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domingo, 21 de setembro de 2014

O conto da cidade fantasma

Aquela era uma cidade fantasma. Abandonada há décadas, até mesmo pelas almas dos que viveram e foram enterrados naquele velho cemitério localizado atrás da única igreja onde não era rezada uma missa há décadas. Até as árvores perderam a vida naquela cidade, com os troncos ressecados, inteiramente sem folhas e só não vinham inteiramente ao chão por que até os ventos não sopravam mais ali. O mato havia crescido nos primeiros anos por todos os lados, em todas as casas, no meio das ruas, mas depois deixou de crescer, secou, e jazia abandonado, em grandes tufos, por todos os cantos. Ali, animal algum pisava. Os pássaros não cantavam pela manhã, para saldar o novo dia que começava. O único rio que cortava a cidade não mais corria em direção ao mar. Ficou parado durante tanto tempo ali que acabou morrendo. Ali não havia estações do ano. No verão o sol jamais conseguia aparecer por entre as nuvens, no inverno não chovia, na primavera não havia vida para desabrochar e no outono as árvores não perdiam as folhas, pois já a haviam perdido há tempos.
            Não havia ninguém vivo que se lembrava da existência daquela cidade, pois todos os que nasceram e, em algum momento da vida viveram ali, já estavam mortos ou tinham se esquecido completamente da cidade que um dia tivera vida. Não havia qualquer registro, dados e informações oficiais sobre a existência da cidade, de forma que ela não fazia parte da jurisdição de qualquer Estado ou País. Não havia placas indicando como chegar àquele lugar, mesmo por que, aquele lugar não existia. As rodovias que outrora levavam àquela cidade tinham sumido, como que consumidas pelo tempo. A antiga ferrovia também.
            Tudo ali era um completo e absoluto silêncio, pois não havia nenhum vivente por perto disposto quebrá-lo.
            Mas apesar de tudo, de todo o abandono, aquela cidade fantasma não estava totalmente morta.
            Um homem, em viagem de um lugar qualquer para outro desconhecido, acabou se perdendo e saiu da estrada. Rumou sem destino por longas horas até que percebeu que a gasolina de seu carro estava acabando. Já era quase noite, e ele percebeu isso ao olhar para o relógio, pois pela janela do carro, olhando para o céu, não conseguiria distinguir que horas eram, se quem estava no céu era o sol ou a lua, já que não se via nenhum sinal de ambos.
            O barulho dos pneus do carro em contato com a terra e as pedras quebrou subitamente o silêncio naquela região deserta, mas logo o silêncio voltou a surgir quando o carro parou.
            O homem abriu a porta profundamente aborrecido. Só lhe faltava aquela mesmo: ficar no meio do nada, perdido, sem ninguém por perto. Bateu a porta com força ao fechá-la. Olhou ao redor, como que procurando alguém que pudesse lhe dar alguma informação ou ajuda, que pudesse pelo menos lhe dizer onde estava. Não encontrando, passou a mão no rosto, pensando no que poderia fazer naquele momento, naquele lugar. Olhou mais uma vez para o céu e de novo para o relógio, e percebeu que este havia parado. Tirou o relógio do pulso e o jogou no chão.
            - Que droga! Só me faltava essa agora – disse ele, consigo próprio. Começou então a dar alguns passos incertos, em qualquer direção, chamando por algum alguém. Mas ninguém lhe respondeu. Talvez só quem tenha lhe ouvido foi a cidade, que naquele momento, como que acordada em pleno sono, se mostrou, pela primeira vez em anos, a olhos mortais.
            A neblina que cobria a que outrora fora a entrada da cidade, afastou-se e o homem, ao ver aquela cidade sem vida que subitamente voltava a respirar, sentiu um arrepio correr por toda a sua espinha e um frio percorrer todo seu corpo.
            - Oi? Tem alguém aí? – chamou ele. Mas ninguém respondeu. Só então se deu conta de que estava completamente sozinho, na entrada daquela cidade.
            Hesitou por longos minutos, sem saber o que fazer. Pegou seu celular no bolso, mas para sua decepção, estava sem sinal. Chegou a tentar ligar para vários números, a fim de pedir ajuda, mas só o que ouviu foi o ruído estranho. Respirou fundo duas ou três vezes e com passos curtos e hesitantes, se dirigiu à cidade. A todo instante, olhava ao seu redor, a procura de alguém, de algo que lhe indicasse onde estava ou de pelo menos algum ser vivo. Aquela total ausência de vida ao seu redor lhe deixava inquieto. Mas precisava fazer algo, e continuou sua caminhada em direção à cidade, com cada passo mais lento do que o anterior.
            - Oi? Tem alguém aí? – tornou a chamar.
            Como o silêncio se fechava ao seu redor, ele retrocedeu e, ao olhar para trás, viu que a espessa neblina tinha descido, impedindo-o mesmo de ver seu próprio carro. Atemorizado, deu alguns passos incertos para o local onde julgava estar seu carro, mas tropeçou a acabou se machucando na queda.
            - Onde estou? Que cidade é essa? Onde foram as pessoas dessa cidade? – perguntava, como que sussurrando.
            À duras custas conseguiu se levantar e, mancando, foi caminhando até uma casa próxima de onde estava. Bateu na porta, chamou, mas não ouviu nada em resposta além do eco que reverberava pelos corredores e cômodos da residência. Empurrou a porta e viu que estava aberta, mas não ousou entrar na casa. Olhou para a rua, inteiramente deserta, viu as árvores nuas, mortas, inteiramente ressecadas. O único som que lhe chegava aos ouvidos era o de seus próprios passos.
            A cada dois passos que dava, ele parava e chamava, mas como nunca lhe chegava uma resposta, ele continuava a andar. Parou quando chegou a uma praça abandonada. Viu os bancos quebrados, um balanço com as correntes inteiramente enferrujadas e as pedras da calçada fora de lugar, como se alguém as tivesse retirado de seus devidos lugares, revirando-as.
            Já cansado e com a perna dolorida, ele se senta num banco daquela triste praça. Fica olhando ao redor, imaginando as pessoas que viviam ali e o que tinha acontecido a elas e à cidade para que o local tivesse se tornado aquilo que ele via diante de seus olhos.
            Perdido em seus próprios pensamentos, ele se esqueceu que estava sozinho num lugar desconhecido, até que ouviu um barulho longínquo, como de algo muito pesado sendo arrastado. Levantou-se de um salto e aguçou os ouvidos. Silêncio. Ele pensou que sua imaginação estava lhe pregando peças quando escutou novamente, o mesmo barulho, dessa vez mais próximo. E de novo e de novo. Assustado, procurou um lugar onde pudesse se esconder. Correu até uma casa grande, no final da rua, que estava com os portões e a portas abertas. Entrou e ficou escondido, num canto, agachado, abraçado às próprias pernas, esperando ouvir novamente aquele barulho, que ele não sabia do que se tratava. O único barulho que ouvia, no entanto, era o de sua própria respiração.
            Quanto tempo ficou ali, naquela posição, tremendo de medo, ele não sabia, mas tinha a impressão de que havia passado uma eternidade.
            A cidade inteira havia mergulhado, novamente, em seu mais completo silêncio, e ele resolveu sair de onde estava. Suas pernas ainda tremiam e seus passos eram inseguros. Percebeu que, do lado de fora, a neblina se adensara a ponto dele não conseguir enxergar absolutamente nada do que estava à sua frente. Chegou a esbarrar no portão de frente a casa e a tropeçar numa calçada. Caminhava com os braços esticados para frente, como se procurasse algo em que pudesse tocar. Tinha a impressão de que havia algo escondido naquela névoa, que o observava. Sentia um frio percorrendo todo o corpo e apressou os passos, para escapar daquilo que o estava escondido na névoa, mas parou quando esbarrou em algo. Algo se aproximava dele, e ele sentia isso. Escutou novamente aquele mesmo barulho, mais próximo, ao seu lado, junto ao seu ouvido. Suas pernas tremiam e algumas lágrimas começaram a lhe vir ao rosto. Sentia como se mil mãos lhe pegassem as pernas e o estivessem carregando para algum lugar. Tentou gritar, mas o silêncio ao seu redor era tão denso que sufocou sua voz. Sem mais forças para se manter de pé, ele desabou no chão, ainda consciente. Algo o estava sufocando de dentro pra fora e ele foi perdendo pouco a pouco a consciência. Sentia a neblina ao seu redor, densa, lhe abraçando, lhe engolindo pouco a pouco até que, por fim, fechou os olhos e caiu num sono profundo do qual nunca mais voltaria a acordar.

domingo, 12 de maio de 2013

A Sedução da Noite



Quando a noite caiu, o pegou desprevenido ainda na rua. Enquanto se dirigia apressado para sua casa, o céu ia se adensando sobre sua cabeça e as sombras ao seu redor ir crescendo e se tornando mais e mais assustadoras, como se o quisessem engoli-lo, traga-lo, seduzi-lo e trazê-lo para seus braços. Seu coração batia acelerado, ameaçando sair por sua boca ou explodir em seu peito. Sentia o peso de seus pés, que, com o medo que sentia, pareciam querer ficar presos ao chão, como as raízes daquelas árvores que estavam ao seu redor, que pareciam querer abraçá-lo lançando seus enormes e pesados galhos quando ele não estava olhando.
            Desde pequeno, ouvira histórias contadas pelos mais velhos, que relatavam os perigos da noite escura, e crescera com aquelas palavras ainda reverberando em sua cabeça, sentindo um medo latente sempre que via os últimos raios do sol desaparecendo no horizonte. Nessa hora, ele fechava todas as janelas da casa para que nenhuma sombra entrasse e ele ficasse ali, seguro e iluminado por luzes artificiais.
            Nunca tinha contemplado o céu à noite, visto as estrelas e ou a lua, e apesar do medo que sentia, das ameaçadoras sombras e do céu escuro sob sua cabeça, começou a diminuir os passos, pois viu que a noite não era tão escura quanto seus medos diziam, chegando mesmo a parar e olhar para o alto, mirando a majestosa lua, que de tão clara iluminava tanto quanto um sol de meio-dia.
            O medo foi se dissipando e seus passos foram ficando mais lentos. Não tinha mais pressa de chegar a casa e seu coração já não mais batia acelerado. Na sua contemplação à beleza singular da noite, acabou se perdendo, e quando deu por si, não reconheceu o lugar onde se encontrava. Mas mesmo se dando conta de que estava perdido, ainda tão longe de casa, não teve medo, pois a noite sobre sua cabeça estava clara como o dia e os perigos que, nas histórias que ouvia, ela escondia, não existiam.
            As horas foram passando sem que ele se desse conta e a medida que e aproximava da meia-noite, a noite foi se tornando mais escura e ameaçadora. Ele se deu conta disso, e através de uma árvore ou de uma pedra na estrada, foi tentando reconhecer e retomar o caminho de casa, mas quanto mais andava, mais se sentia perdido. Chegou a parar algumas vezes, olhar ao seu redor, sem saber para onde se dirigir, o que fazer...
            A noite se adensava ao seu redor. Soprava um vento frio que lhe fazia gelar todos os ossos do corpo. Sentia fome, mas o medo era mais forte e o obrigava a sempre seguir em frente em busca de algum sinal, de algo que o fizesse lembrar-se da trilha que pudesse levá-lo para o conforto e a segurança de seu lar.
            Cansado, com o corpo clamando por um descanso, ele se sentou na beira da estrada e abraçando os joelhos, deixou que os pensamentos vagassem a toa e assim o levassem a algum lugar, mas eles teimavam em continuar ali, onde ele estava, parado.
            Ele então se levantou novamente e continuou a andar a esmo, para onde quer que seus passos o levassem. Quando mais andava, mais era tragado pela noite, que o seduzia, que o trazia para junto de seu seio, que o abraçava com seus braços longos e frios do vento da meia-noite.
            Ele percebeu o quão a noite era sedutora quando olhou novamente para o alto e não mais enxergou a primeira beleza, aquela como ela havia se apresentado e o fez baixar a guarda e perder momentaneamente os medos, que agora voltavam à tona e lhe tomavam por inteiro.
            Os barulhos do silêncio da noite foram se aproximando e se fechando ao seu redor e quando ele deu por si, foi inteiramente tragado pelos perigos da noite.
            Nunca mais foi visto por nenhum olho de um alguém vivo, mas todos conhecem a sua história, a que fala do homem que se deixou seduzir pela beleza e se esqueceu dos perigos que a noite esconde...

sábado, 5 de janeiro de 2013

O pior de todos os medos



Abre os olhos e sente desnorteado. Não sabe onde está, que dia é, que horas são, não sabe sequer quem é! Sua visão demora a se normalizar e pisca os olhos com força. Respirar é difícil e o ar que entra em seus pulmões e se espalha por todo o seu corpo, oxigenando suas células parece pesado. Sente um gosto ruim na boca e sua garganta dói. Abre a boca para falar algo, para chamar alguém, mas por quem deveria chamar? Solta um som que vem do fundo de seu peito que mais parece um grunhido, um som não humano, e só o que ouve como resposta é o eco desse próprio som que emitiu. Espera um longo tempo deitado com os ouvidos atentos a qualquer som que indique a aproximação de alguma pessoa, mas tudo o que consegue ouvir é o silêncio e o do vento que entra sem pedir permissão por alguma janela deixada aberta em algum canto naquele lugar onde ele estava.
            Ainda com os olhos fechados ele tenta se lembrar de algo que o faço se lembrar do que aconteceu antes de pegar no sono. Só algumas vagas lembranças lhe vem à mente. Lembra bem da sensação de medo que sentia, da sensação do coração batendo acelerado, ameaçando sair pela sua boca ou explodir dentro de seu peito. Está correndo, fugindo, com outras pessoas, mas não se lembra quem são elas, lembra unicamente que está com muito medo, mas que não pode demonstrá-lo, pois há pessoas, ali, que dependem e confiam nele, na coragem que ele não tem naquele momento. Não sabe há quanto tempo foi aquilo nem se lembra do que o fez sentir tanto medo.
Abre lentamente os olhos para ver onde está, o que há ao seu redor. Encontra-se num quarto escuro e está deitado sobre uma cama cujo colchão está sujo e fedendo. A porta encontra-se aberta. Chama novamente, com sua voz rouca, mas não ouve nada como resposta. Tenta se levantar, mas não consegue. Suas mãos e pernas estão amarradas com correias de couro. Não tem forças para rompê-las, então torna a chamar por um alguém. Grita. Não chama por nome algum, pois não se lembra sequer do próprio nome, quanto mais do nome de pessoas que deveriam estar ali e poderiam ajudá-lo e explicar tudo o que está acontecendo. Grita, grita e grita até sua garganta doer ainda mais, mas ninguém aparece. Está suado, sente-se fraco, mas tenta se mexer para se libertar.
De tanto puxar e mexer, consegue libertar um braço, pois o couro estava ressecado e quebradiço. Depois consegue soltar o outro braço. Só esse esforço o fez se sentir extenuado a ponto de perder a consciência.
Acorda sobressaltado, sem saber por quanto tempo ficou desacordado. Já é noite, isso ele sabe, pela luz prateada da lua que ele vê através de um buraco no teto, e pela temperatura, que está mais amena. Senta-se na cama e estica o braço para soltar as pernas. Quando consegue, deita-se de novo. Qualquer esforço que faz, o deixa mais sem força do que já está. Fica um longo tempo deitado, respirando fundo, tentando recuperando as energias. Sente fome, sente sede, sente-se inteiramente desnorteado. Tenta buscar novamente na memória algo sobre o que aconteceu, sobre quem é.
Lembra-se do momento em que, de tanto fugirem, encontram um alívio, algo que julgam uma salvação, como uma ilha em pleno oceano numa noite de mar tempestuoso, quando veem uma cidade aparentemente deserta. Ele guia aquele grupo, que começou tão numeroso, mas que se reduzira a tão poucos. Onde ficaram os outros, ele não consegue se lembrar. Ainda sente medo, mas já consegue controlá-lo, não se deixa tomar por ele. Olha para os rostos daquelas pessoas e só vê medo expresso neles. Olha para o longe, de onde fugiram, e só vê uma espessa e escura névoa cobrindo tudo. Dá as costas àquilo que lhe dá tanto medo, de onde havia fugido, e entra na cidade. São poucos os que restaram e todos tem medo de se separar, mas precisam cada um ir para um canto, buscar ajuda, ver se encontram alguém naquela cidade. Cada um segue em uma direção, e dali a alguns minutos voltam para a pequena praça no centro da cidade, onde haviam ficado de se encontrar. Ninguém encontrou nada, e alguns demoraram a voltar, enquanto outros sequer voltaram. Ficaram, os que voltaram, esperando durante longos minutos, chamando pelos que haviam sumido, e não ouvindo resposta, resolveram, juntos, irem procurá-los. Andaram pelas ruas desertas, entraram em casas que foram reviradas antes da fuga daqueles que um dia moraram ali, mas não encontraram qualquer sinal de viva alma.
Sentiu uma dor aguda no peito, o que cortou bruscamente suas lembranças. Tudo o que sentia era dor, tanta que acabou perdendo a consciência novamente. Quando acordou, pouco depois, a lua estava encoberta por uma nuvem escura, ele pôde perceber isso pela buraco no teto. Sentiu medo e um estranho pressentimento lhe tomou e lhe fez gelar o sangue em suas veias. Seu coração começou a bater descompassado e um suor frio começou a brotar de sua têmpora. A respiração tornou-se difícil e ele se levantou de uma vez, o que lhe causou uma tontura. Sentado na cama, pôs os pés no chão e tentou se levantar, mas acabou indo ao chão, pois não tinha forças para se manter de pé. Mas tinha que fazer algo, então, se arrastando foi até a porta e a fechou, ficando com as costas apoiadas a ela, tentando se proteger daquilo que estava do lado de fora e que poderia vir a encontrá-lo. Ficou ali, sentado, quase sem respirar, tentando controlar as batidas do seu coração, com os ouvidos atentos a qualquer som que viesse do lado de fora. Ouviu apenas o barulho de um vento que passou cortante pelo corredor carregando e gelando o que havia pela frente. Ele tremia por inteiro, com medo, com o coração batendo tão forte que chegava a lhe doer os ouvidos.
A lua já havia dado lugar a um sol que brilhava com uma luz mortiça, que quase nada aquecia, quando ele deu por si ainda sentado naquela posição incômoda, tremendo, com medo. Tentou se por de pé, usando a porta e a parede como apoio, mas caiu, fazendo barulho, o que fez o medo de ser descoberto ficar ainda maior. Não conseguia controlar seus braços e pernas, tamanho era o tremor que tomara seus membros. Deitado em posição fetal, segurou as próprias pernas.
Naquela posição, tremendo daquele jeito, ele se lembrou de quando restavam só mais dois ou três de todos aqueles que ele guiava, dois ou três que continuavam vivos e sãos apesar de tudo pelo que passaram. Fugiam de cidade em cidade, atravessando florestas, bosques, rios, subindo montanha, descendo desfiladeiros, tudo para fugir e sobreviver. O medo os perseguia o tempo todo. Estavam exaustos e famintos, a ponto de desistir e se deixarem serem pegos por aquilo do que fugiam. Mas o medo os impelia a continuar naquela fuga que, no fim das contas, não iria resultar em nada, pois, no fim das contas, iriam ser pegos e aconteceria com eles o mesmo que acontecera com todos os outros. Continuavam, sempre, a correr, tentando ficar perto um do outro, mas aconteceu que acabaram se perdendo, até que ficou só ele e um outro. Chamaram pelos que haviam ficado para trás, mas não ouvindo resposta alguma além do barulho daquele vento, resolveram continuar a correr numa fuga desenfreada, até que encontraram uma casa no alto de uma colina. Abriram a porta e entraram. Fecharam a porta usando umas cadeiras e móveis velhos. Andaram pé ante pé pela casa, olhando os cômodos, até que ele viu aquela cama tosca, velha, com colchão sujo, e disse que não aguentava mais correr, mas que para isso precisaria ser amarrado. O outro poderia ir, fugir até onde conseguisse, mas ele não, queria se entregar. Seus membros doíam, estava esgotado física e mentalmente, e não queria mais fugir, queria se entregar e ficar ali, e esperar que aquele ou aquilo de que fugiam, viesse pegá-lo. O companheiro não queria, mas ele insistiu, e se deixou amarrar. O outro ainda hesitou em ir embora ou ficar ali, mas o seu instinto de sobrevivência lhe disse que continuasse a fuga. Despediram-se com muitas lágrimas. Pouco depois, um grito na noite, uma voz para quebrar o silêncio das trevas.
Ele, então, se lembrou de quem era, mas não teve tempo para passar as boas lembranças da vida diante de seus olhos, pois ao abri-los e se dar consciência de tudo pelo que passara, a porta se escancarou, sendo arrancada de por mãos invisíveis. Ele não viu nada até da escuridão entrar no quarto e lhe tocar. Sentiu os dedos longos e frios lhe apertando. Sentiu o peso no peito lhe oprimindo, impedindo-o de respirar. Num último átimo de consciência, usando de todas as poucas forças que ainda lhe restavam, tentou gritar, mas o grito morreu sufocado em sua garganta. Fora engolido pela escuridão que trazia escondido o seu seio o pior dos medos já concebido pelo Homem.

domingo, 30 de setembro de 2012

As almas dos personagens

Era uma noite escura em que a lua mal aparecia no céu, encoberta por espessas nuvens de chuva. Mas nenhuma gota d’água caía do céu, como se todo o ambiente estivesse expectante por algo que estava prestes a acontecer. Soprava um vento frio e cortante e até as luzes dos postes pareciam tremer de frio, lançando sobre a rua uma luz mortiça que pouco iluminava. Em toda a rua pairava uma névoa fina e de frente a uma coisa esta parecia se adensar.
            Um homem não percebia isso. Estava dormindo um sono pesado após uma noite estafante em que havia sido convidado para dar uma palestra sobre seus livros, em seguida tinha sido submetido a uma noite de autógrafos. Era um escritor de Best-Sellers, com livros publicados em diversos países, traduzidos para várias línguas, apesar das severas críticas que recebia, por seu estilo trágico, dramático, de histórias fortes e tão marcantes. E uma de suas maiores características era o pouco apreço que parecia ter por seus personagens, pois ele sempre os fazia morrer no momento crucial das histórias, como um ponto máximo de cada livro. E naquela noite tivera que responder à muitas perguntas sobre essa sórdida marca de sua histórias. Construía personagens tão belos, tão vivos, tão marcantes que pareciam sair das páginas dos livros e aparecer ali, bem ao lado do leitor, contando a história para este, sussurrando palavras em seu ouvido. No entanto, por mais vida que tivesse esses personagens, o escritor sempre acabava encontrando uma forma de ceifar suas almas.
            O homem dormia o sono dos justos e não sonhava, quando foi acordado por um barulho vindo do andar debaixo de sua casa. Levantou-se assustado e lembrou-se de que estava só em casa. Sua esposa tinha viajado e seus filhos foram junto. Ficou com os ouvidos atentos, procurando escutar qualquer novo som vindo de sua casa. Como não escutou nada, tornou a deitar a cabeça no travesseiro e a se enfiar debaixo dos lençóis. Quando estava pegando no sono, escutou outro barulho, dessa vez mais alto, vindo da frente de sua casa, do lado de fora. O homem então, assustado, levantou-se e foi até a janela. Afastou um pouco as cortinas e ficou a olhar para o lado de fora, para ver o que tinha provocado aquele barulho. Demorou um pouco até conseguir ver alguma coisa, pois a neblina era muito densa a luz dos postes no meio da rua pouco ajudava. Mas pouco a pouco foi distinguindo uma forma parada bem a frente dos portões. Era uma pessoa, com certeza, e estava parada, e fazia questão de se mostrar. O homem ficou assustando, imaginando tratar-se de um assalto.
            Mas era estranho, pois a pessoa do lado de fora não se mexia e parecia olhar fixamente para a janela, para ele, o escritor, que estava dentro de casa. O olhar dos dois se cruzou, e o escritor sentiu um estranho frio tomar seu corpo. Era como se já conhecesse aquele olhar. O escritor, com medo, afastou as cortinas e foi até o telefone, para ligar para a polícia. Mas o telefone estava mudo e seu celular não funcionava. Sentiu, já, o suor brotar em sua face. Voltou à janela, afastou as cortinas, mas o estranho não estava mais lá. “Melhor. Deve ter ido embora”, pensou. E já voltava para cama quando escutou o barulho da porta, como se alguém estivesse querendo entrar. Foi novamente à janela e olhou para fora, imaginando que ia encontrar algum conhecido, sua esposa e seus filhos, provavelmente, que tinham voltado de viagem mais cedo e tinham se esquecido de avisar, e não encontravam as chaves de casa. Olhou para a garagem, primeiramente, mas não via carro algum, e quando olhou para a porta, de onde provinha o barulho, não viu quem esperava. Havia uma estranha, parada à porta, mas não tentava abri-la. Ela olhava para cima, para a janela, olhando diretamente para ele, para seus olhos.
            O homem, sabendo que agora tratavam-se de estranhos que rondavam sua casa, foi tomado de um desespero, sem saber como reagir, se descia ou se ficava em seu quarto, trancado. Seus telefones não funcionavam e ele pensou em abrir a janela e gritar, chamando por algum vizinho, pedindo ajuda. Mas achou pouco provável que alguém escutasse àquela hora da madrugada.
            Caminhava de um lado para outro no quarto, passava a mão no rosto, enxugando o suor, pensando no que fazer, quando escutou outro barulho, dessa vez da porta de sua casa sendo aberta.
            “Eles entraram”, pensou o homem. O tempo ruge nesses momentos, e uma descarga de adrenalina pulsa em nossas veias. Não sabemos o que fazer e sentimos o medo tomar conta de todo o nosso corpo.
            Olhava de um lado para outro, sem saber o que fazer, quando escutou o barulho mais próximo, dessa vez de dentro de seu quarto. Seu susto foi tamanho que caiu de costas na cama. O barulho tinha vindo do seu banheiro, cuja porta estava fechada. Ele, muito lentamente, foi até lá, colocou a orelha encostada à porta para escutar alguma coisa, e não ouvindo nada, colocou a mão na fechadura e a girou lentamente. Com a porta aberta, olhou para dentro, mas não encontrou nada, nem ninguém.
            “Estou ficando louco, só pode”, disse ele consigo próprio, quando escutou algo próximo, às suas costas, e ao se virar bruscamente, viu, num canto do quarto, bem próximo ao seu guarda-roupa, no canto mais escuto, um homem. Como ele tinha entrado ali, o escritor não sabia, o que tinha certeza era que tinha alguém bem ali, a poucos metros dele.
            - Quem é você? O que quer? – perguntou ele, com a voz alterada pelo medo, quase gritando.
            O estranho ficou parado onde estava, calado, e a única coisa que o homem conseguiu ver foi um sutil sorriso. Era um sorriso triste.
            O homem então correu, abriu a porta de seu quarto e foi para o corredor, imaginando-se à salvo ali.
            Escutava barulho de passos vindos de todos os lados, dentro de seu quarto, do quarto de seus filhos e do final daquele corredor, do lado oposto de onde ele estava. Apurou bem ouvidos e aguçou os olhos e viu bem ali, à sua frente, aquele mesmo homem que tinha visto do lado de fora, a lhe dirigir aquele olhar tão penetrante e cheio de tristeza.
            - Quem é você? – gritou o homem, fora de si. O estranho nada respondeu, contentando-se a fita-lo com aqueles olhos tão cheios de tristeza, com uma única e solitária lágrima escapando-lhe do olho direito e escorrendo por sua face.
            Com o coração batendo acelerado, forte em seu peito, o homem reuniu as forças e a coragem que ainda lhe restavam, e correu até a escada. Desceu às pressas, pulando os degraus e quando chegou ao último degrau olhou para cima e direção aonde o estranho se encontrava, mas não encontrou ninguém ali.
            Respirando com dificuldade, ele olhava de um lado para outro, procurando por sinais de invasão por onde aquelas pessoas tinham entrada. Mas tudo parecia estar perfeitamente em ordens. Foi até a cozinha, onde poderia pegar algo com que se proteger, como uma faca. Abriu gavetas, mas, como é comum de acontecer nessas situações de pânico, ele nada encontrou. Abria as gavetas, remexia-as, mas não encontrava o que tanto procurava, quando escutou o choro de uma pessoa, de uma criança, vindo do canto, bem próximo a porta. Aproximou-se pisando com a ponta dos pés para ver do que se tratava e viu, quase ao alcance de suas mãos, uma menininha, toda encolhida, naquele canto escuro, chorando. Tinha os cabelos completamente despenteados e o rosto escondido pelas mãos. Não era um choro alto, mas seus soluços cortavam o coração, como se quem tivesse acabado de perder algo importante. O homem se aproximou e, embora tendo muito medo, tocou-a no ombro.
            - Ei, menina, quem é você e o que faz aqui?
            A menina mal se mexia. Seu choro ia se tornando cada vez mais alto.
            “O que é isso, meu Deus?!”, questionou e exclamou o homem.
            Começou a chover. Chovia tanto e o vento era tão forte que o homem teve a impressão de que sua casa logo seria arrastada. Com o clarão de um relâmpago, ele pôde distinguir as formas da menina, que estava à sua frente, e imaginou reconhecê-la. Ela, no exato momento em que ela a fitava, parou de chorar e levantou o rosto, banhado de lágrimas, para se deixar ver. O escritor agora a reconhecia, e teve tanto medo que saiu tropeçando, correndo, rastejando, para ficar longe daquela menina. Quando chegou a sala, viu que as janelas tinham sido abertas, assim como a porta. Nenhuma das luzes estava acesa, mas relampejava tanto do lado de fora que elas não se faziam necessárias.
            O homem olhava de um lado para o outro, sem saber para onde fugir, quando ouviu a porta bater, sendo fechada. Tomou mais um grande susto. Foi até lá e tentou abri-la, mas ela estava como que fechada por fora. As janelas batiam e as cortinas esvoaçavam, devido à força do vento.
            O coração daquele homem parecia prestes a explodir, quando escutou o barulho vindo lá de cima. Tinha medo, mas olhou para a escada e viu uma pessoa lá no alto, que olhava fixamente para ele. Olhava dentro de seus olhos.
            Passos às suas costas, e quando ele se virou, viu mais duas pessoas, paradas à porta da cozinha, outra à sua direita e mais uma à esquerda. Para todos os lados que olhava ele encontrava algum daquelas almas, daqueles espíritos sem rumo, que tinham ressuscitado para atormentá-lo. Fechou os olhos com força, imaginando que aquilo não passava de sua imaginação, de que quando se torna a abri-lo aqueles espíritos teriam sumido.
            “São só coisas de minha cabeça, pois eles não podem estar aqui, já que nunca existiram”. Quando terminou de falar isso, aos sussurros, abriu os olhos. Mas imaginava ver-se livro de todos aqueles estranhos, e o que encontrou foi muitos outros.
            Nenhum deles se mexia, não esboçavam nenhum gesto. Apenas olhavam aquele que tinha lhes criado, lhes dado a vida, e que tinha ceifado-as de forma tão despropositada. Seus olhares, tão vivos, exprimiam tanta tristeza e acusavam aquele a quem se dirigiam.
            “Eles não podem estar aqui... Eles não podem estar aqui...”, dizia o homem, como em uma oração.
            A chuva começou a cair com mais força e os trovões a ribombarem.
            O coração do homem começou a bater tão depressa e com tanta força que ele começou a ficar tonto.
            - Saiam daqui! SAIAM DAQUI! – gritava ele, e arremessava tudo que estava ao alcance de suas mãos àquelas pessoas. Mas nada as atingia.
            O homem começou a perder o equilíbrio, a ver as coisas rodarem em sua cabeça, até que ficou de joelho. Olhava para aquelas pessoas e pela primeira vez escutou um som saindo daquelas bocas: elas riam. Eram risos tristes, repletos de ironia. O homem começou a cair lentamente e a perder os sentidos.
            A última coisa que seus olhos viram, quando já estava caído no chão, foi que as pessoas estavam ao seu redor, olhando para ele, e algumas esticavam suas mãos para tocá-lo.
            - Não me toquem, não me toquem – disse ele, antes de perder os sentidos.
            Acordou de manhã encharcado de suor, gritando aquele “não me toquem” e o “saiam daqui”. Passou a mão no rosto, para ver se estava realmente acordado.
            “Então tudo não passou de um sonho”, pensou ele, jogando-se novamente na cama, respirando aliviado. Ria, embora não sentisse a menor vontade de rir, pois o sonho lhe parecia tão real.
            Olhou ao redor, para ver se estava tudo em ordem, e não encontrando nada de anormal, levantou-se. Saiu do quarto e viu que todas as janelas e portas de sua casa estavam fechadas. Quando ia voltar ao quarto ouviu o barulho de uma porta sendo aberta. Sentiu um arrepio percorrer seu corpo, e foi ver do que se tratava. Com efeito, a porta da sua biblioteca estava aberta, mas lá ele não encontrou ninguém, apenas todos os seus livros abertos, jogados em cima de sua mesa.