de que não tinha esquecido, um minuto sequer, dele.
            A casa onde ela morava continuava a mesma que ele guardava na memória. Ficou observando, vendo se alguém sairia ou chegaria. Tinha medo de se anunciar. Ficou longas e intermináveis horas, ali, parado em frente aquela casa, sem que nada acontecesse, sem ver ninguém, até que viu a porta se abrir e por ela passar um jovem adolescente, que ia para a escola e se despedia da mãe. Logo em seguida apareceu a mulher, que o homem reconheceu de imediato apesar das mudanças que o tempo tinha lhe infligido. Quando ia se aproximar dela, viu surgir um outro homem, um amigo de outros tempos que ele reconheceu, que a enlaçou pela cintura e a levou para dentro de casa.
            Não conseguindo conter em seu peito aquela tristeza que lhe tomava por inteiro, ele deu vazão a tudo que sentia através de lágrimas, que escoavam em abundância de seus olhos. Logo toda a sua face estava manchada pelos sulcos deixados pelas lágrimas em sua alma. Soluçava alto, sentindo um gosto amargo na boca e repetia de forma ininteligível a palavra “liberdade”. Tinha passado tantos e tão longos anos esperando por aquele momento, contando os dias, lembrando, para se ver assim, esquecido de tal maneira.
            Chorou por horas a fio, sentindo o gosto amargo na boca e a dor na alma, repetindo sem cessar:
            - Tantos anos, esperando por esse momento, por essa tal liberdade, para ver que seu gosto é amargo, para ver que fui esquecido até por aqueles a quem mais amei um dia. Sentia-me muito mais reconfortado quando vivia a ideia e contava os dias e horas. Agora, ao me deparar com a realidade, vi que vivi uma ilusão na qual era feliz. Pelo menos, quando estava preso ainda tinha uma esperança, e agora vejo que não adiantou de nada cultivá-la...
            Abaixou a cabeça, chorou mais um pouco e foi embora, deixando que seus passos o levassem para um destino incerto, onde poderia esquecer, pois esquecido ele já fora.

domingo, 22 de abril de 2012

O último dia de um homem


O homem condenado à morte estava vivendo seu último dia antes da execução. Tinha vivido seus últimos anos trancafiado naquela cela minúscula, vendo outros prisioneiros virem, ficando o tempo e irem embora, sendo muitas vezes arrastados, numa tentativa desesperada de adiar o inadiável. No início, nas primeiras vezes em que viu os homens tornando-se crianças a chorarem, clamando por suas vidas, ficou impressionado, mas com o tempo acostumou-se, da mesma forma que se acostumara às visitas dos religiosos que vinham frequentemente visitar um ou outro condenado antes da execução, e que sempre paravam em cada uma das celas ocupadas com outros prisioneiros e perguntavam se precisavam de um consolo e de uma palavra de Deus. Ele nunca havia prestado atenção nesses homens, até aquele dia. Sempre que ouvia aqueles passos leves no corredor, virava-se na cama e ficava em frente à parede, escutando muitas vezes as lamúrias dos condenados, suas últimas palavras antes da execução.
            Nunca, em todos aqueles anos, recebeu uma única visita, pois não havia ninguém, do lado de fora, que o conhecesse, que se importasse com ele, que sequer soubesse de sua existência. No dia em que fora preso, sentiu mesmo um certo alívio, pois o levariam a uma prisão, onde ficaria isolado, com sua própria solidão, e não do lado de fora, numa rua, onde estava cercado por milhares de pessoas, mas tão só, onde a solidão se tornava ainda mais pesada. Fora julgado e condenado, e em nenhum momento se defendera, mesmo quando o juiz o havia questionado sobre os motivos que o levaram a cometer aquele crime, que embora não tenha feito mal a ninguém, era considerado inadmissível naquela sociedade. O crime havia sido premeditado, cometido propositadamente com o intuito de ser descoberto – não havia, em nenhum momento, cometido para ser um “crime perfeito” – havia deixado inúmeras pistas para que pudessem chegar até ele e prendê-lo.
            Os anos que passara preso esperando pela ordem de sua execução não foram, de forma alguma, penosos para ele, pois ali, trancado naquela cela, mesmo estando sozinho, não se sentia tão só quanto se sentia quando estava do lado de fora.
            Agora, em suas últimas horas de vida, revia tudo que havia vivido até então e sentia um vazio no peito ao constatar que não conseguia se lembrar de nada, de nenhum momento em especial que faça sentido, que tenha feito com que sua vida tivesse valido a pena. Não deixava amigos nem familiares que dele pudessem sentir saudade, e isso o deixava aliviado e triste – aliviado por que não deixaria ninguém triste quando fechasse os olhos, e triste por que ninguém iria deixar flores em seu modesto túmulo. Em todos aqueles anos ninguém o vira chorar, lamentar-se e clamar por sua vida. Ele se sentia mesmo, quem o visse notaria, um estranho brilho nos seus olhos, como que de satisfação e de estranha tranquilidade.
            Havia dormido tranquilamente a sua última noite de sono, mas não tinha sonhado. Mais uma vez, um sono reparador, sim, mas sem sonhos. Ele não se lembrava da última vez em que sonhara, ele não se lembrava sequer se alguma vez em sua vida havia sonhado. Acordou com a expectativa de viver suas últimas horas de forma tranquila e serena, esperando pelo momento derradeiro. Fora especialmente bem-tratado pelos carcereiros, que ofereceram, inclusive, uma última refeição especial. Ele aceitou esse bom-tratamento, sentindo-se especial, cuidado, uma última e única vez na vida. Aceitou que um religioso viesse lhe visitar, mas apenas para ter um alguém que lhe falasse alguma coisa uma vez na vida, mesmo que ele nada falasse. Andou um pouco pela cela, de um lado para o outro, e chegou até a olhar pela minúscula janela, para o pátio da prisão, que estava vazio àquela hora.
            Quando ouviu passos pesados vindos pelo corredor, levantou-se bem lentamente. Viu três guardas fardados, que abriram a cela, lhe algemaram e lhe conduziram por aquele corredor mal iluminado. Ele, em momento algum, tentou fugir ou falou qualquer palavra aos guardas que o escoltavam, e os seguia docilmente, feliz mesmo – talvez aquele estivesse sendo o momento mais feliz de sua vida. Alguns presos, enquanto era conduzido por aqueles infindáveis corredores, lhe dirigiam palavras obscenas enquanto outros lhe jogavam palavras de apoio e coragem naquele último instante e outros, ainda, simplesmente ficavam calados, olhando-o com um misto de compaixão e admiração àquele homem que caminhava de forma tão firme para a sua execução.
            Passou por inúmeras portas até que chegou a uma sala branca com um enorme vidro em uma das paredes, onde pessoas poderiam ver sua execução em uma outra sala, ao lado, que estava vazia. Viu algumas pessoas presentes, além de outras guardas, mas seus olhos se fixaram em um homem: o seu carrasco, aquele que lhe libertaria daquela vida. Deixou-se conduzir e deitou suavemente na cama, onde tiras de couro prenderam suas pernas e braços. Tinha um leve sorriso nos lábios quando todos deixaram a sala, ficando apenas ele e aquele que seria o responsável por injetar em suas veias a droga que lhe faria entrar num sono profundo, do qual jamais poderia acordar.
            Quando tudo ficou em silêncio, ele olhou para o lado, através do vidro, para a outra sala, só para constatar que ela continuava vazia. Olhou dentro dos olhos do seu carrasco, que pela primeira vez tremia. De todas as execuções pelas quais fora responsável, aquela era a primeira vez que acontecia de tremer, de desejar não ser ele o responsável pela morte de um homem. O condenado sorriu e abriu a boca para falar que estava tudo bem, e pediu que ele fizesse aquilo, que lhe livrasse daquela longa, dura e solitária vida.
            Enquanto injetava a primeira dose da droga, o carrasco começou a ver o condenado cair num leve sono, quando lhe perguntou o motivo de ter cometido, há tantos anos, aquele crime, de ter deixado tantas pistas para que pudesse ser descoberto, de estar ali, sendo morto, de forma tão serena, como se tivesse passado toda a vida ansiando por aquele momento.
            - Eu fiz tudo de propósito para ser preso, julgado e condenado, pois não conseguia mais carregar sobre meus ombros o peso da solidão que sentia. Não queria, não conseguia mais viver carregando esse fardo, mas também não conseguia tirá-lo de mim, livrar-me dessa vida solitária, cometendo suicídio... – falava isso enquanto sentia o fardo de sua solidão ser retirado, pouco a pouco, de seus ombros, sentindo-se cada vez mais leve.
            O carrasco, ao ouvir aquilo, ainda tentou parar a execução, mas não havia mais tempo. O homem havia fechado os olhos e estava sorrindo.

domingo, 1 de abril de 2012

A Espera

Todos os dia, no mesmo horário, aquele homem saia de sua casa e ia se sentar naquele banco de praça, para ver o pôr do sol. Todos os dias, mesmo quando chovia e o sol se escondia atrás das nuvens, ele estava lá. Sentava-se no mesmo banco e ficava longos e infindáveis minutos ali, parado, esperando. Depois que o sol se punha e as luzes nos postes eram acesas, ele olhava para o céu e procurava pela lua, soltava o ar de seus pulmões, desapontado, e voltava para casa. Todos os dias havia mais de meio século, no mesmo horário, no mesmo local, com o mesmo olhar.
            Tinha filhos, mas todos já casados, cada um morando na sua própria casa, os quais nunca tinham reparado nesse hábito do pai. Sua esposa havia morrido há anos, e embora achasse estranho tal hábito do marido, nunca o questionou do por quê daquilo. Ele morava sozinho, e só esporadicamente era visitado por algum familiar, que ficava pouco tempo e sempre saía antes da hora do pôr do sol, ou só aparecia à noite, quando a lua já brilhava no alto, solitária, no céu.
            Ele já estava cansado e seus passos não eram mais os mesmos, seguros, que foram em outros tempos. Andava devagar, arrastando os pés, mas não deixava de, dia após dia, se sentar naquele banco daquela praça, com os olhos voltados para onde o sol se punha. Quando a chuva o apanhava desprevenido, enquanto se dirigia à praça, ele não se importava em se molhar. Ficava debaixo d’água e voltava para casa completamente encharcado. Mesmo quando estava doente, com febre, ele ia, ainda que ficasse menos tempo do que o habitual.
            Um dia, após tantos longos anos vivendo sempre aquela rotina, ao se sentar naquele banco, dando-se conta do quão em vão foi aquela espera, ele expirou fundo e, olhando para o horizonte, lá longe, onde o sol minguava, ele chorou. Foram lágrimas dolorosas, solitárias, que ele vinha guardando durante todo aquele tempo. Seus ombros tremiam e ele não conseguia articular uma única palavra. Suas lágrimas escorriam pelo rosto enrugado e caiam em seu peito. Quando as lágrimas secaram e ele, por fim, se acalmou, se deu conta de que o sol já tinha sumido no horizonte e a lua brilhava no alto do céu. Ele a olhou e ficou a contemplá-la, se perguntando se a pessoa por quem tanto esperava também estava, naquela hora, contemplando a mesma lua, se ela se lembrava da promessa que havia feito, tantos anos atrás. Talvez estivesse a olhar para o céu, como ele, vendo aquela lua, mas não devia mais se lembrar do que havia prometido, pois, se lembrasse, não o teria feito esperar em vão por todos aqueles anos. Levantou-se e contemplou o banco por uma última vez e olhou para a árvore próxima, onde tinha escrito, certa vez, seus nomes, imaginando que aquela marca, aquela cicatriz que deixara na pele de árvore seria tão eterna quando o seu amor. Mas a cicatriz se apagou, sumiu com o tempo, e o seu amor, a ilusão de seu amor, permanecera eterna, o mesmo amor que sentia no dia em que ela se despediu dizendo que voltaria, que viria para seus braços, na hora do pôr do sol, e que ele podia esperá-la olhando para o lado que o sol se punha. Ela não veio no dia seguinte, nem no outro, no outro nem no outro. Passaram-se semanas, meses, anos e décadas, e ela não apareceu. Ele se deixou levar pela mão, certa vez, por uma mulher, com quem se casou, teve filhos, mas que nunca amou como aquela a quem tinha amado pela primeira vez. A outra, com quem havia se casado, o amava, e seu amor lhe bastava. Ele também a amou, à sua maneira, durante todos os anos em que foram casados, até o dia em que ela fechou os olhos, mas nunca a amou no horário do pôr do sol.
            Agora estava de pé, olhando aquela árvore, para o local onde tinha escrito seus nomes, que tinham se apagado com o tempo e ele não havia se dado conta. Agora via que sua espera tinha sido em vão. Chorou, mais uma vez, deixando escorrer pelo seu rosto aquelas lágrimas silenciosas que lhe brotavam da alma. Deu as costas à árvore, à praça, ao banco e ao horizonte, onde o sol se punha, e voltou para casa.
            No dia seguinte não voltou, nem no outro, no outro e nem no outro, pois como sua espera tinha terminado, pois sua espera tinha sido em vão, não tinha mais motivo para voltar ao mesmo local, no mesmo horário, em que tinha esperado durante todos aqueles anos. Não mais voltou a abrir os olhos. Na manhã seguinte ao dia em que tinha dado às costas ao horizonte, foi visitado, enquanto dormia, por uma mulher, que pegou suavemente sua mão e o conduziu para o alto, onde poderiam contemplar o pôr do sol por toda a eternidade, juntos.
            Ele, enquanto era levado, olhou para ela, para dentro de seus olhos, e disse:
            - Mas eu te esperei todo esse tempo, e você nunca veio!
            - Eu vim, todos os dias, e ficava ao seu lado, olhando o mesmo sol. Eu era a presença, a esperança do reencontro, todo dia, que fazia você voltar no dia seguinte – respondeu ela.
            Ele tinha tantas perguntas, tinha tanta coisa a falar, mas ela não deixou. Cobriu seus lábios com os dedos da mão direita, pedindo silêncio. Chorou, pedindo desculpas.
            Os dois, de mãos dadas, agora andavam lado a lado, em direção ao nascer do sol.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Um homem restituído de sua liberdade

Passado tanto tempo, privado completa e inteiramente de sua liberdade, o homem estava ansioso ante a expectativa de, finalmente, colocar o pé para fora daquela prisão e se ver, enfim, livre.
            Naquela noite, dormiu no chão duro e frio da sela e foi com grande alegria, sentimento este que não sentia há anos, há tanto tempo que já o tinha esquecido, não se lembrando o quão bom é se sentir simplesmente alegre, que viu, pela minúscula janela do alto da sela, os primeiros raios de sol que surgiam no horizonte. Nunca tinha reparado no amanhecer até aquele dia. Para ele, o nascer do sol era como ago mecânico, invariável, que acontece todo dia, e não algo novo, que sinaliza um novo começo, o novo de novo. Ele subiu em sua cama para ver o sol através daquela minúscula janela e só então percebeu o quão pequeno era o seu mundo ali dentro, encarcerado, e quão belo deveria ser o nascer do sol lá fora, no mundo.
            Esperou numa mescla de paciência e impaciência pela hora em que seria chamado. O tempo se arrastava e a cada vez que ouvia passos do lado de fora, no corredor, levantava-se de um salto e ficava junto à porta, segurando as barras de ferro. Mas a cada vez que o guarda passava pela frente da sela, tornava a se sentar, cada vez mais ansioso. Assim passou parte da manhã e quando estava já cansado, quando não esperava mais ser chamado, apareceu um homem, um guarda. Ele mal acreditou em seus ouvidos quando ouviu um alguém chamando seu nome. Levantou-se devagar e deu dois curtos passos para fora, e, ao sair, ainda olhou para a sela onde tinha passado tanto tempo uma última vez.
            Caminhou pelos corredores da prisão seguindo um guarda e sendo escoltado por um outro. Andava calado e de cabeça baixa, ouvindo os sons de seus próprios passos ecoando pelos corredores da prisão e os das pessoas que despertavam.
            Aquele lugar que estava abandonando não lhe despertava qualquer sentimento, mas, mesmo assim, por cada canto que passava, ele olhava uma última vez, como se estivesse se despedindo.
            Já na saída, enquanto a porta que iria lhe restituir a liberdade roubada era aberta, olhou para toda aquela imensa prisão e viu, lá longe, o que imaginou ser sua minúscula sela onde passara tantos anos. Já não se lembrava o dia e ano que entrara ali, e não fazia ideia de que dia e ano era aquele que estava saindo.
            A porta foi aberta e o sol bateu em cheio em seu rosto, lhe cegando momentaneamente. Quando pôde, finalmente, ver o mundo que se descortinava a sua frente, ficou sem ar, sem acreditar em seus próprios olhos. O mundo estava tão mudado e tão vasto, tão diferente de como ele o deixara quando fora preso.
            Deu um passo a frente, incerto, inseguro, rumo à liberdade, ao que havia se desacostumado, ao desconhecido, e ouviu às suas costas a porta da prisão sendo fechada e a de sua nova vida sendo aberta.
            Tropeçando em suas próprias pernas, ele caminhava sem um caminho certo, em qualquer direção. Não sabia para onde ir, agora que estava livre, e não se lembrava mais dos rostos das pessoas que um dia conhecera há tantos anos. Na prisão, estava acostumado ao pequeno mundo, aos mesmos rostos conhecidos dos longos anos do encarceramento, das pessoas com quem dividia as privações, mas agora, no mundo, ele não sabia para onde ir, quem procurar e o que fazer com aquilo a que todos chamavam de liberdade.
            Caminhou em linha reta por um longo tempo e quando suas pernas estavam cansadas parou para descansar. Colocou a mochila com seus poucos pertences no chão e se sentou num banco de praça. Enquanto descansava, percebeu, pela primeira vez, como estava cercado por tantas pessoas. Sorria para cada uma delas, mas não recebia sequer um olhar como resposta. Era como se ele fosse transparente, e ninguém reparava no homem recém-liberto, com a alma em júbilo, ali, parado, louco para conhecer e desfrutar de sua nova vida.
            Cansado de sorrir e sequer ser notado, abaixou a cabeça e soltou o ar que estava preso em seu peito.
            Levantou-se e começou a andar entre as pessoas, sendo apenas mais um na multidão.
            Ficou horas a fio andando de um lado pro outro, sentindo-se cada vez mais só à medida que a multidão se adensava ao seu redor.
            Foi ao centro da cidade, antes tão sua conhecida, e não encontrou ninguém, por mais que visse centenas de pessoas; foi a bairros da periferia e se sentiu tão miserável, privado de coisas que a mais pobre daquelas pessoas tinha: companhia.
            O sol já estava fechando seus olhos quando, parado, o homem olhou para o céu e viu um bando de pássaros num voo rasante. Olhou para a sua frente e viu pessoas, juntas, voltando para casa após um longo e estafante dia de trabalho; viu estudantes voltando da escola em sua algazarra incomodando por onde passavam; viu uma mulher que caminhava sorrindo enquanto falava ao telefone com um alguém que estava a lhe esperar; viu um pai e sua filha; e viu a si mesmo, sozinho com sua sombra alongada a seus pés.
            Sentou-se no chão, olhando o horizonte, até que o sol sumiu, dando lugar a uma lua que brilhava majestosa no céu. Naquele momento, quando viu a lua sobre sua cabeça, sentiu-se como ela: livre, tendo todo o mundo, todo o céu, para vagar eternamente, mas só.
            Antes era um homem privado de sua liberdade, hoje se sentia privado de toda e qualquer companhia. Antes era seu corpo que estava aprisionado, agora era sua alma que clamava por liberdade.
            Sentia como se estivesse sendo engolido por um nevoeiro, que lhe cobria pouco a pouco até não lhe restar mais nada além de sua sensação de falsa liberdade e certeza de uma solidão.

domingo, 8 de janeiro de 2012

No escuro e no silêncio não sou tão só

Eu só queria que isso tudo terminasse, que essa dor chegasse ao fim. Olho para trás e vejo toda a agonia por que passei, e ainda ouço aquela voz que me disse, no dia em que nasci, que estaria amaldiçoado para sempre. Desejo fechar os olhos e, ao reabri-los, ver que tudo não passou de um pesadelo. Mantenho-me no escuro, com os olhos cerrados, na mais completa escuridão e silêncio. Chego a pensar que dessa vez, nessa única vez, serei ouvido, que terei uma vida nova a partir de agora, diferente da que tive até então. Eu desejo e me esqueço completamente do tempo, embalado pela visão do nada e pelo silêncio total. Quase chego a dormir, de tão em paz que estou, uma paz que não me lembro de nunca ter sentido. Queria nunca mais poder abrir os olhos, queria ficar para sempre no conforto desse silêncio.
    Lembro-me, agora que estou na paz desse momento, de tudo que se passou. As cenas, as dores, as percepções de tudo passam rápido, como um filme à minha frente. Vejo-me no mais completo silêncio e solidão, sem saber o porquê de tudo aquilo. Falando sem nunca ser ouvido; ouvindo tantas vozes, tantas palavras, mas nunca nenhuma palavra era direcionada a mim. Sem palavras de conforto eu sobrevivi toda a minha vida a duras penas. Juro que pensei, muitas vezes, em desistir. Mas a vida me ensinou, me obrigou a persistir, a continuar a sonhar com um conforto de um momento. E assim vivi, à espera de um momento que nunca chega.
    Nunca senti o conforto de uma palavra sincera nem adormeci sendo acalentado por uma canção de ninar; nunca senti o calor de um abraço nem o sabor de um beijo; nunca tive um sonho realizado, mas pelo menos nunca deixei de sonhar.
    Sonho, uma palavra tão doce, talvez o único sabor doce que tenha sentido e que me acompanha durante toda a minha amarga vida. Vida, que sempre me foi tão cruel e inclemente, que tudo tanto fez para que eu nunca esquecesse a maldição que me persegue, que me foi lançada no dia em que nasci, de que eu seria, para sempre, uma pessoa só.
    Eu só esqueço dessa maldição, de minha condição, de quando estou com os olhos aberto, vendo tanto, tudo, e nunca sendo visto, de quando falo, grito, berro, e nunca sou ouvido, quando fecho os olhos e me isolo dentro de mim mesmo, quando não ouço os sons ao meu redor e fico no mais completo silêncio, quando me fecho dentro de mim, como me encontro agora, em paz.
    Seria tão bom se eu pudesse ficar assim, se eu pudesse continuar assim, no escuro em no mais completo silêncio, pelo resto de minha vida, pois só assim eu não sentiria todo o peso da maldição, não sentiria o peso que é ser uma pessoa tão só.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O momento é eterno, o “para sempre” sempre acaba

Tudo o que eu queria era esquecer. Simplesmente fechar os olhos e esquecer. Voltar atrás e fazer diferente, para que nada jamais tivesse acontecido, para que aquele dia não tivesse passado do que foi: somente um dia. Mas não. Aquele dia tinha que ser para sempre, pois assim nós o quisemos, pois assim nós o fizemos. Esquecemos que o para sempre às vezes é só um momento, só um dia; e às vezes o momento, o dia, pode ser eterno, e aquele nosso amor eterno de um dia se esgotou, se esvaiu por entre nossos dedos sem que o percebêssemos, pois quisemos prendê-lo, quisemos fazer dele eterno, e o eterno, naquele caso, era o momento, não mais que um momento...
            Se tivesse sido um momento, apenas, mas eterno, a imagem que ficaria para mim seria a de você vindo em minha direção, sorrindo – seu sorriso era tão lindo e radiante como a primavera de uma vida. Mas quisemos estender o momento, o dia, para fazê-lo durar para sempre, esquecendo que a vida não é para sempre, e a imagem que tenho, que guardo na memória, é a de você indo embora, me deixando aqui, a sós, tendo perdido o eterno que foi o nosso amor naquele instante, daquele dia.
            Não quero, no entanto, que volte atrás depois de eu ter visto as suas costas quando você partiu. Quero, no entanto, que me perdoe, não pelas ásperas palavras ditas, pois não podemos voltar atrás depois que as dizemos, simplesmente me perdoe, por favor, em nome daquilo que vivemos, do eterno amor de um dia que, em nosso egoísmo, o perdemos no inclemente dia a dia. Quero, também, que você saiba que eu te perdoo por inteiro, pois o erro não foi seu, mas sim nosso.
            Eu queria poder voltar no tempo e viver novamente aquele momento, somente aquele momento; sentir novamente o gosto de seu beijo e o calor de seu corpo e viver para sempre com aquele momento eterno na memória. Mas quando fecho os olhos e vejo que o nosso para sempre se tornou em um quase nada sem sentido algum, as lembranças me castigam e desejo que nada daquilo, nem o eterno do dia nem o para sempre do depois jamais tivesse acontecido.
            Eu queria poder viver e esquecer. Viver sempre que quisesse sorrir, e esquecer quando a dor me batesse no peito e me fizesse chorar à noite quando me lembro de suas costas quando você partiu, a última coisa que vi, e que ficou para na memória.