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domingo, 3 de maio de 2015

Foi num fim de tarde...

Era fim de tarde e a anciã estava sentada, como sempre fazia àquela hora, vendo o pôr do sol. Sentada em sua cadeira de balanço no canto mais afastado da varanda de sua casa, ela, enquanto contemplava tão raro-comum momento, olhando ao longe, revivia os momentos passados de uma simples felicidade.
O pôr do sol, para ela, era a hora em que tudo acontecia. Foi num fim de tarde, quando ainda era uma adolescente, que vira o homem de sua vida pela primeira vez, e que só vários meses após aquele primeiro encontro, no exato instante em que o sol de deitava no horizonte, que eles se beijaram pela primeira vez. Foi num fim de tarde em que o sol demorava a se pôr, como que para contemplar a felicidade dela, que se casou, e nove meses depois, quando o sol se pôs, que deu a luz ao primeiro filho, cuja primeira visão foi a da luz do sol de fim de tarde que entrava pela janela entreaberta.
Teve vários filhos, todos nascidos à mesma hora, que levava, quando crianças, para brincar à sombra de uma árvore, para sentirem a brisa vespertina que soprava vinda do oceano e para, no exato instante em que o sol se punha, ficarem em silêncio só pelo prazer de verem o sol fechar os olhos lentamente no horizonte.
Era sempre ao final de cada tarde que ela se sentava para ver o pôr do sol enquanto esperava o marido chegar do trabalho, sempre trazendo presentes para ela e para as crianças, e foi num dia, no único dia naqueles longos anos de felicidade, em que se atrasou, chegando no início da noite, que trouxe consigo a notícia de que estava doente. Os dois choraram juntos, e prometeram um para o outro lutar juntos até o fim, e nunca deixarem um ao outro a sós, não importa o que acontecesse.
Lutaram, choraram, sorriram e tiveram esperanças, e foi num dia, num fim de tarde, em que tinham esquecido de por que um dia estiveram tristes, que ele se foi, junto com o sol que fechava os olhos para dar lugar a noite. Foi nessa noite de ventos frios em que a nuvem encobriu a lua e as estrelas, que ela chorou sozinha e que soube que nunca estaria a sós, pois ele estaria para sempre com ela e viria visitá-la ao final de cada tarde, e ficariam calados, de mãos dadas, vendo o sol se pôr.
Ele foi enterrado, ao final da tarde seguinte, embaixo de uma árvore na parte alta do cemitério, num pequeno morro, para que pudesse contemplar, todo dia, o espetáculo que a vida oferecia diariamente a todos que tinham sensibilidade para ver o momento.
Ela voltou calada durante todo o trajeto do cemitério até sua casa, onde se trancou no quarto por vários dias, só abrindo a janela para ficar junto e segurar a mão de seu marido enquanto contemplava o pôr do sol.
Foi num fim de tarde que recebeu a notícia do filho dizendo que ela ia ser avó, de um outro que tinha arranjado um emprego em outra cidade e de um terceiro que tinha passado no vestibular.
Foi enquanto o sol se punha que uma filha, que ainda muito jovem tinha saído de casa para ganhar a vida, trabalhando numa cidade distante, voltou para que ela conhecesse sua primeira neta. Ela sentou a criança em seu colo, que imediatamente olhou ao longe, para onde o sol se punha, e ficaram as três, mãe, filha e neta, a contemplar a beleza do instante.
Enquanto contemplava o pôr do sol foi que recebeu a notícia da morte trágica de um dos filhos, que ficou sabendo da doença de um irmão e que chorou de saudade dos tempos e das pessoas amadas.
Era em cada fim de tarde, de alegrias e tristezas, de lágrimas e sorrisos, que ela se sentia em paz. Era o silêncio do canto dos pássaros de cada fim de tarde que a reconfortava, que fazia de cada momento eterno, que fazia a vida valer a pena, que ela sentia como que o tempo parar ou passar lentamente, como a luz do sol que vai se apagando pouco a pouco.

Foi naquele fim de tarde em que contemplava o sol como da primeira vez, que viu seu marido se aproximar chorando, e ela o recebeu sorrindo, de braços abertos. Os dois ficaram lado a lado: ela em sua cadeira de balanço e ele de pé, que contemplaram o pôr do sol pela última vez que, quando o sol fechou seus olhos naquele fim de dia, ela também fechou os seus, e ficou para sempre com aquela luz dourada em seus olhos.

domingo, 28 de setembro de 2014

Mea culpa

Ninguém mais precisa procurar pelo culpado por tudo, por todas as “desgraças” que estão acontecendo em nosso país: eu sou o culpado.
            Eu sou o grande culpado por toda essa corja de políticos que está aí no poder, pelas pessoas a quem dei o cargo, a quem escolhi para me representar no dia da eleição, por todos esses que ao invés de política se entregaram ao vício e práticas da politicagem. Eu sou o grande culpado, portanto, por toda a desgraça que a política nacional tem causado. Sou o único culpado por escolher pessoas que vão ocupar os cargos para defender os meus interesses, particulares, de minha classe, ao invés de pensar em defender os interesses da nação, de todas as pessoas.
            Sou o único culpado pela inatividade, pela passividade perante tudo que acontece. Poderia e deveria lutar mais, ter feito mais barulho, me fazer entender, gritar mesmo, mas, ao invés disso, preferi/ optei, pelo conforto e a paz de meu lar, e fingir que tudo que está acontecendo não me diz respeito. Se estoura mais um escândalo de corrupção, finjo indignação quando estou com amigos e até sinto certa ojeriza ao meu país quando assisto a um noticiário ou leio notícias dessa ordem num jornal qualquer, mas é um sentimento de repulsa passageiro, e logo estou agindo como se tudo aquilo não fosse comigo. Vejo noticia após notícia em telejornais, de escândalos após escândalos de corrupção, de mil e uma CPIs, das práticas políticas (ou, melhor dizendo, das politicagens) tão comuns, e a única coisa que penso é “mais uma” e “não vai acontecer nada de mais com nenhum dos envolvidos”, e pronto. Minha única ação é desligar a televisão ou mudar de canal, ou fechar a revista ou o jornal.
            Sou eu quem coloca os Renans Calheiros, os Bossonaros, os Dirceus, os Jenuinos e os Felicianos da vida onde eles estão, sou eu quem lhes dá amplos poderes.
            Sou eu o responsável por tantas leis defasadas, pela justiça injusta, por deixar que tanta coisa aconteça tanto “a torto e a direito”, só e unicamente por que “não estou nem aí”, porque não me preocupo, porque não fiscalizo. Sou eu aquele que não mais se choca com as injustiças...
            E eu sou culpado não só por isso, pelo que está acontecendo com o país; sou o verdadeiro e único culpado, também, por todas e tantas as miudezas que causam mal a tanta gente e as quais ninguém se dá conta.
            Sou o culpado pela televisão que temos, pelos BBBs de número intergaláctico que ainda estão por vir, só e unicamente por que eu lhes dou audiência, apesar de reclamar, reclamar e reclamar. Tais reclamações, confesso, são da boca pra fora, apenas. Quando estou só, em casa, quando ninguém mais vê, ligo a TV e coloco no canal a que tanto critico, acreditando que só nele eu vou estar bem informado, acreditando que ele é o detentor da única e universal verdade, que ele é o imparcial, que retrata os fatos tal como eles são, que ele só mostra o que me imprescindível, e se não é noticiado algo de que todos falam, algo que é importante, significa que é importante para um alguém, que não é importante para mim e não me diz respeito.
            Sou o culpado pela sujeira na rua, no bairro e na cidade, pois sou eu quem não joga o lixo no lixo, quem joga o papel quando ninguém está olhando na lixeira, quem joga o lixo pela janela do carro no meio da rua. E ainda tenho o descaramento de reclamar, para todo mundo ouvir, da sujeira!
            Sou eu quem não fiscaliza, quem “deixa pra lá”, que digo que aquilo não me diz importância, embora saiba, em meu íntimo, que aquilo, sim, é de meu interesse, que se eu ‘deixar pra lá” agora, depois não vou estar aqui, e o problema já não irá mais me afetar, já não mais “me dirá respeito”.
            Sou eu o grande e único responsável por toda essa baixeza que vemos na televisão e ouvimos nas rádios, pois sou eu quem lhes dá a audiência.
            Sou eu aquele que se julga “o puro”, “o incorruptível”, “o de consciência limpa”, sendo o primeiro a tentar proveito de algo, a oferecer “um trocado” para um guarda de trânsito para que ele não me multe, sou o que fura a fila, quem não respeita as leis.
            Sou eu aquele típico brasileiro, aquele que acredita e cuja lei universal é a do “jeitinho”.
            E sou eu, principalmente, aquele que está perpetuando tudo isso, quem está espalhando o mau exemplo, quem está deixando todo esse legado, toda essa herança maldita para as gerações vindouras, para que elas vivam nesse mesmo país que eu vivo, para que esse país viva sempre a se iludir naquele jargão de “Brasil, o país do futuro”, mas de um futuro nunca irá se tornar presente.
            Eu sou o culpado, e torno aqui, pública, a minha culpa. Não procurem mais por ninguém, não apontem mais seus dedos para ninguém, pois aqui estou eu, de consciência limpa, ao menos uma vez na vida, tirando um peso das costas, da consciência, ao me entregar para ser julgado, condenado e para cumprir minha pena, só e unicamente por ser o responsável por toda uma série de desgraças que têm acontecido no país e na sociedade.

domingo, 21 de setembro de 2014

O conto da cidade fantasma

Aquela era uma cidade fantasma. Abandonada há décadas, até mesmo pelas almas dos que viveram e foram enterrados naquele velho cemitério localizado atrás da única igreja onde não era rezada uma missa há décadas. Até as árvores perderam a vida naquela cidade, com os troncos ressecados, inteiramente sem folhas e só não vinham inteiramente ao chão por que até os ventos não sopravam mais ali. O mato havia crescido nos primeiros anos por todos os lados, em todas as casas, no meio das ruas, mas depois deixou de crescer, secou, e jazia abandonado, em grandes tufos, por todos os cantos. Ali, animal algum pisava. Os pássaros não cantavam pela manhã, para saldar o novo dia que começava. O único rio que cortava a cidade não mais corria em direção ao mar. Ficou parado durante tanto tempo ali que acabou morrendo. Ali não havia estações do ano. No verão o sol jamais conseguia aparecer por entre as nuvens, no inverno não chovia, na primavera não havia vida para desabrochar e no outono as árvores não perdiam as folhas, pois já a haviam perdido há tempos.
            Não havia ninguém vivo que se lembrava da existência daquela cidade, pois todos os que nasceram e, em algum momento da vida viveram ali, já estavam mortos ou tinham se esquecido completamente da cidade que um dia tivera vida. Não havia qualquer registro, dados e informações oficiais sobre a existência da cidade, de forma que ela não fazia parte da jurisdição de qualquer Estado ou País. Não havia placas indicando como chegar àquele lugar, mesmo por que, aquele lugar não existia. As rodovias que outrora levavam àquela cidade tinham sumido, como que consumidas pelo tempo. A antiga ferrovia também.
            Tudo ali era um completo e absoluto silêncio, pois não havia nenhum vivente por perto disposto quebrá-lo.
            Mas apesar de tudo, de todo o abandono, aquela cidade fantasma não estava totalmente morta.
            Um homem, em viagem de um lugar qualquer para outro desconhecido, acabou se perdendo e saiu da estrada. Rumou sem destino por longas horas até que percebeu que a gasolina de seu carro estava acabando. Já era quase noite, e ele percebeu isso ao olhar para o relógio, pois pela janela do carro, olhando para o céu, não conseguiria distinguir que horas eram, se quem estava no céu era o sol ou a lua, já que não se via nenhum sinal de ambos.
            O barulho dos pneus do carro em contato com a terra e as pedras quebrou subitamente o silêncio naquela região deserta, mas logo o silêncio voltou a surgir quando o carro parou.
            O homem abriu a porta profundamente aborrecido. Só lhe faltava aquela mesmo: ficar no meio do nada, perdido, sem ninguém por perto. Bateu a porta com força ao fechá-la. Olhou ao redor, como que procurando alguém que pudesse lhe dar alguma informação ou ajuda, que pudesse pelo menos lhe dizer onde estava. Não encontrando, passou a mão no rosto, pensando no que poderia fazer naquele momento, naquele lugar. Olhou mais uma vez para o céu e de novo para o relógio, e percebeu que este havia parado. Tirou o relógio do pulso e o jogou no chão.
            - Que droga! Só me faltava essa agora – disse ele, consigo próprio. Começou então a dar alguns passos incertos, em qualquer direção, chamando por algum alguém. Mas ninguém lhe respondeu. Talvez só quem tenha lhe ouvido foi a cidade, que naquele momento, como que acordada em pleno sono, se mostrou, pela primeira vez em anos, a olhos mortais.
            A neblina que cobria a que outrora fora a entrada da cidade, afastou-se e o homem, ao ver aquela cidade sem vida que subitamente voltava a respirar, sentiu um arrepio correr por toda a sua espinha e um frio percorrer todo seu corpo.
            - Oi? Tem alguém aí? – chamou ele. Mas ninguém respondeu. Só então se deu conta de que estava completamente sozinho, na entrada daquela cidade.
            Hesitou por longos minutos, sem saber o que fazer. Pegou seu celular no bolso, mas para sua decepção, estava sem sinal. Chegou a tentar ligar para vários números, a fim de pedir ajuda, mas só o que ouviu foi o ruído estranho. Respirou fundo duas ou três vezes e com passos curtos e hesitantes, se dirigiu à cidade. A todo instante, olhava ao seu redor, a procura de alguém, de algo que lhe indicasse onde estava ou de pelo menos algum ser vivo. Aquela total ausência de vida ao seu redor lhe deixava inquieto. Mas precisava fazer algo, e continuou sua caminhada em direção à cidade, com cada passo mais lento do que o anterior.
            - Oi? Tem alguém aí? – tornou a chamar.
            Como o silêncio se fechava ao seu redor, ele retrocedeu e, ao olhar para trás, viu que a espessa neblina tinha descido, impedindo-o mesmo de ver seu próprio carro. Atemorizado, deu alguns passos incertos para o local onde julgava estar seu carro, mas tropeçou a acabou se machucando na queda.
            - Onde estou? Que cidade é essa? Onde foram as pessoas dessa cidade? – perguntava, como que sussurrando.
            À duras custas conseguiu se levantar e, mancando, foi caminhando até uma casa próxima de onde estava. Bateu na porta, chamou, mas não ouviu nada em resposta além do eco que reverberava pelos corredores e cômodos da residência. Empurrou a porta e viu que estava aberta, mas não ousou entrar na casa. Olhou para a rua, inteiramente deserta, viu as árvores nuas, mortas, inteiramente ressecadas. O único som que lhe chegava aos ouvidos era o de seus próprios passos.
            A cada dois passos que dava, ele parava e chamava, mas como nunca lhe chegava uma resposta, ele continuava a andar. Parou quando chegou a uma praça abandonada. Viu os bancos quebrados, um balanço com as correntes inteiramente enferrujadas e as pedras da calçada fora de lugar, como se alguém as tivesse retirado de seus devidos lugares, revirando-as.
            Já cansado e com a perna dolorida, ele se senta num banco daquela triste praça. Fica olhando ao redor, imaginando as pessoas que viviam ali e o que tinha acontecido a elas e à cidade para que o local tivesse se tornado aquilo que ele via diante de seus olhos.
            Perdido em seus próprios pensamentos, ele se esqueceu que estava sozinho num lugar desconhecido, até que ouviu um barulho longínquo, como de algo muito pesado sendo arrastado. Levantou-se de um salto e aguçou os ouvidos. Silêncio. Ele pensou que sua imaginação estava lhe pregando peças quando escutou novamente, o mesmo barulho, dessa vez mais próximo. E de novo e de novo. Assustado, procurou um lugar onde pudesse se esconder. Correu até uma casa grande, no final da rua, que estava com os portões e a portas abertas. Entrou e ficou escondido, num canto, agachado, abraçado às próprias pernas, esperando ouvir novamente aquele barulho, que ele não sabia do que se tratava. O único barulho que ouvia, no entanto, era o de sua própria respiração.
            Quanto tempo ficou ali, naquela posição, tremendo de medo, ele não sabia, mas tinha a impressão de que havia passado uma eternidade.
            A cidade inteira havia mergulhado, novamente, em seu mais completo silêncio, e ele resolveu sair de onde estava. Suas pernas ainda tremiam e seus passos eram inseguros. Percebeu que, do lado de fora, a neblina se adensara a ponto dele não conseguir enxergar absolutamente nada do que estava à sua frente. Chegou a esbarrar no portão de frente a casa e a tropeçar numa calçada. Caminhava com os braços esticados para frente, como se procurasse algo em que pudesse tocar. Tinha a impressão de que havia algo escondido naquela névoa, que o observava. Sentia um frio percorrendo todo o corpo e apressou os passos, para escapar daquilo que o estava escondido na névoa, mas parou quando esbarrou em algo. Algo se aproximava dele, e ele sentia isso. Escutou novamente aquele mesmo barulho, mais próximo, ao seu lado, junto ao seu ouvido. Suas pernas tremiam e algumas lágrimas começaram a lhe vir ao rosto. Sentia como se mil mãos lhe pegassem as pernas e o estivessem carregando para algum lugar. Tentou gritar, mas o silêncio ao seu redor era tão denso que sufocou sua voz. Sem mais forças para se manter de pé, ele desabou no chão, ainda consciente. Algo o estava sufocando de dentro pra fora e ele foi perdendo pouco a pouco a consciência. Sentia a neblina ao seu redor, densa, lhe abraçando, lhe engolindo pouco a pouco até que, por fim, fechou os olhos e caiu num sono profundo do qual nunca mais voltaria a acordar.

domingo, 14 de setembro de 2014

Uma folha de papel em branco

Todos em casa dormiam, mas ele estava acordado. Há meses vinha pensando naquilo, mas não sabia como fazê-lo nem qual o momento certo. Agora estava no mais absoluto silêncio, ouvindo os sons dos sonhos de cada pessoa da sua família, a respiração alta acelerada de um, o ronco de outro e o silêncio de sua mãe. Justamente sua mãe seria a pessoa que mais sentiria a sua falta. Iria sofrer no início, vendo-o em todos os cantos, sem saber para onde ele tinha ido, até que pouco a pouco se acostumaria com a sua ausência, mas jamais iria esquecê-lo, pois as mães nunca esquecem. Seu pai, perante todos, iria se mostrar forte e quem sabe até passaria a admirá-lo por seu ato e falar nisso para os amigos, mas no fundo também estaria despedaçado. Suas irmãs, uma sentiria a sua falta, mas a outra ficaria até feliz, pois poderia insistir com sua mãe para ficar com o quarto dele, já que ele não estava mais ali.
            Ninguém iria saber de seu paradeiro, ninguém sequer sabia que ele nutria aquele desejo de ir embora, pois ele jamais o confidenciou a ninguém, nem mesmo ao melhor amigo ou ao espelho. Nenhuma palavra à ninguém. Sofreu por longas semanas e meses com aquilo guardado no peito, com aquele plano impensado. Sentia-se inseguro por muitas vezes até, mas ora parecia tão determinado... Mas agora sentia, sabia que havia chegado a hora. Daria o primeiro passo sozinho ou correria para os braços dos pais. Pensou até em bater à porta do quarto deles e pediria para se deitar e dormir entre eles, como fazia quando era criança. Agora se sentia tão indefeso e confuso quanto uma criança, precisando de um amparo. Mas agora ele não tinha em quem se amparar, se realmente fosse fazer aquilo, dar aquele tão longo e difícil passo.
            Aquele silêncio opressivo àquela hora da noite lhe deixava em dúvida. Estava, já, imóvel, sentado à mesa, há horas. Seus olhos pesados, queriam se fechar; sentia um enorme peso sobre seus ombros, que faziam com que ele se curvasse. Talvez fosse aquele o peso da responsabilidade, da tão difícil decisão que tinha de tomar naquele momento: voltar para seu quarto e dormir, como se nada tivesse acontecido, e passar o resto da vida se sentindo um fracassado, um covarde, ou dar aquele passo rumo ao imprevisível.
            Levantou-se, sentindo todos os músculos de seu corpo doerem e começou a andar de um lado para o outro. Foi até o quarto de suas irmãs e as viu dormindo, cada uma em sua cama. Se fosse embora sentiria falta delas. Quem seria o “irmão mais velho” se ele fosse embora? Fechou delicadamente a porta do quarto, para não acordá-las. Foi até o quarto dos pais e, da porta, os viu dormindo, cada um de um lado da cama. Uma lágrima dolorosa e silenciosa escapou de seu olho e escorreu por sua face quando os viu.
            Voltou à mesa e se sentou, derramou lágrimas silenciosas e dolorosas. Ficou longos minutos com a respiração entrecortada, tendo cuidado para não fazer qualquer barulho que pudesse acordar alguém. Olhou para a sua mochila no chão, à porta do seu quarto, olhou para a porta de casa, fechada, mas que ele poderia abrir com tanta facilidade. Distava apenas alguns poucos metros daquela porta, mas, para ele, naquele momento, parecia uma distancia tão longa. Se fosse embora, talvez não pudesse mais voltar; se ficasse, talvez nunca mais fosse embora, ficando preso para sempre. Eram dúvidas que lhe atormentavam, que lhe doíam no peito e faziam sua cabeça explodir.
            Tinha uma folha de papel em branco à sua frente e uma caneta na mão. Pensava no que poderia escrever, no que poderia dizer em tão curto espaço. Que palavras diria? Pediria desculpas? Diria que um dia iria voltar? Que sentiria falta de todos? Como expressar tanto, falar tanto e com quem palavras num momento como aquele? Nada que escrevesse, numa simples carta, seria suficiente para expressar tudo o que sentia, tudo o que teria para dizer.
            Suas pernas doíam, seus ombros pesavam, mas ele se levantou. Andou de um lado para outro, sofrendo com as dúvidas e incertezas. Foi até a porta, girou a chave, mas não girou a maçaneta. Ela lhe parecia muito dura e lhe queimava a mão.
            Olhou para trás uma última vez e viu a casa que tanto conhecia, onde podia andar com os olhos fechados sem esbarrar em nada. Sentiria falta da casa, da mãe, do pai, das irmãs e de cada cantinho que lhe trazia lembranças.
            Abriu a porta. Agora era só uma questão de um passo; de um único tão longo e difícil passo, um passo para frente, e nada mais, mas se o desse, não poderia mais voltar atrás. Olhou a porta aberta à sua frente e tudo o que estava deixando para trás. Prendeu a respiração, mergulhando, agora, no desconhecido, no incerto, e deu aquele derradeiro passo. Sentiu um alívio e opressão no peito ao fazer aquilo. Agora não podia voltar atrás, teria que ser sempre em frente.
Assim que o amanhecesse, iriam procurar por ele por todos os cantos da casa, iriam dar mil e um telefonemas, para todos os parentes e seus conhecidos, a fim de saberem algo sobre o seu paradeiro, mas ninguém saberia de nada. A essa altura, ele já estaria longe, onde, nem ele mesmo sabia. A única coisa de concreta que havia deixado para trás, como uma lembrança, foi uma folha de papel em branco e uma caneta.

sábado, 23 de agosto de 2014

A leitora

Eu sou aquele tipo de pessoa estranha, dessas que ao entrar num ônibus olha os assentos ocupados e vejo todas aquelas pessoas, cada uma ocupada com seus computadores de mão (vulgos smartphones!), jogando algum joguinho sem graça, conversando no WhatsApp ou mandando e recebendo mensagens SMS, entretidos em algum aplicativo baixado na noite anterior ou simplesmente conversando alto e fazendo questão que todo mundo que está no ônibus ouça tudo; vejo, também, pessoas distraídas, ouvindo suas músicas, e algumas até mexendo os dedos ou batendo suavemente o pé na cadência da música; vejo também pessoas distraídas, olhando a paisagem ou pensando em como aquele dia tende a ser longo e cansativo; vez por outra tem aqueles que estão conversando alto e incomodam a metade do ônibus; e de vez em quando antes mesmo ouço antes de ver um daqueles desprezíveis DJs de ônibus, ouvindo suas músicas de qualidade duvidosa e incomodando o ônibus inteiro, e sempre que vejo (digo, ouço) tal ser, minha vontade é de pedir parada e descer imediatamente.
            Pois bem, eu não me enquadro em nenhuma dessas categorias (se bem que de vez em quando eu ouço minha música – com fones de ouvido, óbvio), e ao entrar no ônibus, ao me deparar com tão familiares figuras, busco com os olhos um lugar onde possa me sentar (normalmente à janela, no lado do sol – não me pergunte por que opto por me sentar no lado do sol). Devidamente sentado, sentindo-me confortável (por vezes nem tão confortável assim), abro minha mochila e tiro de dentro dela um objeto estranho, um livro, e ao fazer isso muitas pessoas me olham com certa estranheza, como se eu fosse um ser de outro mundo e portando um objeto deveras perigoso, talvez desconhecido (pelo menos no ambiente de um transporte público coletivo) para a maioria daquelas pessoas.
            Um dia desses tudo me parecia igual a todos os dias. Entrei no ônibus, procurei com os olhos um assento e me dirigi para lá. Infelizmente não era na janela, mas pelo menos era do lado do sol (!). Sentei-me e ao começar a abrir a mochila, olhei para o lado e vi que havia um elemento estranho naquele ônibus, um alguém que havia ocupado o meu lugar de “elemento estranho, extraterrestre, portador de um objeto deveras perigoso e desconhecido”. Eu, como bom curioso, procurei discretamente (se bem que não tão discretamente) averiguar que livro era aquele que aquela moça estava lendo e que a tinha fisgado de tal forma que ela estava profundamente concentrada na leitura. Quase dou um jeito no pescoço para ver a capa daquele livro, que fazia com que a leitura tivesse uma reação diferente a cada virar de página. Quando finalmente consegui ver a capa, já tendo chamado a atenção daquele que estava sentado ao meu lado e de algumas pessoas próximas, que àquela altura devia já ter me julgado um louco, quase me desequilibro ao constatar que a moça lia um de meus livros. Olhei bem para ela, tentando reconhecê-la entre uma daquelas a quem recomendei a leitura na livraria onde trabalho, mas por mais que me esforçasse, não conseguia lembrar de seu rosto. Fiquei me perguntando como aquele livro tinha lhe caído nas mãos, mas deixei esse questionamento de lado e comecei a reparar em suas reações, para constatar se ela estava ou não gostando, e pelas expressões de seu rosto e seu leve arquear das sobrancelhas, creio que sim. À essa altura, as pessoas no ônibus já estavam me olhando, vendo como eu reparava naquela leitora ao meu lado. Deviam achar que eu me tratava de algum maníaco-pervertido-com-fetiches-por-mulheres-que-leem-em-ônibus (se bem que eles, nesse sentido, têm certa razão). Fiquei pensando se deveria ou não me apresentar a ela como o autor daquele livro, aquele quem escreveu aquela história (uma crônica – tratava-se de um de meus livros de crônicas) que naquele momento lhe arrancava uma sonora gargalhada que acabou chamando a atenção de outros passageiros do ônibus, que olharam para ela com um olhar de estranheza e censura (pensando, por certo, se ela era louca para estar rindo “sozinha”!). Resolvi deixá-la quieta, em paz, final de contas é sempre mais engraçado e interessante ler um livro e suas histórias, se divertir e se identificar com elas do que conhecer aquele quem as escreveu.

            Quando dei por mim, minha parada estava chegando e eu tive que me levantar. Naquela manhã, um dia incomum, eu não li uma única páginas e sequer chegara a abrir a mochila. Quando, já de pé no corredor do ônibus, em frente à porta, olhei para trás, não resisti e dei mais uma espiada para trás, para aquela leitora desconhecida, e quando a vi sorrir novamente me dei conta de que a decisão que havia tomado, de não me apresentar, fora a mais sensata, afinal de contas, como disse, a leitura do livro era muito mais interessante e divertida do que conhecer seu autor.

domingo, 10 de agosto de 2014

Asas

Quando nascem, todas as crianças têm asas para poder ir aonde quiserem, para fazer o que bem desejarem, pois são inteiramente livres, pois pertencem só e unicamente a si mesmas. Elas brincam livres no céu, sob os olhares estupefatos dos adultos, invejosos daquela liberdade e alegria a que é permitido só aos que possuem alma de criança.
            No céu, as crianças se sentiam inteiramente donas de si, e podiam viajar livremente nos braços dos ventos, mas havia uma em especial que era mais livre do que as outras: um menino que tinha um riso capaz de sobrepujar o barulho dos trovões nas noites de tempestade, que tinha asas tão grandes que ele as usava para abraçar a si mesmo quando estava com frio nas noites de inverno. Ele, junto com seus amigos, voavam pelos céus e chegavam perto do sol, mas só ele, ousado como era, ousava se aproximar o suficiente para sentir seu calor a lhe queimar a pele, e fazia isso com tanta frequência que sua cor era de um saudável bronzeado. Nas noites de luar, todas as crianças eram livres para ficar até tarde acordadas, e algumas, quando sentiam sono, podiam mesmo dormir planando no ar ou nos braços de uma estrela, mas diante de tanta alegria e felicidade, eram raras as que sentiam sono. Umas, mais afoitas, voavam bem alto em torno na lua, enquanto outras, mais alegres, brincavam com as estrelas, jogando-as de um lado para o outro, e os adultos, infantis, imaginavam tratar-se de uma “estrela cadente”, quando, na verdade, era apenas uma estrela que se deixava fazer de brinquedo pelas crianças.
            As crianças eram inteiramente felizes e livres, mas aquele menino era mais do que todas as outras, e primeira vez que seu sorriso lhe sumiu do rosto foi quando viu um adulto segurando uma criança, um amigo seu, pelo pé, impedindo-a de voar, prendendo suas asas num abraço apertado para que elas não abrissem. Ele então entendeu que aquele era o primeiro indício de uma obrigação a que os adultos impunham às crianças: o crescimento. Aquela foi a primeira criança que ele via dar seus primeiros sinais de crescimento a que os adultos e o mundo impunham, e ficou triste por dias a fio, sem ânimo sequer para voar. Mas logo esqueceu, como todas as crianças esquecem rapidamente das coisas, pois tinha muitos outros amigos para brincar durante os dias e noites de sua eterna infância.
            Um dia, quando estava no céu a brincar com uma nuvem, fazendo cócegas nela para obriga-la a tomar a forma de um animal, viu uma criança com os pés plantados no chão. Ele a chamou, mostrando como estavam a se divertir, ele a nuvem, convidando-a a participar da brincadeira, ao que ela respondeu com um olhar triste, mostrando que suas asas pendiam inertes. Ele ainda fez menção de ir até ela e voar com ela nos braços, ao que ela recusou, dizendo que a partir daquele momento não poderia mais voar, pois seu lugar era ali, com os pés bem firmes no chão. Ficou com uma lágrima presa na garganta, mas se aquele era o desejo daquela criança, tudo bem, ele respeitaria. Ainda havia, mesmo assim, algumas crianças livres, com enormes asas, embora não tão grandes quanto as suas, com quem poderia brincar e voar livremente pelo céu.
            Passadas algumas semanas, ele, num voo solitário num início de manhã, percebeu que havia menos crianças do que o normal, e olhou para baixo e viu um massacre acontecendo diante de seus olhos: adultos ignorantes prendiam as asas das crianças para que elas não pudessem mais voar, e outros iam ainda mais longe e arrancavam as asas para que nunca mais elas pudessem ser livres. Dessa vez, ele chorou, e suas lágrimas caindo eram como uma tempestade a desabar sobre a cabeça dos incautos que faziam aquilo com as crianças, prendendo-as no chão.
            Algumas crianças, mesmo livres, começaram a não conseguir mais voar tão alto e pouco a pouco foram perdendo, naturalmente, capacidade de voar, e estas, quando punham seus pés no chão e não tinham mais forças nas asas, choravam tão alto que até as estrelas no céu se compadeciam de suas novas condições, presas ao chão. Outras, para evitar perderem suas capacidades de voar, suas preciosas liberdades, tentavam viver uma vida dupla: na terra, como todos, e no céu, livres; mas a estas logo as obrigações do dia-a-dia, as infindáveis rotinas prendiam, a ponto de elas se esquecerem de como se faz para voar, e suas asas caíam inertes ao longo do corpo.
            Uma a uma, as crianças começavam a ficar presas ao chão, umas por que eram obrigadas, com os adultos obrigando-as a se plantarem no chão, enquanto outras tinham as asas as asas brutalmente arrancadas, para que nunca mais pudessem voar livremente no céu.
            Todas aquelas crianças que um dia foram livres não mais voavam, com a exceção daquele menino, que agora brincava sozinho. Ia de uma nuvem a outra, brincava de esconde-esconde com o sol, conversava, à noite, com a lua e ainda jogava, vez por outra, uma estrela de um lado para o outro. Quando olhava para baixo e via um de seus antigos amigos, agora transformados em adultos, chamava por eles, mas eles, tão ocupados em suas rotinas, ou não ouviam, ou não escutavam ou chamado, ou fingiam não ouvir aquele chamado, e seguiam sempre em frente, com a cabeça baixa e os pés bem firmes plantados no chão.  Ele, mesmo percebendo que mais que chamasse os outros não olhariam para cima, continuava a chamar até cansar. E quando eles não podiam mais ser vistos, seja porque entravam em um ônibus, carro ou se trancavam num escritório ou dentro de casa, sentia-se cansado e triste e perdia, por um instante, a vontade de voar, e em uma ocasião quase foi pego por um adulto, que desejava lhe podar as asas.
            Sentia-se só, agora que não tinha uma outra criança com quem brincar e compartilhar as alegrias e sorrisos, e essa solidão foi lhe pesando dia após dia a ponto de tal peso lhe impedir de voar tão alto como gostava. Um dia, não aguentando mais tal peso, resolveu se deixar cair lentamente, tal qual uma pluma que se deixa levar ao sabor do vento. Pousou suavemente no chão e dobrou delicadamente suas asas e começou, a partir daquele dia, a viver como uma pessoa comum, a seguir uma rotina, a ter suas responsabilidades.
            Passaram-se muitos anos e ele cresceu, como toda criança cresce, e, tão ocupado como estava em viver a vida, se esquecia do menino que um dia fora. Nunca olhava para o céu, seja durante o dia seja à noite, e sua pele, antes bronzeada, perdeu a beleza da cor e o viço.
            Mas um dia, enquanto voltava de seu trabalho para casa, parou subitamente, como que algo estivesse a lhe chamar. Era noite e não havia uma única nuvem no céu e ele, ao olhar para cima, ao ver tantas estrelas e a lua a brilhar majestosa no firmamento, e foi então que um turbilhão de lembranças lhe tomou de assalto e ele sorriu e chorou ao lembrar do menino que um dia fora e do qual havia se esquecido. Olhou para as costas e viu as asas abrindo lentamente e sorriu ao perceber que elas ainda estavam vivas e possuíam vigor suficiente para levá-lo ao céu. Respirou fundo duas ou três vezes e deixou suas asas livres para baterem e lhe levarem de volta aos braços do céu. Sentiu seus pés iam pouco a pouco se soltando do chão e ele pôde se tornar o primeiro homem, adulto, a poder voar. Seguia suas rotinas e tinha suas responsabilidades do dia-a-dia, sim, mas sempre que, cansado, voltava para casa, parava, olhava para o céu e ao ver as estrelas e a lua, podia voltar a ser o menino livre que um dia fora, e voar livremente pelo céu, privilégio este que só é dado aos que possuem uma eterna alma de criança e aos que fazem devido uso de suas asas

domingo, 27 de abril de 2014

A cama de nossos pais

Um dos maiores segredos do Universo, um dos maiores enigmas que os homens tem se debruçado, sobre o qual tantos sábios, filósofos e cientistas estudaram, está em descobrir por que a cama de nossos pais é sempre a melhor cama do mundo, o lugar mais seguro, quentinho e aconchegante do Universo. A cama de nossos pais é uma verdadeira ilha de calor e paz em meio ao oceano de águas profundas e geladas onde fomos jogados.
            Desde que o mundo é Mundo e foi criado o quarto dos filhos, para que os pais possam ter uma noite de sono sossegada em seus quartos, é que as pobres crianças sentem-se verdadeiras órfãs, pois muitas vezes existe uma parede quase intransponível que os separa da cama de seus pais, e desde esses imemoriais tempos que estas crianças dão seu jeitinho para atravessar a aparente inexpugnável muralha que os separa de seu objetivo. E a maneira encontrada é simples: bater a porta do quarto, tendo sempre um coberto enrolado ao corpo e um travesseiro debaixo do braço, alegando estar com medo do escuro, dizendo que tem um bicho-papão debaixo da cama, quando, na verdade, o que há, no máximo, é um playmobil esquecido na última brincadeira ou aquela sandália ou sapato que a gente nunca encontra na hora que mais precisa. E então vem nossa mãe, é normalmente ela quem abre a porta, e olha para nós, da forma como só as mães nos olham.
            - O que foi, menino? – pergunta ela.
            Então nós desenrolamos a nossa história, a nossa desculpa, quando, na verdade, só o que queremos é um pouco do espaço mágico daquela cama.
            Quando nossa mãe está, finalmente, se convencendo da veracidade da nossa história do bicho-papão e do escuro que quer nos tragar para sua profundeza, ouvimos a voz de nosso pai, que acorda de repente e quer saber o motivo de estarmos ali, parados à porta do quarto. Ele nos manda voltar para nosso próprio quarto, para dormir em nossa própria cama e, já com olhos chorosos, damos o primeiro passo para trás, eis que nossa mãe, sempre ela, nos salva e nos dá passagem, de forma que nos jogamos sobre sua cama e muitas vezes antes mesmo dela se deitar, já estamos dormindo um sono tão pesado que nem mesmo um carnaval fora de época, se passasse em frente a nossa casa, seria capaz de nos acordar. E ficamos ali, naquela cama tão grande, entre nosso pai e nossa mãe, impedindo que eles se abracem, desejando apenas o abraço de ambos.
            Muitos são os que se debruçam sobre essa complexa questão primordial para a existência de qualquer ser humano. Os matemáticos, por exemplo, alegam que o ângulo do colchão de nossos pais com relação ao travesseiro faz com que aquele seja um local tão propício para um sono agradável; os físicos, por seu lado, falam de calor; os poetas tentam, em vão, com seus versos explicar a relação existente entre os filhos e a cama de seus pais; os psicólogos chegaram a conclusão de que, nesse caso, nem Freud explica;os biólogos falam que esse é um de nossos instintos primitivos; os geógrafos, que esse é nosso norte; os historiadores, bem, esses não chegaram a um consenso, ainda. Enfim, todos falam, falam e falam, mas nenhum chegou a questão primordial.
            Eu, por meu lado, acredito que essa é uma questão por demais complexa, que por mais que nos debrucemos sobre ela jamais chegaremos a um consenso, que é uma questão puramente afetiva.
            E de tanto falar nisso, enquanto escrevo esse texto, ouvi um barulho vindo debaixo de minha cama. Olho para o quarto escuro e começo a tremer de medo e resolvo sair de meu quarto, e ir para o de meus pais. Lá, quando eu bater a porta, provavelmente virá minha mãe abri-la e me olhará com uma cara estranha, como se dissesse “o que que tu ‘tá fazendo aqui, menino?” e eu, enrolado a meu lençol, tendo o travesseiro debaixo do braço, olharia para ela como se respondesse que o que fazia ali era óbvio, que vinha dormir na sua cama, onde não me deitava há tempos. Ela me lançaria um olhar indiferente, daria de ombros e me daria passagem. Quando me deitasse na cama, antes de pegar no sono, ainda escutaria meu pai reclamar, dizendo:
            - Esse menino aqui de novo? Você já está grande demais, rapaz. Vai dormir na sua cama!
            Mas antes que ele terminasse de falar isso, eu, do alto dos meus vinte e poucos anos, já estaria dormindo.

domingo, 13 de abril de 2014

Rastros daquele que foi um dia...

A última vez em que eu o vi, ele era jovem. Era desses jovens impetuosos, desses que podia ser o que quisesse, que tinha a vida toda pela frente e o mundo nas mãos. Nossos caminhos se separaram, mas eu sempre ficava sabendo de seus feitos. Ele havia sido músico, feito sucesso, se envolvido com mil e uma mulheres, depois largou todas elas para viver a sós consigo mesmo. Estava “dando um tempo”, como havia sido noticiado. O “tempo” que havia dado foi tão longo, mesmo, que todos se esqueceram dele, e quando voltou “à vida real”, ninguém mais queria saber de suas músicas e mulher alguma lhe dirigia um único sorriso. Caiu em depressão e se entregou. Passou a usar drogas, foi internado, disse ter se recuperado, voltou a se drogar, depois, pela dor que estava causando aos que o amavam, resolveu dar uma nova chance à vida. Passou a ter uma “vida normal” e entrou para o serviço público. Levava uma vida de rotinas e todos os seus dias eram sempre iguais, com as mesmas obrigações, atendendo as mesmas pessoas, fazendo as mesmas coisas.
            Eu, de longe, ficava pensando em como ele podia aguentar tudo aquilo, sendo ele quem era. Acabou se envolvendo com uma mulher comum e tiveram um casamento comum e seguindo a comum vida dos casais e suas mil e uma rotinas. Já não tinha mais a barba de outrora, seus cabelos eram cortados bem curtos e as tatuagens e cicatrizes estavam escondidas por baixo das roupas de grife que agora usava. Nunca sorria e suas palavras eram como que mecanizadas, sempre as esperadas, as triviais e banais palavras do dia-a-dia. Não mais vivia cercado por tantas pessoas, e, ao invés disso, parecia mesmo evitar o contato humano, salvo aquele a que era obrigado pela sua rotina. Havia, como todos os iguais a ele, se separado, tentado um novo relacionado, se casado novamente para tornar a se separar em seguida. Era mais um “que não tinha dado certo no amor”, como costumava dizer, e agora levava uma vida solitária de gostos e hábitos simples, como proclamava para todo o mundo ouvir.
            De tanto não ser ele mesmo, acabou se confundindo e sempre como todos: apenas mais um na multidão. Fiquei um longo tempo sem saber o que ele fazia da vida e o que a vida fazia dele. Talvez tenha se fundido de tal forma às rotinas e obrigações que tenha se tornado parte essencial delas. Tentei rastrea-lo e seguir seus passos, descobrir onde tinha ido e o que tinha sido feito dele, até que o reencontrei, certa vez, parado. Ele tinha os olhos fixos nos meus, como que me prendendo. Aqueles olhos que eu via não era os do homem igual, do homem das rotinas, mas sim os do jovem que eu não via há tantos anos. Ele não falou uma única palavra, e apenas sorriu, pois percebeu o meu espanto ao vê-lo ali, tão perto. Eu não conseguia falar uma única palavra, pois todas estavam presas na minha garganta. Não sabia o que fazer nem como agir. Não sabia se queria que ele voltasse a sumir, a ser só mais um como havia sido durante tantos anos, ou se ficasse onde estava, que voltasse a ser que ele era, quem sempre tinha sido e que nunca deveria ter deixado de ser.
            Eu devolvi seu olhar e nos seus olhos eu vi a sua alma pulsando de vida. Levantei a mão para tocar sua face e só então me dei conta de que ele era um reflexo que eu via através da fina lâmina de vidro do espelho. Então, ao me dar conta de quem eu era e de quem havia me tornado, chorei, pois agora já era tarde demais e que nada poderia ser feito para fazer o tempo voltar atrás para fazer tudo diferente, de ser quem eu deveria ter sido...

segunda-feira, 3 de março de 2014

Emergência 911 no mundo moderno



Aquele tinha sido um dia tranquilo na central de ligações de emergência e a telefonista já começava a arrumar suas coisas quando o telefone tocou. Ela sabia, de alguma forma, da gravidade da situação, e atendeu à ligação no segundo toque. Do outro lado da linha, um jovem desesperado.
            - Socorro... Socorro... Eu preciso de ajuda. Ele não está respondendo e me parece morto. Preciso de ajuda, rápido.
            A telefonista, percebendo o desespero na voz do outro lado da linha, tenta acalmá-lo, ao mesmo tempo que procura descobrir o que se passou exatamente para acionar uma equipe de atendimento móvel de urgência.
            - Senhor, o que aconteceu? O senhor está em frente à vítima?
            - Sim, sim... ele está aqui à minha frente e estou tentando reanimá-lo, mas ele não esboça qualquer reação. Acho que ele morreu.
            - O coração dele está batendo? O senhor consegue verificar isso, por favor?
            - Não. O coração dele está parado há quase dois minutos. Já tentei de tudo para reanimá-lo, mas foi tudo em vão. Cheguei até a tentar dar um choque nele, mas de nada adiantou.
            A situação então era realmente muito grave. A telefonista, desesperada, tem que agir rápido e acionar uma equipe. Verifica em seu monitor a localização das equipes para poder destacar a que esteja mais perto para fazer o primeiro-atendimento e remoção da vítima.
            - Onde o senhor está? Pode me dar o seu endereço para eu poder destacar uma equipe?
            O outro, já chorando, fala o que aconteceu.
- Estava tudo tão bem... Eu só sai dois minutos para ir beber água... quando voltei, que me sentei de volta ele... ele me disse algo em forma de mensagem e de repente... apagou. Tentei reanimá-lo até com choque, realizei todos os procedimentos recomendados em situações como essas, de emergência, e nada... Ele sequer abre os olhos. O coração dele parou... parou... E foi tudo tão de repente. Talvez se eu não tivesse saído de seu lado...
- Senhor, por favor, eu preciso de seu endereço para destacar uma equipe para ajudá-lo, rápido. Cada segundo conta numa hora dessas.
Ele, desesperado, verdadeiramente dopado por sua dor, não escuta o que a telefonista falou.
- E ele não estava fazendo nada, nenhum esforço. Nós não estávamos jogando nem nada, pois já haviam me dito para não jogarmos, pois faria mal a ele. Ele só estava baixando umas coisas, quando de repente...
Ela já estava acostumada à situações como aquelas de emergência e mesmo com as palavras parecendo desconexas e sem sentido, foi agindo.
- Preciso, senhor, rápido, saber onde o senhor a vítima estão para destacar uma equipe para ajudá-los – ela agora falou de forma brusca, quase gritando ao telefone, para chamar o outro à razão.
- Estou em minha casa...
- O endereço, senhor... Eu preciso do endereço para mandar a equipe do atendimento de urgência, ambulância e dos paramédicos.
- Eu preciso de um técnico, com urgência... ele está morto. Ainda posso sentir o calor do corpo dele, mas ele está ficando cada vez mais frio – e começou a chorar.
- Tem mais alguém com o senhor?
- Não. Estou sozinho, aqui no quarto, com ele, morto, bem aqui, ao alcance de minha mão. Estamos só nós dois.
- Tenho que mandar os paramédicos com urgência, senhor, pois ainda podemos salvá-lo. Ainda há tempo. Agora, por favor, me diga o endereço para eu mandar a equipe.
- Não é preciso toda uma equipe. Talvez só um bom técnico possa salvá-lo.
Silêncio dos dois lados da linha, que só era quebrado pelos soluços do jovem desesperado, necessitando tanto de ajuda.
A telefonista estava começando a ficar desesperada, apesar de todo o seu preparo para lidar em situações como aquela. Sentia-se com as mãos atadas, impotente, por ver que há alguém precisando desesperadamente de ajuda, tendo ela o “poder” de destacar uma equipe móvel de urgência, mas sem conseguir extrair do desesperado do outro lado da linha a informação de para onde mandar a equipe que poderia salvar uma vida.
- Um técnico... um técnico... Eu preciso de um técnico, com urgência. Só um bom técnico pode salvá-lo, pode ressuscitá-lo.
- Senhor, estou com equipes prontas, a postos, com paramédicos e enfermeiros prontos para ajudar seu amigo, mas para mandá-los, eu preciso saber onde o senhor está.
- Ele não é só meu amigo. É meu único amigo, aquele que me faz companhia todas as horas, até nas madrugadas...
O tempo passando e a telefonista mais e mais desesperada, sem conseguir saber do maldito endereço...
- Ele estava tão bem há cinco minutos. Nunca teve problema algum. E de repente, apaga, sem mais nem menos, e agora está aqui, morto.
Pelo tempo que se passou, dada a gravidade da situação, a telefonista sabia que não havia mais nada a fazer. Àquela hora, muito provavelmente, a vítima já estava realmente morta e não havia qualquer possibilidade de reanimação com eletrochoques, massagens cardíacas ou o que quer que fosse. Mas precisava, mesmo assim, tentar.
- Ele... eu já o tinha há tanto tempo... Ele nunca apresentou qualquer defeito, problema, e sempre esteve comigo nas horas mais difíceis, quando eu estava mais precisando, quando estava mais sozinho. E agora, o que vai ser de mim? O que vai ser de minha vida, agora, que ele está morto?
Já cansada, desesperada, a telefonista, sentindo como se tivesse deixado de salvar um alguém, resolve fazer uma última tentativa.
- Qual era o nome dele?
- Ele... Ele não tinha necessariamente um nome...
- Ainda tem algo que eu possa fazer, senhor?
- Um técnico, por favor. Mande um técnico. Talvez um técnico possa, ainda, salvá-lo, devolver-lhe a vida.
- O senhor, por acaso, quer dizer um médico?
- Não. Falo em técnico mesmo! Afinal de contas, o que um médico poderia fazer numa situação dessas.
- Talvez um médico...
- Não. Um médico não, um bom técnico, apenas, pode salvar o meu computador.
- O seu O QUÊ?
- O meu computador! Ora, o que mais poderia ser?!
A telefonista, respirando o mais devagar que podia, foi deixando o gancho telefone cair, cortando a linha.
- Alô? Alô? Você ainda está aí? Socorro... Eu preciso de ajuda. Meu computador está morto. Eu não consigo ligá-lo. Alô? ALÔ? Você ainda está aí? Você ainda está aí? Socorro... SOCORRO...


quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Natal... natal... eh, natal!!!

É sério! Eu adoro o natal. Adoro sentir esse clima festivo dessa época do ano; adoro ver a cidade toda enfeitada e iluminada com decorações de gosto no mínimo duvidoso; adoro poder ir a um shopping e receber tantos encontrões, por conta dos corredores sempre tão cheios de gente desesperada para comprar presentes e mais presentes; adoro ir a uma loja e ver a expressão insana dos vendedores, entre desejosos de concluir mais uma venda, e exaustos, já contando os dias para que esse período de loja eternamente cheia finalmente chegue ao fim, pois seus gerentes se negam a lhe dar folgas, já que virou lei que empresa nenhuma dá folga nessa época do ano!
            Adoro o natal por conta desse sentimento de fraternidade reinante. Todas as pessoas são amigas, todas as pessoas perdoam, são perfeitas e vivem na mais perfeita harmonia, exatamente de forma oposta a que vivem durante todo um ano, como se estivessem a esperar pelo natal para viverem “como deveriam”, pois, afinal de contas, tem que fazer a média uma vez por ano pelo menos, convenhamos!
            Adoro natal por que é a única época em que se vê pessoas que não se suportam tirando umas às outras no “amigo secreto” e na hora de revelar quem tirou, só falar elogios do outro. Adoro ver como as pessoas têm cuidado e pensa muito na hora de comprar um presente pro “amigo secreto” a ponto de comprarem um “cartão presente”!!!
            Adoro natal por que vejo pessoas que nunca se viram na vida desejarem “feliz natal” umas às outras com toda a falta de sinceridade do mundo. Adoro ver vizinhos que nunca sequer trocam um “bom dia”, apesar de costumeiramente se encontrarem num corredor ou nas escadas do edifício, parando para se cumprimentarem, para puxarem um assunto qualquer, para expressar votos de “feliz natal e próspero ano novo”.
            Adoro ver os climas festivos e os preparativos para as reuniões familiares e entre amigos, como se só fosse permitido se reunir justamente nessa época do ano, como se fosse terminantemente proibido se reunir em qualquer época do ano que não seja no natal, como se só no natal fosse permitido chamar os amigos ou familiares para uma festa / reunião num ambiente agradável para reforçar os laços de amizade ou de sangue.
            Adoro o natal por que é só nessa época do ano que se recebe mil e uma mensagens e e-mails daqueles parentes e amigos que sequer se dignam a dizer um “oi” ao menos na data de seu aniversário, e justamente agora, nessa época do ano, reaparece, como que tendo surgido do nada, para desejar “feliz natal”.
            Adoro o natal, pois, se ao menos sonhar em falar que não gosto do natal, sou considerado antipático, antissocial, do contra, ateu, chato, hipócrita, etc, etc e etc. por isso falo, ou me vejo obrigado a falar, por tudo que se vive nessa época do ano, e só nessa época do ano, que adoro o natal.

            Vivamos, então, essa época tão boa, pois se não a aproveitarmos intensa e devidamente, com certeza, durante o resto do ano seremos obrigados a conviver com as pessoas em suas verdadeiras faces, que, ao menos no natal, são encobertas por máscaras de uma falsa sinceridade que chega a comover e a convencer. 

domingo, 15 de dezembro de 2013

Dor e prazer ao escrever cartas



Escrever cartas é doloroso. Dói tatuar cada pedaço de nossa alma via palavras numa folha de uma insensível folha de papel em branco, que de tão insensível, dura e branca, vai se enchendo de ternura, sensibilidade e cores na medida em que a vamos cobrindo-a por inteiro, na frente e no verso, com nossas palavras.
Dói, sim, porque não é fácil para nós aguentar ser torturado e brigar com as palavras, em busca da perfeita, daquela que possa expressar aquilo que sentimos quando estamos empunhados de uma caneta a desenhar letras muitas vezes imprecisas, que formam palavras, que depois, aos poucos, frases que nem sempre condizem e são capazes de falar tanto quanto o nosso coração.
Dói a angústia de não saber exatamente quando a pessoa irá receber a carta, e dói mais ainda não saber como ela irá receber todas aquelas palavras. Dói não saber se ela vai sorrir, se vai chorar, e dói muito mais não estarmos perto, para ao invés de falar através de palavras escritas, falar ao pé do ouvido, sussurrando tudo aquilo que se quer dizer, que nem sempre as palavras são capazes de falar.
Dói, é bem verdade, escrever cartas, mas não é uma dor dolorosa, que nos fere a alma, mas sim uma dor prazerosa. É uma dor de prazer, ou um prazer doloroso que sentimos ao mandar palavras, fragmentos de nossa alma, numa folha de papel dotado, agora que o tatuamos, de tantos sentimentos, para uma pessoa que está muitas vezes tão longe que mesmo com toda a força de nossa voz não se pode alcançar.
Escrever cartas significa que a pessoa está longe, e essa noção de distância, essa dor de saudade, é que dói lá no fundo do peito, mas que justamente por isso, por estar tão longe, está tão perto, se faz tão presente, por isso queremos tanto sua presença.
Dói, mas é prazeroso ter a noção de que os dias sucederam uns aos outros e que a carta já chegou ao destino, de que a pessoa, ao lê-la, sorriu e sentiu tudo aquilo que as palavras, mesmo imprecisas, expressaram.
Mas a dor mais prazerosa, o prazer mais doloroso, é o da angústia, o da espera pela resposta. Passamos dias a fio sem dormir, ansiosos para ter em nossas mãos a folha de papel tatuada com a alma da pessoa. Ficamos expectantes quando vemos o carteiro dobrar a esquina e vir em direção a nossa casa e depositar, na caixa de correio, as correspondências, e ficamos tristes quando, dia após dias, ele não nos traz aquele tesouro pelo qual tanto ansiamos. Imaginamos mil e uma coisas, que vão desde o extravio da preciosa carta até a possibilidade dela ter sido entregue e lida por um outro alguém, que não entende o sentido verdadeiro daquelas palavras ali ditas, dos fatos ali relatados.
Eis que um dia, quando menos esperamos, a carta-resposta chega. Ela pesa em nossas mãos, ela faz o nosso espírito ficar tão leve, e em nossa euforia, ao rasgar o envelope, quando maculamos a preciosa folha de papel que ele guarda. Devoramos (não lemos!) um sem-número de vezes aquelas palavras, e só quando o nosso coração volta a bater normalmente em nosso peito, conseguimos entender cada um daqueles fragmentos de alma ao lê-los.
Depois de sentir vezes sem conta o murmúrio daquelas palavras, dobramos cuidadosamente a folha, respiramos fundo duas ou três vezes e reiniciamos a nossa dor, escrevendo uma nova carta, uma resposta, tatuando fragmentos de nossa alma em uma folha de papel em branco, que a princípio é insensível, mas que aos poucos vai se enchendo de sentimentos inúmeros, e assim segue, em círculo vicioso, as dores e os prazeres a que só uma carta escrita e lida podem proporcionar.