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domingo, 3 de agosto de 2014

Pássaro-livre

Aquele era um pássaro em muito diferente dos de sua espécie. Não era preso às convenções, mas sim inteiramente livre. Não tinha que migrar no inverno, em busca de calor e alimento, como seus iguais, mas ia e ficava onde o sol lhe aquecia e onde podia alimentar sua alma independente da estação do ano. Não cantava só e unicamente nas primeiras horas da manhã, como tantos outros faziam, mas enchia o peito e soltava a voz a qualquer hora, seja para louvar o sol e agradecer-lhe pelo calor, seja para declarar seu amor à lua ou às estrelas. Tinha uma forma peculiar de bater as asas, com um gingado que tornava o seu voar muito mais belo e suave, tendo mesmo certo “quê” de sensualidade. Despertava, sim, por ser como era, certa inveja de alguns pássaros, mas a maioria, o admirava e tinham por ele uma saudável inveja.
Gostava de, pela manhã, ao sentir os primeiros raios de sol a tocar seus olhos, ao sentir os suaves dedos da brisa matutina, estufar o peito e cantar em louvor a vida. Gostava de, quando todos os outros estavam parados, empoleirados numa árvore qualquer, abrir suas asas e sair a bailar livremente pelo céu, tendo como parceiro o vento que o conduzia em passos suaves naquela dança. Gostava até mesmo de, para espanto dos de sua espécie, voar em dias de chuva, deixando que aquelas gotas mágicas que caiam do céu banhassem seu corpo e encharcassem sua alma.
Por ser como era, por chamar a atenção como chamava, começou a chamar a atenção de outros seres de outras espécies, que ficavam pasmos, perguntando como aquele pássaro podia e conseguia ser tão diferente de outros que lhe pareciam tão iguais aos olhos. Por ser livre como era, não notava os olhares cobiçosos que alguns desses seres lhe lançavam e não percebeu quando um homem começou a lhe seduzir com presentes belos, mas tolos, a fim de tê-lo não mais livre, onde todos pudessem contemplar, mas somente para si.
O pássaro, de espírito puro e inocente como era, se deixou seduzir e começou a pousar sem medo perto do homem, que a cada dia o trazia para mais perto de si. Foi o homem ganhando, pouco a pouco, mais e mais, a confiança do pássaro a ponto deste chegar, de certa feita, a pousar em seu ombro e ali ficar por longos minutos e até a se deixar tocar e acariciar suavemente por aqueles dedos rudes.
Certa vez, quando já tinha ganhado a total confiança do pássaro, o homem lhe trouxe um presente: uma gaiola. Encheu aquele ambiente de elogios, dizendo que lhe traria segurança e conforto, e o ofereceu humildemente ao pássaro, que se deixou engabelar por aquelas palavras tão elogiosas e entrou na gaiola. Experimentou-a mas ficou meio desconfiada daquelas paredes vazadas, que lhe permitiam ver o mundo exterior, mas que, mesmo assim, eram paredes, e lhe transmitiam apenas uma ideia de falsa liberdade. Saiu da gaiola, onde se sentia sufocado e voou para bem longe.
No dia seguinte voltou, e o homem lhe ofereceu novamente a gaiola. O pássaro não se sentia confortável naquela clausura, mas vendo o sorriso do homem, e se deixando iludir por aquelas melífluas palavras, acabou por entrar mais uma vez. A mesma sensação de sufocamento lhe tomou, e ele saiu mais uma vez. No outro dia, a mesma coisa. No outro e no outro também, até que começou a se sentir relativamente bem na gaiola, muito embora aquelas paredes lhe transmitissem a sensação de estar enclausurado. Saia se sentindo sufocado daquela gaiola, que por maior e mais confortável que fosse, não deixava de ser o que era: uma gaiola.
Um dia o pássaro veio e se aproximou do homem, que lhe ofereceu, como sempre vinha fazendo nos últimos dias, a gaiola. O pássaro a rejeitou, mas diante daquele sorriso e daquelas palavras, acabou cedendo e entrando, mais uma vez, por aquela porta. Andou um pouco, observou um pouco o mundo através daquelas paredes, e quando já se sentia farto daquele ambiente, quando ele começava a se sentir sufocado, que quis sair, viu a porta fechada e através dela o homem, que lhe contemplava com um sorriso diferente.
- Agora você é meu, passarinho! – disse ele.
O pássaro tentou fugir, jogando-se sobre as paredes, tentando abrir uma pequena brecha por onde pudesse passar, mas por mais que fizesse, por maior que fosse a força que desprendesse, não conseguia mover aquelas grades. Ficou triste como jamais estivera em sua vida.
O homem passou a exibir com orgulho o seu pássaro, que continuou, sim, a cantar, mas não era um canto feliz, de louvor à liberdade e à vida, mas um canto de notas baixas como um lamento.
O pássaro, dentro de pouco tempo, devido ao uso limitado de suas asas, começou a senti-las atrofiar e de onde a sua gaiola ficava empoleirada, ele via, lá embaixo, algumas outras gaiolas que pertenceram outrora a outros pássaros, que em outros tempos foram seduzidos por aquele homem e feitos cativos.
Dia após dia ele começou a ficar mais e mais triste. Suas asas, devido ao uso limitado, começaram a atrofiar e sua garganta a secar, pois seu canto não era mais espontâneo. Quando o homem vinha vê-lo de manhã, que o via naquele estado de espírito, procurava estimula-lo, conversando e imitando, com um assovio, um canto de um pássaro. Mas nada que o outro fizesse seria capaz de fazê-lo voltar a se sentir e a ser o que era antes, pois agora ele não era mais um pássaro livre, mas sim um pássaro engaiolado.
Começou a definhar mais e mais e o seu único consolo era ver, através das grades de sua prisão, os pássaros livres a voar no céu. Um ou outro seu companheiro de outrora vinha pousar perto dele e até sobre a sua gaiola, o que lhe trazia certo conforto, pois isso reavivava o seu sonho/desejo de vir a ser novamente livre e sentir novamente o vento bater sob as suas asas. Quando o outro pássaro ia embora, que ele o via se afastar até se tornar não mais que um minúsculo ponto no horizonte, se deixava tomar por uma aguda depressão.
O homem, preocupado, compadecido com a tão latente dor de seu pássaro, tentava, de todas as maneiras, reanima-lo, mas quando via o olhar dele tão distante, fitando o horizonte infinito, sentia-se impotente, sem saber como trazer de volta o espírito daquele pássaro pelo qual se apaixonara e afeiçoara.
Mas o pássaro definhava à olhos vistos e o homem, não aguentando vê-lo morrer lentamente, abriu a porta da gaiola e atraiu o pássaro para fora. O pássaro, tão fraco estava que mal conseguia se mover, mas fez um imenso esforço para conseguir sair da gaiola que se acostumara a chamar de casa. Ao se ver fora da gaiola, finalmente de posse da liberdade pela qual sonhara, mas que acreditava que nunca mais iria readquirir, ficou desnorteado, sem saber o que fazer. Suas asas pesavam, e o homem, ao perceber tudo isso, o pegou delicadamente e procurou reensina-lo a forma correta de abrir as asas e batê-las. O vento, que passava perto, ao ver seu parceiro de dança naquele estado, resolveu ajuda-lo e soprou suavemente em sua direção. O pássaro, ao sentir aquele delicado toque no rosto, sorriu e abriu as asas. Não precisou batê-las, não precisou fazer qualquer esforço, precisou, apenas, se deixar levar nos braços do vento, que o conduziu suavemente nos passos daquela dança e o levou para o alto, de onde podia ver o mundo todo se descortinar perante seus olhos. O homem ficou, emocionado, a contemplar o pássaro readquirir seu antigo viço e prometeu, naquele momento, que nunca mais iria aprisionar pássaro algum.

O pássaro desceu num voo rasante e pousou no ombro do homem e cantou como cantara em outros tempos, e sua canção, e suas palavras eram de agradecimento por ele ter-lhe restituído a liberdade que, num ato impensado, lhe havia roubado. O homem sentiu-se feliz e honrado ao ouvir aquele canto entoado só e unicamente para ele. O pássaro, então, abriu novamente as asas e voou para longe, sendo novamente o pássaro livre que sempre fora, dançando seu balé no ar, cantando em louvor à vida, à liberdade.

domingo, 21 de abril de 2013

Onde o céu e o mar se fundem



Do alto daquela montanha ele via o mundo se descortinando aos seus pés. Podia ver, ao longe, na linha do horizonte, o azul do mar em contato direto com o azul do céu, os dois se fundindo, de mãos dados, com os dedos entrelaçados. O que era um e o que era o outro, olho humano algum podia distinguir. Olhou bem para o alto e viu passar uma nuvem. Há tempos não olhava para o céu e atentava para as multiformas feitas de algodão dançando um silencioso balé, sendo guiadas pelos braços do experiente bailarino chamado vento. Sorriu ao ver as formas e a dança das nuvens, pois tal olhar lhe despertou uma série de lembranças. Lembrou-se de quando era menino, do tempo livre que tinha, de como podia ficar deitado no chão com o olhar perdido no céu de um fim de tarde qualquer, de como era prazeroso ver as nuvens de modificando, adquirindo novas formas, e de como ele dava um nome a cada forma adquirida. Eram formas de animais, de paisagens, de coisas que não existiam, eram formas de lembranças...
            Tantas nuvens no céu, correndo para lá longe, para onde o céu e o mar de fundem num só abraço, e ele ali, com os pés plantados no chão. Sentiu-se triste e uma lágrima começou a brotar de seu olho. Ela escorreu pelo seu rosto deixando um sulco por onde passava. Em silêncio ele ficou com seus próprios pensamentos, até que o grito de uma águia, que voava lá no alto o despertou. Ele a contemplou e esticou a mão, chamando-a para perto de si, e ela veio bem lentamente, descrevendo círculos infindos enquanto descia, planando livre, deixando-se guiar, segura nos braços do vento. Parou perto do homem e os dois se olharam nos olhos. Ele disse que queria voar, ir lá longe, onde o céu e o mar se fundem, para onde todas as caminham, e perguntou se ela, majestosa águia, o levaria montado em suas costas. A águia abaixou a cabeça, pensou, mas disse que não poderia: ele era muito pesado.
            - Eu me livro de todas as preocupações, de todos os pensamentos, para ficar mais leve! – disse ele, desesperado, pois se ela, a rainha das aves, não poderia levá-lo, ninguém para o levaria.
            A águia, mesmo assim, disse que não poderia, por mais que desejasse. Pediu que ele a desculpasse por sua impotência, pois ela, mesmo sendo uma rainha, ainda assim era uma simples e delicada ave.
            Quando ela levantou voo, subindo lentamente descrevendo espirais no céu, ao olhar para trás, o viu lá embaixo, ajoelhado no chão, chorando copiosamente porque não lhe tinha sido dado o privilégio, o prazer, a liberdade de poder voar. Compadecida da dor do homem, ela procurou o vento que sopra forte no fim da estação do inverno, aquele que leva embora todas as pesadas nuvens de chuva, e lhe contou a dor do homem. O vento a ouviu pacientemente e disse que nada poderia fazer, pois ele, por mais forte que fosse, só conseguia carregar em seus braços as pesadas nuvens de chuva. Disse, também, que o homem poderia voar, tal qual ela, a águia, poderia dançar no céu, tal qual uma branca e leve nuvem de algodão, mas que para isso ele teria que aprender sozinho. A águia então desceu veloz, como se fosse dar um bote numa presa e levá-la para o seu ninho, para que dela pudesse alimentar seus filhotes. Desceu como um raio e disse ao homem que ele poderia voar, mas que, para isso, teria, ele mesmo, que aprender.
            - Mas eu não tenho asas – falou olhando primeiro para as asas da águia, depois para os próprios braços – e sou pesado – disse olhando para o céu e vendo como as nuvens de algodão eram leves como uma pluma dançando no céu ao sabor do vento.
            - Mas você pode, mesmo assim, sem asas e pesado como é, voar, pois sua alma e leve – disse a águia, e levantou voo deixando o homem a pensar no que dissera.
            O homem se sentou e ficou a pensar no que ouvira, vendo a águia ganhar altura até se tornar um pequenino ponto no céu e sumir ao mergulhar dentro de uma grande nuvem branca.
            - Eu sou pesado, mas mesmo assim posso voar, pois minha alma é leve – dizia ele para si mesmo, pensando e pesando cada palavra.
            Olhou para si mesmo, e só então se deu conta de que tudo fazia sentido, de que o corpo que tinha era como uma prisão, uma gaiola, que lhe mantinha a alma encarcerada. Pôs as duas mãos sobre o peito, e num gesto lento, como que abrindo a própria pele, abriu espaço para que sua alma se libertasse. Abriu os braços para o mundo e de sua garganta saiu um grito longo que ecoou por todo o céu. Ele estava livre, inteiramente livre para voar, e sua alma voou nos braços do vento por dentro das nuvens até a linha do horizonte onde o mar e o céu se fundem num só corpo, num longo e afetuoso abraço.

domingo, 25 de novembro de 2012

O Prisioneiro

Quanto anos já havia passado ali?, ele se perguntou ao acordar naquela manhã. Quanto anos havia perdido, tendo sido privado de sua liberdade?, ficou a se perguntar. Olhava ao redor e só via aquelas paredes repletas de marcas deixadas por outros iguais a ele que haviam sido trancafiados, ficado presos naquela minúscula cela daquela prisão, marcas usadas para marcar o tempo, tempo este que passa sempre igual, sempre tão devagar...
            Ele se levanta e anda de um lado para o outro, desesperado, perguntando-se o que será feito dele, e quando virão buscá-lo para levá-lo a que lugar, nem ele mesmo sabia. Já havia, em todo aquele tempo desde que fora feito prisioneiro, se feito as mesmas perguntas, já tinha dado os mesmos passos, já tinha sido consumido vezes sem conta pelas mesmas angústias. Olhava para o teto e ouvia ecos de passos de um prisioneiro que, por certo, estava mesma situação que ele, olhava para ambos os lados, e via as paredes, olhava ara frente e via a minúscula janela, no canto mais alto, através da qual ele sequer conseguia ver o que havia do outro lado, fora da cela, e, às suas costas, a pesada porta de ferro, que ele nunca vira ser aberta desde que fora desumanamente jogado ali. A parca alimentação e água que recebia era entregue através de uma portinhola no rés do chão, aberta duas vezes por dia, uma pela manhã e uma no final da tarde, por onde passava um prato de ferro com uma comida que ele não conseguia distinguir do que se tratava, e um copo com uma água suja, de gosto terroso. Uma vez por dia, em horários que variavam conforme o estado de espírito do carcereiro, a portinhola era aberta para recolher os dejetos do homem, que ele entregava dentro de um balde.
            Tentava se lembrar dos motivos que o levaram até ali, os momentos que antecederam a sua prisão, o julgamento, os últimos instantes de uma liberdade esquecida, mas por mais que se esforçasse, nenhuma lembrança lhe vinha a ente, como se todas tivessem sido esquecidas, agora que ele estava ali, tão privado de tudo, como que lembranças, ali dentro, fossem proibidas. Ele se sentava na cama dura de cimento com um fino colchão já gasto, repleto de sujeira e cheiros indistintos, com as mãos cobrindo o rosto e os olhos fechados com força, esforçando-se para se lembrar de algo. Mas lembrança alguma lhe vinha à mente, e ele voltava a se levantar e a andar de um lado pro outro. Não conseguia se lembrar do seu passado, do que o trouxe até ali, já não conseguia sequer se lembrar mesmo de quem era, de seu nome, do homem que um dia fora. Não conseguia se lembrar de absolutamente nada e de tanto conversar apenas com seus próprios pensamentos, sequer se lembrava de sua própria voz.
Sua garganta vivia eternamente seca com a sede lhe consumia, a fome que sentia era demasiadamente forte e seu estômago sempre doía e ameaçava explodir em dores sempre que comia aquilo que lhe era servido, mas, mesmo assim, ele comia, pois era sentir dor ou sentir fome; seu corpo inteiro doía, fruto das noites mal dormidas e do pouco espaço que tinha para se movimentar; sentia tantos e tão desagradáveis cheiros que começou a achar que tudo provinha dele, pois desde que fora encarcerado ali, nunca lhe fora dada a oportunidade de tomar um banho. Sentia calor e frio intensos, por vezes frio ao meio-dia e calores em plena madrugada.
Aquela tortura o estava matando pouco a pouco, estava lhe consumindo por dentro, fazendo-o se esquecer de tudo. Não se lembrava sequer de qual era o seu nome, não se lembrava do som de sua própria voz e não se lembrava mais qual a sua aparência. Punha, por vezes, a mão sobre o rosto, acariciando-o, tentando adivinhar suas feições, mas só o que sentia eram os pelos ásperos de uma barba que crescia diariamente que havia tomado todo o seu rosto. Passava a mão na cabeça, e só sentia o cabelo duro, sujo e malcuidado. Usando suas mãos, apalpava o corpo, e só sentia um amontoado de ossos cobertos por uma pele seca e suja como um pedaço velho de um pergaminho quebradiço.
Cansou de tudo aquilo e levantando-se de súbito, foi até a porta, que começou a esmurrar, mas estava tão fraco, já tendo esquecido até mesmo a força que um dia tivera, que seus socos não produziam som algum quando batiam na pesada porta, só lhe provocavam dor nas mãos frágeis. Não deu importância para a dor, continuando a bater na porta. De sua boca saía um som indistinto que parecia tudo, menos uma voz humana, muito mais parecido com um grunhido ou o gemido de um animal agonizante. Quando cansou, que se deixou escorregar, ficando deitado no chão, com a cabeça colada à porta, ouviu, ou imaginou ouvir, vozes e risos do outro lado da porta. Ele tentou, num último esforço, bater mais uma vez, respirou fundo, deixando que o ar ficasse preso em seus pulmões, para tentar gritar e falar alguma coisa, mas som algum saiu, ficando o grito preso em sua garganta, fazendo-o sufocar.
Adormeceu e foi acometido por mil e um pesadelos e, ao acordar na manhã seguinte, viu que havia uma pequena abertura na porta, por onde passava uma luz fugidia, que parecia lhe chamar. Ele sentiu-se cego com aquela luz que nunca tinha visto, que lhe entrava pelos olhos, mas que não lhe iluminava a consciência. Cobriu com a mão os olhos para não ficar completamente cego e se arrastou usando cotovelos e joelhos, pois de tão fraco sequer conseguia ficar de pé.
Do lado de fora da cela, ele olhava de um lado para o outro e não acreditava no que seus olhos viam: um longo corredor, com portas de celas iguais à sua. Se arrastando, pois não conseguia andar, ele foi de cela em cela, olhar, chamando com palavras incertas e voz não humana, por um alguém ou alguma coisa que lhe dissesse onde estava e o que fazia ali, mas não obteve resposta alguma. Chegando ao final do corredor, viu que havia uma longa e estreita escada que levava para algum lugar lá no alto, de onde vinham sons de vozes que ele imaginava serem humanas. Mesmo com medo e se sentindo fraco, fez um esforço sobre-humano para se por de pé e, vencendo todos os medos, para dar um primeiro passo. Subia degrau a degrau e a medida que se aproximava do topo, a luz ficava mais forte a ponto de obriga-lo a subir com os olhos fechados, e as vozes mais altas, embora ele não conseguisse entender o que dizia, sabendo apenas que eram muitas vozes, de muitas pessoas, que estavam ali no alto. Parou inúmeras vezes para tomar fôlego e, enquanto respirava, sentiu um cheiro desconhecido, límpido, que lhe deixou ainda mais excitado, desejoso de saber, ver e sentir o que havia lá no alto. Tropeava nos próprios pés e por vezes chegou a cair e rolar alguns degraus escada abaixo, mas sempre que parava, que se recuperava, com o coração ameaçando explodir em seu peito, se punha de pé e continuava a sua subida.
A luz era cada vez mais forte, as vozes mais altas e o cheiro mais intenso, e este era o que o motivava, apesar das quedas e dores, do corpo e da alma, a seguirem subindo, pé ante pé, passo ante passo, em direção àquilo que ele não sabia com o que iria se deparar.
No alto, havia uma porta parcialmente aberta, através da qual ele mal conseguia ver o que havia do outro lado. Respirou fundo duas ou três vezes antes de por a mão trêmula sob sua superfície áspera e empurrá-la. Quando ela se abriu por completo, uma luz intensa atingiu seus olhos e ele recuou alguns passos e virou o rosto, cobrindo com as mãos os olhos feridos por aquele jorro de luz. Com os olhos fechados, feridos, ele subiu os últimos degraus e, com a porta aberta, ele deu um longo e decidido passo para fora. Foi recebido por um turbilhão de cheiros. Demorou um longo tempo para seus olhos se acostumarem e conseguirem enxergar alguma coisa do que havia ao seu redor. Quando, após um longo tempo, conseguiu abrir os olhos, viu que estava num lugar alto, às suas costas, de onde viera, descia um íngreme desfiladeiro, e à frente, um imenso planalto. Viu, ao longe, umas pessoas, que caminhavam tropegamente, tropeçando nas próprias pernas, umas longe das outras, como se estivessem uma a perseguir a que estava à sua frente enquanto fugia da que vinha logo atrás. Ele tentou gritar, chamar por uma delas, mas não tinha força na voz. Resolveu, então, num ato de insensatez, dar um passo depois outro, correr atrás de tais pessoas e sentir um pouco da liberdade correr pelas suas veias.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O homem que podia voar



Ele podia voar, apesar de não possuir asas, de ser grande, pesado e desengonçado; mesmo assim, ele podia voar. Bastava ele querer, fechar os olhos e abrir os braços, que podia sentir a leveza, paz e total tranquilidade tomar conta de todo o seu corpo, pegando sua alma pela mão e o libertando daquele mundo pequeno em que vivia, com os pés colados no chão e de alma aprisionada. Ele voava, sempre que podia, sempre que queria, e as pessoas que estavam ao seu redor o olhavam com estranheza sempre que o viam levantar-se do chão, algumas chegando mesmo a lhe apontar o dedo, criticando-o por aquele “exibicionismo barato e sem lógica”; mas ele não ouvia tais críticas e nem via os olhares recriminadores que as pessoas lhe lançavam, pois, mesmo quando estava com os olhos abertos, sua alma estava livre, e voava livremente pelo firmamento.
            Ele podia, em seus voos, visitar mil e um mundos, adentrar em todas as portas, pois era uma alma livre, leve e solta. O tempo também não lhe oferecia barreiras, pois quando estava a voar, ele podia visitar passados longínquos e vislumbrar um futuro distante, assim como se livrar de todo e qualquer tempo e viver numa total atemporalidade. A fantasia estava sempre com as portas abertas para ele, que podia, se quisesse, tanto viver entre os homens, normais, e viver suas rotinas, dramas e alegrias, quando entre seres imaginários, que só se tornavam reais para aqueles que possuíam a leveza da alma e que podiam voar livremente pelos sete céus.
            Ele podia, quando leve, quando seus pés se libertavam das amarras que lhe prendiam ao chão, que abria os braços e os olhos da alma, conhecer, viajar, ser o que ou quem quisesse ser, ou ser simplesmente ninguém, um mero expectador e assistir ao desfecho de todas as histórias. Podia se emocionar, rir, chorar, mas não podia ou conseguia ficar indiferente, em hipótese alguma, pois se assim o fizesse, cairia no chão, na dura realidade, e o dom de voar lhe seria proibido naquele momento. Indiferença e não-envolvimento-emocional e voo eram coisas que não combinavam,e ele sabia disso, por isso, sempre que voava, se entregava inteiramente de corpo e alma àquilo que se descortinava à sua frente e se oferecia tão livremente à sua alma.
            Ele, quando voava, entrava em estado de êxtase profundo, do qual ninguém nem nada podiam tirar. Ele havia se tornado um completo dependente de voos e de liberdade. Quando voava, ele era rico, era pobre, era homem, era mulher, era criança, jovem, adulto ou idoso; quando voava, ele era tudo ou era simplesmente ele.
            Ele, voando, podia ouvir mil e um sons, desde a música cantada pelo vento, passando pelas vozes das pessoas lá embaixo até o mais profundo, completo e reconfortante silêncio. Ele podia simplesmente tudo quando voava. Os seus cinco sentidos estavam completamente livres, aguçados: podia sentir todos os gostos, ver tudo, sentir os toques, os cheiros e ouvir.
            Ele voava onde quer que estivesse; mesmo com os pés colados ao chão, ele voava, pois para voar bastava querer, bastava sentir a textura daquele poderoso objeto mágico que tinha nas mãos, abri-lo e mergulhar de cabeça nas suas páginas e beber cada uma de suas palavras. Para voar, ele só precisava abrir aquele livro, sentir-se livre e deixar-se tomar por inteiro por aquelas palavras mágicas e encantatórias.

domingo, 24 de junho de 2012

O gosto da liberdade

Naqueles longos e intermináveis anos em que passou na prisão, ele contou os dias. Fazia marcações nas paredes usando uma pequena faca que guardava escondida debaixo de uma pedra sobre sua cama. A cada dia, quando o sol se punha, ele fazia a marca, até que quase não havia mais espaço nas paredes. Era um preso privilegiado, pois tinha uma cela só pra si, diziam os outros detentos e os carcereiros, num pavilhão afastado dos outros, onde ficavam trancados os que cometeram os piores crimes, mas ele não sentia possuidor de qualquer privilégio, preferindo ter que dividir a cela com mais alguns detentos, pois pelo menos teria com quem trocar algumas palavras, a estar ali, naquele minúsculo cubículo, sozinho, tendo como única companhia sua sombra. As poucas palavras que trocava eram com os carcereiros, quando estes vinham lhe trazer suas refeições ou leva-lo para um breve “banho de sol”. Ele tentava entabular uma conversa, puxar um assunto qualquer, mas os carcereiros muitas vezes o olhavam com pena e outros com ódio, e se limitavam a ficar em silêncio.
            No início ele recebia umas poucas visitas de amigos, familiares e de sua amada esposa, por quem ele esperava ansiosamente, mas aos poucos deixou de vê-los e até de receber suas cartas. Passou dias a fio sem comer de tão apreensivo que estava, andando de um lado pra outro, perguntando-se o motivo da ausência de todos aqueles que amava e que o amavam. Cansou de escrever cartas que nunca eram recebidas, até que acabaram os papeis e acabou a tinta das canetas. Ele desculpava, mesmo assim, suas ausências, imaginando como deve ser duro, lá fora, ter que aguentar todo o preconceito das pessoas ignorantes por terem um ente querido preso e ter que visita-lo. Sonhava com o dia em que, livre, iria procurar essas pessoas que o abandonaram para abraça-las e beijá-las, para fazê-las ver e sentir que estavam desculpadas e pedir-lhes desculpas, pois, sabia, todo aquele sofrimento tinha sido ele a causa.
            Mais de vinte anos contando os dias e a medida que os poucos espaços das paredes iam acabando sabia que se aproximava o dia em que seria posto em liberdade, após ter pagado pelo seu crime. Sua liberdade estava próxima, e quase podia senti-la entre os dedos, segurando-a.
            Num fim de dia, assim que o sol se pôs, fez a última marca naquela parede, e soube que no dia seguinte viriam pegá-lo para leva-lo embora. Não dormiu naquela noite, de tão ansioso que estava e os carcereiros encontraram-no já de pé, vestido e com um sorriso no rosto, pronto para ir embora, para poder sentir, após tantos anos, o gosto da liberdade. Algemaram-no pela última vez enquanto era levado pelos corredores estreitos sendo saudado por uns e insultado por outros que ainda tinham pena a cumprir. Via o céu sobre sua cabeça tão azul como ele nunca tinha visto e ouviu o canto dos poucos pássaros que se vinham pousar nos tetos dos pavilhões. Sua respiração estava pesada e ele se sentia sufocar a cada novo passo que dava. Imaginava quem o estaria esperando do lado de fora, quando atravessasse aquele imenso portão.
            Sentiu quando lhe tiravam as algemas e um dos carcereiros lhe deu um leve tapa no ombro, o mais próximo de um carinho que ele recebeu em todos aqueles anos. Viu quando o portão era aberto lentamente e quando, por fim, teve espaço suficiente para ver do lado de fora, não viu ninguém a lhe esperar. Deu alguns passos inseguros, pois suas pernas tremiam, rumo a liberdade por que tanto esperava, com a expectativa de ver alguém a lhe esperar, imaginando que um alguém qualquer tinha contado os dias do lado de fora, livre, da mesma forma que ele contava do lado de dentro, preso. Mas não havia ninguém ali. Não havia um abraço, um beijo ou uma palavra. Não havia absolutamente nada disso nem ninguém. Olhou para o alto e viu um manto de nuvens diáfanas cobrir parcialmente o céu; olhou mais uma vez para trás e viu o imenso portão sendo fechado às suas costas. Parado, ele respirou fundo duas ou três vezes, criando coragem e força para seguir seu caminho, agora que sua liberdade havia sido restituída, e ir à procura daqueles a quem não via há tantos anos.
           
Tudo estava mudado. As ruas pareciam ais largas e os carros corriam desenfreados de um lado para o outro naquele bairro. Ele custou a encontrar o caminho de casa, pois não reconhecia mais quase nada após tantos anos. Guiou-se pelo instinto, reconhecendo uma árvore, que havia sido poupada pelo progresso aqui ou ali, até que reconheceu uma onde tinha deixado, certa vez, uma marca. Tocou seu tronco ainda pulsante de vida e procurou com os olhos aqueles nomes que tinha escrito, deixando uma cicatriz na árvore, com a ponta de um canivete, mas o tempo os havia apagado. Sentiu um frio de tristeza lhe percorrer todo o corpo, pois imaginava que aquela marca seria eterna...
            No coração do bairro, onde vivera toda a sua infância e adolescência, de onde fora tirado para cumprir sua pena pelo crime cometido, as mudanças também tinha chegado, mas em bem menor escala. Algumas casas ele reconhecia, o campo de futebol ainda continuava o mesmo, mas a praça onde costumava, quando criança, ficar até tarde da noite até que sua mãe vinha chama-lo estava em ruínas. Dali, onde jazia o esqueleto da praça, ele podia fechar os olhos e se deixar guiar, pois seus passos o levariam até sua casa.
            Enquanto caminhava pelas ruas de seu bairro, era apontada pelas pessoas e ele sorria de volta, mas elas não reconheciam nele aquele menino que corria pelas ruas, descalço, que jogava bola naquele campo, que ficava até tarde da noite sentado nos bancos daquela praça e que fora envolvido num crime do qual ele queria esquecer e se arrependia amargamente, que lhe roubara não só sua liberdade, mas boa parte da sua vida.
            Chegou, por fim, à sua rua, que continuava praticamente a mesma de tantos anos antes. Viu a árvore em frente a sua casa e teve vontade de correr e tocá-la uma vez, abraça-la e subir em seus galhos.
            Ficou um longo tempo em frente a sua casa, sem ousar se aproximar do portão e ver se ele continuava aberto. Deu alguns passos e viu que estava trancado com uma grossa corrente e um cadeado. “Estranho”, ele pensou, “o portão de casa sempre ficou aberto dia e noite”. Olhou um lado e outro, em busca de uma campainha, mas não a encontrando, resolveu bater palmas e chamar pelos de sua família. Demorou até que alguém respondesse e viesse abrir o portão. Quando ele viu, era uma senhora idosa abrir uma brecha no portão e olhá-lo de cima a baixo.
            - Vá embora. Hoje eu não tenho nada para você – disse ela, fechando o portão.
            Ele ainda tentou impedi-la, tentando segurar o portão, dizendo que ela tinha se enganado, que não o tinha reconhecido.
            - Mas mãe, sou eu. A senhora não me reconhece?
            - Eu não tenho mais filho. Ele morreu há anos. Agora vá embora ou eu chamo a polícia, seu vagabundo.
            Ele imaginava que seria recebido de mil e uma maneiras, menos daquela. Então era aquilo que sua mãe pensava, que não tinha mais filho? Sentiu aquelas palavras como uma punhalada no peito. De cabeça baixa, ele se sentou no chão, encostado à árvore e deixou que aquela tristeza daquele primeiro contato com sua mãe se diluísse. Esperou quase uma hora naquela posição, sequer atentando para as pessoas para as pessoas que passavam à sua frente apontando e fazendo gestos de desaprovação. Levantou-se lentamente, com as pernas pesando mais do que chumbo e foi novamente até a frente do portão, para tornar a chamar sua mãe.
            Implorou e chegou a chorar, mas não havia nada que pudesse demovê-la. Para ela, ele tinha morrido, sido sepultado dentro daquela prisão e esquecido, e tornou a ameaça-lo: se não fosse embora, iria chamar a polícia.
            Abatido, ele deixou que seus passos o levassem para outras ruas, para a frente de outras casas conhecidas suas em outros tempos. Estava cansado e triste, após tão longos anos, não ser reconhecido, ser recebido daquela maneira pela sua própria mãe!
            Foi até a rua onde moravam alguns amigos e ficou um tempo em frente a casa de alguns, com medo de se anunciar. Tinha medo de ser escorraçado, pelos amigos, da mesma forma que fora por sua própria mãe. Chegou até a lanchonete que fora outrora gerida pelo pai de seu melhor amigo. Sentou-se num banco alto em frente ao balcão e esperou ser atendido, o que demorou um grande tempo. Seus cabelos estavam grandes, despenteados, tinha olheiras profundas e uma basta barba a fazer. Ficou olhando as pessoas indo e vindo e a intensa movimentação dentro do estabelecimento, até que seus olhos caíram sobre um homem que gerenciava o negócio, atendia aos clientes e cuidava do caixa. Reconheceu-o imediatamente, pois apesar do tempo que passou, seu amigo continuava com o mesmo jeito enérgico e com o mesmo olhar. Tentou chamar sua atenção e ele o olhou de frente, mas não o reconheceu. Fez apenas um gesto com a cabeça indicando-o para que um funcionário fosse ver seu pedido. Só então se deu conta de que não tinha um único centavo nos bolsos, e o funcionário ao notar isso, tratou de coloca-lo pra fora.
            - Mas eu preciso falar com ele – falou, apontando para o amigo, que tinha parado seus afazeres para ver quem era aquele indigente que entrara em seu estabelecimento sem dinheiro para comprar nada e estava tendo que ser expulso para não incomodar os outros clientes. O amigo ficou impassível, se o reconhecer em absoluto, por mais que ele falasse, que dissesse seu nome, que tentasse força-lo a lembrar.
            - Não o conheço – foi a única coisa que disse, virando as costas e voltando aos seus afazeres, pedindo desculpas a um cliente pelo contratempo.
            Deixou que seus passos o levassem, mais uma vez, para longe, para perto da pessoa que ele tinha certeza de que não tinha esquecido, um minuto sequer, dele.
            A casa onde ela morava continuava a mesma que ele guardava na memória. Ficou observando, vendo se alguém sairia ou chegaria. Tinha medo de se anunciar. Ficou longas e intermináveis horas, ali, parado em frente aquela casa, sem que nada acontecesse, sem ver ninguém, até que viu a porta se abrir e por ela passar um jovem adolescente, que ia para a escola e se despedia da mãe. Logo em seguida apareceu a mulher, que o homem reconheceu de imediato apesar das mudanças que o tempo tinha lhe infligido. Quando ia se aproximar dela, viu surgir um outro homem, um amigo de outros tempos que ele reconheceu, que a enlaçou pela cintura e a levou para dentro de casa.
            Não conseguindo conter em seu peito aquela tristeza que lhe tomava por inteiro, ele deu vazão a tudo que sentia através de lágrimas, que escoavam em abundância de seus olhos. Logo toda a sua face estava manchada pelos sulcos deixados pelas lágrimas em sua alma. Soluçava alto, sentindo um gosto amargo na boca e repetia de forma ininteligível a palavra “liberdade”. Tinha passado tantos e tão longos anos esperando por aquele momento, contando os dias, lembrando, para se ver assim, esquecido de tal maneira.
            Chorou por horas a fio, sentindo o gosto amargo na boca e a dor na alma, repetindo sem cessar:
            - Tantos anos, esperando por esse momento, por essa tal liberdade, para ver que seu gosto é amargo, para ver que fui esquecido até por aqueles a quem mais amei um dia. Sentia-me muito mais reconfortado quando vivia a ideia e contava os dias e horas. Agora, ao me deparar com a realidade, vi que vivi uma ilusão na qual era feliz. Pelo menos, quando estava preso ainda tinha uma esperança, e agora vejo que não adiantou de nada cultivá-la...
            Abaixou a cabeça, chorou mais um pouco e foi embora, deixando que seus passos o levassem para um destino incerto, onde poderia esquecer, pois esquecido ele já fora.