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domingo, 23 de março de 2014

O abrir das asas

Ele persistiu, acreditou em si, em suas próprias forças, em sua vontade e em sua determinação, e, lá do alto, satisfeito, viu o tamanho do salto que dera.
 
Sentiu medo, um frio na barriga, sentiu-se impotente e esteve para desistir antes de dar aquele passo. Fechou os olhos e olhou para os próprios pés. Sentia-se tão seguro onde e como estava, e seria uma insensatez largar tudo aquilo por conta de uma simples aventura que iria durar não mais que alguns míseros segundos. Muito mais sensato seria ficar como e onde estava! Mas não! Ele não ouviu a voz interior que lhe dizia para ficar, para não olhar para frente, mas sim para os próprios pés, onde encontrava a segurança em que com tanta ânsia se agarrava.
            Ele titubeou e olhou para trás, para a segurança, e depois para frente, para o horizonte de desconhecido que teria diante de si se ousasse dar mais um passo. Fechou os olhos e respirou fundo duas ou três vezes. Não sabia o que fazer. Seu coração, sua alma, lhe dizia para dar mais aquele passo que lhe levaria ao desconhecido, enquanto seus pés lhe diziam para permanecer como estava.
            Via diante de si tantos daqueles loucos que ousaram dar aquele curto e decisivo passo, felizes, mergulhando no ar, cantando em louvor a louca liberdade, e se perguntou se ele estava pronto para aquela loucura, se seria realmente capaz de voar, se sua voz teria força igual a daqueles que sentiam aquela liberdade. Enfrentava aquele dilema decisivo em sua vida: a loucura da liberdade inebriante do ar ou a segurança e firmeza de ter eternamente algo seguro sob os pés?
            Deixou que sua alma decidisse, que seu coração falasse mais alto, e, com os olhos, fechados respirou fundo e se deixou largar no imenso vazio, dando aquele tão curto e grande passo. Caiu livremente por uma curta fração de segundos, mas logo abriu as asas e começou a batê-la freneticamente, de maneira desajeitada e, ainda com os olhos fechados, com medo, começou a sentir o nada debaixo dos pés, e tudo que havia ao seu redor.
            Abriu lentamente os olhos para ver a liberdade que o seu corpo já sentia em toda a plenitude. Perdeu a respiração quando olhou para baixo e não viu nada além do chão, lá embaixo, tão longe, e para trás, quando viu a árvore de onde saltara, tão distante. Feliz com seu feito, abriu a boca num imenso sorriso de júbilo e de sua garganta, de uma gargalhada soou um canção de louvor à liberdade, à nova vida que a partir daquele momento teria diante de si.
            Batia as asas agora com desenvoltura e dava voos rasantes, gozando de sua recém-adquirida liberdade, indo de um lado para o outro dando pequenos-e-grandes saltos. Pousou em uma árvore e lá do alto da copa olhou para aquela de onde saltara. Reviu, reviveu durante alguns instantes, todas as indecisões por que passara, rindo de seu próprio medo. Se não tivesse enfrentado seus medos, se não tivesse acreditado em si, se não tivesse persistido, não estaria, naquele momento, vendo em toda a sua extensão a beleza que tinha diante de si, todo o céu. Abriu novamente as asas, dando um salto-mergulho em direção à árvore de onde viera, não para lá ficar, mas sim para saber de onde viera, para saber para onde podia voltar e pousar entre um voo e outro.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Asas

Quando nascem, todas as crianças têm asas para poder ir aonde quiserem, para fazer o que bem desejarem, pois são inteiramente livres, pois pertencem só e unicamente a si mesmas. Elas brincam livres no céu, sob os olhares estupefatos dos adultos, invejosos daquela liberdade e alegria a que é permitido só aos que possuem alma de criança.
            No céu, as crianças se sentiam inteiramente donas de si, e podiam viajar livremente nos braços dos ventos, mas havia uma em especial que era mais livre do que as outras: um menino que tinha um riso capaz de sobrepujar o barulho dos trovões nas noites de tempestade, que tinha asas tão grandes que ele as usava para abraçar a si mesmo quando estava com frio nas noites de inverno. Ele, junto com seus amigos, voavam pelos céus e chegavam perto do sol, mas só ele, ousado como era, ousava se aproximar o suficiente para sentir seu calor a lhe queimar a pele, e fazia isso com tanta frequência que sua cor era de um saudável bronzeado. Nas noites de luar, todas as crianças eram livres para ficar até tarde acordadas, e algumas, quando sentiam sono, podiam mesmo dormir planando no ar ou nos braços de uma estrela, mas diante de tanta alegria e felicidade, eram raras as que sentiam sono. Umas, mais afoitas, voavam bem alto em torno na lua, enquanto outras, mais alegres, brincavam com as estrelas, jogando-as de um lado para o outro, e os adultos, infantis, imaginavam tratar-se de uma “estrela cadente”, quando, na verdade, era apenas uma estrela que se deixava fazer de brinquedo pelas crianças.
            As crianças eram inteiramente felizes e livres, mas aquele menino era mais do que todas as outras, e primeira vez que seu sorriso lhe sumiu do rosto foi quando viu um adulto segurando uma criança, um amigo seu, pelo pé, impedindo-a de voar, prendendo suas asas num abraço apertado para que elas não abrissem. Ele então entendeu que aquele era o primeiro indício de uma obrigação a que os adultos impunham às crianças: o crescimento. Aquela foi a primeira criança que ele via dar seus primeiros sinais de crescimento a que os adultos e o mundo impunham, e ficou triste por dias a fio, sem ânimo sequer para voar. Mas logo esqueceu, como todas as crianças esquecem rapidamente das coisas, pois tinha muitos outros amigos para brincar durante os dias e noites de sua eterna infância.
            Um dia, quando estava no céu a brincar com uma nuvem, fazendo cócegas nela para obriga-la a tomar a forma de um animal, viu uma criança com os pés plantados no chão. Ele a chamou, mostrando como estavam a se divertir, ele a nuvem, convidando-a a participar da brincadeira, ao que ela respondeu com um olhar triste, mostrando que suas asas pendiam inertes. Ele ainda fez menção de ir até ela e voar com ela nos braços, ao que ela recusou, dizendo que a partir daquele momento não poderia mais voar, pois seu lugar era ali, com os pés bem firmes no chão. Ficou com uma lágrima presa na garganta, mas se aquele era o desejo daquela criança, tudo bem, ele respeitaria. Ainda havia, mesmo assim, algumas crianças livres, com enormes asas, embora não tão grandes quanto as suas, com quem poderia brincar e voar livremente pelo céu.
            Passadas algumas semanas, ele, num voo solitário num início de manhã, percebeu que havia menos crianças do que o normal, e olhou para baixo e viu um massacre acontecendo diante de seus olhos: adultos ignorantes prendiam as asas das crianças para que elas não pudessem mais voar, e outros iam ainda mais longe e arrancavam as asas para que nunca mais elas pudessem ser livres. Dessa vez, ele chorou, e suas lágrimas caindo eram como uma tempestade a desabar sobre a cabeça dos incautos que faziam aquilo com as crianças, prendendo-as no chão.
            Algumas crianças, mesmo livres, começaram a não conseguir mais voar tão alto e pouco a pouco foram perdendo, naturalmente, capacidade de voar, e estas, quando punham seus pés no chão e não tinham mais forças nas asas, choravam tão alto que até as estrelas no céu se compadeciam de suas novas condições, presas ao chão. Outras, para evitar perderem suas capacidades de voar, suas preciosas liberdades, tentavam viver uma vida dupla: na terra, como todos, e no céu, livres; mas a estas logo as obrigações do dia-a-dia, as infindáveis rotinas prendiam, a ponto de elas se esquecerem de como se faz para voar, e suas asas caíam inertes ao longo do corpo.
            Uma a uma, as crianças começavam a ficar presas ao chão, umas por que eram obrigadas, com os adultos obrigando-as a se plantarem no chão, enquanto outras tinham as asas as asas brutalmente arrancadas, para que nunca mais pudessem voar livremente no céu.
            Todas aquelas crianças que um dia foram livres não mais voavam, com a exceção daquele menino, que agora brincava sozinho. Ia de uma nuvem a outra, brincava de esconde-esconde com o sol, conversava, à noite, com a lua e ainda jogava, vez por outra, uma estrela de um lado para o outro. Quando olhava para baixo e via um de seus antigos amigos, agora transformados em adultos, chamava por eles, mas eles, tão ocupados em suas rotinas, ou não ouviam, ou não escutavam ou chamado, ou fingiam não ouvir aquele chamado, e seguiam sempre em frente, com a cabeça baixa e os pés bem firmes plantados no chão.  Ele, mesmo percebendo que mais que chamasse os outros não olhariam para cima, continuava a chamar até cansar. E quando eles não podiam mais ser vistos, seja porque entravam em um ônibus, carro ou se trancavam num escritório ou dentro de casa, sentia-se cansado e triste e perdia, por um instante, a vontade de voar, e em uma ocasião quase foi pego por um adulto, que desejava lhe podar as asas.
            Sentia-se só, agora que não tinha uma outra criança com quem brincar e compartilhar as alegrias e sorrisos, e essa solidão foi lhe pesando dia após dia a ponto de tal peso lhe impedir de voar tão alto como gostava. Um dia, não aguentando mais tal peso, resolveu se deixar cair lentamente, tal qual uma pluma que se deixa levar ao sabor do vento. Pousou suavemente no chão e dobrou delicadamente suas asas e começou, a partir daquele dia, a viver como uma pessoa comum, a seguir uma rotina, a ter suas responsabilidades.
            Passaram-se muitos anos e ele cresceu, como toda criança cresce, e, tão ocupado como estava em viver a vida, se esquecia do menino que um dia fora. Nunca olhava para o céu, seja durante o dia seja à noite, e sua pele, antes bronzeada, perdeu a beleza da cor e o viço.
            Mas um dia, enquanto voltava de seu trabalho para casa, parou subitamente, como que algo estivesse a lhe chamar. Era noite e não havia uma única nuvem no céu e ele, ao olhar para cima, ao ver tantas estrelas e a lua a brilhar majestosa no firmamento, e foi então que um turbilhão de lembranças lhe tomou de assalto e ele sorriu e chorou ao lembrar do menino que um dia fora e do qual havia se esquecido. Olhou para as costas e viu as asas abrindo lentamente e sorriu ao perceber que elas ainda estavam vivas e possuíam vigor suficiente para levá-lo ao céu. Respirou fundo duas ou três vezes e deixou suas asas livres para baterem e lhe levarem de volta aos braços do céu. Sentiu seus pés iam pouco a pouco se soltando do chão e ele pôde se tornar o primeiro homem, adulto, a poder voar. Seguia suas rotinas e tinha suas responsabilidades do dia-a-dia, sim, mas sempre que, cansado, voltava para casa, parava, olhava para o céu e ao ver as estrelas e a lua, podia voltar a ser o menino livre que um dia fora, e voar livremente pelo céu, privilégio este que só é dado aos que possuem uma eterna alma de criança e aos que fazem devido uso de suas asas.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O menino de metal - uma história de um Pinóquio

Um homem criou um boneco de metal tão perfeito, empregando tanto sentimento naquela criação, que o que a princípio era apenas um brinquedo, tomou vida. O homem, fascinado por sua criação, o tomou como um filho e o tratou como tal, tanto que, pouco a pouco, o que havia de metal, óleos e engrenagens no corpo do boneco, foi se transformando, metamorfoseando em pele, sangue e órgãos.
            O pai daquela criação-boneco-menino, sentia-se cada dia mais feliz, embora se preocupasse, pois as pessoas pareciam não entender e ver aquela forma de vida, criada por suas próprias mãos e sentimentos, como humana, por mais dotado de sentimentos que fosse. O menino, então, foi criado e cresceu dentro daquela casa, sem conhecer o mundo exterior além daquele que o seu pai queria lhe mostrar.
            Aquela casa enorme, no entanto, começou a ficar pouco a pouco pequena para o menino, que ansiava em ver o mundo, que só via muito de longe através de um janela que vivia trancada e protegida por grades. Ele pediu, com lágrimas nos olhos, ao pai, todo dia, para ver o mundo, e o pai, por mais que sentisse doer fundo na alma ver as lágrimas do filho, negava aquele pedido.
            Um dia o homem saiu de casa e deixou o menino sozinho por alguns instantes, que observava com olhos atentos todos os movimentos do pai. Quando ele saiu, o menino afastou os móveis para subir até uma janela bem alta, a única que não tinha grades na casa e que ficava aberta, e lá do alto, pôde vislumbrar com clareza o que era o Mundo. Ele se apoiou no parapeito da janela e olhou para baixo. Era um salto/ queda de muito alto, e ele sentiu, pela primeira vez na vida, a sensação de medo, mas o desejo e curiosidade de conhecer o mundo era maior, e ele se deixou levar sendo seguro pelos braços do vento. Aterrissou no chão com um baque surto e desejou que seu corpo fosse ainda de metal, e não de ossos, músculos e articulações. Sentiu uma dor lascinante nas pernas. Olhou para o alto, para a janela, e se perguntou se tinha tomado a decisão correta, se seu pai ficaria muito furioso, decepcionado com ele, por ele ter fugido de casa.
            O menino, a princípio assustado com todo o mundo que se descortinava à sua frente, deu uns passos incertos, mas logo estava correndo, livre, tal como um pássaro no céu numa primeira manhã de Primavera. Viu animais que ele não sabia existir, encontrou pessoas, que, assustadas com aquela alegria e os gritos do menino livre, se afastavam, dando caminho para que ele corresse pelas ruas.
            Extasiado com aquela alegria provocada pela liberdade adquirida, o menino ficou dias a fio andando, dormindo ao relento, se protegendo do sol do meio dia sob a sombra de uma frondosa árvore, comendo apenas frutas que encontrava no chão, que ainda árvore soltava para ele. Viveu feliz até o dia em que as pessoas descobriram quem ele era. A partir de então ele passou a ser apontado nas ruas e onde quer que andasse. As pessoas bloqueavam o seu caminho e outros meninos, quando ele passava correndo, colocavam o pé para que ele tropeçasse. Até as árvores, que antes lhe davam frutos, pareciam esconder entre suas folhagens aquilo que o menino tão humildemente pedia. Os cachorros, na rua, latiam para ele e o faziam fugir correndo dos bairros por onde antes andava tão tranquilamente.
Quando ficou sozinho, vendo ao longe as pessoas apontando para ele com olhares recriminadores, repletos de preconceitos, ele chorou, e ninguém ousou se aproximar dele, que naquele momento não era nada mais nada menos do que um menino, para dar sequer um pingo de conforto e afeto, abraçá-lo e dizer que ia ficar tudo bem.
Desanimado, voltou para sua casa caminhando de cabeça baixa, contando os passos.
Seu pai o estava a esperar, sentado no batente em frente à casa, e ao vê-lo, correu para abraçá-lo, agradecendo aos céus pelo retorno do filho. Mesmo sem o menino falar nada, ele bem imaginou o que tinha acontecido para que filho estivesse com aquele rosto marcado por tão dolorosas lágrimas.
Pai e filho entraram juntos, de mãos dadas, na casa, e o menino se postou no meio da sala e encarou o pai.
- Quero que você me torne de novo de metal – disse ele.
O homem não entendeu e pediu para que o menino repetisse o que dissera.
- Quero que você me torno de novo de metal. O mundo lá fora é muito duro e perigoso. Não quero mais, nunca mais, ir lá fora,e quero voltar a ser de metal e nunca mais sair dessa casa.
O homem olhou para os olhos do filho e viu quando duas grossas lágrimas escaparam de seus olhos. Também chorou abraçado ao menino e as lágrimas dos dois se misturaram e a medida que escorriam pelos rosto e corpo deste, ele ia voltando a sua forma original: de boneco, de brinquedo, de metal.

sábado, 25 de agosto de 2012

Diminuta e Persistente


Quando nasceu ela era tão diminuta que podia se esconder na palma de uma mão. Frágil e tímida, ficava o tempo toda escondida, não se mostrando para qualquer um, tanto que poucos eram os que tinham visto sua verdadeira face.
Crescia tão lentamente que as pessoas mal notaram quando ela saiu da palma daquela mão onde se mantinha protegida e aquecida. Não foi fácil para ela dar os primeiros passos naquele chão duro, naquela terra estéril onde nada parecia ser capaz de brotar. Mas ela foi persistente. Pequena, ela foi capaz de entrar por pequenas brechas e rachaduras que surgiam naquelas paredes altas e intransponíveis muros e, lá infiltrada, germinar e crescer, fazendo com que o que antes era uma prisão fechada, viesse a se rachar e quebrar por inteiro.
            Pequena, frágil e persistente, ela sempre sobrevivia nos mais inóspitos terrenos, demonstrando, ali, sua real força, tamanho e verdadeira natureza.
Acabava, sempre, se machucando, caindo de muito alto e por vezes até, por um curto momento, ela abaixava a cabeça e por uma fração de segundos pensava em desistir de tudo, dar as costas e ir embora, fugir. Mas sua natureza não lhe permitia desistir e dar as costas, jamais, por mais que a machucassem. Erguia-se, sempre, mais forte, sempre pronta para receber o próximo “baque” e, apesar de tudo, de todas a pancadas, resistir, sempre.
            Crescia a olhos vistos, embora alguns cegos, céticos, não o percebessem. “Melhor assim”, ela pensava, “quando derem por si, estarei grande, forte e suficientemente solidificada de forma tal que não poderão me ignorar”.
            Ela crescia em muitos lugares e em muitas pessoas ao mesmo tempo. Era uma só e tantas ao mesmo tempo, crescendo em tamanho e espalhando-se sem que as pessoas se dessem conta e, quando se apercebessem, já estarem tomados e cativados por ela. Tê-la brotado no peito era como um caminho sem volta.
            Por ser tão pequena, podia se infiltrar em todos os lugares e por mais estéreo que fosse o lugar onde caísse, conseguia germinar e brotar, desde que fosse bem regada com lágrimas, sorrisos e abraços.
            Alguns enxergavam nela a forma de uma flor e chegavam mesmo a sentir o seu doce aroma e o lento crescimento de suas raízes quando ela se fincava no peito; outros a viam como um sol ao surgir por entre as nuvens na primeira manhã de verão, e se sentiam cegos momentaneamente quando a escaravam de frente, olhando em seus olhos; havia os que a viam como um mar revoltoso, capaz de, com suas fortes ondas, abalar, das profundezas, toda a estrutura de uma superfície que precisava ser abalada com golpes fortes e inclementes, mas por vezes delicados e persistentes; também tinha os que a viam como um céu azul, límpido e claro, sem uma única nuvem; como um pássaro de penas dourados, outros a enxergavam, um pássaro delicados, mas que podia voar livremente por todo o céu. Sabe-se, no entanto, que a sua verdadeira forma é como a de uma estrela, que parece tão pequena e diminuta, quando a vemos de tão longe, mas que, quando a percebemos com olhos claros, da razão e da emoção, vemos o quão gigantesca é. Nome? Ela tinha vários, sim, e atendia por muitos deles, mas preferia ser chamada e sentida apenas como Esperança.

domingo, 3 de junho de 2012

O perfeito mundo de pedra e metal


Naquele mundo tudo era feito de pedra e metal. As pessoas viviam enclausuradas dentro de suas armaduras e jamais se mostravam umas às outras. Eram armaduras que escondiam tudo, até os olhos das pessoas ficavam protegidos por viseiras. Estavam, todas, tão habituadas a viverem daquela maneira que se tornaram distantes e completas estranhas umas às outras. Ninguém trocava um gesto de carinho com ninguém, os olhares jamais se cruzavam e mesmo as palavras eram raras e escassas naquele mundo.
            Era um mundo áspero, hostil à vida e a qualquer gesto da menor que fosse a delicadeza. “Nada frágil é capaz de sobreviver nesse mundo”, disse, certa vez, um governante, e todos tomaram aquelas palavras como lei. “Toda e qualquer fraqueza será combatida e expurgada”, também dissera. E assim foi feito, e o mundo foi se moldando segundo aquelas palavras e as pessoas se acostumaram àquele modo de vida.
            Naquele mundo o sol mal esquentava e as chuvas eram rigorosamente programadas, os ventos eram controlados e a primavera fora banida. No céu havia eternas nuvens cinza que mal permitiam a passagem da luz do sol durante o dia, e não deixavam com que se entrevisse, à noite, a lua e as estrelas. As cores foram proibidas e no céu há tempos não ousava surgir um arco-íris.
            As pessoas, tão mecanizadas estavam, tão enraizadas dentro de suas armaduras, julgavam viver num mundo perfeito. Até certas palavras, naquele mundo, foram esquecidas, e os sentimentos, os poucos que ainda restavam àquelas pessoas, eram reprimidos. Felicidade era uma palavra que fora abolida, na verdade esquecida, pois não se havia qualquer noção do estado de espírito, do sentimento que ela exprimia.
            Assim, todos viviam naquele mundo tão perfeito, cada qual sem qualquer tipo de preocupação além de seguir as suas rotinas.
            Dentro das grandes cidades, entre aqueles gigantescos prédios, nas longas avenidas, as pessoas corriam de um lado para o outro, muitas vezes se esbarrando umas nas outras, sem ao menos prestarem atenção que, ao seu redor, não havia nada que denotasse a existência de qualquer tipo de vida. Não havia árvores, não havia animais de qualquer tipo. As relações humanas eram mecanizadas.
            Tudo naquele mundo era lógico, programado e perfeito. Nada saia fora do programado, dos horários, da rotina, até que um dia um homem, mesmo naquele mundo hermético, higienizado, adoeceu. Talvez tenha sido só um mal-estar, uma indisposição, mas como ele não estava acostumado a lidar com uma situação daquelas, por uma debilidade e certa lentidão provocada pela “doença” (palavra esta que também tinha sido abolida naquele mundo), fez tudo de forma mais lenta do que o normal. No trabalho, tinha sido o último a chegar, coisa que ninguém percebera, e o último a sair. Nas avenidas e vias públicas, por onde todos andavam tão apressados, ele caminhava devagar, como que contando os passos, equilibrando-se para que sua fraqueza e indisposição não o levassem ao chão. Num espaço vazio, numa ruela estreita, entre dois prédios, ele se recolheu enquanto recobrava um pouco de suas forças. Estranhou ver aquele espaço ali, como que esquecido, incongruente naquele mundo onde tudo era tão perfeito, calculado e no seu devido lugar, tão perfeitamente encaixado. Sentou-se no chão, recolhendo-se nas sombras dos dois prédios, e observou a rua iluminada à sua frente, as pessoas em suas armaduras indo e vindo, sempre tão apressadas, e só ele, ali, sozinho, a observá-las. Era como se só ele, em todo o mundo, estivesse a observar o mundo ao seu redor. Quando se sentiu um pouco melhor, apoiou sua mão no chão, para tentar se levantar, e foi só então que se deu conta de que bem ao seu lado havia algo que ele desconhecia, algo tão minúsculo e frágil que ele quase esmagara com sua mão sem se dar conta. Abaixou-se por inteiro, de forma que quase se deixa no chão, para que seus olhos ficassem da altura do minúsculo ser. Não sabia o nome daquilo, e mesmo a temendo, pois a desconhecendo, não sabia o mal que aquilo poderia lhe causar, a pegou, meio sem jeito, mas com toda a delicadeza de que era possível, a retirou do solo e a depositou num compartimento de sua armadura e a levou para sua casa.
            Só ao chegar a sua casa foi que ele se deu conta de que não sabia o que fazer nem onde colocar aquilo que trazia tão protegido dentro de sua armadura, e a manteve segura na mão por um longo tempo, a contemplar tamanha delicadeza e beleza. Tinha uma cor clara e bela, diferente do cinza metalizado por que estava cercado. Não lembrava o nome daquele ser, não se lembrava do nome que se dava àquela cor, mas aquilo o fez sentir algo diferente, como um palpitar dentro de seu peito. Pensou que seu peito fosse explodir e largou o diminuto ser no chão. Quando o bater em seu pito se normalizou, assim como sua respiração, voltou a pegar aquilo que tanto o maravilhava e intrigava. Desejou tocá-la e sentir seu toque na mão, mas aquela armadura o impedia de ter qualquer sensação do mundo externo. Foi então que resolveu cometer uma insensatez: retirou a luva de sua armadura para poder tocar, com a ponta do seu dedo, o delicado corpo alongado e delicado, uma haste que terminava numa profusão de pequenos braços que se abriam para o mundo, como se o pequeno ser se desnudasse para poder ser contemplado. Mas só tocar não foi suficiente, ele queria sentir mais daquele ser, e mesmo com todo o medo que sentia, retirou seu capacete e ao fazê-lo, suas narinas foram invadidas por um aroma doce e delicado que era desprendido do ser. Jamais havia sentido nada parecido, jamais tinha tocado (e sido tocado) por algo tão delicado; jamais tinha sentido um aroma tão inebriante. Olhou-a de mais perto (sabia, sentia, de alguma maneira, que o ser era feminino).
            Sentiu uma necessidade de compartilhar aquela descoberta com outras pessoas, de apresenta-la ao mundo. Mas antes de apresenta-la era preciso nomeá-la. Ficou horas a ruminar sobre que nome daria aquele diminuto ser. Foi acometido como que por uma lembrança, e a chamou de Flor.
            Havia redescoberto, naquele perfeito mundo de pedra e metal, um ser frágil que havia brotado entre dois prédios, algo tão delicado que havia abalado as estruturas de seu mundo e que, quando fosse reapresentado às pessoas agiria da mesma forma com cada um que a visse, contemplasse, tocasse e sentisse o seu doce aroma.
            Ele não sabia, ainda, mas aquela flor era a primeira que brotava de uma primavera que há tempos não surgia naquele mundo; de uma primavera vigorosa que iria florescer e dar vida, cores e aromas não só ao mundo em si, mas principalmente a todas aquelas pessoas que viviam (ou imaginavam viver) encarceradas dentro daquelas intransponíveis armaduras de metal.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A Águia e o Castor


Uma Águia planava soberana, reinando livre no céu, quando, com seus olhos claros, viu, lá longe, no chão, um Castor entretido em seus trabalhos na construção de sua barragem. Seu primeiro impulso, de caçadora, foi de fechar suas asas e mergulhar para pegar com suas garras aquela presa, que estava tão entretida, fechada em seu próprio mundo. Mas não agiu por impulso. Do alto, ela ficou a observá-lo, tão pequeno, tão solitário, tão frágil. Seria tão fácil, para ela, agarrá-lo, mas não o fez. Desceu lentamente, abrindo e fechando suas asas, sendo conduzida ao sabor do vento até se empoleirar numa árvore ao lado do riacho onde o Castor trabalhava. Ele não tinha percebido, de tão atarefado que estava, a presença de tão bela ave, até que, ao ir buscar um galho na árvore, a percebeu. A princípio, ficou assustado. Aquela beleza selvagem e imponente o deixou completamente sem ação. Ele a temeu, mas não havia nada capaz de fazer com que, mesmo em seu temor, se afastasse dela. Seus olhos estavam fixos nos dela e seus corações batiam no mesmo compasso.
            A Águia não mais abriu suas asas para reinar livre e soberana no céu. Passou a viver no chão, empoleirada nas árvores, para estar sempre perto do Castor, que dia após dia construía, de galho em galho, de graveto em graveto, não uma represa naquele riacho, mas um verdadeiro palácio onde ele e sua amada pudessem habitar para todo o sempre.
            Dias, semanas e meses passavam correndo para a Águia e o Castor, pois quando se está feliz, o tempo corre. Foram imensamente felizes, mas algo nela não estava bem, pois ela passou a, a cada manhã, assim que o sol nascia, ir ver os pássaros voando no céu. Olhava para si e via o estado de suas asas: sempre fechadas. Ela era livre e bela, a rainha dos céus, mas, em sua paixão, havia abdicado de seu reino, e só ao ver tantos pássaros livres, voando ao seu redor, foi que seu deu conta.
            Dia após dia, manhã após manhã, ela acordava antes do Castor para ver o nascer do sol, para sentir a suave e fria brisa matutina e ouvir o canto dos pássaros. Uma vez, tão contemplativa estava, que sequer se deu conta dos passos daquele se aproximavam lentamente, observando-a, sentindo o que ela sentia. O Castor depositou suavemente sua pata sobre a asa dela viu o que ela via, com os olhos dela. Uma lágrima brotou de seu olho, pois só então se dera conta do quão distantes eram seus mundos. Eles pertenciam a mundos diferentes. Desejou ter asas, para poder abri-las e voar ao lado de sua amada, livre pelos céus de todo o mundo. Construiu, para ela, um palácio, mas esqueceu de perceber que, provida de sua liberdade, o palácio se tornara uma prisão; vivia num castelo cujas paredes eram feitas de amor, mas que tal amor lhe roubava sua liberdade. Ela havia nascido para ser livre, para pousar no alto das montanhas, ao relento, para reinar sobre as outras aves, e não para viver um amor tão presa ao chão.
            Não externaram nada além daquele claro sentimento que se comunica entre seus olhos de dois seres vivos que se amam. Ela abriu lentamente suas asas e deixou que uma suave lufada de vento a impulsionasse para cima. Enquanto subia lentamente, ela olhou para trás, para baixo, e viu o Castor parado, com os pés presos ao chão.
            Afastaram-se um do outro, e foram, cada um, viver no mundo ao qual pertenciam, mas lá do alto, todos os dias, a Águia olhava para baixo e via o Castor, e o Castor olhava para o céu e seus olhares se encontravam no meio do caminho e sorriam um para o outro, apesar das distâncias que os separavam um do outro.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A Rosa e o Vento

Havia no coração daquele imenso jardim uma linda Rosa. Era uma Rosa de beleza rara, nunca antes vista por aquelas paragens. Em suas pétalas estava guardada toda a delicadeza da primavera e de seu corpo desprendia um arome doce como a vida. Ela mantinha-se fechada durante a maior parte do dia, e só desabrochava a cada manhã, para saldar o nascer de um novo dia, quando as abelhas vinham colher seu pólen, quando os beija-flores vinham beijá-la ou quando um alguém vinha tocar-lhe a face. E como era lindo o seu desabrochar! Ela desabrochava num lindo sorriso que dava beleza a toda uma primavera.
            Pessoas vinham de longe apenas para contemplá-la, e todo o jardim se floria inteiro para receber os visitantes. Nenhuma das outras flores sentia inveja, pois aquela Rosa irradiava sua beleza para todo o jardim. Pássaros vinham e ficavam empoleirados nas árvores próximas, apenas contemplando toda aquela beleza da Rosa e do jardim como um todo. Havia pessoas, no entanto, que desejavam aquela Rosa para si, e tentavam colhê-la, arrancá-las de suas raízes, e para estas a Rosa não desabrochava, jamais, e ainda as feria com seus delicados espinhos. Mas estas eram minoria. Todos desejavam, sim, aquela Rosa para si, mas não por motivos egoísticos, e se sentiam realizados só em ter o privilégio em poder contemplá-la, em poder tocá-las sem se ferir, em poder vê-la desabrochar em seu sorriso.
            Mas havia um alguém que não ousava se aproximar daquela delicada Rosa: o Vento. Ele soprava todas as manhãs, vindo do nascente, e trazia em seus braços o primeiro calor do sol e o derramava sobre as demais flores daquele jardim, mas nunca chegava ao seu coração, onde estava presa aquela Rosa. Ele dava voltas e mais voltas em torno de si, aproximando-se enquanto tentava se afastar, com medo de ferir, de alguma maneira, de agredir com a sua força e por vezes até com a sua frieza, a Rosa. Tinha medo de, com seus braços longos e dedos desajeitados, acabar por arrancá-la de suas raízes e não poder jamais tornar a plantá-la em solo fértil. Assim ele vivia, todos os dias, em sua angústia.
            Passava noites soprando uma brisa fria, angustiado, esperando pelos primeiros raios de sol, só para pegar um pouco de seu calor e poder passar pelo jardim, para chegar perto da Rosa, sem nunca tocá-la. Adorava ver, ficava extasiado, quando via o seu primeiro desabrochar, o seu primeiro sorriso da manhã, e ficava, em seu devaneio, imaginando que ela sorria para ele.
            À Rosa, no entanto, nada passava despercebido. Sabia, sentia que o Vento a evitava. Não entendia bem o porquê daquilo e tentava, de todas as formas, cultivá-lo. Todas as manhãs era para ele que ela sorria, pois ele representava o nascer de um novo dia. Quando ele soprava frio, ela liberava o seu calor. Mas não havia forma do Vento entender seus jeitos, interpretar seus sorrisos e sentir o seu calor.
            Um pássaro, lá no alto, no céu, viu a angústia da Rosa e do Vento, que nunca se encontravam, que custavam a entender um os gestos do outro. Desceu num voo rasante e pousou ao lado da Rosa e a viu tão triste, fechada dentro de si mesma, como jamais estivera. Tocou-a com seu bico, ao que a Rosa não reagiu e fechou-se ainda mais. A Rosa estava triste e deixou cair uma única solitária pétala em forma de lágrima. O Pássaro, então, pegou a pétala e a jogou no meio do caminho por onde soprava o Vento. O Vento tropeçou naquela pétala e a reconhecendo, olhou para o lado e viu a Rosa fechada e percebeu que aquela pétala-lágrima caída tinha sido por ele. Aproximou-se lentamente em seu sopro e roçou seus dedos na face da Rosa, que se encolheu ainda mais, mas ao virar seu rosto para cima, ao ver que era o Vento aquele que lhe tocava, desabrochou seu lindo sorriso.
            Desde então o Vento não soprou mais frio e passava horas a fio naquele jardim, soprando e acariciando com seus dedos a delicada pele das pétalas da Rosa, que vivia agora a sorrir.
Os Quatro Cantos do Mundo passaram a sentir o aroma delicado daquela Eterna Primavera que foi o do encontro da Rosa com o Vento, e todos os ventos, de todos os cantos, sopraram e espalharam por todas as flores de todos os jardins.