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domingo, 13 de abril de 2014

Rastros daquele que foi um dia...

A última vez em que eu o vi, ele era jovem. Era desses jovens impetuosos, desses que podia ser o que quisesse, que tinha a vida toda pela frente e o mundo nas mãos. Nossos caminhos se separaram, mas eu sempre ficava sabendo de seus feitos. Ele havia sido músico, feito sucesso, se envolvido com mil e uma mulheres, depois largou todas elas para viver a sós consigo mesmo. Estava “dando um tempo”, como havia sido noticiado. O “tempo” que havia dado foi tão longo, mesmo, que todos se esqueceram dele, e quando voltou “à vida real”, ninguém mais queria saber de suas músicas e mulher alguma lhe dirigia um único sorriso. Caiu em depressão e se entregou. Passou a usar drogas, foi internado, disse ter se recuperado, voltou a se drogar, depois, pela dor que estava causando aos que o amavam, resolveu dar uma nova chance à vida. Passou a ter uma “vida normal” e entrou para o serviço público. Levava uma vida de rotinas e todos os seus dias eram sempre iguais, com as mesmas obrigações, atendendo as mesmas pessoas, fazendo as mesmas coisas.
            Eu, de longe, ficava pensando em como ele podia aguentar tudo aquilo, sendo ele quem era. Acabou se envolvendo com uma mulher comum e tiveram um casamento comum e seguindo a comum vida dos casais e suas mil e uma rotinas. Já não tinha mais a barba de outrora, seus cabelos eram cortados bem curtos e as tatuagens e cicatrizes estavam escondidas por baixo das roupas de grife que agora usava. Nunca sorria e suas palavras eram como que mecanizadas, sempre as esperadas, as triviais e banais palavras do dia-a-dia. Não mais vivia cercado por tantas pessoas, e, ao invés disso, parecia mesmo evitar o contato humano, salvo aquele a que era obrigado pela sua rotina. Havia, como todos os iguais a ele, se separado, tentado um novo relacionado, se casado novamente para tornar a se separar em seguida. Era mais um “que não tinha dado certo no amor”, como costumava dizer, e agora levava uma vida solitária de gostos e hábitos simples, como proclamava para todo o mundo ouvir.
            De tanto não ser ele mesmo, acabou se confundindo e sempre como todos: apenas mais um na multidão. Fiquei um longo tempo sem saber o que ele fazia da vida e o que a vida fazia dele. Talvez tenha se fundido de tal forma às rotinas e obrigações que tenha se tornado parte essencial delas. Tentei rastrea-lo e seguir seus passos, descobrir onde tinha ido e o que tinha sido feito dele, até que o reencontrei, certa vez, parado. Ele tinha os olhos fixos nos meus, como que me prendendo. Aqueles olhos que eu via não era os do homem igual, do homem das rotinas, mas sim os do jovem que eu não via há tantos anos. Ele não falou uma única palavra, e apenas sorriu, pois percebeu o meu espanto ao vê-lo ali, tão perto. Eu não conseguia falar uma única palavra, pois todas estavam presas na minha garganta. Não sabia o que fazer nem como agir. Não sabia se queria que ele voltasse a sumir, a ser só mais um como havia sido durante tantos anos, ou se ficasse onde estava, que voltasse a ser que ele era, quem sempre tinha sido e que nunca deveria ter deixado de ser.
            Eu devolvi seu olhar e nos seus olhos eu vi a sua alma pulsando de vida. Levantei a mão para tocar sua face e só então me dei conta de que ele era um reflexo que eu via através da fina lâmina de vidro do espelho. Então, ao me dar conta de quem eu era e de quem havia me tornado, chorei, pois agora já era tarde demais e que nada poderia ser feito para fazer o tempo voltar atrás para fazer tudo diferente, de ser quem eu deveria ter sido...

domingo, 10 de novembro de 2013

O menino que aparava as frutas



Engraçado como nossa memória olfativa e visual é forte. Por vezes basta uma palavra-gatilho para nos fazer voltar no tempo e lembrar cheiros e fatos que jaziam adormecidos numa gaveta fechada há tempos de nosso cérebro. Um gatilho-palavra pode disparar-despertar inúmeras lembranças e fazer pairar inúmeros cheiros que nos fazem até salivar de tão deliciosos que são...
            Ontem uma amiga me falou a palavra Laranja, e ao ouvi-la fui imediatamente invadido pelo cheiro delicioso de suco de laranja, feito na hora, direto da fruta (nada de polpa de laranja ou de sucos artificiais), aquele mesmo suco que eu tomava no almoço, antes de ir para a escola, aquele mesmo suco que eu por vezes ficava sem tomar parte só para colocar no congelador para fazer picolé e eu poder desfrutar à tarde, em dias de forte calor. Laranja pra mim sempre teve cheiro e sabor de infância, de final de manhã, da hora do almoço, antes da escola, ou de, nas férias, feriados ou dia em que não tinha aula, das tarde de sol quente, em que, na pausa entre uma partida e outra de futebol, eu corria para casa e tinha um saboroso e refrescante picolé de laranja a me esperar.
            Nossas gavetas em que são guardadas as lembranças são cheias dessas coisas: uma palavra desperta uma lembrança, que desperta outra, que vem seguida de outra, e lá vem outra, outra e outra...
            Da palavra-cheiro-sabor da laranja, veio a goiaba e com ela as lembranças da goiabeira que havia no quintal de minha casa, de meu pai subindo e jogando lá do alto as mais apetitosas frutas para eu apagar para que não ficassem esmagadas ao caírem diretamente no chão. Lembro-me dos sucos e doces de goiaba que minha mãe fazia, do cheiro da goiaba invadindo e tomando toda a cozinha, e dos picolés que eu fazia com o suco de goiaba... Também me lembro de outra fruta saborosa que faz parte de minha infância: a manga. Na rua onde morei a maior parte de minha vida, incluindo a minha infância e maior parte da adolescência, havia muitas mangueiras, e eu era o escolhido para ficar embaixo, enquanto os amigos subiam e ficavam, lá de cima, jogando as frutas mais maduras para eu aparar. Ficava, lá embaixo, olhando para cima, com o olhar fixo na fruta que caia, para segurá-la e não a deixar se machucar ao cair diretamente no chão. Imaginava como seria bom fazer como alguns amigos, que chupavam a fruta lá no alto mesmo, ainda quentinha, sendo acariciados pelo vento que passava por entre as folhas e galhos da árvore.
            As lembranças da goiaba e da manga, despertadas pelas da laranja, que chegou até mim via uma palavra “jogada”, escolhida aleatoriamente por uma amiga, me fizeram lembrar que eu era sempre aquele que ficava embaixo, aparando as frutas, e isso me fez ver que eu só ficava ali, por vezes sozinho, porque era o único da turma a não saber subir nas árvores, a não poder desfrutar, lá do alto, das carícias do vento e do sabor da fruta ainda quente, recém-colhida. Essa constatação me deixou, confesso, um tanto quanto triste, por nunca ter tido tais prazeres, mas, em compensação, feliz, por ser eu o responsável por aparar as frutas, por impedi-las de cair diretamente no chão e se machucarem.
            Não subia nas árvores naquela época e não subo nelas hoje em dia, mas as lembranças de hoje, quando despertadas por uma palavra, um cheiro ou por um sabor, me fazem capaz de ir lá em cima, de ir muito além dos galhos, e me fazem ver que tão importante quanto aquele que colhe a fruta e as deixa cair livremente é aquele que a impede de cair no chão e se machucar, para que possam ser saboreadas por aqueles que não tem o dom de subir em árvores.

domingo, 6 de outubro de 2013

Cheiros e gostos de lembranças

De morango era o sabor de seus lábios, assim como o doce aroma de hálito. Ele fechava os olhos e invocava as lembranças da noite passada com seus gostos e cheiros e toques e calores e sons e suspiros. Podia quase tocá-la e reviver aqueles momentos de tão palpáveis que eram as lembranças ainda tão vívidas naquele quarto. Nos lençóis o seu calor ainda permanecia, nas fronhas dos travesseiros ainda repousavam alguns fios de seus cabelos, e ele puxou os travesseiros para junto de si e se cobriu com os lençóis, e ali ficou, naquela posição fetal, sentindo-se seguro naquela ilha de calor.
Adormeceu brevemente com os olhos semiabertos e sonhou, e no sonho ela voltava para seus braços. Mas acordou de seu devaneio de supetão e assustado com o som do despertador, que lhe chamava para um novo dia de estafantes rotinas. Entre as obrigações e o reavivamento das lembranças, ele se viu obrigado a se levantar. Tomou uma ducha fria, que levou pelo ralo o ainda tão presente toque dos finos dedos dela em sua pele, e chorou ao não mais senti-lo tão latente. Enxugou-se com uma toalha felpuda, mas que em nada lembrava o seu tão macio e aconchegante abraço.
Passou o dia inteiro como que em constante devaneio, realizando de maneira distraída as suas tarefas e obrigações, assinando todos os papeis que lhe entregavam sem ao menos lê-los, atendendo ligações sem prestar atenção ao que o outro do outro lado da linha lhe dizia, e dando respostas evasivas. Pediu para sair mais cedo, pois não estava se sentindo bem, alegou, e seu chefe, mesmo a contragosto, o liberou, sob a condição de no dia seguinte ele compensar. “tudo bem”, ele disse, pegou seu paletó e saiu.
Dirigiu seu carro sem destino definido por ruas e avenidas vazias àquela hora da tarde, até que parou em frente à praia onde a encontrou. Mas dela, ali, a única coisa que restava, era a sombra de sua presença, uma vaga e imprecisa lembrança. Ficou ali mesmo assim, sem a presença dela, vendo o pôr do sol, o seu lento desaparecer na linha do horizonte. Olhou para o alto e viu a lua cheia, a mesma lua cheia da noite anterior, e viu o céu salpicado de infinitas e diminutas estrelas, todas tão belas. Fechou os olhos e sentiu o cheiro do mar, nem de longe tão sublime quanto o cheiro dela, de seu hálito; ouviu o barulho das ondas quebrando, um som violento, de fúria, tão diferente do som delicado e baixo de sua voz, tão suave quanto o dedilhar nas cordas de uma harpa. Expirou todo o ar que tinha dentro de seu peito e emitiu um gemido baixo de dor pela não-presença dela ali. Caminhou descalço sentindo o delicado e áspero toque da areia entre seus dedos e vez por outra uma onda vinha lhe roçar com seus dedos seus pés, como que o chamando, convidando-o para um mergulho na sua imensidão, nos seus gigantescos braços num abraço apertado, mas ele não sentia nada disso: sentia apenas a solidão daquele momento, a presença de uma ausência tão viva.
Voltou para casa tarde da noite, cabisbaixo, e preferiu não pegar o elevador, mas sim subir todos aqueles lances de escadas, contando um a um os degraus. Chegou à porta de seu apartamento esgotado, com os músculos das pernas clamando por um descanso, e se jogou sobre o sofá. Estava tão cansado que fechou os olhos e estava adormecendo quando sentiu um doce e tão conhecido aroma pairando no ar. Com os olhos ainda fechados ele virava a cabeça de um lado para o outro, como que procurando a fonte de onde vinha o cheiro daquela lembrança, até que parou, olhando em direção à mesa, e viu lá pousado um único morango. Arregalou os olhos, não acreditando no que tinha diante de si, quando ouviu um som vindo de seu quarto, onde a porta se abria lentamente e por onde vinha ela, não a lembrança dela, não um eco dela, mas ela, em carne, osso, cheiro e gosto, e na mão segurava delicadamente um morango, que oferecia para ele...

domingo, 20 de janeiro de 2013

A morte das lembranças



O amor o mantivera vivo por todos aqueles longos anos. Quando se sentia cansado, bastava fechar os olhos e relembrar de sua infância, do bairro em que viveu, da casa em que nasceu, dos barulhos e risos. Enquanto estava se lembrando, ele se pegava rindo sozinho ao sentir um vislumbre da felicidade que sentira em tais momentos, e isso, essas lembranças, lhe acalmavam a alma, era com um elixir de uma eterna juventude: sempre que precisava, relembrava de sua infância e juventude, e ele se sentia rejuvenescer.
            Mas naquele dia, já tão avançado em sua idade, ele não queria rejuvenescer apenas por lembrar, não queria rejuvenescer apenas sua alma: precisava algo mais, ver com seus próprios olhos e caminhar descalço por aquelas ruas tão suas conhecidas. Ele precisava se sentir novamente o menino que fora um dia.
            Sentia-se e estava ficando velho, e só fechar os olhos e lembrar-se dos momentos tão felizes que vivera já não eram tão claros, e ele, aos poucos, começava a se esquecer daquilo que o mantivera tão vivo durante tanto tempo. A memória já não era a mesma, já não tinha a mesma clareza e força, e ele sentia as boas lembranças escoarem por entre seus dedos juntamente com sua vida. Por isso pedira ao seu filho mais velho que o levasse à sua antiga casa, para visitar seu antigo bairro.
            No carro, no trajeto, o velho homem olhava pela janela, mas nada via da paisagem que passava velozmente. Seu pensamento vagava livremente sem se deter em nenhum lugar, em nenhuma lembrança. O filho havia percebido a melancolia do pai e a todo instante tentava fazê-lo falar algo, mas ele a medida que se aproximava de sua antiga casa, mais e mais se refugiava em seu silêncio.
            Longas avenidas que cortavam a cidade de ponta a ponta acabaram por levá-los, pai e filho, aquela região distante, desconhecida para um, enquanto para o outro só era conhecido através de vagas lembranças.
            O velho homem, agora com a atenção voltada para o que via ao seu redor, olhava de um lado para o outro, tentado reconhecer algum ponto que remetesse ao velho bairro onde vivera, mas por mais que olhasse, nada reconhecia. Fechava os olhos com força, tentando lembrar, mas quando tornava a abri-los, não reconhecia nada do que via ao seu redor. Não havia mais árvores, não havia mais as ruas de terra, não havia mais campo de futebol algum, por mais que procurasse naquele bairro distante onde haviam parado. Abriram as portas e desceram, pois seria mais fácil encontrar aquela antiga casa caminhando pelas ruas do bairro e perguntando as pessoas.
            As ruas estavam cheias, mas não de pessoas, como outrora, mas de carros, que passavam a toda velocidade, e os poucos transeuntes que ousavam caminhar por aquelas ruas, iam tão apressados que sequer percebiam aqueles dois homens, um mais jovem apoiando o outro, que parecia envelhecer décadas a cada passo que dava. O idoso homem retirou os sapatos, na vã tentativa de sentir em seus pés o chão que pisara há tempos, mas tudo o que conseguiu foi machucar os pés nas pedras duras do calçamento. Parou diversas vezes para massagear os pés. Seu filho insistiu para que ele voltasse a calçar os sapatos, mas ele não quis. Caminhava distraído, absorto com tudo que via, tentando reconhecer algo, uma casa que seja, que pudesse lhe servir de algum norte que o guiasse até onde precisavam chegar.
            Pai e filho caminhavam de mãos dadas, mas em papeis trocados, pois era o filho quem tentava, naquele aperto de mão, passar segurança ao pai, ensinando-o onde deveria ir, onde pôr o pé.
            Passaram longas horas caminhando por ruas todas iguais que eram tão diferentes daquelas que o velho homem se lembrava.
            As lembranças que pretendia reavivar ao visitar aquele bairro estavam morrendo lentamente em seu coração. Todos os cantos pelos quais tinha caminhado não mais existiam e as pessoas que em sua inocência imaginava reencontrar não estavam mais ali. Senti-se cada vez mais velho a cada passo que dava. Seus pés pesavam, sua garganta estava seca e se esforçava para não deixar transbordar as lágrimas que começavam a escorrer vindas de sua alma.
            De tanto andar por tantas ruas, seus pés acabaram por levá-los a uma rua que parecia esquecida pelo tempo, localizada no coração do bairro. O velho homem sentiu seu coração disparar quando reconheceu, na esquina, traços de uma casa da qual se lembrava vagamente, que, apesar das inúmeras reformas feitas ao longo dos anos, continuava sendo aquela mesma casa de esquina que ele e seus amigos, quando crianças, costumavam dizer que era mal-assombrada. Ele parou em frente à casa que agora não lhe inspirava mais medo algum. Sabia e sentia que estava chegando perto de sua antiga casa, mas seus pés cada vez pareciam pesar mais e mais.
            Seguiram por aquela rua que parecia abandonada por sua própria alma. O velho homem caminhava devagar, segurando com força a mão do filho e a medida que se aproximava da casa que ficava bem no meio daquela rua seus passos ficavam mais lentos, como se seus pés se negassem a levá-lo até ali, como se quisessem poupá-lo de uma dor ainda maior do que aquela que sentia no peito. Mas ele, apesar das dores e do peso dos pés, continuava caminhando.
            Demoraram uma eternidade para caminhar poucos metros, e quando chegaram a frente daquela casa em ruínas, o velho homem sentiu suas pernas fraquejarem e teve que ser amparado pelo filho. Diante dele estava a casa que ele havia nascido e vivido os melhores momentos de sua vida. Ali não havia pessoas, não havia barulho, não havia gritos e sorrisos, ali havia apenas uma casa velha e em ruínas. Ao ver aquela triste cena diante de seus olhos, os olhos do velho homem não foram fortes o suficiente para conter aquela torrente de lágrimas. As lembranças que a custo recordava, lhe tomaram de assalto repentino ao ver que o local onde todas elas se concentravam não mais existia, tornando-se apenas uma ruína, um reflexo impreciso daquilo que um dia fora.
            Soluços convulsionavam o peito do homem, que agora deixava as lágrimas banharem seu rosto, fazerem seu curso natural sulcando suas rugas e lavarem a sua alma. Quando se sentiu mais aliviado do pranto, olhou para o filho e apertou sua mão.
            - Vamos embora – disse ele e calçou os sapatos. Aquele chão lhe feria os pés.
            Seguiram calados, cada um absorto por seus próprios pensamentos, e o velho homem sentindo um peso no peito por sentir que as lembranças que por tanto tempo cultivadas, aquelas lembranças que o faziam rejuvenescer estavam morrendo, pois os locais onde nasceram não mais existiam e só habitavam nos confins de sua memória, cada vez mais difíceis de serem resgatadas.

domingo, 4 de novembro de 2012

Doces lembranças, dura realidade



Após tantos e tão longos anos, voltei. Mas tal foi a minha surpresa ao me deparar com tal cena que se descortinava diante de meus olhos. Deveria ter ficado onde estava, distante, e permanecer com a imagem que guardava em minhas lembranças do que ter diante de mim aquilo que meus olhos viam e que minha razão demorava a crer. Não havia qualquer som, seja de risada, o latido de um cão ou o canto de um pássaro. Nada restava ali. Tudo estava morto. Uma única e doída lágrima me escapou do olhou e escorreu por minha face. Não tentei contê-la, escondê-la ou limpar o rosto, pois aquela era uma lágrima verdadeira, que brotava do fundo de minha alma.
            Andei distraído, contando os passos, revisitando na memória cada um daqueles lugares que não mais existiam. Tudo era desolador e me doía fundo no peito. Em minha ingenuidade, imaginava que aquele lugar ficaria eternamente a me esperar, como um refúgio, onde eu poderia me recolher e voltar a ser o que um dia fui. Mas ao ver aquilo, sentir aquela dor no peito, sentir as lágrimas que brotavam em abundância de minha alma e escorriam pela minha face, percebi que não fui ingênuo, mas sim um tolo ao acreditar naquela fantasia que só existia em minha cabeça, em minhas lembranças, pela qual nutria tanta esperança.
            Senti um frio me percorrer o corpo, apesar do calor que fazia, pois não havia, ali, mais uma única sombra onde pudesse me refugiar. Sentei-me naquele chão duro, tão pouco acolhedor e peguei um punhado de terra e deixei que ela me escorresse por entre os dedos. Não era mais a mesma terra de outros tempos. Olhei para o alto e o vi tão cinza, como tudo ao meu redor, da cor que ia se tingindo, pouco a pouco, a minha alma. Soltei um suspiro fundo e fechei os olhos, com a esperança de que, ao reabri-los, veria tudo diferente, e cheguei a escutar os ecos de outros tempos reverberando nas paredes de minha memória e cheguei até a sorrir. Não queria abrir os olhos nunca mais e sair dali como chegara, com as doces lembranças dos tempos passados que sonhava ainda poder reviver.
            Levantei-me lentamente, ainda com os olhos fechados, apoiando-me no chão com as mãos, pois me sentia fraco. As minhas pernas, que haviam me trazido até ali, haviam perdido as forças e se negavam a me levar embora, como se se negassem a me obedecer, como se desejassem aumentar ainda mais a tortura da dor que sentia naquele momento. Inspirei fundo duas ou três vezes na tentativa de sentir os cheiros que me eram tão familiares, mas o que senti foi o cheiro da poeira que pairava no ar.
            Não queria, mas precisava novamente abrir os olhos, pois necessitava, mais uma vez, me punir pela minha tolice, por ter desejado voltar aquele lugar, para comprovar a minha insensatez ao crer que a infância é eterna, que estará para sempre ali, a nos esperar, para quando quisermos regressar a ela e fugir do mundo, da rotina, do dia-a-dia.
            Como fui ingênuo, como fui tolo. Fui o responsável por destruir parte de mim mesmo, parte do que e de quem eu sou. Se soubesse que iria me sentir como estava me sentindo, jamais teria cogitado a possibilidade de voltar àquele lugar, e o teria deixado guardado para sempre onde ele jamais deveria ter saído: na minha memória. Mas agora é tarde. O estrago já havia sido feito, e só me resta chorar, dar vazão àquelas lágrimas da alma e deixar que elas banhem meu rosto e viver o resto da vida com o remorso por ter destruído uma infância ao querer reviver uma doce infância, mas, em seu lugar, ter me deparado com uma dura realidade...