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domingo, 1 de janeiro de 2017

O nascimento do jardim-floresta

Eles vinham caminhando lentamente, como que contando os passos e não se olhavam, mas tinham plena consciência um da presença do outro, comunicando-se apenas pelo suave toque de suas mãos.
            O sol já havia iniciado sua trajetória descendente quando pararam. Ao redor não havia nada vivo e tudo era completo silêncio, não se ouvindo nenhum som trazido pelo vento. Ele então se virou para ela e segurou suas duas mãos.
            - É aqui. Eu sinto que é aqui! – disse ele, com os olhos repletos de ternura.
            Ela também havia sentido a mesma certeza que ele.
            Aproximaram-se um do outro e ele depositou-lhe um suave beijo nos lábios e lhe entregou e diminuto e precioso bem que trazia consigo. Ela recebeu a pequenina semente, passou a ela o beijo que ele havia lhe dado, agachou-se lentamente e com as mãos cavou um pequeno buraco onde a guardou. Cobriu com lençóis de terra a semente e a regou com lágrimas de alegria e ternura.
            Durante curtos-longos meses, eles vieram todas as manhãs, junto com os primeiros raios de sol, ao local onde repousava o seu tesouro. Não chovia, não havia água para regar o solo, mas ela sempre chorava de ternura e suas preciosas lágrimas umedeciam o chão e transmitiam toda a força de que a pequenina semente necessitava para crescer.
            Eles tinham pressa para vê-la despontar naquela terra, queriam tocá-la com delicadeza, sentir o toque de seda de sua folha-pele, um pequenino broto, mas sabiam que ela tinha seu tempo e abriria seus olhos e despontaria para o mundo no seu devido tempo, nem mais cedo nem mais tarde um único dia, que no dia que abriria os olhos e os braços, o som de sua voz, de seu riso, anunciaria a sua chegada.
            Após tão longa espera, quando eles chegavam de mãos dadas, que viram ao longe algo diferente na terra, algo pequenino-gigante, apertaram a mão um do outro e correram em direção àquela por quem tanto ansiavam a chegada. A pequenina planta, que mesmo com sua fragilidade havia rompido com imensa força a terra que a cobria, sorriu para aqueles que a contemplavam, e seu sorriso anunciava a primavera que se iniciava.
            Aquela pequenina planta cresceu rápido e logo proporcionou a todos uma gostosa sombra onde todos podiam se abrigar. Não cresceu muito em altura, mas em generosidade e ao seu redor foram depositadas outras sementes que foram igualmente regadas com ternura, mas agora protegidas pela sombra daquela primeira árvore que crescia dia a dia.
            O silêncio que antes havia era quebrado todas as manhãs por uma revoada de pássaros que vinha se abrigar e voar em torno das árvores daquela floresta-jardim que se multiplicava aos poucos sob a proteção e amor dos dois jardineiros, que aos poucos foi deixando que o jardim crescesse por si só.

            O jardim cresceu, e muito, sobre a sombra de frondosas árvores, que acolheram seus jardineiros e a forma como a primeira árvore encontrou para agradecer-lhes foi dando-lhes o primeiro fruto para que eles cuidassem e para que ele quando plantada a sua semente e crescesse, pudesse cuidar deles.

domingo, 10 de agosto de 2014

Asas

Quando nascem, todas as crianças têm asas para poder ir aonde quiserem, para fazer o que bem desejarem, pois são inteiramente livres, pois pertencem só e unicamente a si mesmas. Elas brincam livres no céu, sob os olhares estupefatos dos adultos, invejosos daquela liberdade e alegria a que é permitido só aos que possuem alma de criança.
            No céu, as crianças se sentiam inteiramente donas de si, e podiam viajar livremente nos braços dos ventos, mas havia uma em especial que era mais livre do que as outras: um menino que tinha um riso capaz de sobrepujar o barulho dos trovões nas noites de tempestade, que tinha asas tão grandes que ele as usava para abraçar a si mesmo quando estava com frio nas noites de inverno. Ele, junto com seus amigos, voavam pelos céus e chegavam perto do sol, mas só ele, ousado como era, ousava se aproximar o suficiente para sentir seu calor a lhe queimar a pele, e fazia isso com tanta frequência que sua cor era de um saudável bronzeado. Nas noites de luar, todas as crianças eram livres para ficar até tarde acordadas, e algumas, quando sentiam sono, podiam mesmo dormir planando no ar ou nos braços de uma estrela, mas diante de tanta alegria e felicidade, eram raras as que sentiam sono. Umas, mais afoitas, voavam bem alto em torno na lua, enquanto outras, mais alegres, brincavam com as estrelas, jogando-as de um lado para o outro, e os adultos, infantis, imaginavam tratar-se de uma “estrela cadente”, quando, na verdade, era apenas uma estrela que se deixava fazer de brinquedo pelas crianças.
            As crianças eram inteiramente felizes e livres, mas aquele menino era mais do que todas as outras, e primeira vez que seu sorriso lhe sumiu do rosto foi quando viu um adulto segurando uma criança, um amigo seu, pelo pé, impedindo-a de voar, prendendo suas asas num abraço apertado para que elas não abrissem. Ele então entendeu que aquele era o primeiro indício de uma obrigação a que os adultos impunham às crianças: o crescimento. Aquela foi a primeira criança que ele via dar seus primeiros sinais de crescimento a que os adultos e o mundo impunham, e ficou triste por dias a fio, sem ânimo sequer para voar. Mas logo esqueceu, como todas as crianças esquecem rapidamente das coisas, pois tinha muitos outros amigos para brincar durante os dias e noites de sua eterna infância.
            Um dia, quando estava no céu a brincar com uma nuvem, fazendo cócegas nela para obriga-la a tomar a forma de um animal, viu uma criança com os pés plantados no chão. Ele a chamou, mostrando como estavam a se divertir, ele a nuvem, convidando-a a participar da brincadeira, ao que ela respondeu com um olhar triste, mostrando que suas asas pendiam inertes. Ele ainda fez menção de ir até ela e voar com ela nos braços, ao que ela recusou, dizendo que a partir daquele momento não poderia mais voar, pois seu lugar era ali, com os pés bem firmes no chão. Ficou com uma lágrima presa na garganta, mas se aquele era o desejo daquela criança, tudo bem, ele respeitaria. Ainda havia, mesmo assim, algumas crianças livres, com enormes asas, embora não tão grandes quanto as suas, com quem poderia brincar e voar livremente pelo céu.
            Passadas algumas semanas, ele, num voo solitário num início de manhã, percebeu que havia menos crianças do que o normal, e olhou para baixo e viu um massacre acontecendo diante de seus olhos: adultos ignorantes prendiam as asas das crianças para que elas não pudessem mais voar, e outros iam ainda mais longe e arrancavam as asas para que nunca mais elas pudessem ser livres. Dessa vez, ele chorou, e suas lágrimas caindo eram como uma tempestade a desabar sobre a cabeça dos incautos que faziam aquilo com as crianças, prendendo-as no chão.
            Algumas crianças, mesmo livres, começaram a não conseguir mais voar tão alto e pouco a pouco foram perdendo, naturalmente, capacidade de voar, e estas, quando punham seus pés no chão e não tinham mais forças nas asas, choravam tão alto que até as estrelas no céu se compadeciam de suas novas condições, presas ao chão. Outras, para evitar perderem suas capacidades de voar, suas preciosas liberdades, tentavam viver uma vida dupla: na terra, como todos, e no céu, livres; mas a estas logo as obrigações do dia-a-dia, as infindáveis rotinas prendiam, a ponto de elas se esquecerem de como se faz para voar, e suas asas caíam inertes ao longo do corpo.
            Uma a uma, as crianças começavam a ficar presas ao chão, umas por que eram obrigadas, com os adultos obrigando-as a se plantarem no chão, enquanto outras tinham as asas as asas brutalmente arrancadas, para que nunca mais pudessem voar livremente no céu.
            Todas aquelas crianças que um dia foram livres não mais voavam, com a exceção daquele menino, que agora brincava sozinho. Ia de uma nuvem a outra, brincava de esconde-esconde com o sol, conversava, à noite, com a lua e ainda jogava, vez por outra, uma estrela de um lado para o outro. Quando olhava para baixo e via um de seus antigos amigos, agora transformados em adultos, chamava por eles, mas eles, tão ocupados em suas rotinas, ou não ouviam, ou não escutavam ou chamado, ou fingiam não ouvir aquele chamado, e seguiam sempre em frente, com a cabeça baixa e os pés bem firmes plantados no chão.  Ele, mesmo percebendo que mais que chamasse os outros não olhariam para cima, continuava a chamar até cansar. E quando eles não podiam mais ser vistos, seja porque entravam em um ônibus, carro ou se trancavam num escritório ou dentro de casa, sentia-se cansado e triste e perdia, por um instante, a vontade de voar, e em uma ocasião quase foi pego por um adulto, que desejava lhe podar as asas.
            Sentia-se só, agora que não tinha uma outra criança com quem brincar e compartilhar as alegrias e sorrisos, e essa solidão foi lhe pesando dia após dia a ponto de tal peso lhe impedir de voar tão alto como gostava. Um dia, não aguentando mais tal peso, resolveu se deixar cair lentamente, tal qual uma pluma que se deixa levar ao sabor do vento. Pousou suavemente no chão e dobrou delicadamente suas asas e começou, a partir daquele dia, a viver como uma pessoa comum, a seguir uma rotina, a ter suas responsabilidades.
            Passaram-se muitos anos e ele cresceu, como toda criança cresce, e, tão ocupado como estava em viver a vida, se esquecia do menino que um dia fora. Nunca olhava para o céu, seja durante o dia seja à noite, e sua pele, antes bronzeada, perdeu a beleza da cor e o viço.
            Mas um dia, enquanto voltava de seu trabalho para casa, parou subitamente, como que algo estivesse a lhe chamar. Era noite e não havia uma única nuvem no céu e ele, ao olhar para cima, ao ver tantas estrelas e a lua a brilhar majestosa no firmamento, e foi então que um turbilhão de lembranças lhe tomou de assalto e ele sorriu e chorou ao lembrar do menino que um dia fora e do qual havia se esquecido. Olhou para as costas e viu as asas abrindo lentamente e sorriu ao perceber que elas ainda estavam vivas e possuíam vigor suficiente para levá-lo ao céu. Respirou fundo duas ou três vezes e deixou suas asas livres para baterem e lhe levarem de volta aos braços do céu. Sentiu seus pés iam pouco a pouco se soltando do chão e ele pôde se tornar o primeiro homem, adulto, a poder voar. Seguia suas rotinas e tinha suas responsabilidades do dia-a-dia, sim, mas sempre que, cansado, voltava para casa, parava, olhava para o céu e ao ver as estrelas e a lua, podia voltar a ser o menino livre que um dia fora, e voar livremente pelo céu, privilégio este que só é dado aos que possuem uma eterna alma de criança e aos que fazem devido uso de suas asas

domingo, 3 de agosto de 2014

Pássaro-livre

Aquele era um pássaro em muito diferente dos de sua espécie. Não era preso às convenções, mas sim inteiramente livre. Não tinha que migrar no inverno, em busca de calor e alimento, como seus iguais, mas ia e ficava onde o sol lhe aquecia e onde podia alimentar sua alma independente da estação do ano. Não cantava só e unicamente nas primeiras horas da manhã, como tantos outros faziam, mas enchia o peito e soltava a voz a qualquer hora, seja para louvar o sol e agradecer-lhe pelo calor, seja para declarar seu amor à lua ou às estrelas. Tinha uma forma peculiar de bater as asas, com um gingado que tornava o seu voar muito mais belo e suave, tendo mesmo certo “quê” de sensualidade. Despertava, sim, por ser como era, certa inveja de alguns pássaros, mas a maioria, o admirava e tinham por ele uma saudável inveja.
Gostava de, pela manhã, ao sentir os primeiros raios de sol a tocar seus olhos, ao sentir os suaves dedos da brisa matutina, estufar o peito e cantar em louvor a vida. Gostava de, quando todos os outros estavam parados, empoleirados numa árvore qualquer, abrir suas asas e sair a bailar livremente pelo céu, tendo como parceiro o vento que o conduzia em passos suaves naquela dança. Gostava até mesmo de, para espanto dos de sua espécie, voar em dias de chuva, deixando que aquelas gotas mágicas que caiam do céu banhassem seu corpo e encharcassem sua alma.
Por ser como era, por chamar a atenção como chamava, começou a chamar a atenção de outros seres de outras espécies, que ficavam pasmos, perguntando como aquele pássaro podia e conseguia ser tão diferente de outros que lhe pareciam tão iguais aos olhos. Por ser livre como era, não notava os olhares cobiçosos que alguns desses seres lhe lançavam e não percebeu quando um homem começou a lhe seduzir com presentes belos, mas tolos, a fim de tê-lo não mais livre, onde todos pudessem contemplar, mas somente para si.
O pássaro, de espírito puro e inocente como era, se deixou seduzir e começou a pousar sem medo perto do homem, que a cada dia o trazia para mais perto de si. Foi o homem ganhando, pouco a pouco, mais e mais, a confiança do pássaro a ponto deste chegar, de certa feita, a pousar em seu ombro e ali ficar por longos minutos e até a se deixar tocar e acariciar suavemente por aqueles dedos rudes.
Certa vez, quando já tinha ganhado a total confiança do pássaro, o homem lhe trouxe um presente: uma gaiola. Encheu aquele ambiente de elogios, dizendo que lhe traria segurança e conforto, e o ofereceu humildemente ao pássaro, que se deixou engabelar por aquelas palavras tão elogiosas e entrou na gaiola. Experimentou-a mas ficou meio desconfiada daquelas paredes vazadas, que lhe permitiam ver o mundo exterior, mas que, mesmo assim, eram paredes, e lhe transmitiam apenas uma ideia de falsa liberdade. Saiu da gaiola, onde se sentia sufocado e voou para bem longe.
No dia seguinte voltou, e o homem lhe ofereceu novamente a gaiola. O pássaro não se sentia confortável naquela clausura, mas vendo o sorriso do homem, e se deixando iludir por aquelas melífluas palavras, acabou por entrar mais uma vez. A mesma sensação de sufocamento lhe tomou, e ele saiu mais uma vez. No outro dia, a mesma coisa. No outro e no outro também, até que começou a se sentir relativamente bem na gaiola, muito embora aquelas paredes lhe transmitissem a sensação de estar enclausurado. Saia se sentindo sufocado daquela gaiola, que por maior e mais confortável que fosse, não deixava de ser o que era: uma gaiola.
Um dia o pássaro veio e se aproximou do homem, que lhe ofereceu, como sempre vinha fazendo nos últimos dias, a gaiola. O pássaro a rejeitou, mas diante daquele sorriso e daquelas palavras, acabou cedendo e entrando, mais uma vez, por aquela porta. Andou um pouco, observou um pouco o mundo através daquelas paredes, e quando já se sentia farto daquele ambiente, quando ele começava a se sentir sufocado, que quis sair, viu a porta fechada e através dela o homem, que lhe contemplava com um sorriso diferente.
- Agora você é meu, passarinho! – disse ele.
O pássaro tentou fugir, jogando-se sobre as paredes, tentando abrir uma pequena brecha por onde pudesse passar, mas por mais que fizesse, por maior que fosse a força que desprendesse, não conseguia mover aquelas grades. Ficou triste como jamais estivera em sua vida.
O homem passou a exibir com orgulho o seu pássaro, que continuou, sim, a cantar, mas não era um canto feliz, de louvor à liberdade e à vida, mas um canto de notas baixas como um lamento.
O pássaro, dentro de pouco tempo, devido ao uso limitado de suas asas, começou a senti-las atrofiar e de onde a sua gaiola ficava empoleirada, ele via, lá embaixo, algumas outras gaiolas que pertenceram outrora a outros pássaros, que em outros tempos foram seduzidos por aquele homem e feitos cativos.
Dia após dia ele começou a ficar mais e mais triste. Suas asas, devido ao uso limitado, começaram a atrofiar e sua garganta a secar, pois seu canto não era mais espontâneo. Quando o homem vinha vê-lo de manhã, que o via naquele estado de espírito, procurava estimula-lo, conversando e imitando, com um assovio, um canto de um pássaro. Mas nada que o outro fizesse seria capaz de fazê-lo voltar a se sentir e a ser o que era antes, pois agora ele não era mais um pássaro livre, mas sim um pássaro engaiolado.
Começou a definhar mais e mais e o seu único consolo era ver, através das grades de sua prisão, os pássaros livres a voar no céu. Um ou outro seu companheiro de outrora vinha pousar perto dele e até sobre a sua gaiola, o que lhe trazia certo conforto, pois isso reavivava o seu sonho/desejo de vir a ser novamente livre e sentir novamente o vento bater sob as suas asas. Quando o outro pássaro ia embora, que ele o via se afastar até se tornar não mais que um minúsculo ponto no horizonte, se deixava tomar por uma aguda depressão.
O homem, preocupado, compadecido com a tão latente dor de seu pássaro, tentava, de todas as maneiras, reanima-lo, mas quando via o olhar dele tão distante, fitando o horizonte infinito, sentia-se impotente, sem saber como trazer de volta o espírito daquele pássaro pelo qual se apaixonara e afeiçoara.
Mas o pássaro definhava à olhos vistos e o homem, não aguentando vê-lo morrer lentamente, abriu a porta da gaiola e atraiu o pássaro para fora. O pássaro, tão fraco estava que mal conseguia se mover, mas fez um imenso esforço para conseguir sair da gaiola que se acostumara a chamar de casa. Ao se ver fora da gaiola, finalmente de posse da liberdade pela qual sonhara, mas que acreditava que nunca mais iria readquirir, ficou desnorteado, sem saber o que fazer. Suas asas pesavam, e o homem, ao perceber tudo isso, o pegou delicadamente e procurou reensina-lo a forma correta de abrir as asas e batê-las. O vento, que passava perto, ao ver seu parceiro de dança naquele estado, resolveu ajuda-lo e soprou suavemente em sua direção. O pássaro, ao sentir aquele delicado toque no rosto, sorriu e abriu as asas. Não precisou batê-las, não precisou fazer qualquer esforço, precisou, apenas, se deixar levar nos braços do vento, que o conduziu suavemente nos passos daquela dança e o levou para o alto, de onde podia ver o mundo todo se descortinar perante seus olhos. O homem ficou, emocionado, a contemplar o pássaro readquirir seu antigo viço e prometeu, naquele momento, que nunca mais iria aprisionar pássaro algum.

O pássaro desceu num voo rasante e pousou no ombro do homem e cantou como cantara em outros tempos, e sua canção, e suas palavras eram de agradecimento por ele ter-lhe restituído a liberdade que, num ato impensado, lhe havia roubado. O homem sentiu-se feliz e honrado ao ouvir aquele canto entoado só e unicamente para ele. O pássaro, então, abriu novamente as asas e voou para longe, sendo novamente o pássaro livre que sempre fora, dançando seu balé no ar, cantando em louvor à vida, à liberdade.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Jardineiro-Poeta



O jardineiro é um solitário escultor nato. Ele vê um silêncio do campo estéreo e olha para suas próprias mãos, tão ásperas e calejadas, tão sem poesia, incapaz de dotar de cores e cheiros mil aquela terra cinzenta e pedregosa. Respira fundo e se agacha, pega a terra e a deixa escorrer por entre seus dedos. É ele um insensato, e sabe disso, mas decide, ali, quando sente o calor da terra, que irá, tal qual um escafandrista, fechar os olhos e, munido de seu traje, respirar fundo duas ou três vezes e mergulhar na alma daquela terra árida.
            Seu trabalho é longo, difícil e silencioso e ele, certa vez, até olha para si mesmo com certa incredulidade, duvidando de suas próprias condições, de suas próprias capacidades de transformar em poesia para os sentidos aquele campo cinzento. Mas ele, artista-escultor-poeta-da-terra que é, deposita uma enorme confiança em si, mesmo que tudo diga o contrário, e por mais que sinta os calos nas mãos, sabe o quão delicadas elas são, de toque suave como a da mais pura seda.
            Começa seus trabalhos com toda a paciência do mundo, e da mesma forma que um poeta brinca com as palavras, jogando-as numa folha de papel em branco, o jardineiro brinca com as sementes, depositando-as delicadamente nos sulcos que vai construindo e cavando com seus próprios dedos na terra. Tem, em si mesmo, uma fé inabalável como maior virtude e por mais que da terra nada brote, não deixa que escape por entre os seus dedos a esperança de ver nascer um pequeno e delicado broto. Passa horas e horas a fio em muda contemplação. Regava e via o manto do sol encobrir a terra e ficava esperando o renascimento da vida naquele solo.
            Chegou um momento em que por mais paciente que fosse, o jardineiro via escorrer por entre os dedos a esperança de ver brotar uma delicada flor daquele solo. Ficou com vontade de desistir, sentiu lhe faltar a coragem de continuar. Não conseguia mais olhar para aquele chão duro e imaginar o jardim que poderia esculpir com lindas flores, dispondo-a harmonicamente em torno de uma fonte que pretendia construir, e passou a conviver com o fantasma do fracasso.
            Para ele, essa impotência era indescritível e inexplicável. Havia depositado tão delicadamente as sementes, havia regado com tanto amor aquele solo, mas por mais que fizesse, nada dali brotava! Decepcionado, voltou para casa cabisbaixo antes do sol se pôs no horizonte naquele dia.
            Não saiu da cama no seguinte, e no seguinte e no seguinte, e só quando conseguiu sentir as pernas novamente firmes foi novamente, pela última vez, ao local ao qual tanto se dera nos últimos dias. A terra continuava como sempre, insensível, e o frustrado jardineiro se ajoelhou, pegou um punhado de terra e a trouxe para junto do rosto, para sentir seu cheiro. Chorou naquele momento e ficou longos minutos soluçando deixando que as lágrimas escorressem livremente pelo seu rosto e mergulhassem na terra, regando-a uma última vez. Quando cessou o seu pranto, pegou, no bolso, uma última semente, levou-a até seus lábios, beijou-a, depositou-a no caloroso seio da terra, levantou-se e foi embora sem olhar para trás.
            Passou longos dias entretido em pensamentos mil e chegou, mesmo, a esquecer do poema feito na terra que não conseguiu escrever uma única palavra. Os dias sucederam uns aos outros lentamente, até que o jardineiro, certa vez, ao passear por uma rua, viu um jardim bem-cuidado, todo repleto de flores multicoloridas, com as abelhas voando, roubando o pólen das flores, com beija-flores dançando seu balé em pleno ar, e lhe bateu uma enorme saudade do jardim que não tinha conseguido fazer nada florescer. Seus pés, então, o levaram até aquele campo estéril e tal não foi sua surpresa ao ver um imenso campo florido diante de seus olhos. Fechou os olhos com força, pensando que eles lhe pregavam uma peça. Mas não. Ao reabri-los, o campo estava realmente ali, real em todas as suas cores e cheiros.
            O jardineiro então andou por seus corredores tal qual um leitor percorre os versos de um poema com o qual está a se deleitar. Reconheceu, como um poeta reconhece as suas próprias palavras impressas num livro, as sementes que depositou, aquelas flores que eram como um camaleão aos olhos de quem as via, mudando sutilmente de cor dependendo de como se olhava para elas. Tocou delicadamente flor por flor e se comoveu com a maneira como cada uma recebia os seus carinhos. Viu que cada uma tinha uma alma e delicadeza própria, mas que dada a sua pequenez, cada uma era forte, dotada de uma resiliência ímpar.
            Caminhou por todas as vielas do jardim, por todos os versos daquele poema que construiu com as próprias mãos, até que chegou até seu coração, onde desabrochara não uma flor, mas sim uma frondosa árvore. Boquiaberto com tal imponência, ele ficou longos minutos, imóvel, contemplando-a, protegido por sua generosa sombra. Viu, lá no alto, em sua copa, um suculento fruto e desejou prova-lo, mas não sabia subir na árvore, apenas depositar sua semente no solo e regá-la dia a dia. Foi então que a árvore soltou de seu caule o fruto e deixou-o cair suavemente no chão para que o jardineiro o pegasse.
            O homem sentiu batendo em seu rosto os bons ventos que sopraram em seu favor e olhou para as próprias mãos calejadas, tão sujas de terra, com areia sob as unhas, e viu a imensa escultura-poema que tais mãos haviam construído e sentiu que valeu a pena cada esforço desprendido por cada semente plantada. Sentiu o pulsar do jardim em cada flor.
            Voltou para casa imensamente feliz, com sua integridade moral como poeta de jardins intacta, e naquela noite teve um sono reconfortante como se estivesse deitado num campo de flores e sendo coberto por um imenso cobertor de delicadas pétalas de todas as cores.

sábado, 3 de maio de 2014

Tessitura das Estações


Marcela observava, lá do alto, as ondas do mar se quebrando quando batiam com força à rocha. Os sons dos lamentos do mar lhe chegavam aos ouvidos trazidos pelas delicadas mãos do vento. Sentia-se solitária ali, naquela casa, tão alta e longe de tudo, mas que, contudo, somente ali se sentia mais perto de si mesma, onde podia escutar a sua voz e ouvir o som da batida do próprio coração.
Todas as manhãs, ao acordar, abria as janelas do quarto e convidava o sol e o vento a entrarem, fechava bem os olhos e deixava que o mundo lhe tomasse por inteiro no desabrochar de mais uma manhã daquele Verão. Sentia-se em paz, livre e leve como um pássaro. Abria os braços e inspirava todo aquele ar matinal, deixando que ele lhe inundasse todo o corpo, então abria seu lindo sorriso e deixava que seus olhos se abrissem pouco a pouco para contemplar o mundo que se descortinava perante seus olhos.
Mas seus olhos, certa manhã, ao mirarem ao longe, viram algo a que não estava acostumada: uma pesada e escura nuvem que vinha se aproximando lentamente, empurrada por um frio vento. Soube, então, que era o Outono que se aproximava, então a solidão começou a se adensar ao seu redor. Fechou a janela e se jogou de volta na cama, protegendo-se debaixo dos cobertores, no escuro, esperando que o outono passasse. Mas o outono não passou logo, e Marcela se sentia a cada dia mais angustiada. O vento frio a incomodava, o cinza do céu lhe tirava o colorido da vida e toda manhã ela, quando abria a janela, era saldava não por uma carícia, mas por uma bofetada de um vento frio. O mar, lá embaixo, chorava e tornava-se revolto, golpeando a rocha como se quisesse fazê-la vir abaixo, e ela ouvia o seu clamor e uma ou duas vezes correu até a beira do penhasco para vê-lo em sua fúria, para lhe jogar palavras de consolo, dizendo que logo aquela cinza e fria estação iria passar e que tudo iria ficar bem. Mas o mar, poderoso e sábio como o é, não se acalmou, pois sentia, lá longe, já as grossas gotas da chuva que caíam em seu corpo e lhe tornavam mais e mais caudaloso.
O Inverno chegou, e com ele as lágrimas do céu caíram incessantemente, e o vento soprava carregado. Fechada em seu quarto, Marcela se sentia carente da felicidade de outrora, da suave carícia do vento das manhãs, da saborosa brisa do fim de tarde. Ficou deprimida naquela clausura imposta pelo Inverno e começou a definhar lentamente, como uma árvore que perde, uma a uma, as suas folhas no outono, como uma flor que murcha, que vai perdendo, pouco a pouco o viço de sua beleza, que vai perdendo as suas pétalas sem que nada possa fazer para impedi-las de cair.
Entregue como estava, sentindo-se morta naquela geladeira de emoções, Marcela foi surpreendida, certa manhã, com um suave roçar na janela. Abriu uma pequena brecha, por onde entrou um vento fino, frio, mas de toque gostoso. Ele a acariciou suavemente nas faces e lhe sussurrou melífluas palavras, prometendo-lhe redamar eternamente, por mais que, apesar das, mudanças de estações do ano. Ela, resistente, tentou fechar a janela, cansada como estava daquelas mudanças, mas ele foi mais firme, e segurou-lhe a mão com força e delicadeza, afastando-a para que pudesse entrar mais livremente e circular naquele quarto. O vento se deitou na cama dela e se insinuou por entre os seus lençóis num jogo de sedução, e ela se deixou seduzir, entregando-se por inteiro, sem dores ou pudores, àquele amante que lhe legava todo o amor do mundo na forma de uma estação do ano. Ele, para provar isso, segurou sua mão e a fez se levantar. Conduziu-a passo a passo até a janela e a convidou a olhar para fora, onde se descortinava um imenso tapete de rosas multicoloridas que desabrochavam naquela primeira manhã da Primavera. Marcela sorriu, feliz, ao ver aquilo, aquela prova de amor. Abriu a porta de casa e correu para fora, jogando-se de braços abertos naquele felpudo tapete. Ali, deitada, sentindo deitado sobre si o vento, fechou os olhos e sonhou, e no sonho sorria, compreendendo toda a poesia da mudança das estações.

domingo, 23 de março de 2014

O abrir das asas

Ele persistiu, acreditou em si, em suas próprias forças, em sua vontade e em sua determinação, e, lá do alto, satisfeito, viu o tamanho do salto que dera.
 
Sentiu medo, um frio na barriga, sentiu-se impotente e esteve para desistir antes de dar aquele passo. Fechou os olhos e olhou para os próprios pés. Sentia-se tão seguro onde e como estava, e seria uma insensatez largar tudo aquilo por conta de uma simples aventura que iria durar não mais que alguns míseros segundos. Muito mais sensato seria ficar como e onde estava! Mas não! Ele não ouviu a voz interior que lhe dizia para ficar, para não olhar para frente, mas sim para os próprios pés, onde encontrava a segurança em que com tanta ânsia se agarrava.
            Ele titubeou e olhou para trás, para a segurança, e depois para frente, para o horizonte de desconhecido que teria diante de si se ousasse dar mais um passo. Fechou os olhos e respirou fundo duas ou três vezes. Não sabia o que fazer. Seu coração, sua alma, lhe dizia para dar mais aquele passo que lhe levaria ao desconhecido, enquanto seus pés lhe diziam para permanecer como estava.
            Via diante de si tantos daqueles loucos que ousaram dar aquele curto e decisivo passo, felizes, mergulhando no ar, cantando em louvor a louca liberdade, e se perguntou se ele estava pronto para aquela loucura, se seria realmente capaz de voar, se sua voz teria força igual a daqueles que sentiam aquela liberdade. Enfrentava aquele dilema decisivo em sua vida: a loucura da liberdade inebriante do ar ou a segurança e firmeza de ter eternamente algo seguro sob os pés?
            Deixou que sua alma decidisse, que seu coração falasse mais alto, e, com os olhos, fechados respirou fundo e se deixou largar no imenso vazio, dando aquele tão curto e grande passo. Caiu livremente por uma curta fração de segundos, mas logo abriu as asas e começou a batê-la freneticamente, de maneira desajeitada e, ainda com os olhos fechados, com medo, começou a sentir o nada debaixo dos pés, e tudo que havia ao seu redor.
            Abriu lentamente os olhos para ver a liberdade que o seu corpo já sentia em toda a plenitude. Perdeu a respiração quando olhou para baixo e não viu nada além do chão, lá embaixo, tão longe, e para trás, quando viu a árvore de onde saltara, tão distante. Feliz com seu feito, abriu a boca num imenso sorriso de júbilo e de sua garganta, de uma gargalhada soou um canção de louvor à liberdade, à nova vida que a partir daquele momento teria diante de si.
            Batia as asas agora com desenvoltura e dava voos rasantes, gozando de sua recém-adquirida liberdade, indo de um lado para o outro dando pequenos-e-grandes saltos. Pousou em uma árvore e lá do alto da copa olhou para aquela de onde saltara. Reviu, reviveu durante alguns instantes, todas as indecisões por que passara, rindo de seu próprio medo. Se não tivesse enfrentado seus medos, se não tivesse acreditado em si, se não tivesse persistido, não estaria, naquele momento, vendo em toda a sua extensão a beleza que tinha diante de si, todo o céu. Abriu novamente as asas, dando um salto-mergulho em direção à árvore de onde viera, não para lá ficar, mas sim para saber de onde viera, para saber para onde podia voltar e pousar entre um voo e outro.

sábado, 11 de janeiro de 2014

A Magia do Lápis de Cor

Luíza fora completamente engolida e tomada por sua rotina. Seu dia-a-dia era dividido entre trabalho, estudos e outras tantas obrigações, não sobrando, nunca, tempo para o seu lazer e prazer. Há tempos não traçava uma única linha numa folha de papel em branco para começar a brincar, dando cor, luz, forma e vida aos seres criados por sua imaginação. Todos os dias prometia para si mesma que iria voltar a exercitar a sua arte, que iria dar livre vazão à sua imaginação e deixar sua mão livre, mas todos os seus dias eram iguais aos anteriores e estes aos anteriores, e ela nunca conseguia cumprir aquilo que prometera. Até tentava, para mostrar para si mesmo a sua força de vontade e determinação, deixando, ao sair de casa, à vista um caderno de desenho aberto e uma enorme coleção de lápis de cor sobre a escrivaninha, para que quando voltasse, mesmo sendo tarde da noite, começar a fazer nem que fosse o rabisco de um desenho; mas ela sempre chegava à casa cansada e ao ver as folhas em branco e os lápis sem dar cor a nada, dizia que no dia seguinte começaria a desenhar. No dia seguinte, a mesma coisa. Passavam-se semanas e o caderno de desenho continuava aberto e os lápis ainda arrumados na sua caixa a ponto de ela nem sequer mais reparar neles.
            Todos os dias eram sempre de um mesmo igual para Luíza. Os mesmos horários, as mesmas rotinas, os mesmos tempos perdidos. Pegava até mesmo os mesmos ônibus todos os dias, perdia longas horas em congestionamentos nos mesmos horários e lugares, sentava-se nos mesmos lugares, apreciava as mesmas avenidas e o mesmo céu e até via, muitas vezes nos ônibus, mas principalmente no trabalho e na universidade, as mesmas pessoas. Seu mundo era sempre o mesmo, pois seu olhar para o mundo também o era.
            Um dia, ao sair da universidade um pouco mais tarde do que o convencional, pois ficara para discutir com colegas do grupo um trabalho a ser apresentado na semana seguinte, perdeu o ônibus que sempre pegava. Ficou irritada, pois aquilo a fizera sair da rotina e a faria perder longos e preciosos minutos na parada esperando o próximo ônibus. O tempo passava e nada do ônibus vir, a parada ia ficando cada vez mais deserta e Luíza ficava cada vez mais só ali, até que, quando já olhava para o relógio pela enésima vez, viu, dobrando a esquina, seu ônibus. Ele veio praticamente vazio, como ela raramente o via, já que a linha que fazia o trajeto pelo bairro onde morava normalmente andava lotado. O lugar em que costumava se sentar, na cadeira alta, perto da porta de saída do ônibus, estava ocupada, e ela se jogou numa outra soltando um sonoro “que dia!”. Respirou fundo duas ou três vezes e fechou os olhos. Sentiu o ônibus em movimento, depois parar, abrir as portas para que passageiros subissem e outros descessem, depois fechar as portas e voltar a se movimentar.
Numa determinada parada subiu um senhor velho, que de tão velho era impossível se precisar sua idade por sua aparência, mas que parecia ter o vigor da sua juventude ainda intactos no seu olhar e na sua voz rouca e forte. Ele pediu licença aos passageiros e se desculpou por estar incomodando a sua viagem. Luíza soltou todo o ar que estava nos pulmões, irritada. “Até a essa hora esses vendedores ambulantes de ônibus aparecem! Hoje, definitivamente, não é meu dia!”, disse para si mesma e fechou os olhos com força, mas aquela voz, daquele homem, entrava por seus ouvidos com tal força e delicadeza, ele tinha um tom tão inebriante que não se conteve e abriu os olhos. O que viu diante de si era um senhor de cabelos e barba muito branca e grande, de roupa muito parecida com uma túnica cinzenta, que em outros tempos deveria ter tido uma cor bonita, mas que perdera devido ao longo uso e às inúmeras lavagens. Ele se apoiava numa bengala, que na parte de cima, onde segurava com força, havia muitas fitinhas multicoloridas . Luíza percebeu, também, que de seu pescoço pendia um delicado colar colorido e em seus finos braços havia pulseiras feitas de fitas coloridas. Passou tanto tempo observando-o e sequer notou que ele tinha se calado e a fitava nos olhos. E que olhos ele tinha, de um verde profundo! O olhar dos dois se encontrou, e Luíza sentiu um arrepio, pois era como se ele conseguisse ler o que havia em sua alma. Tentou desviar os olhos, desprender os seus dos dele, mas não conseguiu, e percebeu, pelo olhar dele, que ele sorria, o que a tranquilizou e fez o seu coração voltar a bater no compasso correto. Ele então fez um sinal afirmativo com a cabeça e ela conseguiu desviar os olhos.
O velho homem andou pelo corredor do ônibus, falando com as pessoas e pedindo que cada uma segurasse um pequeno embrulho dizendo que não estava vendendo nada, e que dentro daqueles delicados pacotes, uns pequenos e embrulhados em papeis de cores apagadas, outros grandes e envoltos em papeis coloridos, havia algo especial para cada uma daquelas pessoas que os quisesse. Depois voltou para a frente do ônibus, onde dirigiu a palavra a todos e Luíza o olhou novamente nos olhos, e percebeu que eles não eram mais verdes, mas sim de um castanho, mas ao piscar, eles voltaram a ser verdes. Ela arregalou os olhos ao ver a repentina mudança na cor dos olhos do homem e se perguntou se tinha realmente visto aquilo ou se tinha sido algum fruto da sua imaginação. Ele sorriu para ela e esperou que cada pessoa se decidisse se iria querer ou não ficar com os pacotes ele lhes entregara, depois passou pelo corredor do ônibus, recebendo de volta os das pessoas que não queriam receber nada de um estranho, e apenas Luíza ficou com o seu, e sem que ela mesma percebesse, estava abraçada a ele, como se ali houvesse um precioso tesouro. O homem sorriu ao vê-la tão ferrenhamente agarrada ao seu embrulho, recebeu os dos outros passageiros e pediu parada. Quando o ônibus parou, Luíza olhou para trás, para ele, e ele olhou para ela, piscou os olhos, que mudaram de cor rapidamente, passando do verde para o castanho, piscou novamente e eles adquiriram a cor do azul do céu em manhã de primavera, e depois aos piscar pela última vez, eles voltaram a ser verdes. Antes de descer, ele ainda sorriu para uma vez para ela, despedindo-se.
Luíza chegou agitada em casa e nem respondeu a sua mãe, quando ela lhe perguntou o motivo da demora e se estava com fome, se queria que preparasse algo para jantar. Abriu de um supetão a porta de seu quarto e jogou o embrulho que tinha recebido do velho homem sobre a cama. Começou a andar de um lado para o outro pelo quarto e só voltou a dar por si quando sua mãe bateu à porta do quarto, chamando-a para jantar. Ela balançou a cabeça de um lado para o outro, pegou o embrulho e o colocou na gaveta de sua escrivaninha e disse à sua mãe que já estava indo, que iria apenas tomar um rápido banho, vestir uma roupa e ir jantar.
Depois do jantar, Luíza, muito cansada, foi se deitar, como que tendo esquecido do embrulho que estava guardado à um metro de onde dormia, mas pensando, ainda, no velho cujos olhos mudavam de cor.

Teve uma noite tranquila e sem sonhos, mas acordou sobressaltada, antes do despertador, com um barulho vindo da gaveta de sua escrivaninha. Ao abri-la, viu apenas o embrulho entregue pelo homem no dia anterior.
            - Acho que estou precisando urgentemente de férias – disse para si mesma, e foi se preparar para começar um novo-igual dia.
            Aquele foi um dia atípico na vida de Luíza. Estava distraída, meio alheia ao que acontecia ao seu redor. Cometeu erros no trabalho que costumava não cometer e, pela primeira vez em anos naquela empresa, pediu para sair mais cedo, alegando não estar bem, o que, até certo ponto, era verdade. Na universidade, não prestou atenção às aulas, quando convidada, pelo professor, a levantar alguma questão, não fazia as perguntas ou comentários que se esperava dela. Quando soou o sinal do fim da aula, ela caminhou devagar em direção à parada, para perder propositalmente o ônibus que sempre pegava. Pretendia pegar o seguinte, o mesmo do dia anterior, justamente para provocar um possível encontro com o mesmo homem. Ficou esperando impacientemente o ônibus, que veio, naquele dia, lotado, mas ela subiu mesmo assim. A cada parada que o ônibus fazia, ela fechava os olhos torcendo para que o estranho velhinho subisse, mas não foi o que aconteceu.
            Chegando a casa, disse, à sua mãe, que estava indisposta e que não queria comer nada e iria direto pra cama. Deitou-se, ainda vestida do jeito que estava, jogou o travesseiro sobre a cabeça a fim de se acalmar e esperou que sua respiração voltar ao normal, e quando se sentiu tranquila, foi até sua escrivaninha, abriu a gaveta e tirou lá de dentro o embrulho. Colocou-o sobre a cama e ficou olhando para ele.
            - O que será que tem aí dentro?
            Tateou o embrulho para ver se adivinhava o que havia por trás daqueles papeis, mas não conseguiu adivinhar, depois começou a cuidadosamente abri-lo e, para sua surpresa, o que encontrou foi uma coleção de lápis de cor. Eram lápis de cor muito velhos, mas que pareciam nunca ter sido usados. Luíza abriu seu caderno de desenho e pegou alguns dos lápis e começou a fazer uns traços sem forma definida a princípio, mas que pouco a pouco foram tomando a forma de um passarinho. Quanto mais ela desenhava, mais ficava surpresa com os resultados. Os lápis, apesar de velhos, davam ao desenho cor e vida impressionante. Quando terminou, pegou o caderno e o posicionou de forma que pudesse vê-lo melhor, de frente, na altura dos olhos.
            - Uau! – disse, impressionada com o resultado do desenho. Olhou os lápis que agora estavam espalhados sobre a escrivaninha, trocou de roupa, apagou a luz e foi dormir.

Acordou na manhã seguinte com o barulho do canto de um pássaro e imaginou estar sonhando. Era um canto límpido, como os pássaros só cantam para saldar o sol na primeira manhã de primavera. Ao acordar daquele jeito, ela sorriu. Abriu os olhos bem devagar, mas os arregalou repentinamente quando viu que o passarinho que cantava estava voando sobre sua cabeça, no quarto. Pousava no alto de seu guarda roupa e descia em voo rasante em direção à escrivaninha e ficava lá alguns segundos, para saltar e ir pousar na cabeceira de sua cama.
            - Como você veio parar aqui?
            Levantou-se de um salto e passou as mãos sobre os olhos. O passarinho continuava ali a voar pelo seu quarto e a cantar. Se seus olhos podiam traí-la, seus ouvidos lhe diziam que havia um pássaro ali. Abriu então a porta do quarto e foi chamar sua mãe, e tirou da cama e ao voltar, ao quarto, não havia sinal algum do passarinho.
            - Mas... mãe, ele estava aqui. A senhora não ouviu seu canto?
            - Não, filha! Não ouvi canto nenhum de passarinho nenhum. Não tinha como um pássaro entrar no seu quarto, pois a janela está fechada. Agora, volte a dormir. Ainda está muito cedo e seu despertador nem sequer tocou!
            - Mas mãe, eu juro que tinha um passarinho no meu quarto.
            - Acho, filha, que você tem trabalhado e estudado demais. Está precisando urgentemente de férias – disse ela e voltou a seu quarto para dormir.
            Luíza ainda ficou procurando pelo passarinho em todos os cantos do quarto, mas não o achou, e encontrou apenas o desenho o desenho do passarinho que fez na noite anterior.
            - Será que você saiu do papel? – perguntou, e riu com o absurdo da situação, de imaginar que seu desenho ganhara vida durante alguns instantes e depois voltara ao papel.
            Colocou o caderno de desenho no seu lugar, na escrivaninha, ao lado daqueles velhos lápis de cor, e voltou a dormir.
            - Será? – perguntou, e riu novamente.

Seu trabalho naquele dia fora igual ao de tantos outros dias. Olhou, ao longo do dia, um sem-número de vezes para o relógio, contando as horas para ir embora direto para casa, pois não teria aula naquela noite. Quando terminou o expediente, bateu e mal se despediu dos companheiros de trabalho, que a chamaram para sair, ir a um barzinho para espairecer um pouco, ao que ela recusou.
            Sua mãe não estava em casa quando chegou, e ela foi direto para o quarto, se trocou, e se sentou à escrivaninha, abriu o caderno de desenho, pegou os lápis e começou a brincar com eles, sem ter nada definido quanto àquilo que queria desenhar. Misturou algumas cores, fez linhas curvas, deu forma, cor e vida, aos poucos, ao que só residia em sua imaginação, e pouco a pouco, na que há pouco era apenas uma folha de papel em branco, foi surgindo uma bela flor e, tal qual seu desenho anterior, ficou dotado de uma beleza e realidade ímpar.
            - Esses lápis são maravilhosos e os desenhos que faço com eles parecem vivos! – disse Luíza, mirando o desenho.
            Deixou o caderno aberto e foi preparar algo para comer. Ficou longos minutos, após a refeição, entre pequenos afazeres domésticos e a televisão, até que ouviu um barulho leve, quase imperceptível, vindo de seu quarto. Foi, pé ante pé, até lá. A porta continuava aberta, a janela, fechada e a luz ainda acesa. Colocou a cabeça na porta, procurando descobrir o que acontecera, mas não viu nada de estranho. Passeou os olhos pelo guarda-roupa, pela cama, e quando olhou para a escrivaninha, seus olhos se arregalaram e ela quase caiu para trás. O que tinha diante de si era algo inimaginável! Do caderno, onde acabara de desenhar, nascera uma flor. Não uma flor qualquer, mas aquela flor que ela acabara de desenhar! Prendeu a respiração, não acreditando no que seus olhos viam. Fechou os olhos para que, quando os reabrisse, percebesse que a flor tinha sumido. Mas não foi o que aconteceu! A flor continuava lá, abria lentamente as pétalas e se deixava guiar numa dança com o suave vento que entrava pela fresta da janela. Luíza passava as mãos sobre os olhos, incrédula, mas o que tinha diante de si era a mais pura verdade: a flor que desenhara acabara de ganhar vida!
            Entrou no guardo com as pernas mal conseguindo mantê-la de pé, trêmulas. A respiração estava difícil, presa e quando chegou até bem próximo da escrivaninha, esticou o pescoço para ver melhor. Da folha em que há pouco havia feito um desenho, brotara uma flor, da mesma forma, cor, beleza e delicadeza que criara. Olhou para os lápis ao lado e só então percebeu que eles eram mágicos!
            Chegou mais perto da flor e à muito custo esticou o braço e abriu as mãos para tocá-la e senti-la, para sentir se realmente era real. Tocou suavemente uma pétala e sentiu sua delicadeza e desceu o dedo pelo caule, depois subiu novamente para sentir os pequenos, porém pontiagudos espinhos.
            Boquiaberta, ficou observando a flor por um longo tempo, até que a viu começar a se deitar, como se murchasse, até que ficou rente ao papel e novamente se fundiu a ele, voltando a ser apenas um desenho. Luíza ficou espantada com o que acontecera bem diante de seus olhos. Pegou os lápis e os observou um a um.
            - Vocês são mágicos! – disse, e soltou uma sonora gargalhada.

Luíza passou o final de semana inteiro praticamente trancada no quarto, e só abria a porta, à muito custo, após muita insistência de sua mãe para que saísse dali nem que fosse para apenas se sentar à mesa e fazer as refeições.
            Desenhou, quando sentiu sua vida sem cor, uma arco-íris, que ficou por longos minutos atravessando de ponta a ponta o seu quarto. Quando a noite estava muito escura e fria, desenhou um sol, que prontamente a iluminou e aqueceu. Desenhou personagens que faziam parte de sua infância para poder brincar e se divertir com eles, voltando a ser a criança que nunca deixou de ser pelos longos minutos em que eles correram livremente pelo seu quarto e subiam em sua cama. Quando teve calor, desenhou uma janela aberta por onde soprou uma suave e refrescante brisa. Fez tantos desenhos naqueles dois dias que até quando dormia, sonhava que estava a desenhar.
            Na segunda-feira, sua mãe, preocupada, quando veio perguntar se não iria trabalhar, ela alegou estar doente e que não iria naquele dia!
            - O que você tem, filha? – perguntou sua mãe.
            - Sou estou indisposta, mãe, mas não precisa se preocupar. Eu logo, logo vou estar bem novamente – disse ela, e abriu a porta do quarto para se mostrar á sua mãe e mostrar que não estava doente de verdade, mas sim levemente indisposta.
            - Tudo bem, então, filha. Fique bem, e qualquer coisa... – ela interrompeu o que dizia porque ouviu o barulho de uma voz vindo do quarto da filha – Que barulho foi esse? Quem está aí, Luíza?
            - Ninguém, mãe. É só um vídeo que estou assistindo no computador – respondeu, e fechou a porta antes que a mãe lhe perguntasse mais alguma coisa ou que a obrigasse a deixar entrar em seu quarto.
            Desenhou até seus dedos doerem e ficarem calejados, e quando quis experimentar algo diferente e surpreendente, fez o desenho de uma pequena porta na parede de seu quarto por onde observou o que havia do outro lado, num mundo paralelo onde só vivia a imaginação e tudo que ela pudesse criar.
            Quanto mais desenhava, mais sentia o desejo e a necessidade latente de desenhar.
Ficava horas a fio concentrada, buscando perfeição até o último traço de um desenho, e quando o finalizava, colocava-o à sua frente e permanecia parada, esperando para que a figura ganhasse vida e ela pudesse senti-la em sua própria mão.
Desenhou um cachorro com que pudesse brincar durante à tarde, e depois um gato, só para bajulá-lo e mendigar um pouco de sua atenção, em seguida fez o desenho perfeito de um papagaio só para poder ensiná-lo a falar. Fez até um desenho de si mesma só para conversar consigo própria e ouvir a sua própria opinião sobre determinados assuntos.
Sentia-se leve como há tempos não se sentia, como se colocar para fora, dar toda aquela vazão à sua arte, à sua imaginação, lhe tirasse um enorme peso de suas costas.

Não foi trabalhar no dia seguinte, nem no outro e nem no outro. Deu as mesmas desculpas para sua mãe e ligou para o trabalho alegando ainda não estar bem para voltara trabalhar e quanto à universidade, preferiu “tirar férias de uns dias”.
            Fez inúmeros desenhos durante esses dias, e certa vez até deixou a porta do quarto aberta para que eles corressem livremente pela casa, subissem no sofá e vissem a si mesmos nos desenhos animados e filmes exibidos na televisão. Ficou parada, ao lado, observado os seus desenhos vendo a si mesmos na televisão, e se divertiu com a expressão que cada um fazia ao se verem envolvidos em alguma enrascada numa cena dos episódios que passavam na TV.
            Nesses dias, a muito custo fechava o caderno de desenhos e guardava os lápis. Sua vontade era ficar desenhando até durante as madrugadas e explorar todo aquele seu ímpeto criativo à exaustão.
           
Certo dia, quando finalizou um desenho, que foi apontar os lápis antes de guardá-los, percebeu que eles estavam curtos. Ao se dar conta disso, caiu em desespero, pois sem aqueles lápis, não mais podia dar vida aos seus desenhos. Saiu de casa imediatamente, pegou ônibus atrás de ônibus numa busca desesperada pelo ancião que lhe deu aqueles lápis mágicos. Foi ao centro da cidade, desceu nas paradas mais movimentadas, andou por ruas, como se seguisse um instinto, à procura daquele homem. Pegou um ônibus sem saber qual trajeto este fazia e chegou aos bairros periféricos da cidade, depois subiu em um outro e foi ao outro extremo, mas em momento algum viu aquele a quem tanto procurava. Em todos os ônibus que pegou, inclusive, subiram vendedores oferecendo mil e uma coisas, mas nenhum lhe oferecia lápis mágicos, capazes de trazer à vida os desenhos que fazia.
            Desanimada, já voltava para casa num fim de tarde quando reconheceu sua sombra no meio de uma multidão, numa movimentada rua. Imediatamente desceu do ônibus e correu em sua direção. O homem se distanciava dela, pegava uma rua, dobrava uma esquina e sumia de seu campo de vista por alguns breves segundos. Ela corria, esbarrava numa pessoa ou noutra, ouvindo uma série de imprecações jogadas ás suas costas, e ela só se virava e gritava um pedido de desculpas. Chamava-o, mas ele não se virava, não a ouvia, e parecia abrir cada vez uma maior distância dela. Mas por mais cansada que estivesse, algo a impelia a apressar ainda mais o passo para alcançá-lo, até que numa esquina, chegou até ele. Tocou-o no ombro.
            - Senhor?
            Quando ele lentamente se virou, que ela o viu frente a frente, não conseguiu disfarçar a sua cara de decepção. Não era ele!
            - Desculpe – foi a única coisa que conseguiu falar. E voltou caminhando lentamente, arrastando pesadamente os pés por aquelas ruas atulhadas de gente que há pouco havia atravessado correndo.
            Chegou à casa cabisbaixa e foi direto para seu quarto. Fez alguns poucos desenhos para poder se despedir daqueles que nos últimos dias tinham sido seus melhores amigos, e guardou os últimos cotocos de lápis para fazer um último e especial desenho.
Pegou uma folha de papel em branco e deixou sua mão livre, escolhendo aleatoriamente os lápis de cor, traçando linhas à toa. Durante muito tempo ficou daquele jeito, desenhando algo que não tinha forma definida, sendo apenas um amontoado de linhas desconexas e de cores indefinidas. Estava como que em transe criativo, e só quando deu por si, após longas horas, quando olhou para o que criara, foi que percebeu que tinha desenhado o estranho velho homem que lhe dera aqueles lápis mágicos.
Deu os últimos retoques no desenho com o último cotoco do último lápis, e ficou observando-o, esperando que a magia acontecesse. De repente, o desenho começou a se mover levemente. Primeiro seus olhos, que ela pintou de verde, piscaram e mudaram de cor, depois ele balançou a cabeça de um lado para o outro e quando a viu, sorriu, como se já esperasse encontrá-la. Foi saindo lentamente do papel e quando ficou frente à frente com Luíza, pegou sua mão e disse que havia magia em seus dedos, pois eles eram mágicos, capazes de dar vida a tudo aquilo que desenhava.
- Mas não sou eu quem dou vida aos desenhos, são os lápis que o senhor me deu!
- Não, Luíza. A magia nunca esteve nos lápis, mas sim em você, em suas mãos. É você quem imagina, quem desenha, quem dá vida a tudo aquilo que, com suas habilidosas mãos, cria... Nunca houve magia nenhuma em nenhum dos lápis...
- Mas e os desenhos que fiz, e você mesmo, que eu desenhei, como você explica isso, deles, de você, ter ganhado vida?
- Termos saído do papel é uma mera consequência de sua arte, de sua imaginação.
- Mas...
- Não adianta se ter um lápis mágico se não se tem magia nas mãos, se não se tem imaginação, se não se é capaz de fazer arte. Do que adianta magia se não se sabe usá-la? A magia, quem faz acontecer é o artista com sua imaginação.
Luíza ficou calada, pensativa. Entendia tudo aquilo que o velho homem mago dizia, mas mesmo assim ainda não acreditava que a magia estava nela, e sim naqueles lápis de cor. Fechou os olhos e ficou em silêncio, como se buscasse assim um melhor entendimento a tudo aquilo.
- Os lápis é que são mágicos, que fazem os desenhos saltar do papel e ganharem vida.
- Não, Luíza! Você é que é mágica, você é quem cria, quem dá forma, cor e vida a cada desenho que faz, que deixa saltar de sua imaginação e passar de suas habilidosas e delicadas mãos para o papel. Se eles saltam do papel, fogem por alguns instantes e ganham uma espécie de um simulacro de uma vida, isso é uma mera consequência da arte.
Luíza ficou olhando para o velho homem, absorvendo suas palavras.
- Continue a desenhar Luíza, não com a magia dos lápis, mas com a magia que há em você... – falando isso, ele começou a diminuir de tamanho, sendo como que sugado de volta para o papel. – Continue a usar a infinita magia que há em você, em suas mãos, Luíza – disse ele antes de se fundir novamente ao papel.
Luíza ficou num profundo silêncio por longos minutos, olhando fixamente para o desenho. Fechou os olhos e pensou em tudo que o velho homem dissera. Abriu os olhos e olhou para as próprias mãos, não acreditando que havia magia nelas. Sentia-se incrédula com as palavras do mago e estava triste, mas mesmo assim respirou fundo duas ou três vezes, pegou uma nova folha de papel em branco, os lápis de cor que estavam esquecidos já há longas semanas, e começou a fazer um simples desenho, mas nele depositou um fragmento de sua alma. Quando terminou, ficou olhando-o. O desenho não saía do papel, não se mexia, e ela o jogou no chão e se jogou na cama. Seus olhos se encheram de lágrimas, mas antes que a primeira transbordasse, escutou um barulho tão seu conhecido, e o desenho saltara do papel e sorrira para ela. Ela sorriu de volta e abriu os braços para que o desenho viesse abraçá-la. Ela derramou lágrimas de profunda alegria e entendeu o quão mágica era, o poder da fantasia e criatividade que habitava em suas mãos.

Passou, então, a desenhar mais, mais e mais, a depositar fragmentos de sua alma em cada desenho que fazia, e por conta desses pequeninos pedaços de alma, por conta da força da magia que ela empregava em sua arte, os desenhos que fazia passaram a viver não só para ela, mas para todas as pessoas os contemplavam não só com os olhos, mas sim com a alma.