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domingo, 29 de junho de 2014

O fim de uma longa espera



Ele via através tênue vidraça da janela as lágrimas que o céu derramava e, lá longe, ao pé da montanha, um alguém não maior que um minúsculo ponto no horizonte. Vinha caminhando devagar, como que contando os passos, como se seus pés estivessem pesados e cansados de tanto caminhar, por já terem percorrido uma longa distância e só agora, após tanto tempo, estivessem voltando para o local de sua partida e de seu ponto de chegada. Ele tentou se levantar, mas já não tinha forças para isso. Seu corpo, já velho e cansado, estava debilitado, pois já tinha usado todas as suas energias em se manter vivo, na espera, por aquele momento, para aquele reencontro. Seu coração, que um dia fora tão forte, que batia com tanta força, mas que nos últimos anos se tornara tão frágil, batendo tão fracamente que só era capaz de lhe manter vivo, subitamente começou a bater acelerado em seu peito, fazendo-o se sentir revigorado, novamente vivo após tão longos anos. Abriu-se pouco a pouco, na sua pele enrugada e ressecada, um sorriso, algo que há tanto tempo ele não se lembrava de quando fora a última vez que seus lábios se abriram, desenhando um arco naquela face.
            Ele queria correr ao encontro daquela que tão lentamente vinha ao seu encontro, mas seu corpo se negava a atender àquele desejo, sendo obrigado a passar pelo tormento de mais aquela espera. Ela a via, mesmo de tão longe, tão claramente como a vira tantos anos atrás, tão bela, com o viço da vida brilhando e cada célula de seu corpo. Lembrava das lágrimas derramadas na despedida, momento que ficara gravado como ferro em braça na pele de sua alma, e da promessa feita por ela antes de virar o rosto e ir embora, de que voltaria, pedindo para que ele a aguardasse, para que ficasse a olhar naquela direção. E assim ele fizera, não duvidando, nunca, nas palavras dela, mas não imaginava que aquela promessa iria demorar tanto a ser cumprida.
Agora, quando ele já estava no fim da vida, quando a única coisa que lhe mantinha vivo era uma tênue linha, uma fraca força, é que ela voltava. Ela já estava mais perto, mas não perto o bastante que coubesse no espaço de um abraço, e através daquela vidraça ele já conseguia distinguir suas formas, que, reparou, estavam tão mudadas, mas tão iguais às de quando ele a viu pela última vez. Quanto mais perto ela chegava, mais difícil, para ele, era se manter vivo. Sentia a respiração difícil, o coração batendo cada vez mais fraco e os olhos pesados. Mas ele se segurou firmemente aquele fiapo de vida que ainda lhe restava para vê-la uma última vez, para estreitá-la em braços, para sentir, no abraço, seus corações batendo no mesmo compasso, antes de fechar os olhos.
Ele viu, através da janela, quando ela se aproximou e parou, como se buscasse em sua memória o momento em que vira pela última vez aquela casa que tinha diante de seus olhos, como se, subitamente, não tivesse certeza de que deveria dar mais aqueles curtos passos que a separavam daquela porta pela qual passara tantos anos antes. Ela respirou fundo duas ou três vezes enquanto pensava, e, dentro da casa, ele, percebendo a indecisão dela, prendia a respiração.
            Ela deu um passo, depois outro e mais outro, parando em frente à porta. Estendeu lentamente a mão até a maçaneta da porta, girando-a lentamente até conseguir, por fim, abri-la. Entrou na casa e demorou um pouco até seus olhos se acostumarem à escuridão. Ele a observava, deitado em sua cama. Via-a não como ela se apresentava agora, com o corpo tendo sofrido com as ações do tempo, mas como ela sempre fora em seus sonhos, como a guardara em sua memória. Ele sorriu, e quando o fez, ela olhou em sua direção, enxergando-o entre aquelas sombras que se espalhavam pelo cômodo. Veio lentamente em sua direção, com os passos que se tornaram tão curtos devido à inclemente ação do tempo.
            Os dois ficaram a se fitar, como se um não acreditasse que tinha o outro diante dos olhos, num silêncio que muito falava, ela de pé, ao pé da cama, ele deitado, lutando para se manter são e vivo.
            - Você voltou, como prometido! – disse ele com a voz sussurrante, desprendendo uma enorme força para fazer com que aquelas poucas palavras lhe saltassem pela boca.
            Ela nada respondeu, limitando-se a sorrir. Segurou na mão dele, e naquele simples toque havia tanto calor que transmitiu a ele um pouco de sua força vital. Ele, com aquele toque, sentiu-se rejuvenescer. Ele abriu os braços para recebe-la, e ela deitou-se sobre ele, num estreito abraço. Seus corações bateram em compasso enquanto seus corpos permaneceram unidos como há tempos não ficavam, como nunca deixaram de estar, mesmo quando estiveram separados.
            Foram fechando lentamente os olhos ao mesmo tempo em que puxavam o ar pelas últimas vezes e que seus corações começavam a parar de bater. Quando, por fim, a vida cessou, suas almas se levantaram, desprendendo-se dos corpos, e foram caminhando lentamente de mãos dadas. Passaram pela porta e olharam para trás, para onde seus corpos estavam, unidos, como nunca suas almas deixaram de estar. Sorriram um para o outro e seguiram seu caminho, agora efetivamente unidos.

domingo, 19 de agosto de 2012

À espera

Ele ficou longos dias ali, esperando, com os olhos voltados para a porta, na expectativa de que ela se abrisse e desse passagem àquele a quem ele tanto queria ver. Foram dias de intensa expectativa, de angústia e ansiedade em que todas as visitas que recebia eram as de pessoas a quem ele não queria ver, que vinham lhe dar notícias que ele não queria ouvir. Mas ele não perdeu as esperanças com o passar dos dias, muito pelo contrário: quanto mais tempo passava, mais ele acreditava estar próximo do dia em que a porta iria se abrir e aquele a quem esperava surgir, com um sorriso no rosto, e toda a demora e angustia provocada por ela seria desculpada em fração de segundos, assim que se estreitassem num prolongado abraço.
            Os minutos que passavam lentamente ele acompanhava observando o demorado giro dos ponteiros naquele relógio da parede. A cada vez que via a maçaneta da porta se abrindo o seu coração dava um salto, ameaçando sair por sua boca, pois imaginava que chegava ao fim a sua longa espera. Mas não era a pessoa a quem queria ver: eram apenas os mesmos rostos conhecidos de sempre, que vinham lhe administrar uma gota de esperança. Algumas diziam “não se preocupe, ele deve estar vindo”, enquanto outras apenas ficavam em silêncio, pois não sabiam o que dizer.
            O tempo é inclemente, e por mais que desejemos prolonga-lo, jamais teríamos forças suficientes para tal. A porta se abria com cada vez mais frequência, o que significava urgência e preocupação por parte daqueles que por ela passavam. Ele passou sequer piscava, pois imaginava que, quando piscasse, na fração de tempo que dura um piscar dos olhos, perderia o exato instante da entrada daquele a quem esperava com tanta ansiedade, como se sua vida dependesse daquele encontro. Havia ensaiado, naqueles longos dias de espera, mil e uma palavras que iria dizer, as quais tinha certeza ser incapaz de dizer, pois no momento do encontro palavra alguma seria capaz de expressar o que sentia, e as lágrimas lhe roubariam a voz.
            As pessoas que entravam por aquela porta, as que outrora lhe diziam algo, agora só falavam que não havia mais tempo, que o outro não viria. Aquele que esperava olhava com olhos suplicantes, pedindo apenas mais um instante, como se fosse possível pedir tempo àquelas pessoas, impotentes, que nada podiam fazer.
            Ele sabia, sentia, que não havia mais tempo, que o pouco que ainda lhe restava estava lhe escapando por entre os dedos, mas se agarrava naquela tênue esperança, que era a única coisa que lhe mantinha vivo. Mas por mais esperança que ainda tivesse guardado no peito, chegou o momento em que o tempo lhe alcançava, se esgotava e o seu coração parava de bater no peito. Com os olhos voltados para aquela porta, como se fosse a última coisa que quisesse levar daquela vida, sua alma abandonou o corpo. Só então, quando nada mais restava além do corpo, a porta se abriu de supetão e por ela entrou aquele a quem o outro esperara até o último momento. Sentiu antes de ver, que tinha chegado tarde demais. Se ao menos tivesse tido coragem de vir um pouco antes, teria dado tempo de vê-lo ainda com vida, de ouvir a sua voz uma última vez, de sentir seu corpo quente ao abraça-lo, de ao menos se despedir; mas não: fora um covarde. E ele, que tanto queria ouvir, nem que fosse um último conselho, naquele momento só fazia repetir uma palavra enquanto chorava abraçado ao corpo sem vida: “desculpe”.

domingo, 1 de abril de 2012

A Espera

Todos os dia, no mesmo horário, aquele homem saia de sua casa e ia se sentar naquele banco de praça, para ver o pôr do sol. Todos os dias, mesmo quando chovia e o sol se escondia atrás das nuvens, ele estava lá. Sentava-se no mesmo banco e ficava longos e infindáveis minutos ali, parado, esperando. Depois que o sol se punha e as luzes nos postes eram acesas, ele olhava para o céu e procurava pela lua, soltava o ar de seus pulmões, desapontado, e voltava para casa. Todos os dias havia mais de meio século, no mesmo horário, no mesmo local, com o mesmo olhar.
            Tinha filhos, mas todos já casados, cada um morando na sua própria casa, os quais nunca tinham reparado nesse hábito do pai. Sua esposa havia morrido há anos, e embora achasse estranho tal hábito do marido, nunca o questionou do por quê daquilo. Ele morava sozinho, e só esporadicamente era visitado por algum familiar, que ficava pouco tempo e sempre saía antes da hora do pôr do sol, ou só aparecia à noite, quando a lua já brilhava no alto, solitária, no céu.
            Ele já estava cansado e seus passos não eram mais os mesmos, seguros, que foram em outros tempos. Andava devagar, arrastando os pés, mas não deixava de, dia após dia, se sentar naquele banco daquela praça, com os olhos voltados para onde o sol se punha. Quando a chuva o apanhava desprevenido, enquanto se dirigia à praça, ele não se importava em se molhar. Ficava debaixo d’água e voltava para casa completamente encharcado. Mesmo quando estava doente, com febre, ele ia, ainda que ficasse menos tempo do que o habitual.
            Um dia, após tantos longos anos vivendo sempre aquela rotina, ao se sentar naquele banco, dando-se conta do quão em vão foi aquela espera, ele expirou fundo e, olhando para o horizonte, lá longe, onde o sol minguava, ele chorou. Foram lágrimas dolorosas, solitárias, que ele vinha guardando durante todo aquele tempo. Seus ombros tremiam e ele não conseguia articular uma única palavra. Suas lágrimas escorriam pelo rosto enrugado e caiam em seu peito. Quando as lágrimas secaram e ele, por fim, se acalmou, se deu conta de que o sol já tinha sumido no horizonte e a lua brilhava no alto do céu. Ele a olhou e ficou a contemplá-la, se perguntando se a pessoa por quem tanto esperava também estava, naquela hora, contemplando a mesma lua, se ela se lembrava da promessa que havia feito, tantos anos atrás. Talvez estivesse a olhar para o céu, como ele, vendo aquela lua, mas não devia mais se lembrar do que havia prometido, pois, se lembrasse, não o teria feito esperar em vão por todos aqueles anos. Levantou-se e contemplou o banco por uma última vez e olhou para a árvore próxima, onde tinha escrito, certa vez, seus nomes, imaginando que aquela marca, aquela cicatriz que deixara na pele de árvore seria tão eterna quando o seu amor. Mas a cicatriz se apagou, sumiu com o tempo, e o seu amor, a ilusão de seu amor, permanecera eterna, o mesmo amor que sentia no dia em que ela se despediu dizendo que voltaria, que viria para seus braços, na hora do pôr do sol, e que ele podia esperá-la olhando para o lado que o sol se punha. Ela não veio no dia seguinte, nem no outro, no outro nem no outro. Passaram-se semanas, meses, anos e décadas, e ela não apareceu. Ele se deixou levar pela mão, certa vez, por uma mulher, com quem se casou, teve filhos, mas que nunca amou como aquela a quem tinha amado pela primeira vez. A outra, com quem havia se casado, o amava, e seu amor lhe bastava. Ele também a amou, à sua maneira, durante todos os anos em que foram casados, até o dia em que ela fechou os olhos, mas nunca a amou no horário do pôr do sol.
            Agora estava de pé, olhando aquela árvore, para o local onde tinha escrito seus nomes, que tinham se apagado com o tempo e ele não havia se dado conta. Agora via que sua espera tinha sido em vão. Chorou, mais uma vez, deixando escorrer pelo seu rosto aquelas lágrimas silenciosas que lhe brotavam da alma. Deu as costas à árvore, à praça, ao banco e ao horizonte, onde o sol se punha, e voltou para casa.
            No dia seguinte não voltou, nem no outro, no outro e nem no outro, pois como sua espera tinha terminado, pois sua espera tinha sido em vão, não tinha mais motivo para voltar ao mesmo local, no mesmo horário, em que tinha esperado durante todos aqueles anos. Não mais voltou a abrir os olhos. Na manhã seguinte ao dia em que tinha dado às costas ao horizonte, foi visitado, enquanto dormia, por uma mulher, que pegou suavemente sua mão e o conduziu para o alto, onde poderiam contemplar o pôr do sol por toda a eternidade, juntos.
            Ele, enquanto era levado, olhou para ela, para dentro de seus olhos, e disse:
            - Mas eu te esperei todo esse tempo, e você nunca veio!
            - Eu vim, todos os dias, e ficava ao seu lado, olhando o mesmo sol. Eu era a presença, a esperança do reencontro, todo dia, que fazia você voltar no dia seguinte – respondeu ela.
            Ele tinha tantas perguntas, tinha tanta coisa a falar, mas ela não deixou. Cobriu seus lábios com os dedos da mão direita, pedindo silêncio. Chorou, pedindo desculpas.
            Os dois, de mãos dadas, agora andavam lado a lado, em direção ao nascer do sol.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Hoje... tão só... tão longa espera

Hoje eu estou sozinho. Posso ouvir o som do vento batendo na janela, o canto dos pássaros; posso olhar para o céu e ver seu azul e suas nuvens tão delgadas, de um branco imaculado, puras como o sorriso de uma criança.
Hoje posso sentir a vida correndo em meu corpo, pois estou só comigo mesmo. Posso sentir o sangue correndo em minhas veias, sentir o ar entrando em meus pulmões, posso-me sentir simplesmente vivo. Sentir as batidas do coração, olhar ao longe com visão clara e ouvir todos os sons ao meu redor, ou posso ouvir simplesmente o palpável silêncio.
Hoje, sozinho, posso fazer tudo, ou posso fazer nada, ou ficar apenas observando o tempo passar, ora lento como uma eternidade, ora rápido em sua loucura desvairada.
Hoje posso sentir todos os meus sentidos. Posso tudo ver, mas posso fechar os olhos e nada enxergar; posso ouvir os sonhos, ou ficar em silêncio; posso sentir o cheiro da vida, da mesma forma que sinto o aroma do não-cheiro; posso sentir o calor na pele ao abraçar o mundo, ou abraçar a mim mesmo; posso sentir o gosto doce da vida, ou ficar com o não-gosto da solidão na boca.
Hoje, tão só, posso dar mil voltas em torno de mim mesmo, em uma espécie de círculo vicioso, posso andar de um lado a outro, ou posso ficar parado, cansado de tanto fazer e a canto algum chegar.
Hoje, a sós comigo mesmo, tenho todo o tempo do mundo, ao mesmo tempo em que não tenho tempo a perder.
Hoje, tão só, nessa longa espera, só me resta esperar, até alguém chegar, até alguém chamar meu nome, até alguém me dar um abraço e acabar de uma vez por todas com essa solidão que tanto me faz bem, mas que, ao mesmo tempo, me faz tanto mal.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O Homem que esperava

O tempo passava lento, se arrastando, e o homem continuava ali, no mais completo silêncio, inteiramente sozinho. Até seus pensamentos tinham lhe abandonado. Ele apenas observava as pessoas, indo e vindo, para onde, ele não sabia, de onde, não lhe importava. Ele apenas as observava. Via o homem de terno e gravata indo apressado para o trabalho, falando ao celular, acertando, por certo, algum detalhe sobre a reunião do trabalho, ou reclamando de sua eterna falta de tempo; via a bela mulher, vaidosa, que caminhava sem olhar para os lados, sem se importar com os olhares desejosos dos homens . Via os estudantes barulhentos, falando alto, gesticulando, que não se importavam com o futuro que se aproximava cada vez mais rápido. Também via os casais, que passavam discutindo, como se, em sua pressa, não tivessem tempo e oportunidade de discutir em casa, quando chegassem do trabalho. Via pessoas de todos os tipos, cores, credos, umas vestidas de forma elegante, outras usando fardas, outras usando simplesmente roupas comuns, as mesmas que usam todos os dias quando estão em casa.
            Esse homem não estava triste nem feliz. Na verdade, ele se sentia, naquele momento, como se estivesse e fosse livre de qualquer sentimento. Ele não mais trabalhava e tinha todo o tempo só para si, para observar sem precisar ser observado por ninguém. Era velho, mas não de uma velhice que não se podia definir exatamente. Devia ter entre cinquenta e sessenta anos. Tinha cabelos grisalhos e uma expressão cansada no rosto, mas seus olhos ainda eram cheios de vida. Tinha um olhar penetrante, e por isso observava tão atentamente as pessoas.
            Em meio a todo aquele caos, que era o ir e vir das pessoas, ninguém atentava para ninguém, muito menos para o homem sentado, sozinho, naquele banco. Em seu colo pousava um jornal, que ele sequer tinha aberto, pois as notícias daquele dia não lhe interessavam, pois o tempo presente, naquele momento, não lhe dizia nada. Aliás, tempo algum lhe interessava. Ele apenas observava as pessoas e sentia o tempo passar vagaroso. Ele não chama a atenção de ninguém, mesmo por que, ninguém tem tempo para parar e olhá-lo atentamente, nem que seja por apenas cinco segundos.
            Como que acordando de seu estado de transe, o homem percebe, pela primeira vez naquele dia, que está só, mesmo havendo tanta gente ao seu redor. Mas ele não se importa com a solidão, pois já está acostumado com a sua companhia constante ao longo de toda a sua vida. Sempre fora só.
            Vinha de todos os cantos barulhos distintos, de ora passos acelerados, de pessoas que estavam atrasadas para seus compromissos, ora lentos, de pessoas que voltavam para suas casas, após um longo e estafante dia de trabalho.
            O sol nasceu, descreveu sua trajetória no céu e estava para se pôr no horizonte, e o homem continuava ali, na mesma posição, imóvel. Só seus olhos se moviam, fitando ora uma pessoa, ora uma outra. Não as observava mais do que o necessário. Observava-as o suficiente apenas para conhecê-las, nem que fosse apenas superficialmente. Olhava todas as pessoas que passavam a sua frente, mas nenhuma o via ali, sentado, tão observador e curioso.
            Naquele momento, quando o sol ia descansar e as primeiras luzes se acendiam, ele sentiu, talvez pela primeira vez na vida, o desejo de uma companhia. Mas quem poderia, naquele momento, lhe fazer companhia, se todos passavam sem notá-lo, cada um preocupado só e unicamente com sua rotina, com seu dia a dia, com seu próprio umbigo?! Ninguém o notou, nem quando ele se levantou e começou a caminhar de um lado para o outro, por entre a multidão que, ainda àquela hora, ia e vinha muitas vezes sem saber para onde nem por quê.
            Mas mesmo cercado por dezenas de pessoas, entre aquela multidão, ele se sentia sozinho. Voltou a se sentar e ficou ali longos minutos, pensativo, sentindo-se mais sozinho do que estava antes. Foi quando sentiu um olhar sobre si. Levantou-se de um salto procurou ao seu redor, entre aquelas pessoas a que o estava observando, mas não encontrou atenção sendo lhe dispensada entre aquelas pessoas, olhar algum entre tantos olhos. Mas sabia, sentia, que um alguém o observava. Desesperado de tanto procurar sem encontrar tais olhos, deixou seus olhos caírem sobre uma menina, que mesmo distante, o observava. Ela sorria, observando-o. Ele sorriu de volta e naquela troca de olhares, ele rejuvenesceu décadas em apenas alguns segundos. Ela foi embora, se despedindo antes com um breve aceno e um grande sorriso. Ele voltou a se sentar em seu banco em êxtase, afinal de contas, todo aquele dia tinha valido apenas para receber apenas aquele belo sorriso. Pegou seu jornal, que estava inteiramente amassado, mas continuava fechado, colocou-o debaixo de braço e foi embora, para sua casa.
            Onde ele mora? Em todo lugar e ao mesmo tempo em nenhum. A única certeza sobre ele é que no dia seguinte ele estaria de volta, sentado no mesmo banco, esperando que, em algum momento do dia, um alguém o notasse e simplesmente lhe sorrisse, para fazer seu dia valer a pena.