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terça-feira, 21 de março de 2017

Salvo por São Visa

Ontem eu recebi um sinal vindo do céu.
Estava eu andando pelo shopping quando resolvi ir à livraria (uma livraria que tinha de tudo: games, revistas, material de papelaria, celulares... tinha até livros!). De repente paro em frente à mesa de celulares e comecei a olhar um, olhar outro, analisar um terceiro, pensar na possibilidade de adquirir um quarto, etc. Olhei para o meu celular, que já está cansado após cerca de três anos de uso e comecei a pensar em comprar um novo. Mas dai veio a dúvida "estou realmente precisando e posso comprar um celular novo?". Fui almoçar remoendo a dúvida cruel.
Após o almoço, voltei à livraria e continuei pensando no celular, ainda na dúvida sobre qual comprar, se REALMENTE precisava comprar e SE PODIA comprar.
Mesmo em dúvida sobre a necessidade da aquisição de um celular novo, resolvi me dar ao luxo. Escolhi um modelo deveras interessante, com mil e um recursos (tinha tantos recursos que até fazia e recebia ligações – coisa rara nos celulares de hoje em dia!) e fui ao caixa. Na fila do caixa, ainda estava com dúvida sobre a real necessidade de comprar o celular (o meu Microsoft 535, afinal de contas, ainda não está quebrando o galho?). Quando o caixa me chamou, foi com um peso no coração e na carteira que entreguei ao atendente o pedido de compra.
Na minha cabeça, enquanto ele registrava o pedido, eu rezava, mas sem saber pra nem, se para a compra passar ou não. Quando ele inseriu o cartão na maquineta, eu quase choro, pedindo mais alguns meses para pensar. Enquanto digitava a senha, era com um enorme pesar que eu pressionava as teclas. Quando o caixa olhou pra mim e disse que a compra não tinha sido autorizada, pude, enfim, soltar o ar que estava preso nos pulmões. Expirei aliviado, entendendo e sentindo que o céu tinha me enviado uma mensagem através de seu anjo-demônio São Visa, dizendo para eu não comprar o dito celular.
Enquanto guardava o cartão de meu Santo Salvador na carteira, o cartão do Demônio da Tentação, São Master, que em outros tempos fora um Anjo que acabou caindo nos pecados do capital, começou a me tentar. Mas fui mais forte, não caindo na tentação oferecido pelo Demônio São Master, ouvindo o sábio conselho de meu Santo Protetor.

Sai da loja sem o celular novo, mas feliz por não ter comprado algo sem necessidade, afinal de contas, o meu 535 ainda funciona bem...

sábado, 15 de outubro de 2016

Todo professor é louco!

Todo professor é meio maluco. Meio maluco não, completamente maluco, um ser inteiramente insano, um alguém com parafusos soltos e em falta mesmo. Mas não se trata de uma loucura à toa, mas sim consciente, de um alguém que ouve mais do que outras pessoas, e prova disso é o fato dele ter ouvido um chamado, uma voz que vinha lá de longe, e que ele, mesmo sem distinguir o que dizia, entendeu os sentidos do som e, louco como é, agarrou a profissão e mergulhou nela de corpo e alma.
            A loucura de ser professor é uma coisa que deveria ser estudada seriamente por Freud ou por algum neurocientista, filósofo, psicólogo, sociólogo ou por algum estudioso de uma outra área, pois não existe nada que explique o fato desse maluco querer se dar tanto a uma profissão tão estigmatizada, que tem que conviver com, muitas vezes, tão precária estrutura, tão pouco valorizada pelos poderes públicos, por parte da sociedade e até por (pasmem) gestores da educação. E mesmo sabendo de tudo que lhe espera, o insano, ainda assim, sorri, e vai através de sua vocação, o que só se explicaria através de uma palavra: sádico. Isso mesmo, sádico!
            Todo professor-maluco é meio sádico, pois ele parece encontrar um imenso prazer naquele sofrimento que aquela profissão lhe inflige. Acordar cedo, quando todos em sua casa estão dormindo, para estudar mais um pouco para ministrar uma boa aula; passar finais de semana preparando aula, quando todo mundo saiu para passear, para curtir uma praia ou um cinema; passar noites em claro elaborando prova, corrigindo prova, organizando caderneta... Só sendo um completo sádico em encontrar prazer nisso tudo!
            Mas sabe por que o professor faz isso tudo? Porque ele ama o que faz e faz o que ama.
            Por mais que uma parcela da sociedade diga que ele não vai ser reconhecido, por mais que alguns gestores não façam o menor esforço em valorizar seu trabalho, por mais que o seu salário fique aquém de seu esforço e dedicação, por mais que tenha que sacrificar suas noites de sono, finais de semana e feriados para preparar aula, prova e organizar cadernetas e outras coisas mais inerentes à sua função, ele vai fazer tudo isso com um sorriso no rosto. Sua expressão pode até estar cansada, seu corpo poder até estar exigindo descanso, mas sua alma está leve, seu olhar demonstra determinação e amor por aquilo que faz e seu sorriso estampa a imensa satisfação que tem em poder dizer que é professor, e ele faz isso com imenso orgulho.
            O professor faz isso tudo não necessariamente por que ele escolheu tal profissão, mas por ter sido escolhido por ela, e ele, honrado, atendeu ao chamamento, e ele assim o fez motivado por um imenso amor, por ser um incorrigível idealista, por acreditar, ainda que tudo diga o contrário, que a educação é a chave de tudo, e ele quer ser um instrumento naquele trabalho que é mais do que formar um estudante, que é mais do que passar conteúdo, mas formar o indivíduo, formar o humano.

            O mundo ai fora pode estar louco (vemos loucuras sendo cometidas a torto e a direito a todo instante – loucuras que dão ibope, que, tenho a impressão, são orgulhosamente ostentadas), mas para nos proteger dessa loucura temos super-heróis que, munidos de suas loucuras, abraçaram uma causa e que fazem o possível e o impossível para, de alguma forma, ajudar na remediação, de salvamento do mundo, e para isso eles mergulham fundo e iniciam esse processo lá na base, ainda na infância, ensinando os pequeninos a usar uma arma mais poderosa, não de destruição em massa, mas de salvação individual (quiçá em massa, vá...) chamada Educação.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Voltar a ser menino

Eu queria voltar a ser menino, nem que fosse por cinco minutos em minha vida. Queria simplesmente ser menino, esquecer das coisas facilmente como só os meninos esquecem e manter vivas, na memória, outras. Queria não ter preocupação alguma, responsabilidade com nada, viver só e unicamente para mim, para aquele momento, e só. Queria poder ver a chuva caindo lá fora e não a temer, não me preocupar com ela; simplesmente poder abrir a porta de casa e sair, tomar um bom, revigorante e sempre rejuvenescedor banho de chuva. Eu queria voltar a ser menino para isso tudo, mas também para muito mais.
Queria poder ser livre, rir com um nada, brincar com um tudo, queria simplesmente viver. Queria ficar por uns instantes com a cabeça tão longe, pensando em algo que está tão perto. Queria poder me sentir como um pássaro no alto de uma árvore, colher uma fruta madura direto do pé e sentir o seu sabor doce como a vida. Queria poder brincar com um cachorro, correr atrás dele, depois deixar que ele me perseguisse numa corrida louca e desenfreada pela rua. Queria poder soltar pipa, jogar biloca (também conhecida como “bolinha de gude”), chupar confeito, mascar chiclete e me deliciar com outras tantas guloseimas. Queria poder ficar descalço, jogar futebol na rua, arrebentar-me inteiro numa queda de bicicleta e, quando ouvir minha mãe chamar, gritar um “já vou”.
            Eu queria voltar a ser menino simplesmente para brincar, para correr, para esconder-me e para achar-me, para ser o que eu era, para ser o que sempre fui e que nunca deixarei de ser – simplesmente menino.
            Eu queria voltar a ser menino para brincar na rua, para ter de volta, nem que fosse por um curto instante, medo do escuro à noite, medo dos trovões em noite de tempestade. Queria poder acordar de madrugada nessas noites escuras, frias e chuvosas e ir bater à porta do quarto de meus pais e pedir para dormir naquela cama enorme, entre meu pai e minha mãe, debaixo daquele cobertor, que estava sempre quentinho.
            Eu queria voltar a ser menino para, ao fechar os olhos, não pensar em nada, e ter, simplesmente, uma boa e longa noite de um sono reparador, que me deixaria pronto para o dia seguinte repleto de coisas novas, de novas, velhas e conhecidas brincadeiras.

            Eu não quero, não posso, nunca em minha vida, deixar de ser menino, porque deixar de ser menino é esquecer todos os maravilhosos momentos que vivi, que não voltarão nunca mais, que vivem eternamente em minha memória e só lá eu posso, sempre, voltar a ser o que sempre fui: um eterno menino.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Retrospectiva 2015 de leitura

Nunca é fácil olhar para trás e ver todos os livros lidos no ano anterior. Sempre que faço as minhas retrospectivas de leitura, tenho a certeza de que não li o que e quanto deveria, fico com aquela sensação de ter usado erradamente meu tempo ao ler determinado livro que não me proporcionou prazer algum nem me acresceu em absolutamente nada, fico emocionado ao relembrar a história e personagem de tal obra que me marcou profundamente...
            No geral, infelizmente 2015 não foi um ano tão proveitoso no que tange às leituras como anos anteriores. Muitas coisas interferiram, entre elas a mal escolha, em dados momentos, dos livros , o que me gerou maior lentidão na leitura, uma vez que as leituras não estavam sendo tão empolgantes e prazerosas quanto eu esperava e precisava, e por conta de trabalho, estudos e um monte de outros fatores extra-leitura. Mas mesmo assim, foram, aos trancos e barrancos, 43 livros, no entanto, 1 foi abandonado (porque tive que devolver – tratava-se de um livro que havia pego emprestado) e 3 lidos parcialmente (a maior parte – diga-se de passagem), tendo iniciado o meu 2015 com a leitura de Vida e Destino, de Vassili Grossman, obra muitíssimo interessante sob o prisma histórico, mas que no que tange a literatura se mostrou um tanto quanto “não das melhores”, e finalizou com Meio Sol Amarelo, de Chimamanda Ngozi Adichie, o melhor livro de literatura africana que já li em minha vida, uma grantíssima surpresa que me foi reservada justamente para o “apagar das luzes” do meu ano de leitura.
            No que se refere aos melhores livros, nunca um ano de leituras foi tão difícil de definir aquele que rotulo como “o melhor do ano”. Além do Meio Sol Amarelo, obra que não canso de recomendar, elogiar e recomendar a leitura, destaco também No silêncio entre dois suspiros, de Ayad Akhtar, além dos clássicos que me deixaram em êxtase, O Quinze, de Rachel de Queiroz, do poderosíssimo Carta ao Pai, de Kafka, dos gregos Antígona, de Sófocles, Hipólito, de Eurípides, e do estupendo e divertidíssimo Lisístrata, de Aristófanes, e seguindo no mesmo gênero do teatro, destaco também o Fedra, do francês Racine, fora o filosófico e extraordinário O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse. No outro extremo, destaco entre meus piores livros do ano, que me decepcionaram enormemente, que não recomendo a ninguém, estão A Última Imperatriz, de Da Chen (o mesmo autor de A Montanha e o Rio) e A Fazenda, de Tom Rob Smith, além do vencedor do Nobel de Literatura Patrick Modiano com o livro Remissão da Pena, livro que não empolga, que não tem um personagem cativante, que não tem uma narrativa que prenda, enfim, que não tem graça e que não me proporcionou em momento algum um momento de prazer e deleite literário, e do famigerado Ateneu, de Raul Pompéia, que foi uma leitura arrastada, chata e cansativa.
            Entre tantos livros, em 2015 fui da leitura de tirinhas de Snoopy e Calvin & Haroldo, que adoro, passando por Hamlet e por obras de Machado de Assis, tanto em sua face romântica com Helena quanto numa fase mais adiantada, com O Alienista, visitando os russos com Gogól com a novela A Briga dos dois Ivans, Maiakovski com  Percevejo, Dostoievski com Bobók e No Campo de Honra do Isaac Bábel. Li também obras de cunho histórico como o indispensável História Concisa da Rússia, de Paul Bushkovitch; obras de cunho teórico-crítico-literário, como livros de Harold Bloom e Massaud Moisés. Fora esses, ainda arranjei tempo para ler John Boyne, O ladrão do Tempo e A Casa Assombrada, para conhecer Lima Barreto com Triste Fim de Policarpo Quaresma; e meu primeiro Simenon, com Maigret e a Mulher do Ladrão.

            Pois é, apesar de não ter sido um ano tão recheado como anos anteriores, foi, no fim das contas, um bom ano de leitura, com uma boa multiplicidade de obras nas quais mergulhei e das quais extrai muita coisa boa, desde o simples grego antigo da Era de Ouro do teatro aos complexo Calvin, Charlie Brown e Snoopy.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Dez anos de livraria e uma certeza: não sou um bom vendedor

Nunca fui um bom vendedor. Estranho essa certeza ter me vindo à mente justamente agora, quando estou prestes a completar 10 anos de livraria (é, amigos... o tempo voa, e como voa...). Talvez Rose, tendo descoberto isso num piscar de olhos há dez anos o que eu só vim a descobrir agora, não me contratou para trabalhar com vendas, vaga que eu pleiteava, mas sim para atuar “na retaguarda da livraria”, em seu estoque, onde eu teria mais contato com os livros que estavam chegando diariamente à nossa loja. Mas eu sou teimoso e todo santo dia exigia o máximo de minha eficiência dentro do estoque para acabar com minhas obrigações só para poder ficar umas horinhas ou míseros minutinhos no salão da livraria só para poder experimentar a adrenalina e desafio do que é ser vendedor.
            Rose, com sua sensibilidade, percebeu que eu não levava jeito para vendas, mas sim para um trato e uma relação diferenciada com o livro, e, por isso mesmo, resolveu me promover antes do término de meu contrato de experiência. Foi aquele primeiro sábado, 2 de julho de 2005, um dos dias mais felizes de minha vida. Eu corria de um lado pro outro pela livraria, atendendo um leitor e outro, orientando, ajudando, localizando livros, fazendo indicações de leitura e, o mais curioso de tudo, apesar de, naquele dia, ter alcançado um record em valores de venda, não vendi, no sentido restrito da palavra, um único livro. Eu fiz e continuei fazendo muito mais do que vender livros nos dias, semanas, meses e anos que se seguiram.
            Cheguei, na metade dessa longa-curta empreitada de dez anos, a marcas expressivas, como, por exemplo, ao número de R$1.000.000,00 em vendas de livros, no início de 2009, o que me rendeu um bom prêmio, placa e homenagens, e não vou dizer que nunca tenha atuado como vendedor, pois atuei, sim, mas me orgulho de dizer que foram raros esses momentos e que tenho, hoje, plena consciência de que atuar diretamente com vendas não é o meu forte. Sempre bati as metas propostas sem precisar, nunca, me desesperar, correndo atrás de clientes, mesmo porque, eu nunca fui de ter clientes, mas sim amigos leitores, pessoas com quem troco experiências e impressões de leitura.
            Nesses dez anos eu já fiz muitos amigos, e um orgulho que tenho é que não fiz inimizades (tudo bem que há uma pessoa ou outra que entrou – e que entra – na livraria e não foi – não vai – com a minha cara; tudo bem que me dei e me dou melhor com uma pessoa do que com outra, mas inimizade mesmo, não fiz, assim como não sou de fazer em lugar algum), prova disso é a boa relação que cultivo diariamente com todas as pessoas com quem convivi e convivo diariamente. Posso até não falar diariamente com todo mundo, pode até fazer um considerável tempo que não dou um “oi” para um ou outro, mas que, mesmo com as não-palavras-ditas, sei que a amizade continua intacta. Meu respeito e admiração por Andreza continua intacto e cresce mais e mais a cada dia, as boas lembranças dos tempos do convívio diário com Alessandra continuam em mente, a saudade dos papos-cabeça com Ivson por vezes aperta, o carinho e o respeito por Alessandro e Leonardo nem se fala... Foram e são tantas as pessoas com quem tive a imensa honra e privilégio de conviver nesses dez anos que é impossível citar todas num único texto, mas, mesmo não verbalizando seus nomes, todas são lembradas diariamente por mim ao sair de casa todo santo dia para mais uma jornada de trabalho. O que falar da admiração que tenho por Marcony, que, se eu me orgulho por estar para completar dez anos, o que dirá e sentirá ele, que já tem quase a minha idade só em tempo de estrada? O que falar da relação de cooperação contínua e respeito construída diariamente com Adriano? O que falar da amizade e respeito que nutro por Elinaldo, Luíza e Laiz? É, amigos... foram e são muitos amigos que a vida e o trabalho me deu nesses dez anos de labuta diária...
            Foram inúmeros os supervisores e gerentes nesse meio tempo, desde Vilma e Teresa, lá atrás, nos tempos de Siciliano, até hoje, já na família Saraiva, trabalhando com Stela. Mas sabe o que é mais legal nisso tudo, de minha relação com meus superiores? Eles não são e nunca foram superiores, gerentes, supervisores, líderes (essas nomenclaturas são somente cargos, são somente nomes que constam nas carteiras de trabalho deles), mas sim iguais, em trabalho, cargo, brigas, desentendimentos e muitos entendimentos. Tudo bem que nem sempre estive nem estou de acordo com uma postura frente a determinada situação e por vezes até discuto, com o devido respeito, com aquele a quem devo me relatar, mas essas rusgas nunca atrapalharam nem vão atrapalhar a excelente relação que construí e construo com cada um.
            Mas sabem o que me fez colocar em retrospecto isso tudo, sabe o que fez essas memórias me tomarem subitamente de supetão? A sólida e inigualável relação que construí com as dezenas, centenas, quiçá milhares de pessoas ao longo desses dez anos. Nunca pautamos a nossa relação baseada no preceito vendedor-cliente, mesmo porque, como já disse, não sou um bom vendedor, e se dependesse de meus dotes profissionais como tal para fazer amizade, iria morrer na solidão, mas sim na relação entre amigos, entre duas pessoas que amam o mesmo ser-elemento vivo: o livro. E aqui, mais uma vez, fico com uma imensa dor no peito e consciência por não poder citar todos, pois são MUITOS, podem ter certeza, e peço uma Odisseia de desculpas a cada um, dando-lhes a certeza de que, mesmo sem falar seus nomes, lembro de cada um.
            É impossível, sempre, para mim, falar nesses meus dez anos de livraria sem lembrar e falar nos nomes do compulsivo-por-livro Rômulo, sempre exalando tranquilidade e simpatia; do sempre sensato e elegante em seus comentários e opiniões Adauto, do casal que eu muito admiro Marcos-Karina, do pai-filha Honório-Bárbara; da plural e com muito bom gosto, sempre, em tudo, Nicolle; da meio-tímida Val, sempre a procurar e pedir, desejosa de uma indicação de uma leitura que a surpreenda; de Lorenna, que todo mês diz que não vai, que não pode comprar livros, mesmo com seu Vale Cultura, mas nunca consegue resistir ao pôr os pés na livraria. O que posso falar de Adriana, que é, mais do que uma mulher, um Ser Humano extraordinário? Maria do Carmo, Célia, Neusa e Ariette são pessoas a quem muito admiro e respeito mais do que consigo expressar; Dilermando, Maurício e José Brandão, eu não saberia nem o que falar; Joenilson, o maior francófilo do mundo, eu não consigo mais conceber qualquer pensamento sobre a França sem que a sua figura me venha à mente; Monique, Elisabeth, Henrique, Pedro, Leopoldo, Virgínia, Sesiberg, Hérica, Ronaldo, Alberto, Marcello, Ammer, vigi... e por aí vai a enorme lista de amigos que a vida-trabalho-livraria me deu nesses dez anos. Tem também, além desses todos, aqueles que eu nunca sei ou lembro do nome, como aquele senhorzinho que vai duas vezes por mês à livraria para comprar livros para sua esposa, e sempre me pede uma indicação, e eu sempre acerto em cheio, mesmo sem nunca ter trocado uma única palavra com ela! Tem aquela mulher elegante, que mora na Inglaterra, que vem ao Brasil uma vez por ano e, sempre que pode, passa na livraria para pegar, comigo, uma lista de indicações de leituras para fazer ao longo do ano seguinte; tem aquela senhora, juíza, que ama literatura russa, que me confidenciou certa vez que não vê a hora de largar os excessos de formalidades e obrigações que a sua profissão lhe impõe para poder se dedicar ao fantástico universo da literatura; tem aquele senhor que foi médico legista durante décadas, mas que hoje, aposentado, resolveu cuidar só e exclusivamente de orquídeas e ler, ler e ler.

            É, amigos, dez anos não é pouco tempo, não, e são muitas pessoas que eu tive o privilégio de conhecer e estar construindo, sempre, uma sólida amizade, e prova disso é ver a agenda de meu celular, repleta de tantos nomes de pessoas da livraria, e isso só foi/é possível pelo fato de eu ser um não-bom-vendedor, mas sim um amante confesso da literatura e um orgulhoso livreiro de ter trilhando e estar trilhando um longo-curto caminho.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Retrospectiva 2014 de leitura

Nunca um ano foi tão recheado de leituras de tão variados gêneros quanto o foi o de 2014 para mim. Para constatar este fato, bastou eu dar uma olhada para os livros que iniciei e o com qual finalizei o meu ano de leitura: Oblomóv, de Ivan Goncharov (como virou tradição minha, abrindo o ano de leituras com um grande clássico da literatura mundial) e Calvin & Haroldo – criaturas bizarras de outro planeta!, respectivamente. Entre um e outro, li clássicos da literatura mundial, best-sellers, quadrinhos, livros de filosofia, de crítica literária, de teoria literária, de história da literatura, etc. Li russos, brasileiros, japoneses, norte-americanos, gregos, contemporâneos e clássicos. Com uns, eu me identifiquei enormemente, devorando-os, saboreando palavra por palavra, mas também de decepcionei. Descobri obras extraordinárias, que eu me pergunto até hoje como pude não tê-las lido antes, e outras eu poderia ter ficado sem ler...
            Foram, no total, neste ano de 2014, 46 livros lidos, sendo que destes, um foi uma releitura, As Vinhas da Ira, de John Steinbeck, o meu livro e meu autor favorito da literatura norte-americana. Desfrutei e aprendi muito lendo filosofia, crítica e teoria literária, e dos livros desses gêneros, o que mais mexeu comigo, o que me foi mais impactante foi o Sobre o ofício do escritor, de Schopenhauer. Livro curtinho, que “dá para ser lido de um fôlego só”, como se diz popularmente, mas trata-se de uma obra tão crítica, tão pesada, tão edificante e reflexiva, que eu passei semanas para finalizá-lo. Outro gênero de leitura que muito contribuiu para a minha formação, que muito me fez refletir, e que de quebra me arrancou gargalhadas, foram os quadrinhos, com destaque para os três de Calvin & Haroldo que li ao longo do ano, mas não foram só quadrinhos engraçados e lúdicos que li neste ano. Li também a versão adaptada de Guerra e Paz, do qual não gostei nenhum pouco (está uma adaptação muito fraca, completamente superficial), e Sandman – os caçadores de sonhos, do Neil Gaiman, que é uma das mais delicadas e belas histórias de amor que já li em minha vida.
            Ponto negativo está no fato de eu nunca ter finalizado um ano me sentindo tão frustrado. Não falo da quantidade de livros lidos (um pouco abaixo dos anos anteriores), mas dos livros que não consegui ler por motivos diversos (entre eles, o maior é a falta de tempo). Foram tantos os livros não lidos que ficaria impossível listar todos, mas não poderia deixar de citar O ladrão do tempo, do John Boyne, os dois últimos da Jody Picoult, O Homem que amava os cachorros (que prometi para mim mesmo, e para a minha amiga Nicolle, que seria o segundo livro a ser lido em 2015), No silêncio entre dois suspiros, Doutor Sono, os novos livros de Amos Oz e de Ian McEwan, etc., etc. e etc.
            Outro fator que me chamou a atenção (que não sei se é algo positivo ou não) é o fato de, em 2014, eu não ter tido uma “unanimidade” de melhor livro do ano. Se em 2013 eu tive O Arroz de Palma a receber os louros de “melhor livro”, em 2014 eu não tive, em minhas leituras, uma obra que tenha se destacado tanto assim. Li o segundo livro do autor, Doce Gabito, que é MUITO BOM, em busca daquele que seria “o livro do ano”, e o livro é, na minha opinião, mais maduro do que o anterior, que tem um andamento narrativo mais bem definido, com mais personagens mais bem desenvolvidos, mas que não é tão surpreendente quanto O Arroz... e acabou ficando o Gabito entre os cinco melhores livros de 2014, mas o pódio ficou com O Melhor do Teatro Grego, publicação da editora Jorge Zahar que consiste numa reunião de quatro peças significativas do teatro grego; Marcoré, de Antônio Olavo Pereira, obra de literatura nacional extraordinária; e Sobre o ofício do escritor, de Schopenhauer. Para fechar o meu “top 5” de 2014, ocupou o lugar o livro O último dia de um condenado, de Victor Hugo. Merecem menção os livros Misery, de Stephen King, que é fodástico (fico me perguntando como pode um escritor prender e deixar o leitor tão tenso numa história que contém basicamente DOIS personagens e UM cenário!), o A Estrela de Prata, de Jeannette Walls, os dois de Sue Monk Kidd e o magnificamente bem escrito, reflexivo, poético e melancólico Quarto de Hotel, de meu grande amigo Adauto Carvalho.
            Li alguns livros bons, mas dos quais esperava bem mais, com destaque para Os Demônios, de Dostoievski, que, dos romances do escritor russo que eu li, foi o menos empolgante e intenso e Vinte mil léguas Submarinas, que é muito extenso e cansativo, repleto de detalhes e descrições que atestam a genialidade e conhecimento técnico do escritor, mas que, como foi o caso de excesso, acabou “travando a leitura”. Outros livros, de outros gêneros, me fizeram “salivar” quando li as sinopses e comentários, mas que me deixaram um tanto quanto decepcionados quando (e enquanto) os li, como O Fio da vida, que tem um início esplendoroso, mas que se perde um pouco, que passa a “desempolgar” da  metade para o fim, O trem dos órfãos, que tem duas personagens interessantes, com boas histórias, mas que poderiam ter se cruzado (as histórias), o que acaba não acontecendo, o Constelação de fenômenos vitais, e o Flor Negra, que tem um pano de fundo histórico interessante, mas como literatura, deixou um pouco a desejar. Mas estas “decepções” fazem parte de nossa vida como leitores. Por vezes o problema é o momento, que não é propício para a leitura daquele livro em específico, e em outras ocasiões é a expectativa que depositamos naquele livro...
            Este ano, se eu fosse defini-lo em uma palavra, eu o faria com a palavra Grego. Isso mesmo: grego! Foi 2014 o ano da leitura dos gregos para mim, como outros anos foram o ano dos russos, o ano dos franceses, o ano dos brasileiros. Li, além das tragédias (de Ésquilo, Sófocles, Eurípides e Aristófanes), o Fábulas, de Esopo, e o Poética, de Aristófanes, livros que me fizeram perceber ainda mais o quão somos filhos e herdeiros dos gregos, o quanto aquela civilização lançou bases para a nossa filosofia, cultura, literatura e pensamento e o quanto continuam atuais.
            Foi, também, 2014, um ano em dediquei um especial espaço de meu tempo para as leitura de ordem técnica e acadêmica. Além dos já mencionados Schopenhauer e Aristóteles, li Bakhtin, Auerbach, Alfredo Bosi, Tânia Carvalhal e Douglas Tufano.

            O que me aguarda o ano de leitura de 2015 eu nada além do fato de se iniciar no dia 1º de janeiro, com a leitura de um grande clássico da literatura mundial, um russo, pra variar, e se encerrará em 31 de dezembro, com algum livro ou autor especial (para “fechar o ano com chave de ouro”). Mas de uma coisa eu tenho certeza: independente de quantos forem os livros, serão edificantes e eu os saborearei palavra por palavra de suas histórias, me identificarei com seus personagens e perderei noites de sono (seja dormindo mais tarde ou acordando mais cedo) de tão instigado que ficarei com as histórias.

domingo, 16 de novembro de 2014

Escrevezinhar

Escrever é como cozinhar: envolve todo um longo processo, que executamos com imenso carinho, que vai desde a escolha do prato a ser preparado, escolha dos ingrediente ao paciente preparo e arranjo do prato para que seja melhor apreciado e degustado.
            O escritor, assim como o cozinheiro, precisa escolher bem o prato de acordo com a situação e os convidados que vai receber, se bem que de vez em quando, é bem verdade, surgem imprevistos, e é necessário se agir rápido, sem pensar muito. Às vezes o cozinheiro, assim como o escritor, não está muito inspirado, mas cozinhar, assim como escrever, se faz necessário, e ele prepara algo simples, como um feijão com arroz e bife, que vai saciar a fome imediata, mas vai, ao mesmo tempo, deixar nele a impressão de que poderia ter feito algo diferente, algo mais, como ter dado ao texto-prato um toque diferente, como ter posto um tempero capaz de surpreender os degustadores.
            O cozinheiro, assim como o escritor, escolhe bem os ingredientes necessários à preparação do prato-texto. Apalpa, sente a textura, cheira, vê se estão maduros, se estão “no ponto” para o preparo, coloca-os cuidadosamente na sua cestinha de supermercado, depois os passa no caixa e os organiza cuidadosamente numa sacola. Já em casa, quando vai iniciar o preparo do texto-prato, retira, um a um, os ingredientes, na ordem que vai utilizá-los. Descasca cuidadosamente os vegetais-palavras, corta com precisão as carnes, dando ponto finais às frases e vai vendo, pouco a pouco, o seu prato, mesmo ainda cru, tomar forma.
            O escritor, assim como o cozinheiro, não pode ter pressa no cozer de seu prato-texto. Não adianta querer acelerar ou atrasar a comida-texto. Se ele deixar passar do ponto, corre-se o risco do texto queimar, e se o retirar antes da hora, o texto não vai ter apurado devidamente os sabores dos condimentos e corre-se o risco, até, de, na pressa, o ter retirado ainda cru. Há textos-pratos que podem demorar até meses para serem preparados, pois, por vezes, falta um ingrediente específico que só pode ser colhido/encontrado em determinada época do ano e em determinado local. O cozinheiro, assim como o escritor, fica no dilema de seguir ou não no preparo do prato-texto, mas sabendo que ele, quando pronto, valerá a pena, opta por esperar, e enquanto o ingrediente que dará o sabor ao texto-prato não vem, ele seguirá preparando aperitivos, deixando os seus convivas entretidos a saborear pratos diversos, até que Voilà! surge ele, passando pelas portas da cozinha, equilibrando nas mãos uma travessa com tão belo e apetitoso prato, e os convivas, ao verem o esmero com que foi preparado, têm a certeza de que valeu a pena cada segundo daquela espera.
            O cozinheiro, assim como o escritor, é um ansioso, e olha com especial atenção as feições daqueles que provam seu texto-prato, analisando cada reação, de aprovação (ou não!), e só consegue soltar o ar de seus pulmões quando o outro, depois de mastigada a primeira garfada, exprime, com sinceridade, a sua opinião sobre o prato-texto. Se aprovada a comida-história, o escritor-cozinheiro, respira aliviado, satisfeito, mas se não, fica a rememorar cada passo dado no preparo, fica a se perguntar se usou os ingredientes na medida certa, fica sem saber se faltou uma pitada de sal, deixando o texto insosso, ou se colocou uma palavra a mais, fazendo com que o prato tenha passado do ponto, ficando salgado.
            O escritor, assim como o cozinheiro, é um solitário nato. Por vezes até tem uns alguéns por perto, opinando de que deveria escrever sobre isso, preparar um assado de tal maneira, explorar melhor esse personagem, deixar mais tempo a comida no fogo a fim de melhorar apurar os temperos, e essas ajudas são bem-vindas, sim, por mais que ele, por vezes, diga tê-las rejeitado, mas ele se sente, realmente, bem, quando sozinho, quando se sente rei do reino da cozinha ou de seu escritório, onde reina soberano, estando de posse de sua coroa e cetro, papel e caneta ou panelas e facas.

            Ambos, cozinheiro e escritor, são artistas. Um, prepara pratos finos para saciar a fome do corpo do homem, o outro, lapida palavras e as prepara num texto coeso e saboroso para saciar seu intelecto. São ambas as artes quedas quais o homem precisa para sobreviver, mas que precisa aprender a melhor apreciar, comendo devagar, garfada por garfada, lendo devagar, palavra por palavra.

domingo, 28 de setembro de 2014

Mea culpa

Ninguém mais precisa procurar pelo culpado por tudo, por todas as “desgraças” que estão acontecendo em nosso país: eu sou o culpado.
            Eu sou o grande culpado por toda essa corja de políticos que está aí no poder, pelas pessoas a quem dei o cargo, a quem escolhi para me representar no dia da eleição, por todos esses que ao invés de política se entregaram ao vício e práticas da politicagem. Eu sou o grande culpado, portanto, por toda a desgraça que a política nacional tem causado. Sou o único culpado por escolher pessoas que vão ocupar os cargos para defender os meus interesses, particulares, de minha classe, ao invés de pensar em defender os interesses da nação, de todas as pessoas.
            Sou o único culpado pela inatividade, pela passividade perante tudo que acontece. Poderia e deveria lutar mais, ter feito mais barulho, me fazer entender, gritar mesmo, mas, ao invés disso, preferi/ optei, pelo conforto e a paz de meu lar, e fingir que tudo que está acontecendo não me diz respeito. Se estoura mais um escândalo de corrupção, finjo indignação quando estou com amigos e até sinto certa ojeriza ao meu país quando assisto a um noticiário ou leio notícias dessa ordem num jornal qualquer, mas é um sentimento de repulsa passageiro, e logo estou agindo como se tudo aquilo não fosse comigo. Vejo noticia após notícia em telejornais, de escândalos após escândalos de corrupção, de mil e uma CPIs, das práticas políticas (ou, melhor dizendo, das politicagens) tão comuns, e a única coisa que penso é “mais uma” e “não vai acontecer nada de mais com nenhum dos envolvidos”, e pronto. Minha única ação é desligar a televisão ou mudar de canal, ou fechar a revista ou o jornal.
            Sou eu quem coloca os Renans Calheiros, os Bossonaros, os Dirceus, os Jenuinos e os Felicianos da vida onde eles estão, sou eu quem lhes dá amplos poderes.
            Sou eu o responsável por tantas leis defasadas, pela justiça injusta, por deixar que tanta coisa aconteça tanto “a torto e a direito”, só e unicamente por que “não estou nem aí”, porque não me preocupo, porque não fiscalizo. Sou eu aquele que não mais se choca com as injustiças...
            E eu sou culpado não só por isso, pelo que está acontecendo com o país; sou o verdadeiro e único culpado, também, por todas e tantas as miudezas que causam mal a tanta gente e as quais ninguém se dá conta.
            Sou o culpado pela televisão que temos, pelos BBBs de número intergaláctico que ainda estão por vir, só e unicamente por que eu lhes dou audiência, apesar de reclamar, reclamar e reclamar. Tais reclamações, confesso, são da boca pra fora, apenas. Quando estou só, em casa, quando ninguém mais vê, ligo a TV e coloco no canal a que tanto critico, acreditando que só nele eu vou estar bem informado, acreditando que ele é o detentor da única e universal verdade, que ele é o imparcial, que retrata os fatos tal como eles são, que ele só mostra o que me imprescindível, e se não é noticiado algo de que todos falam, algo que é importante, significa que é importante para um alguém, que não é importante para mim e não me diz respeito.
            Sou o culpado pela sujeira na rua, no bairro e na cidade, pois sou eu quem não joga o lixo no lixo, quem joga o papel quando ninguém está olhando na lixeira, quem joga o lixo pela janela do carro no meio da rua. E ainda tenho o descaramento de reclamar, para todo mundo ouvir, da sujeira!
            Sou eu quem não fiscaliza, quem “deixa pra lá”, que digo que aquilo não me diz importância, embora saiba, em meu íntimo, que aquilo, sim, é de meu interesse, que se eu ‘deixar pra lá” agora, depois não vou estar aqui, e o problema já não irá mais me afetar, já não mais “me dirá respeito”.
            Sou eu o grande e único responsável por toda essa baixeza que vemos na televisão e ouvimos nas rádios, pois sou eu quem lhes dá a audiência.
            Sou eu aquele que se julga “o puro”, “o incorruptível”, “o de consciência limpa”, sendo o primeiro a tentar proveito de algo, a oferecer “um trocado” para um guarda de trânsito para que ele não me multe, sou o que fura a fila, quem não respeita as leis.
            Sou eu aquele típico brasileiro, aquele que acredita e cuja lei universal é a do “jeitinho”.
            E sou eu, principalmente, aquele que está perpetuando tudo isso, quem está espalhando o mau exemplo, quem está deixando todo esse legado, toda essa herança maldita para as gerações vindouras, para que elas vivam nesse mesmo país que eu vivo, para que esse país viva sempre a se iludir naquele jargão de “Brasil, o país do futuro”, mas de um futuro nunca irá se tornar presente.
            Eu sou o culpado, e torno aqui, pública, a minha culpa. Não procurem mais por ninguém, não apontem mais seus dedos para ninguém, pois aqui estou eu, de consciência limpa, ao menos uma vez na vida, tirando um peso das costas, da consciência, ao me entregar para ser julgado, condenado e para cumprir minha pena, só e unicamente por ser o responsável por toda uma série de desgraças que têm acontecido no país e na sociedade.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Irmão-mais-velho


Há uma época de nossa vida em que achamos o nosso irmão-mais-velho a pessoa mais chata do mundo! Isso tudo por que, só por ser ele o mais-velho, e nós, o mais-novo, recebe a incumbência de ficar de olho em nós, coitados, quando os olhos de nossos pais não estão presentes. Ele, chato como é, na nossa concepção da época, assume tal tarefa com uma rigidez militar, e toma conta mesmo, vigia cada um de nossos passos para que, quando damos um passo em falso (que em nossa opinião da época não foi em “tão falso assim!”), ele vá imediatamente falar para nosso pai (ou mãe) que fizemos algo de errado, se fomos onde não deveríamos ir, se falamos o que não deveríamos falar, se começamos a implicar com determinado amigo ou mesmo que nos metemos numa pequena confusão ou briga-de-menino. Quando isso acontece, que ele nos dedura, lançamos, em sua direção, um olhar psicopata-assassino que ele entende e nos devolve com um do tipo “eu bem que avisei (e avisou mesmo) que você não deveria fazer isso”, ou um do tipo “estou responsável por você, portanto, não crie banque o menino-teimoso e não faça nada de errado”. E o pior é quando não corre para falar aos nossos pais de nosso “deslize”, mas resolve, ele mesmo, nos chamar a atenção e nos pôr para dentro de casa. Nessas circunstâncias, mesmo a contragosto, mesmo desejando jogar-lhe na cara um “você não é meu pai e não manda em mim!”, “abaixamos a crista” e obedecemos não a sua ordem, mas o seu conselho, mesmo assim.
            O tempo passa, e nós, os mais-novos, já sendo adolescentes, mesmo com todo aquele espírito de rebeldia e de natural desejo-de-independência, começamos a mudar a opinião sobre o irmão-mais-velho. Ele não é mais o chato de outra época, de alguns anos atrás, mas, ainda assim, nós ainda insistimos, só para nós mesmos, em rotulá-lo, injustamente, como tal. Ele não é mais o vigilante, o que vai nos enredar aos nossos pais, o que vai nos dizer que é hora de entrar ou que não devemos fazer isso ou aquilo, mesmo porque, nessa época, nós mesmos já sabemos distinguir (na nossa opinião) o que é certo e o que é o errado, mas, mesmo assim, continua a nos observar atentamente, dessa vez com um olhar mais brando, não militar como de outrora, mas com um olhar de cuidadoso observador. Fingimos, por vezes, que não, mas lhe damos ouvidos quando ele, tomando o seu lugar e a responsabilidade de direito, vem nos dirigir uma palavra, um conselho de um alguém já amadurecido, calejado pela vida, que só quer o nosso bem, que quer nos guiar pelo caminho certo. Nós, rebeldes, por vezes, como somos, só de pirraça, fazemos questão de mostrar que faremos as coisas de nosso jeito, mas que, tão logo ele vira a cara, desapontado por nós “não lhe termos dado ouvidos”, que não está mais olhando (só para não lhe dar o gostinho!), nos pomos no mais completo silêncio e a pensar em cada palavra dele, e vemos que ele tem razão, e resolvemos seguir passo a passo o que e como ele aconselhou a fazermos.
            Na idade adulta, já com todo o peso, responsabilidade, amadurecimento e justiça que tal idade traz, ao olhar para trás, que revemos e revivemos cada momento, cada lembrança que temos de nosso irmão-mais-velho, percebemos o quão injusto fomos com ele no passado, principalmente na infância. Notamos que, olhando para dentro de nós, temos mais dele do que ele jamais imaginaria. Guardamos bem mais doces lembranças dele do que lembranças chatas.
            Lembramos da felicidade que era o dia em que ele resolvia limpar suas coisas, que ia rever o que não mais queria, e que nos dava aquele objeto-de-desejo que era determinada coisa que olhávamos com olhos tão cobiçosos por tanto tempo, e quando recebemos tão presente, o pegamos nas mãos como se fosse uma o mais precioso e delicado cristal do mundo e passamos dias sem fim sem larga-lo. Lembramos com especial prazer dos brinquedos dele, que ele cuidou com tanto zelo durante tantos anos, e do júbilo que foi o dia em que os recebemos como herança que ele nos lega, em que, mentalmente, juramos fazer por onde tê-los merecido por herdá-los, que juramos zelar por eles da mesma forma que ele zelou para que a próxima geração possa ter o prazer de brincar com aqueles brinquedos que são tão preciosos e cheios de histórias. Ficamos com o coração despedaçado quando vemos a geração seguinte (normalmente os primeiro sobrinho) destruir os brinquedos que duraram tantos anos, que passaram tantos anos para chegar até eles, serem destruídos assim, em fração de segundos. Ficamos com vontade de esganá-los, não por ele ter destruído um brinquedo que foi nosso, mas por ter acabado com algo que foi de nosso irmão-mais-velho.
            O irmão-mais-velho é aquele de quem herdamos as coisas, e não apenas as materiais, como os brinquedos, que foram destruídos pelo primeiro sobrinho, mas as coisas imensuráveis, imateriais. Herdamos gostos, como o pela leitura dos quadrinhos, que começou a ser adquirido quando acompanhamos ele e nosso pai a banca de jornais, e que por ver o patriarca comprando uma revista para o primogênito exigimos o nosso direito de ganhar, também, a nossa, mesmo que a gente não as leia. Mas só em ir, mensalmente, à banca, acabamos por, aos poucos, ir olhando com outros olhos para as revistinhas e começamos a tomar o primeiro gosto pela leitura, seguindo os passos do primogênito.
            Como legítimos herdeiros, herdamos, também, o gosto pela leitura, seguindo os mesmos passos dele, mesmo por que são dele os primeiros livros que pegamos de empréstimo (e alguns a gente até esquece, propositalmente, por vezes, de devolver, torcendo para que ele se esqueça do livro e nós possamos herdar o nosso primeiro livro). Herdamos, também, os gostos pelas músicas sem que a gente perceba. Começamos a gostar das mesmas músicas que ele, a ter os mesmos ídolos, a ter a mesma rilha sonora de nossa vida, mesmo sem saber, ainda, quem são aquelas pessoas que tocam aquelas músicas e quais os nomes dos artistas e das bandas, mesmo sem saber o que quer dizer a letra daquela canção.
            O irmão-mais-velho é aquele alguém que é uma espécie de banco a quem recorremos, principalmente na adolescência, quando ainda não trabalhamos e os vemos, já, ganhar seu próprio dinheiro. Chegamos meio timidamente e pedimos dinheiro emprestado (que nunca pagamos) para ir ao cinema, fazer um lanche ou para sair com a nossa primeira namorada.
            Somos eternamente gratos ao irmão-mais-velho por ter sido ele o que nos levou ao primeiro show, que nos levou para passar o primeiro carnaval longe dos pais, numa casa de praia com um monte de amigos, justamente o mais legal carnaval de nossa vida.
            O irmão-mais-velho é aquele que nos orienta a seguir os passos dele, pois ele já sabe os atalhos e, por querer tanto o nosso bem, nos conduz tão suavemente, nos dando as opções, não nos influenciando, mas nos orientando pelo que ele julga (e sabe) ser o melhor.
            É ele um dos que mais vibra quando passamos no vestibular, que nos ensina onde ir no dia de fazer a matrícula na universidade, que se preocupa em saber se estamos de posse de toda a documentação, que quer saber como foi o primeiro dia de aula, que incentiva na árdua procura pelo primeiro estágio e que liga quando saímos de nossa primeira entrevista de emprego e que vibra e quer comemorar quando conseguimos o primeiro emprego.
            É o irmão-mais-velho aquele que, no dia de nosso aniversário, é dos primeiros a ligar e faz questão de querer sair para almoçar ou jantar fora, para comemorar, afinal de contas, “data tão especial não pode passar em branco”.
            Olhando para trás, vemos que o irmão-mais-velho não é só um irmão, um alguém com quem temos um laço sanguíneo, com quem compartilhamos o mesmo sobrenome e o mesmo quarto durante grande parte de nossa vida, mas um alguém a quem muito respeitamos, amamos. Temos mais em nossa alma do irmão-mais-velho do que nos damos conta e do que ele mesmo é capaz de perceber. O irmão-mais-velho é e significa tudo isso e muito mais. O irmão-mais-velho é um alguém especial, mais-que-único em nossa vida, um alguém que seguimos os passos, a quem queremos ser igual quando crescermos.

sábado, 23 de agosto de 2014

A leitora

Eu sou aquele tipo de pessoa estranha, dessas que ao entrar num ônibus olha os assentos ocupados e vejo todas aquelas pessoas, cada uma ocupada com seus computadores de mão (vulgos smartphones!), jogando algum joguinho sem graça, conversando no WhatsApp ou mandando e recebendo mensagens SMS, entretidos em algum aplicativo baixado na noite anterior ou simplesmente conversando alto e fazendo questão que todo mundo que está no ônibus ouça tudo; vejo, também, pessoas distraídas, ouvindo suas músicas, e algumas até mexendo os dedos ou batendo suavemente o pé na cadência da música; vejo também pessoas distraídas, olhando a paisagem ou pensando em como aquele dia tende a ser longo e cansativo; vez por outra tem aqueles que estão conversando alto e incomodam a metade do ônibus; e de vez em quando antes mesmo ouço antes de ver um daqueles desprezíveis DJs de ônibus, ouvindo suas músicas de qualidade duvidosa e incomodando o ônibus inteiro, e sempre que vejo (digo, ouço) tal ser, minha vontade é de pedir parada e descer imediatamente.
            Pois bem, eu não me enquadro em nenhuma dessas categorias (se bem que de vez em quando eu ouço minha música – com fones de ouvido, óbvio), e ao entrar no ônibus, ao me deparar com tão familiares figuras, busco com os olhos um lugar onde possa me sentar (normalmente à janela, no lado do sol – não me pergunte por que opto por me sentar no lado do sol). Devidamente sentado, sentindo-me confortável (por vezes nem tão confortável assim), abro minha mochila e tiro de dentro dela um objeto estranho, um livro, e ao fazer isso muitas pessoas me olham com certa estranheza, como se eu fosse um ser de outro mundo e portando um objeto deveras perigoso, talvez desconhecido (pelo menos no ambiente de um transporte público coletivo) para a maioria daquelas pessoas.
            Um dia desses tudo me parecia igual a todos os dias. Entrei no ônibus, procurei com os olhos um assento e me dirigi para lá. Infelizmente não era na janela, mas pelo menos era do lado do sol (!). Sentei-me e ao começar a abrir a mochila, olhei para o lado e vi que havia um elemento estranho naquele ônibus, um alguém que havia ocupado o meu lugar de “elemento estranho, extraterrestre, portador de um objeto deveras perigoso e desconhecido”. Eu, como bom curioso, procurei discretamente (se bem que não tão discretamente) averiguar que livro era aquele que aquela moça estava lendo e que a tinha fisgado de tal forma que ela estava profundamente concentrada na leitura. Quase dou um jeito no pescoço para ver a capa daquele livro, que fazia com que a leitura tivesse uma reação diferente a cada virar de página. Quando finalmente consegui ver a capa, já tendo chamado a atenção daquele que estava sentado ao meu lado e de algumas pessoas próximas, que àquela altura devia já ter me julgado um louco, quase me desequilibro ao constatar que a moça lia um de meus livros. Olhei bem para ela, tentando reconhecê-la entre uma daquelas a quem recomendei a leitura na livraria onde trabalho, mas por mais que me esforçasse, não conseguia lembrar de seu rosto. Fiquei me perguntando como aquele livro tinha lhe caído nas mãos, mas deixei esse questionamento de lado e comecei a reparar em suas reações, para constatar se ela estava ou não gostando, e pelas expressões de seu rosto e seu leve arquear das sobrancelhas, creio que sim. À essa altura, as pessoas no ônibus já estavam me olhando, vendo como eu reparava naquela leitora ao meu lado. Deviam achar que eu me tratava de algum maníaco-pervertido-com-fetiches-por-mulheres-que-leem-em-ônibus (se bem que eles, nesse sentido, têm certa razão). Fiquei pensando se deveria ou não me apresentar a ela como o autor daquele livro, aquele quem escreveu aquela história (uma crônica – tratava-se de um de meus livros de crônicas) que naquele momento lhe arrancava uma sonora gargalhada que acabou chamando a atenção de outros passageiros do ônibus, que olharam para ela com um olhar de estranheza e censura (pensando, por certo, se ela era louca para estar rindo “sozinha”!). Resolvi deixá-la quieta, em paz, final de contas é sempre mais engraçado e interessante ler um livro e suas histórias, se divertir e se identificar com elas do que conhecer aquele quem as escreveu.

            Quando dei por mim, minha parada estava chegando e eu tive que me levantar. Naquela manhã, um dia incomum, eu não li uma única páginas e sequer chegara a abrir a mochila. Quando, já de pé no corredor do ônibus, em frente à porta, olhei para trás, não resisti e dei mais uma espiada para trás, para aquela leitora desconhecida, e quando a vi sorrir novamente me dei conta de que a decisão que havia tomado, de não me apresentar, fora a mais sensata, afinal de contas, como disse, a leitura do livro era muito mais interessante e divertida do que conhecer seu autor.

domingo, 13 de julho de 2014

Perdemos em campo, mas fora dele fomos muito bem (obrigado!)

A "seleção brasileira" (entre aspas mesmo) foi um fracasso, e foi bem mais longe do que imaginávamos. O "time" nunca foi competitivo, e chegamos, mesmo, a nos enganar, dando crédito a ele, por conta daquela exibição atípica na final da Copa das Confederações do ano passado. Sentimo-nos verdadeiramente maravilhados e começamos a acreditar que, sim, que podíamos ganhar a copa (quanta ingenuidade - ou "sabe de nada, inocente", foi o que ganhamos em troca por nos ter deixado iludir tão facilmente). Mas nunca tivemos um time à altura da nossa Seleção, um grupo que pudesse, efetivamente, nos levar ao título. No entanto, a mídia contribuiu para que acreditássemos nesse conto de fadas do hexa.
Curioso é que o contrário aconteceu justamente com a organização da Copa. a mídia nos fez acreditar na incapacidade de organização do evento. Sei que tem MUITA COISA ERRADA, muita coisa não foi entregue no seu devido tempo e tivemos que lidar com a nossa tão conhecida e já batida "maquiagem", mas não podemos nos focar só e unicamente no errado (deu tudo errado?), mas sim, também, ver o que houve e ficou de positivo, colocar os dois lados numa balança e ver se o bom e ruim, pesando-os para ver para que lado tomba, e se formos justos, se nos despirmos de preconceitos ideológicos, se deixar de lado a politicamente e discursos socialoides ou direito-fascistas, vamos ver que, sim, que fomos MUITO BEM no que tange à organização do evento.
Sempre acontece de o crédito (ou descrédito) ser dado a quem está à frente naquele momento, ao que responde pelos atos, por assim dizer. Assim sendo, devido ao "sucesso" (aspas porque não foi de todo sucesso, dada os atrasos nas entregas das obras, devido aos erros cometidos ao longo do processo de organização do evento e preparação das cidades, etc., mas enfatizando, ao mesmo tempo, a palavra, pois foi, sim, pesando na balança, um sucesso) devemos dar um troféu pela competência na organização do evento ao Governo Federal (sim. na hora de "meter o pau" a gente não mete? então por que não podemos dar o braço a torcer e dizer que sim, que o PT merece créditos pela organização do evento? sejamos justos, despidos de preconceitos e discursos descerebrados!).
O nosso time, o que esteve em campo nos representando, teve uma atuação pífia (apesar de parte de a mídia promover o contrário até o jogo antes da semifinal), mas o nosso Governo (volto a dizer que na hora de "descer o sarrafo" o fazemos, mas na hora de reconhecer não fazemos! por que isso? por que essa injustiça?), que já tinha fracassado antes do início do evento, mostrou-se um vencedor, surpreendendo a todos e a tudo.
Como apreciador de futebol, como torcedor, gostaria, sim, de ter visto a minha Seleção (a verdadeira, não essa fajuta que esteve em campo) vencer, mas, convenhamos, muito melhor foi ter visto, é saber que saímos vencedores, com cabeça erguida, por termos, justamente, conseguido triunfar na organização do evento.

O que nos resta, então, é ver que nesta Copa aconteceu justamente o contrário de tudo que se vinha pregando: saímo-nos perdedores (ah, como essa palavra dói) dentro de campo, mas, em contrapartida, vencedores fora dele! Não sei se falar em Copa das Copas, como vem se falando, seria um exagero, uma vez que só o tempo pode dar o devido valor, rótulo e créditos ao evento, mas que nos saímos muito bem é inegável.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Literatura, afinal de contas, para que serve?



Para que serve a literatura? Se analisarmos friamente, a literatura não tem, definitivamente, uma finalidade prática! Assim sendo, para que ler, por que se deleitar com textos estéticos, artístico, literários?
Muito mais interessante é se dedicar às leituras dos textos técnicos e estudos de engenharias, uma vez que construir prédios, montar máquinas, entender mecanismos eletrônicos é bem mais edificante do que se entender os mecanismos que fazem funcionar cada engrenagem da alma humana. Muito mais cívico é ler e se dedicar ao estudo do Direito, decorando-se todas aquelas leis que regem a sociedade, uma vez que a literatura não nos ensina isso, limitando-se, apenas, ao ensino, indireto, das leis que regem o homem, ensinando-lhe o lugar que lhe é de direito no mundo. Alguns se dedicam aos estudos das plantas, aprofundando-se nas leituras dos textos de Botânica, afinal de contas são muito mais importantes do que entender as nossas próprias raízes. Outros adotam como única leitura e estudo os números, às fórmulas matemáticas, pois são sempre exatas e seguras, não havendo margem alguma, nunca, para questionamentos; já a literatura, por tratar do ser humano tal como ele é, mostra e expõe a sua inexatidão, demonstrando que por isso mesmo o ser-humano é tão fascinante. Fascinante é o estudo, sem dúvida, da astronomia, que pode nos levar a conhecer tanto sobre os outros mundos e o universo que habitamos, já a literatura, tão limitada, só nos fala do mundo e universo que somos, mas que sequer nos damos conta. Importante, sem dúvida, é o estudo e entendimento da meteorologia para que possamos entender os ciclos das chuvas e correntes marítimas e dos ventos, mas vez que a literatura, como sempre, só fala sobre os ciclos da vida. É muito mais interessante se estudar e conhecer os movimentos da Terra em torno do Sol e do planeta em torno de si mesmo, para se entender os ciclos das estações do ano, do que se ler literatura, que só fala das estações do homem, demonstrando que temos períodos que desabrochamos tal qual as flores na Primavera, que somos frios e nos despimos como as árvores no Outono, que somos calorosos como o Verão ou tormentosos e chuvosos como o Inverno. Gastronomia é essencial, pois com ela aprendemos a arte e o preparo dos alimentos que nos nutrem o corpo, enquanto a literatura cuida do alimento filosófico da vida. Física é importante se estudar para e conhecer os estados da matéria, enquanto a literatura, tão pobre, só fala dos estados da alma humana. Importantes, no que tange às letras, é se estudar a gramática e as estruturas sintáticas do texto, o que aproximam a língua de uma Ciência Exata, pois a literatura, rebelde, só serve para quebrar com as regras e dotar de caráter humano e artística as Letras. Mas mais importante de tudo é se estudar a Medicina, deixando-se de lado a literatura, uma vez que esta Ciência Médica cura o corpo do homem, já a outra, em sua pequenez, só lida com a alma humana, apresentando curas para suas doenças.
Tudo, todas as áreas de conhecido, todas as pomposas leituras técnicas são mais objetivas, são mais exatas, enquanto a literatura, tão pobre, é subjetiva, é inexata. São leituras e conhecimentos bem mais importantes e interessantes do que a literatura, pois elas são bem mais abrangentes e falam do mundo que nos circunda, da sociedade em que vivemos. Não trata, a literatura, de peças e engrenagens, das leis que regem a sociedade, das plantas, da exatidão dos números, de planetas, mundos e universo, de correntes marítimas e de ventos, das mudanças das estações do ano, do preparo dos alimentos, dos estados da matéria, das regras gramaticais ou das doenças do corpo, pois ela se limita só e unicamente ao homem, da sua edificação, do seu lugar no mundo, das descobertas de suas raízes, sua inexatidão, complexidade de si mesmo, do seu universo, das mudanças de seus estados de espírito e estações ao longo da vida, do alimento e estado da alma, da quebra das regras e, acima de tudo, da cura de sua alma.
Realmente analisando e comparando sobre todas estas óticas, a literatura não serve para muita coisa, não possui uma única finalidade prática, é incapaz de apresentar resultados claros e imediatos, e, além de tudo, ela é incapaz de mudar o mundo, como tantas outras ciências e áreas do conhecimento, já que se foca só e unicamente no homem, no entanto, este, quando consciente, quando munido da sabedoria e sensibilidade que só a literatura pode lhe proporcionar, pode, sim, mudar um mundo, seja o seu, seja o de quem está ao seu redor, seja todo o mundo.

domingo, 22 de junho de 2014

Leitor - navegante solitário



O leitor é um solitário. Sabe-se lá por que, mesmo estando cercado por mil e uma pessoas, tendo mil e uma coisas a fazer, podendo ligar e ouvir a voz de mil e uma pessoas, resolve se isolar consigo mesmo num ato egoístico, tendo em mãos apenas aquele objeto que muitos e definem e chamam apenas de livro, mas, para ele, não trata-se apenas de um simples objeto, não trata-se apenas de um livro.
            O leitor se isola, e procura uma ilha solitária chamada silêncio no meio daquele mar de tantos barulhos, mesmo que todos o chamem, dizendo e mostrando que mais vale navegar do que aportar naquela ilha deserta. Ele, já munido de sua âncora, não ouve mais tais chamados para a navegação e para seu barco na ilha. Busca um canto sossegado e confortável, senta-se, respira uma, duas, três, quatro, cinco e quantas vezes forem necessárias para tomar fôlego e só então abre a caixa mágica que tem no colo.
            A princípio, ao abrir aquela caixa mágica, ele não mergulha em suas palavras, mas procura senti-la primeiro, sua aspereza e delicadeza da textura de seu corpo (que é uma mescla de outono com primavera, de verão com inverno), suas letras mágicas impressas naquelas folhas de papel e seu cheiro inebriante. Quando, só então, sentindo-se íntimo daquele corpo mágico, já tendo ganhado a sua confiança, mergulha em suas melífluas palavras.
            O leitor-navegante sente-se, realmente, um solitário no início de sua viagem, quando a caixa não se despiu por completo, ainda se mostra tão cheia de pudores, e ele ouve, ao longe, os chamados do mar e suas ondas, ouve as pessoas lhe chamando para navegar no tormentoso e barulhento oceano. Ele se deixa, por um longo-breve-curto espaço de tempo se levar pelos chamados e chega mesmo a fechar a caixa mágica e a pousá-la no colo. Olha ao seu redor, vê as ondas tão altas, batendo com tanta força na praia, e, com medo do que encontrará, resolve mergulhar na paz e segurança do livro que tem em mãos.
            Dá uma nova chance à história que não o prendeu no início, e quando menos se dá conta, ela o tem nas mãos, já o conduz por seus labirínticos caminhos e, sem que ele se aperceba, está novamente navegando, mas dessa vez nas águas claras e calmas da literatura.
            Não se sente mais um navegante solitário, agora acompanhado por mil e um personagens vívidos e barulhentos. Vê o calmo mar que tem em torno de si e deseja não mais sair dele, ficando toda a eternidade a navega-lo. Mas a magia contida naquele livro tem um fim, e ele já a sente nas mãos, escorrendo, na medida em que as páginas vão se sucedendo umas às outras, que vão acabando e que os personagens vão, finalmente, tendo seu fim, que a história vai chegando a seu fim. Vai sentindo o mar voltar a se avolumar ao seu redor e, temeroso, quando fecha o livro, tendo lido a última palavra, se vê novamente navegando naquele oceano tormentoso que é a vida real. Mas não se deixa abater e cair em desespero quando vê as gigantescas ondas que se lançam sobre seu navio. É essa a vida real na qual tem que navegar.
            Por mais que no oceano-vida em que tem que navegar as coisas estejam difíceis, sabe que sempre há uma ilha de tranquilidade e paz onde pode aportar, que há, sempre, oceanos e mares que a circundam, onde as águas são tranquilas, e para poder usufruir dessa paz basta abrir uma caixa mágica chamada livro e se deixar conduzir por suas calmas marés de palavras.