Mostrando postagens com marcador tempo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador tempo. Mostrar todas as postagens

domingo, 1 de junho de 2014

Tempo...

Tenho muita saudade dos tempos em que eu tinha todo o tempo do mundo pela frente, que não precisava olhar para o relógio, contar o tempo, ansioso, esperando que chegasse logo a hora certa ou que a hora se arrastasse tão lentamente quanto uma eternidade que daria tempo de fazer tudo.
            Tenho muita saudade dos tempos em que eu tinha o meu próprio tempo, que não era refém de um relógio, que fazia as minhas coisas seguindo a minha hora exata, sem me preocupar com a perda de tempo, pois eu tinha todo o tempo do mundo à minha disposição.
            Tenho imensa saudade do tempo em a palavra tempo não constava em meu dicionário, e que se era citada, não tinha a conotação que adquiriu nos dias de hoje.
            O tempo é cruel. Ele passa, ele engole, ele atropela tudo que encontra pela frente e não aceita ser subjugado por quem quer que seja. Mas o tempo, por mais forte e inclemente que seja, jamais irá ser capaz de apagar uma saudade que deixou, a lembrança de um momento em que, quando o relembramos, somos total e inteiramente livres da ação do tempo, que podemos manipulá-lo e fazê-lo ver que, apesar de todos os pesares, ainda somos livres e que, por mais que ele nunca deixe de passar e nos leve sempre em sua onda, ainda nos resta uma migalha de um tempo que é só nosso, que fazemos dele o que bem entendemos, em que a palavra tempo não existe, ou que pelo menos o seu significado não é esse, cruel, que o temos na maior parte do tempo...

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O homem que não tinha tempo

Ele tinha muita pressa. Corria sem parar de um lado para o outro, impaciente. Não conseguia conceber a ideia de esperar um pouco para que as coisas dessem certo: queria tudo “pra ontem!”, como costumava dizer. Para ele, “desperdiçar tempo é desperdiçar dinheiro”, e ele nunca tinha tempo algum para nada, nem para usufruir de todo o dinheiro que tinha conseguido acumular ao longo dos anos, fruto de seu trabalho e da falta de tempo. Contava os segundos. Tudo seu era rigorosamente cronometrado, desde as horas de sono, o tempo do banho e até o tempo dedicado para fazer amor com sua esposa; esposa com quem ele nunca saia à noite ou numa tarde de domingo, com quem ele vivia há anos, mas nem ele mesmo sabia há tanto tempo estavam juntos (logo ele, que tinha “o tempo nas mãos”).
            Seu tempo ia passando rápido, e ele sempre a reclamar que não tinha tempo para nada. Seus filhos foram crescendo sem que ele se desse conta. Um dia, haviam nascido, passado algumas noites chorando (incomodando seu precioso tempo dedicado ao sono), e na hora seguinte estavam já adolescentes, entrando na universidade, para em seguida já serem adultos, constituindo suas próprias família, e só percebeu isso, que seus filhos não moravam mais na mesma casa que ele, quando, por um acaso, ele estava em casa, num feriado, quando não tinha nada para fazer, que os chamou. Ninguém respondeu. A enorme casa onde morava estava vazia. Tornou a chamar um a um pelos nomes, e a única resposta que teve foi o silêncio. Abriu a enorme e pesada porta do seu escritório e olhou pelo longo corredor. Nenhum eco de um único passo! Voltou contrariado para dentro do escritório, quando bateu os olhos numa série de porta-retratos. Neles havia fotos de todos os principais momentos da vida da família: a esposa grávida, os meninos pequenos, os primeiros passos, os aniversários, fotos de escola, viagens na adolescência, formatura, casamentos, entre outros tantos momentos retratados. Em todas as fotos havia algo em comum: em nenhuma delas, ele estava presente. Lembrou-se, então, das desculpas que dera para cada uma daquelas ausências: não tinha tempo para estar presente.
            Sentia, agora, o peso da idade, dos anos acumulados sobre os ombros e do tempo perdido. Fechou os olhos e jogou todo o peso de seu corpo desabando na poltrona, que protestou contra aquele repentino golpe. Numa mesa ele viu uma foto de sua esposa, uma foto antiga, de quando se conheceram. Estava linda, com seu sorriso radiante naquele dia, e ele sorriu ante essa lembrança. Chamou-a pelo nome, depois pelos apelidos carinhosos com que a tratava. Ela não apareceu. Tornou a chamar, quase gritando, com insistência, até perder a voz. Quando cansou, deu por si e os ecos de uma lembrança, de palavras, começaram a vir à sua mente. Nessas palavras, que lhe chegaram vindas de tão longe, lhe davam conta da morte repentina de sua esposa. Ele estava envolvido, como sempre, em importantes negócios, e não chegou a tempo do velório e enterro. Apareceu em casa vários dias depois, e mesmo muito triste pela perda de sua companheira de tantos e tão longos anos, só ficou uns breves minutos no cemitério, em frente a sepultura da esposa, esperando em silencio que, de alguma forma, ela lhe dissesse algumas palavras que lhe desculpassem por mais essa falta cometida pela falta de tempo. Sentiu-se decepcionado, como que tivesse perdido um precioso tempo ali, e não obtivera resposta alguma.
            Com os olhos marejados das lágrimas que nunca tivera tempo de dar vazão, levantou-se e, às cegas, caminhou pelos amplos e vazios aposentos de sua casa. Viu os quartos dos filhos como nunca havia visto antes, passou por enormes salas que nunca eram usadas, pela cozinha ampla tão com cheiro de vazia e entrou no seu quarto e se sentou na cama que dividira com a esposa. Ali chorou copiosamente, como nunca antes havia chorado em sua vida. Quando o pranto cessou, levantou-se e caminhou a esmo pelos cômodos da casa, todos repletos de ecos de lembranças às quais ele não tinha, pois não estivera presente pela simples falta de tempo para coisas tão banais (e essenciais) da vida!
            Em sua caminhada pela casa vazia, seus passos acabaram por levá-lo até um enorme espelho. Ele então levantou a cabeça e se mirou nele. Não reconhecia aquele homem que via no reflexo do espelho. Aquele rosto não era o seu, aqueles cabelos, aquelas rugas, aquela expressão cansada, aqueles olhos... nada naquele que via no espelho representava ele! Mas ao se mirar melhor, percebeu que aquele no reflexo do espelho era ele, sim, muito mais velho, tendo sofrido a ação do tempo e dos anos passados, pesados, sobre seus ombros. E enquanto se olhava no espelho, percebeu uma sombra se aproximando lentamente, e foi só então, quando viu sua face, se deu conta de que o seu tempo tinha findado, de que naquele momento, realmente, não lhe restava mais tempo.

domingo, 15 de setembro de 2013

Um rosto estranho no espelho



Ao ver o seu próprio reflexo no espelho a olhar dentro de seus olhos, ele se deu conta do quanto o tempo tinha passado sem que ele se desse conta. Não reconhecia as rugas-cicatrizes que o tempo tinha escavado em sua pele nem fazia ideia de quando e como elas surgiram; não reconhecia mais aquele olhar, cansado, fugidio, que não conseguia enxergar mais nada além daquilo que lhe aparecia perante os olhos, tão diferente daquele que conseguia olhar ao longe e vislumbrar mil e um futuros que poderia ter; não conseguia ver sombras daquele sorriso largo e franco de outrora. Baixou os olhos, pois não conseguia mais ver refletido no espelho, transformado em um alguém que não conhecia.
            O tempo havia passado sem que ele tivesse se dado conta, e só percebia isso agora. Perguntava-se o que tinha acontecido com todo o tempo do mundo que tivera há muito tempo, perguntava-se como o tempo pôde correr e escorrer por entre seus dedos sem que nada pudesse fazer para contê-lo. Não era mais o jovem da juventude eterna que pregou que seria certa vez, não havia se transformado no homem que imaginou que iria se transformar. Ao invés desses, o que tinha diante de si, no outro lado, no reflexo do espelho, era um homem acabado pelo tempo, já cansado.
            Triste com o tempo que não tinha mais, com o futuro que não se tornaria presente, ele abaixou a cabeça e se deixou sentir todo o peso daqueles anos todos caírem sobre seus ombros. Era uma carga pesada, difícil de suportar, e ele só a muito custo, só desprendendo uma força sobre-humana, conseguia se manter de pé, firme. Olhou novamente para aqueles olhos que não eram os seus e viu deles brotarem grossas e doídas lágrimas, que ele viu escorrerem pelos tortuosos caminhos e curvas traçados pelas rugas do rosto, para depois saltarem em mergulhos suicidas em direção ao chão.
            Na medida em que as lágrimas iam brotando em abundância de seus olhos e escorrendo pelo rosto, o peso do tempo que tinha sobre seus ombros foi diminuindo, as cicatrizes deixadas pelo tempo, sendo curadas, e seus olhos, ganhando o mesmo brilho de outrora. Fechou os olhos e quando os reabriu, deu-se conta de que tudo não passara de um sonho. Passou as mãos pelo rosto e sentiu a sua pele, sem marcas, sem rugas, sem cicatrizes. Inspirou fundo, deixando que o ar inundasse seus pulmões e se espalhasse por seu corpo, e expirou longamente, expulsando as lembranças daquele pesadelo. Com os olhos fechados, no mais completo silêncio e paz de espírito, ele ficou, até que foi despertado de seu devaneio pelo forte barulho de algo que quebrava com um forte estalo. Assustado, ele abriu os olhos e foi até o local de onde julgava ter vindo o barulho, e viu, que se tratava do espelho que havia quebrado, que tinha acabado de ganhar uma enorme cicatriz que o atravessava de ponta a ponta. O homem respirou aliviado e fechou os olhos, e quando os reabriu viu que o espelho estava intacto, como sempre estivera. Deu passos curtos e inseguros em direção a ele, e quando estava à sua frente, levantou os olhos, ainda temeroso do que e de quem iria encontrar refletido. Viu-se refletido tal como era, com os mesmos olhos, com a mesma fisionomia, e só então conseguiu respirar aliviado.

sábado, 31 de agosto de 2013

As horas de nossa vida



Toda a nossa vida está calcada e gira em torno do tempo, da hora exata, do instante exato e tudo começa no exato momento em que a preciosa semente de nosso pai é plantada no fértil solo-uterino de nossa mãe. A partir desse instante, começa-se a contagem regressiva para que sejamos colhidos e postos nesse louco mundo regulado por relógios...
            Após longos e maravilhosos nove meses, somos colhidos do solo-uterino pelas habilidosas, porém desconhecidas, mãos de um médico que nos arranca do aconchego de nosso primeiro lar. Recebemos, em seguida, um atestado dizendo a nossa “primeira hora no mundo” em que consta o horário de nosso nascimento. Quando bebês, somos totalmente regulados pelas horas de nosso organismo: hora de mamar, hora de acordar, hora de trocar a fralda, hora de tomar banho, e são tantas e tantas e tantas e tantas horas infindas, tantas madrugadas em claro até conseguirmos nos adequar às rotinas e horários, acertar os ponteiros de nosso relógio biológico de acordo com o relógio desse novo mundo no qual fomos jogados.
            Somos e vivemos tantas horas em nossas vidas... Por vezes são horas maravilhosas que passam depressa, mas há, também, as horas que se arrastam numa longa tortura que parece nunca ter fim. Odiamos, quando crianças, quando os nossos pais surgem e nos dizem que está na hora de dormir. Tentamos argumentar e por vezes até choramos dizendo que não estamos como sono, mas eles são inflexíveis, e nos põe na cama e nos cobrem com um maravilhoso e quentinho cobertor. Odiamos mais ainda as longas horas de tortura que são, na escola, as aulas de matemática, a que somos obrigados a assistir e a tentar prestar atenção e entender aquelas lógicas e a decorar aquelas fórmulas... Mas adoramos, em contrapartida, quando ouvimos o sinal do fim da aula, que nos devolver a liberdade roubada, que nos mantém preso daquela prisão chamada escola. Adoramos, também, em nossos aniversários, quando chega a hora de cantar o parabéns, quando somos o centro das atenções e que recebemos todas aquelas felicitações vindas de tantas vozes. Adoramos a hora que nossos pais nos liberam e dizem “pode ir brincar”. Adoramos quando o sol se põe e as sombras da noite aparecem, em que podemos brincar de esconde-esconde.
            Na adolescência, são outras horas que fazem sentido, que marcam, que amamos e que odiamos. Por exemplo, a hora de acordar, que é um tormento diário a que estamos sujeitos. Todos os dias queremos dormir mais um pouco, pois temos a certeza absoluta que “ainda dá tempo”, que podemos tirar “só mais um cochilo”, mas que nunca nos é permitido mais esse momento. Nessa época da nossa vida, nunca somos pontuais: ou chegamos sempre atrasados, ou nossa ansiedade nos obriga a chegar sempre antes. Somos ansiosos por natureza, queremos as coisas “pra ontem” e nunca sabemos (nunca queremos) esperar pela hora certa, pelo momento exato em que tudo está fadado a acontecer. Adolescência e fase de mudanças e descobertas, e a cada momento é uma nova. É o primeiro beijo que nos marca, o exato instante em que os lábios se encontram e em que as línguas desajeitadas se enroscam; é a descoberta do sexo, do primeiro gozo, este tão maravilhoso, tão intenso, que por mais curto que tenha sido o instante de sua explosão, é um momento glorioso de nossa vida, uma hora que ficará marcada eternamente em nossa memória. É, também, na adolescência, em que nos damos, talvez pela primeira vez, conta de que fazemos efetivamente parte desse mundo, e que começa a nossa briga por um lugar ao sol, mas com direito de poder desfrutar de uma boa sombra. A briga e o tormento da escola continuam (principalmente os tormentos das aulas de matemática), mas aprendemos a suportá-las, pois sabemos que o tempo passa e que lá na frente, num futuro que não e tão distante assim, tantas “horas perdidas” serão recompensadas...
            Na transição da adolescência para a primeira fase de nossa vida adulta, somos obrigados a esperar pela hora em que serão divulgados os nomes dos aprovados no vestibular. Ficamos contando as horas, vendo todos aqueles nomes passando na televisão, esperando para ver o nosso, para ouvir o nosso nome sendo lido, e quando isso acontece, exultantes de alegria, parece que nos passam flashs em nossa cabeça, um do passado, de tudo que passamos para chegar até ali, das longas horas das aulas, das horas dedicadas ao estudo, dos cansativos aulões, e um do futuro que está se descortinando perante nossos olhos. A partir daquela hora exata nos sentimos não mais criança nem adolescente, mas sim adultos. É nessa fase de nossa vida em que o apego a hora exata tem que ser seguido a risca: é hora pra estudar, hora pra fazer trabalho, hora pra fazer nada (raríssimas!!!), hora pra descansar, hora de enviar trabalhos para serem revisados pelos demais membros do grupo da universidade. Depois vêm as horas do estágio, a hora limite para a entrega do trabalho final de curso, a hora de nossa primeira entrevista de emprego... Ah, e quão felizes ficamos quando recebemos a notícia de que fomos aprovados nos testes, de que tal dia e a tal hora começaremos! Temos uma hora exata para chegar no primeiro dia de trabalho, mas nossa ansiedade é tamanha que nos obrigada a chegar horas antes...
            Na verdadeira fase adulta, ficamos presos às horas, ao relógio, às rotinas. Somos obrigados a estar o tempo todo com um relógio por perto, para não nos atrasar para tal compromisso, para não perder a hora de enviar tal relatório. São tantas horas exatas a que temos que ter sempre em mente que ficam em falta as horas que deveríamos dedicar a nós.
E assim segue a vida, com suas mil e uma horas, umas que adoramos, outra nem tanto, umas pelas quais esperamos tão ansiosamente, outras que queremos protelar eternamente sua chegada. Esperamos ansiosamente pelo exato instante em que ouviremos pela primeira vez o primeiro choro de nosso filho e pela primeira vez em que eles nos chamará de “papai” ou “mamãe”, pela primeira vez em que o veremos dar seus primeiros e desajeitados passos, pelas horas longas em que morremos de preocupação quando, já na adolescência, o esperamos chegar de uma festa que tão insistentemente pediu permissão para ir, e que mesmo sem ser de nosso gosto, permitimos. Não queremos, nunca, que chegue a hora da partida de entes tão queridos, mas acabamos nos conformando, pois tais momentos fazem parte do curso natural da vida.
Não nos esquecemos jamais do exato momento em que nos olhamos no espelho e vemos o nosso reflexo e percebemos o efeito do tempo sobre nós, que sentimos todo o seu peso sobre nossos ombros, e nos damos conta de que, em seu curso natural em que o relógio continua a correr, em breve (que torcemos para que não seja tão breve assim) chegará o momento em que, no alto do relógio, os ponteiros irão se encontrar e que chegará o exato instante, a hora exata em que fecharemos os nossos olhos...

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Encerriniciando ciclos



Amanhã eu completarei trinta anos, e só me dei conta disso hoje, na véspera de meu aniversário. Nunca fui ligado a numerologia, números cabalísticos e seja lá que óticas astrológicas e esotéricas venha a ser, mas fato é que chegar ao trinta anos me fez olhar para trás e pensar e outros tantos aniversários e em outras tantas vésperas de aniversário de minha até aqui tão curta vida.
            No dia 17 de julho de 1988, na véspera de meu aniversário de cinco anos, eu ainda era um menino, e a minha única preocupação era com a festa que a minha mãe estava preparando para o dia seguinte. Fiquei o dia inteiro a pensar se todos os meus primos e amigos viriam e que presentes iria ganhar. Ficava fantasiando se tal tio iria me dar tal brinquedo e passava minutos a fio pensando, devaneando, brincando com o brinquedo sem sequer tê-lo ganhado (ainda). Mas também ficava com raiva por antecedência, só em pensar que tal tia distante iria me dar roupa, e eu, como todo menino, odiava ganhar roupa de presente de aniversário! Aquela idade que iria chegar no dia seguinte representava o encerramento de um ciclo e início de um outro, em que deixava de ser um Menininho e passaria a ser um Menino, uma criança, e não mais um “bebê da mamãe”. E naquela fatídica noite, não dormi, tamanha a ansiedade que sentia, desejoso de completar logo meus cinco anos.
            Em 17 de julho de 1993, quando no dia seguinte eu iria completar meus dez anos, eu já não era só um menino, e já queria que chegasse logo o dia seguinte, em que eu completaria meus dez anos e passaria a ser tratado (e me veria) como um rapaz. Minha mãe tinha passado o dia inteiro nos preparativos de minha festa de aniversário, minha “ultima festa de aniversário” nas palavras dela. Era uma data e uma festa especial, e tudo nos arranjos representava isso: nada de artigos multicoloridos e, ao invés disso, tudo representava as cores do Brasil, da seleção brasileira de futebol, pois eu, como todo menino (digo, rapaz!) da minha idade, era vidrado em futebol, e meu sonho era um dia me tornar jogador profissional e defender a seleção brasileira numa Copa do Mundo. Nessa idade que estava completando, dez anos, ainda somos meio crianças mas com espíritos, sonhos e devaneios de um alguém mais velho. Podemos não ser tudo o que podem ser as crianças, pois esse ciclo de minha vida já estava sendo fechado, mas sim sabemos o que queremos ser naquela nova fase da vida que se descortinava perante nossos olhos.
            No dia 17 de julho de 1998, quando eu estava para completar meus quinze anos, eu já não era nem criança, nem menino, nem rapaz, mas sim um adolescente, um “homem em formação”, e me sentia como tal. Nesse dia em especial, nessa véspera de tão importante data de minha vida, eu me sentia triste, pois há apenas alguns dias eu havia perdido o meu pai. Além disso, quando vamos “ficando mais velhos”, “ganhando experiência”, ou seja lá como chamem o processo natural de envelhecimento e se aprendendo na vida, a gente vai tomando, aos poucos, um “choque de realidade” e passa a enxergar a vida sem lentes, sem distorções. Os sonhos agora passam a ser muito reais, e eu não queria mais ser jogador de futebol, pois além de saber que seria muito difícil de realizar tal sonho, estava muito decepcionado com o futebol e a seleção brasileira, e, além do mais, estava meio que prevendo o que iria nos aprontar na final daquela Copa a França de Zidane. Quinze anos para mim, um adolescente tímido que era (e continuo a ser tímido, embora não mais adolescente), representava muito para mim, pois embora ainda tão jovem, já possuía alguma boa noção do que a vida tinha pela frente. Minha ansiedade, nesse dia em especial, era que no dia seguinte eu seria (me sentiria) mais “maduro” e que talvez isso significasse algum fim da timidez que me assolava desde que “eu me entendo por gente”.
            Quando, no dia seguinte, eu faria os meus dezoitos anos, em 17 de julho de 2001, e estava adentrando na idade adulta, embora ainda não recaísse sobre meus ombros todas as responsabilidades que a idade e vida adulta; estas estavam me vindo bem aos poucos, em doses homeopáticas. Estava ansioso, pois, no dia seguinte iria trazer a minha primeira namorada (demorei para ter minha primeira namorada por conta de minha patológica timidez) para apresentá-la à minha mãe e algumas pessoas da família, que viriam a minha casa para uma pequena festa, bem pequena, “só para não passar em branco”, como minha mãe disse. Estava encerrando mais um ciclo em minha vida e iniciando uma nova fase. Já havia entrado na universidade, já tinha minha primeira namorada e já vislumbrava um futuro próximo; já tinha uma série de responsabilidades e por isso me sentia um pré-adulto.
            Em 17 de julho de 2004, as vésperas de adentrar de vez na maioridade, quando, no dia seguinte eu completaria meus vinte e um anos, eu me sentia um tanto quanto perdido. Já havia feito tantos planos, já havia sido tantos eus e já tinha sofrido algumas decepções. Estava excessivamente taciturno naquele dia (e ficaria ainda mais no seguinte), pois, como todo mundo que está chegando a essa idade, eu tinha pressa excessiva, e queria tudo pra ontem. Ainda não tinha um emprego de verdade (estava fazendo um estágio na universidade), e tinha pressa de conseguir logo um; as namoradas que tive me causaram certa decepção, e por isso mesmo, pela minha natureza mais propensa a melancolia e dramática, sentia-me inseguro e com medo de vir a ter novas decepções; e queria conseguir tudo o quanto antes, pois tinha a impressão de que o tempo estava passando muito depressa, os anos estava passando muito rápido, e eu não tinha conseguido e construído nada de mais sólido e efetivo em minha vida! Tinha medo do que esse novo ciclo que se iniciava em minha vida e queria, a todo custo, me segurar e permanecer no anterior por mais alguns anos, pelo menos até me sentir realmente preparado, mas o tempo não para, os anos, os meses e os dias continuam seu percurso natural, e no dia seguinte eu seria obrigado pela vida a dar mais um passo em minha vida. Não havia planejado nada para o dia seguinte, e só sabia que o dia seria longo, e que o ciclo seguinte seria beeeemmmm loooonnnngo...
            Hoje, 17 de julho de 2013, estou prestes a completar meus trinta anos e a iniciar um novo ciclo de minha vida, que já não é mais tão curta, mas que ainda não constitui uma vida longa. Ainda não construí tudo que gostaria, mas não tenho a pressa que tive há alguns anos (aniversários) atrás, e sei (aprendi) que nada na vida é “pra já”, que tudo se dá em seu devido tempo, que as coisas acontecem um passo depois do outro. Tenho, ainda, óbvio, mil e um planos para a minha vida, para os próximos 5, 10, 15, 18, 21 e 30 anos; tenho tantos planos que seriam necessárias pelo menos mais 10 vidas plenas e inteiras para vivê-los e realizá-los. Mas o que importa a realização dos sonhos? O que importa, realmente, é o sonhar! O que me vai acontecer amanhã, eu não sei (não tenho o dom de prever o futuro!), mas sei que estarei iniciando um novo ciclo, que estarei dando um novo passo, e que, embora não crendo na cabala e na numerologia, é sempre bom a gente se prender não a números, não a significados, mas a cada momento, a cada fato que a vida nos proporciona.