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sábado, 20 de fevereiro de 2016

O Eco de uma voz


Ontem eu fui dormir triste.
Ministrei uma aula de literatura em que correu tudo bem: usei um belo e tocante vídeo (curta de animação) que contagiou e arrancou risos e lágrimas de algumas pessoas da plateia; a conversa sobre paixão pela arte das letras correu maravilhosamente bem, com as pessoas interagindo, anotando os nomes dos autores e livros que mencionei para, assim que terminasse a aula, pudessem correr à livraria mais próxima a fim de comprar as obras; ao final de aula, reservamos um espaço para discussões diversas e para uma breve, porém essencial, confraternização. Finda as formalidades da aula, sai do auditório com a sensação de dever cumprido, de que dei o meu melhor, de que a semente de literatura fora planta e que iria germinar, dar um pequeno broto, se tornar uma plantinha, que vai fincar bem fundo suas raízes, que se tornará uma frondosa árvore. Mas, ao chegar a casa, recebi uma triste de notícia que me deixou um tanto quanto abalado e me fez demorar a pegar no sono: Umberto Eco morreu!
Mas como assim, morreu?! Eu havia acabado de ministrar uma aula em que, mais uma vez, o usei como exemplo, mencionei suas obras, falei de sua importância não só para a literatura, mas para toda a cultura ocidental! E ao chegar a casa, a notícia que me tirou o chão, que me fez sentir um imenso vazio no peito e nas estantes onde guardo meus livros, que com que passasse sentir um sentimento de orfandade...
A literatura, ao longo dos séculos, passou por diversas transformações e evoluções. Vivemos uma Era de Formação, verdadeiramente Mitológica, em que nomes tão distante, mas ao mesmo tempo tão próximos, surgiram e moldaram a nossa forma de escrever, de ver o mundo, de sentir as palavras. Homero, Esopo, Sófocles, Eurípides, Virgílio, Dante, Shakespeare, Camões, Rabelais, Racine, Montaigne, Cervantes e tantos e tantos e tantos outros que fazem parte de nosso imaginário e que já foram incorporados ao nosso código genético, que tiveram e têm um papel fundamental na nossa formação humanística.
Depois dessa época, que lançou as bases e alicerces da nossa literatura e da nossa cultura, vivemos uma Era de Ouro entre o século XIX e primeiros anos do XX. A literatura se espalhou por todo o corpo. Se antes era somente o gene, agora passou a ser um aglomerado de células compondo um tecido, depois um órgão e, por fim, Sistema que propulsiona o nosso organismo e nos mantém vivos. Em todos os países surgiram gigantes que assombraram a literatura e a cultura mundial. Jane Austen, Charles Dickens, as irmãs Brontë, Stevenson e Thomas Hardy; Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós; Stendhal, Honoré de Balzac, Alexandre Dumas, Victor Hugo, Gustav Flaubert, Émile Zolá, Maupassant, Baudelaire e Malarmé; José de Alencar, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Machado de Assis, Lima Barreto e Olavo Bilac; Goethe, Schiller, Novalis, Heine e Rilke; Pirandelo e Lampedusa; Puchkin, Gógol, Turgueniev, Dostoievski, Tolstoi, Tchekhov e Gorki; Poe, Hawthorne, Melville, Whitman e Twain; Kazantzakis e Kavafis; isso para citar somente uns poucos, pois se fôssemos citar todos, não caberia num único texto.
Na primeira metade do século XX, ainda sob o eco da Era de Ouro, que vinha perdendo relativa força, as principais “potências culturais e literárias” europeia perderam um pouco de força, muito embora tenham nos legado grandes gênios como Kafka, Brecht, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Mário de Sá-Carneiro, Unamuno, Pasternak, Maikóvski, Oscar Wilde, Lawrence, Virgínia Woolf, James Joyce, Hesse, Thomas Mann, Proust, Sartre, Beauvoir e Sartre. Poucos comparado ao período anterior. Fato é que a literatura mudara de ambiente, e alguns dos grandes nomes nascia do outro lado do oceano. Borges, Casares, Mistral, Neruda, Donoso, Onetti, Octávio Paz e Juan Rulfo foram os que puxaram o boom latino-americano com sotaque hispânico; mais ao norte, Faulkner, Hemingway, Steinbeck, Salinger, Henry Miller, Capote e Eugene O’Neill; o Brasil viveu sua Era de Ouro entre as décadas de 1930 e 1950/60, com nomes como Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Graciliano Ramos, Rachel de Queirós, Jorge Amado, José Lins do Rego, Érico Veríssimo, João Guimarães-Rosa e Clarice Lispector; esses e outros passaram a assombrar o mundo com uma poderosíssima, mas até então desconhecida por muitos leitores, literatura, que passara subitamente a ser obrigatória em toda e qualquer estante de livros ao redor do mundo.
No entanto, mesmo com tantos nomes, mesmo com tantos autores tendo surgido num curto espaço de um século e meio, a maternidade literária, os tempos seguintes não foram tão generosos conosco, pobres e apaixonados leitores. Vieram, sim, Saramago, Garcia-Márquez, Llosa, Calvino, Philip Roth, Paul Auster, Kundera, Coetzee, Chimamanda Ngozi Adichie, Chinua Achebe, Pepetela, Ondjaki e Mia Couto. Poucos, pouquíssimos diante da nossa sede de literatura, da necessidade intrínseca que temos de mais, mais e mais grandes autores. Desses, Calvino, Saramago, Gabo e Achebe já nos deixaram; Roth se aposentou; Kundera há tempos não lança uma obra que nos deixe em êxtase, e mesma coisa se aplica a Coetzee; Llosa e Auster até lançam bons livros, mas nada que se comparam aos seus livros de alguns anos atrás. Resta-nos, portanto, a poderosíssima Chimamanda, uma verdadeira ilha literária que surge em meio a um tempestuosos oceano, que assombra por sua literatura lírica, poderosa e politizada, e os africanos de língua portuguesa, que, além de tudo, fazem um trabalho excepcional em prol da língua, divulgando mais do que literatura, promovendo em todo o mundo um vasto universo cultural que é produzido pelos falantes de língua portuguesa. Com estes, restam-nos pouquíssimos autores que ocupam “lugar de honra” nos nossos corações-literários e nas nossas estantes.
Com a recém-perda de Umberto Eco, um súbito vazio intelectual nos toma. Eco tornou-se uma figura presente, respeitada e admirada em todo o mundo por sua inteligência e postura, como um dos maiores intelectuais do século XX que se mantinha ativo. Mesmo quem o leu pouco, tendo tido a oportunidade se deleitar apenas com um ou outro texto, e até quem não o leu, tinha um respeito imenso pelo italiano. Conhecido sobretudo pelo seu romance O Nome da Rosa, que recebeu uma primorosa adaptação para o cinema na década de 1980, Eco é muito maior e muito mais labiríntico do que o romance que projetou sua carreira mundialmente. Crítico, filósofo, semiólogo, linguista, romancista e historiador... é difícil definir quem foi Eco e qual de suas faces é a que mais nos toca, a que mais nos engrandece e enriquece. Multifacetado, foi um intelectual que ultrapassou as barreiras do sec. XX e chegou ativo ao XXI, era em que nos vemos tão carentes de pessoas a quem admirar. Sua vida, ceifada tão bruscamente quando menos esperávamos, deixa um vazio imenso não só em nossos corações, mas também em nossas estantes de livros. Agora, quando mirarmos a estante e vermos seus livros ali expostos, imortais, que serão herança para futuras gerações de leitores, nos sentiremos órfãos, pois não mais aguardaremos ansiosos pelos seus próximos lançamentos. Além disso tem o agravante de que nessa época, tão escassa de intelectuais, não sabemos mais quem expor com orgulho numa prateleira de destaque como sendo “meu autor favorito vivo”.
Resta-nos, como leitores, apenas nos conformar, pois ele, mesmo que chegássemos a pensar e desejar o contrário, era mortal, como eu sou, como todos somos, e ler e admirar até o fim dos tempos a sua obra, toma-lo, mais do que nunca, como referência e ouvir o eco de sua voz, que calou como efeito sonoro, mas continua a reverberar em sua obra.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Por que literatura?



Todos os dias quando acordo, eu fico a me perguntar “por que literatura?”. Eu poderia ter escolhido me dedicar, por exemplo, à medicina, assim passando a conhecer o corpo humano a fundo; ou poderia ter escolhido o direito, para entender o homem em sociedade. Escolhido a literatura, pois só ela é capaz de possibilitar o conhecimento não do corpo, mas sua alma, ele nos apresenta o homem não em sociedade, mas o homem consigo mesmo. Mas se engana quem pensa que a literatura é só isso. A literatura tem inúmeras serventias, dependendo de como se olha para o livro e de seu estado de espírito. Podemos encontrar, sim, um elaborado e complexo sistema filosófico, podemos encontrar uma visão revolucionário do homem pelo homem ou do homem em sociedade, mas podemos, por vezes, simplesmente nos deleitar com um livro pelo livro, experimentando momentos de um imensurável prazer no ato da leitura. A leitura pode nos levar a mil e um lugares sem precisar nos tirar do lugar.
                Todas as vezes que pego um livro, eu me pergunto o que posso vir a encontrar entre suas páginas, entre um parágrafo e outro, eu me pergunto se tal obra é atual, por exemplo. A descoberta é sempre única e o livro é sempre atual. O que falar, por exemplo, de um livro como os de Homero, atuais, que inspiraram termos de medicina (tendão de Aquiles) ou informática (o vírus de computador chamado “cavalo de troia”), que, mesmo numa conversa informal entre amigos, sempre, sempre tem um que fala que recebeu um “presente grego”, se referente ao presente mais astuto da história e da literatura mundial. Não só Homero, mas todos os gregos antigos, mesmo sua civilização tendo vivido seu auge há quase três mil anos continuam atuais, sendo constantemente revisitados em todas as artes, como cinema, música, artes plásticas e literatura, mas também no nosso dia-a-dia, no nosso imaginário, sendo mais presentes em nossa vida do que a gente é capaz de se dar conta. Mas não só Homero e os gregos são atuais, são importantes. O que podemos falar, por exemplo, de Dante, cuja criação transcende ao literário e artístico, tendo influenciado fortemente nossas crenças, tendo mesmo moldado o pensamento de Céu e Inferno de nossa sociedade ocidental, sejamos nós cristãos ou não? O que falar de Dom Quixote, que é, na minha opinião, o personagem que melhor sintetiza o homem moderno? E de Shakespeare, um dos maiores escritores de todos os tempos, tido como um dos principais cânones da literatura ocidental?
                A literatura é tão fantástica e atual que há personagens/criações, que se tornam maiores que seus escritores/criadores, chegando mesmo a ofuscá-los! O exemplo maior disso é quando falamos no nome Conan Doyle. Quantos conhecem esse nome assim que o falamos? Mas todos conhecem o nome Sherlock Holmes! O maior detetive do mundo nós reconhecemos imediatamente, sabemos citar suas frases, sabemos falar de como resolveu alguns notórios crimes, admiramos o seu raciocínio lógico, etc., a ponto de acreditarmos em sua existência (“como assim, ‘sua existência’?”, sempre tem alguém que fala! “Sherlock Holmes não existiu?”, ela sempre pergunta). O caso Doyle-Holmes é, talvez, o mais conhecido de todos nesse aspecto, mas há muitos outros, de personagens que são tão fortes e marcantes na história que sua existência ultrapassa os limites e páginas do livro em que são narradas as suas proezas.
                A literatura, além de ser fantástica em vários aspectos, é visionária e influencia inúmeras áreas do conhecimento. Para percebermos e ter uma real noção disso basta que vejamos e estudemos um pouco de Dostoievski, cuja obra era adorada e chegou, mesmo, a influencia o filósofo Nietzsche e teve um papel relevante nos estudos e desenvolvimento da teoria da psicanálise de Freud. Para vermos um aspecto visionário e crítico, por exemplo, da literatura, basta lermos os dois principais e mais conhecidos livros de Orwell. Temos a literatura crítica, aquela que denuncia a hipocrisia da sociedade e dos tipos humanos que a compõe, como no caso de obras como as de Flaubert, Tolstoi, Zola, Victor Hugo, entre outros. Além disso, a literatura é resgate e retrato da história e da vida das pessoas, independente de onde e em que época vivem, e exemplos disso estão na obra de Graciliano Ramos, que foi o autor brasileiro que melhor retratou a dura realidade e vida do sofrido povo nordestino, daquele povo que vive nas mais áridas regiões assoladas pela seca de nosso país. Percebemos isso também na leitura de Charles Dickens, que melhor do que ninguém retratou a dura vida das pessoas nas cidades de seu tempo.
                Temos a literatura fantástica, aquela que nos faz sonhar, que nos cativa e nos enfeitiça, como a de Gabriel Garcia Marquez; temos aquela poética, lírica e delicada ao extremo, como a de Kawabata; temos aquela que nos desafia e nos faz ser como o detetive responsável pela solução de determinado crime, como a de Agatha Christie; temos aquela que nos deleita com a plasticidade da linguagem, como a de Mia Couto; temos até aquela que nos causa calafrios, aquela que nos dá medo de pegar o livro à noite, como as de Stephen King, Bram Stocker, Lovecraft ou Allan Poe.
                A literatura não é só umas duas dúzias de nomes e de obras, literatura é um número infinito de autores, obras, personagens e universos mil que estão bem ali, ao nosso alcance, para serem descobertos, para nos convidar a entrar e caminhar num universo fantástico, que pode ser um descrito nas ruas de nossa cidade, na Paris, Londres ou Moscou do século XIX, em Narnia, na Terra Média, na Lua, no fundo do oceano ou seja lá em que local ou tempo for... Em se tratando de literatura, se pode tudo!
                Nas engana-se quem pensa que a literatura só acontece “lá fora”. Temos, aqui, em nosso país, autores extraordinários que nos fazem bater no peito e ter orgulho de ter nascido e de viver nas mesmas ruas, bairros, cidades ou apenas no país em que viveram Machado de Assis (o maior escritor brasileiro de todos os tempos!), Guimarães Rosa, Álvares de Azevedo, Monteiro Lobato, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, José de Alencar, Chico Buarque, Olavo Bilac, Augusto dos Anjos, Lima Barreto, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, entre tantos e tantos e tantos outros... E ainda tem os que não são brasileiros, mas são tão próximos, são tão irmãos, que os lemos como se o fossem, como os casos de Fernando Pessoa, Camões, Eça de Queiroz e Saramago.
                A literatura faz tanto parte de nossa vida que a gente nem mesmo se dá conta. Ela está em mil e um filmes que assistimos (repare na quantidade de filmes adaptados ou inspirados na história de amor, uma das mais famosas do mundo, de Romeu e Julieta), seja ele mais cult e intelectual, seja ele um voltado para o entretenimento, aventura, fantasia, suspense ou mistério (vide os baseados nas obras de Tolkien, O senhor dos anéis e O Hobbit, olhe os fantásticos filmes baseados na série de livros de Harry Potter), temos os seriados que amamos acompanhar episódio a episódio (como o Game of Thrones, baseado na obra de George R. R. Martin). Está, também, presente e inspirando as mais diversas artes.
                Quando eu paro e penso nisso tudo, na importância que a literatura tem para a nossa história, no quão presente está em nossa vida, que me dou conta do que já li e do que ainda tenho para ler e descobrir e que me aproximo de uma resposta que me seja realmente satisfatória para a pergunta que sempre me faço: “por que (e para quê) literatura?”

domingo, 1 de junho de 2014

Tempo...

Tenho muita saudade dos tempos em que eu tinha todo o tempo do mundo pela frente, que não precisava olhar para o relógio, contar o tempo, ansioso, esperando que chegasse logo a hora certa ou que a hora se arrastasse tão lentamente quanto uma eternidade que daria tempo de fazer tudo.
            Tenho muita saudade dos tempos em que eu tinha o meu próprio tempo, que não era refém de um relógio, que fazia as minhas coisas seguindo a minha hora exata, sem me preocupar com a perda de tempo, pois eu tinha todo o tempo do mundo à minha disposição.
            Tenho imensa saudade do tempo em a palavra tempo não constava em meu dicionário, e que se era citada, não tinha a conotação que adquiriu nos dias de hoje.
            O tempo é cruel. Ele passa, ele engole, ele atropela tudo que encontra pela frente e não aceita ser subjugado por quem quer que seja. Mas o tempo, por mais forte e inclemente que seja, jamais irá ser capaz de apagar uma saudade que deixou, a lembrança de um momento em que, quando o relembramos, somos total e inteiramente livres da ação do tempo, que podemos manipulá-lo e fazê-lo ver que, apesar de todos os pesares, ainda somos livres e que, por mais que ele nunca deixe de passar e nos leve sempre em sua onda, ainda nos resta uma migalha de um tempo que é só nosso, que fazemos dele o que bem entendemos, em que a palavra tempo não existe, ou que pelo menos o seu significado não é esse, cruel, que o temos na maior parte do tempo...

domingo, 20 de abril de 2014

O som do mundo

Nunca captara os sons do mundo com os ouvidos, nunca escutara aquilo a que chamavam de sussurro do vento ou se deleitara com o canto dos pássaros ao saldar o sol que nascia a cada manhã, no entanto, nunca se sentira triste por isso, pois embora não escutasse, podia ouvir tudo que o mundo tinha a lhe dizer com os outros sentidos.
A cada manhã, antes de o sol nascer, abria a janela de seu quarto e ficava a observar o suave e lento despertar dos pássaros, e se deleitava quando os via, aquecidos pelos primeiros raios do sol, estufar o pequeno peito e emitir um clamor de felicidade ao novo dia que nascia. Se queria ouvir o vento, bastava fechar os olhos e deixar que ele lhe acariciasse a face com seus dedos leves. Se sua necessidade era ouvir o que as pessoas lhe dizia, bastava lhe olhar no fundo dos olhos e ler seus lábios, que captava a verdadeira essência de suas palavras.
            Com a ausência da audição, seus outros sentidos tornaram-se tão aguçados que conseguia captar o mundo em seus sons com muito mais sensibilidade e profundidade do que aqueles que eram dotados de todos os cinco sentidos o faziam. Conseguia sentir o gosto das palavras, o toque dos sons, o cheiro daquilo que era dito e ver o que as pessoas realmente queriam lhe dizer.
            Desejava, sim, todos os dias, poder ter os ouvidos para ouvir, para captar todas aquelas sons, para deixar que as vozes do mundo lhe invadissem e lhe tomassem por inteiro, e um dia, enquanto dormia, teve um sonho estranho, e neste sonho um alguém lhe tocou os ouvidos e lhe sussurrou palavras que ele pôde escutar. Abriu subitamente os olhos, tendo sido acordado por um som de ecos de passos de uma pessoa no corredor. Jogou longe o cobertor e pulou da cama. Balançava a cabeça de um lado para o outro, ouvindo todos aqueles sons de sua casa, das pessoas que acordavam, das casas vizinhas e do mundo que despertava. Abriu a janela de seu quarto e olhou para fora, para ver o pássaro a despertar. Viu-o como todos os dias, mas não ouvir seu canto, tal como todos os dias ouvia, mesmo sendo surdo, pois os barulhos das pessoas despertando, das casas em polvorosa, dos carros na rua, impediam-no de ouvir com clareza.
            Ao sair do quarto, quando se sentou à mesa para fazer a primeira refeição da manhã junto com seus familiares, conseguiu ouvir tudo o que eles diziam, mas nenhum, em nenhum momento, lhe dirigiu a palavra, e esse foi o pior silêncio ao qual já havia sido submetido em sua vida.
            Na rua, não conseguiu ouvir qualquer som trazido pelo vento, nada de sussurros ou carícias, apenas lhe chegavam aos ouvidos uma poção de inúmeros ruídos e barulhos, todos muito altos. Pessoas falavam alto e ninguém se entendia; nas ruas e avenidas os carros passavam velozes, cantando pneu, buzinando. Eram tantos barulhos que ele se sentiu desnorteado. Agachou-se e tapou os ouvidos com ambas as mãos, para se proteger de todo aquele turbilhão que lhe sufocava. Passou o dia inteiro tentando escutar o que o mundo lhe dizia, mas os sons dos barulhos que lhe chegavam aos ouvidos abafavam e sobrepujavam aqueles que ele desejava ouvir.
            Voltou para casa num completo estado de surdez, como jamais estivera.
            À noite chorou duras, frias e grossas lágrimas e dormiu com os olhos úmidos. Durante o sonho, o mesmo homem da noite anterior lhe veio e sorriu e lhe sussurrou palavras ao ouvido.
            Ao acordar, ele, como sempre fazia, abriu a janela e olhou para fora, viu o passarinho despertar, estufar o peito e cantar, sentiu o sussurrar do vento e sorriu por poder, mesmo desprovido da audição, ouvir os verdadeiros sons do mundo.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O Presente de Aniversário

Aquele era um dia muito especial para ele, pois estava completando 10 anos, idade em que, para um menino, se deixa de ser criança e passa a dar um primeiro passo em direção àquela fase de tantas descobertas que é a da adolescência. Iniciava-se, naquele dia, uma nova fase de sua vida, em que ele passaria a ostentar o orgulho de ser um pré-adolescente. Estava ansioso, desejoso de saber o que iria ganhar de presente dos pais. Seus amigos falavam do orgulho do que tinham ganhado no dia de seus aniversários de dez anos dos pais. Um havia ganhado um videogame novo, outro, uma bola oficial, igual aos que os jogadores jogaram na última copa do mundo, um terceiro ganhara uma camisa oficial de seu time de coração, um colega de escola, um  celular de última geração, um primo, um computador, outros amigos, apetrechos eletrônicos diversos. Havia, de todas as maneiras possíveis, descobrir o que iria ganhar, mas nem seu pai nem sua mãe lhe davam pistas. Ele deu a entender o que gostaria de ganhar, mas nenhum dos dois lhe dera muita atenção. Teria que se contentar com a surpresa, em receber o presente somente na hora da festa.
            Em casa estava quase tudo pronto para a festa, a última festa de aniversário com direito a bolo, refrigerante e lancheiras, afinal de contas no seu aniversário seguinte ele completaria 11 anos e já não seria mais criança para uma festa como aquela daquele dia. As horas passavam e quanto mais se aproximava, mais ansioso ele ficava para receber os convidados e os presentes e mais ainda para abrir o embrulho que escondia o grande presente, aquele pelo qual tanto ansiava receber desde que passou a ter consciência do quão importante significava para um menino ter dez anos!
            No final da tarde e início da noite, os convidados começaram a chegar, cada um trazendo seus presentes, desejando-lhe parabéns, dando-lhe tapas carinhosas no ombro, falando o quão grande estava, etc. A cada instante, ele olhava para trás e via os pais, sempre sorridentes, como que esperando que eles viessem lhe dar o presente que haviam comprado, mas eles não davam um único passo em sua direção.
            Foram tantos os convidados que ele recebeu, foram tantos os presentes e cumprimentos recebidos que ele, por instantes, se esqueceu da ansiedade de receber o presente dos pais. Cantou-se o parabéns, ficou entretido em uma conversa com amigos e primos, distribuiu-se as lancheiras, e lá pelas tantas horas da noite, quando vários dos convidados já tinham ido embora, alguém lá de dentro gritou: “hora de abrir os presentes!”. Ele, com um enorme sorriso, correu para onde os presentes estavam todos empilhados e já se sentava no chão, acompanhado dos melhores amigos, quando seus pais lhe chamaram a atenção e lhe entregaram um belíssimo embrulho. Seu sorriso ficou ainda maior. Sentiu a caixa, que era pesada, tentando adivinhar do que se tratava, mas por mais que a apalpasse, não conseguia descobrir do que se tratava. Olhava ora para o pai, ora para a mãe, e eles só sorriam divertidos, e diziam “adivinhe o que é”. Ele disse os nomes de algumas coisas que ele gostaria de ganhar, e eles só diziam “xiii, errou!”, “’tá frio”, e coisas do tipo. Então, cansou daquela brincadeira de adivinhação e começou a rasgar o papel de presente, primeiro com cuidado, e depois de forma descoordenada e ansiosa, e quando terminou, não gostou nada do que tinha diante de si: uma belíssima coleção de livros!
            - O quê? Livros! – disse ele, com notável decepção na voz.
            - Gostou? – perguntaram juntos pai e mãe.
            Ele não respondeu, e apenas colocou no chão, num canto, os livros.
            Abriu os demais presentes, muitos dos quais lhe agradaram muito, sendo justamente coisas que ele queria ganhar, mas não estava mais tão empolgado, afinal de contas, seus pais não lhe presentearam com algo tão especial quanto ele esperava!
            Terminada a festa, quando todos os convidados foram embora, ele ficou só com os pais, e começaram a guardar as coisas e a dar um jeito na casa. Os livros, que seus pais com tanto carinho escolheram e lhe deram, foram a última coisa que ele levou para dentro, para seu quarto, para junto dos demais presentes que tinha ganhado. Colocou-os lá num canto, onde normalmente guardava as coisas que pouco usava, os brinquedos velhos com os quais não mais brincava.
            Nos dias seguintes, tão desapontado estava com seus pais que quase não lhes dirigia palavras, e mesmo os evitava. Os livros ficaram esquecidos sob aquela pilha de coisas que ele não usava.
            Meses se passaram e os presentes que ganhara foram sendo usados, alguns quebraram, outros simplesmente se acabaram ou foram para a pilha de coisas que ele não mais usava. Quando via os amigos, via que os celulares que estes haviam ganhado já estavam ultrapassados, os computadores não mais despertavam interesse, os videogames não eram ligados há semanas, as bolas de futebol haviam furado, e as camisas oficiais de times de futebol estavam sujas rasgadas e repletas de manchas. Naquele fim de tarde, ao entrar no seu quarto, jogou-se sobre a cama, sentindo-se entediado. Nenhum dos presentes que ganhara lhe despertava o interesse. Ligou a televisão, não passava nada de interessante, ligou o videogame, os jogos já não mais lhe desafiavam, ligou o computador, não havia ninguém online com quem conversar. Soltou todo o ar dos pulmões, irritado, e voltou a se jogar na cama e ficou fitando o teto. Ouvia os sons da casa, de seus pais conversando enquanto preparavam o jantar. Ele então olhou de lado e viu, naquela “pilha de velharias”, como ele mesmo a havia batizado, e viu, lá na “base da pirâmide”, aqueles livros, os quais ele nunca havia aberto. Esticou o braço e pegou o primeiro deles, de forma despretensiosa, já com uma cara de entediado até, e o abriu de forma descuidada. Respirou duas ou três vezes com os olhos fechados antes de ler a primeira frase...

            Passaram-se horas sem que ele se desse conta. Sua mãe primeiro, depois seu pai, veio lhe chamar para jantar, ao que ele respondeu “vou já. Deixa eu ler só mais esse capítulo”. Quando ele deu por si, já era noite alta, seus pais já haviam ido dormir, deixando para ele o jantar dentro do micro-ondas. Ele então olhou para o livro, que já tinha devorado mais da metade com uma ânsia que desconhecia ter dentro de si, percebeu o quão maravilhoso e edificante havia sido aquele presente de aniversário que seus pais lhe deram. Foi bater à porta do quarto deles, e quando responderam que a porta estava aberta, que podia entrar. Ele então entrou e se jogou na cama dos pais, abraçou aos dois e agradeceu efusivamente o presente de aniversário que eles haviam lhe dado.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Ser-Escritor

Não é fácil ser escritor! Não é nada fácil pegar aqueles negócios diminutos que para alguns são apenas letras, coloca-los numa sequência lógica de forma que produzam um som, que formem palavras e destas dar-lhes um sentido dentro daquele organismo vivo chamado frase. Por vezes ficamos longos minutos pescando no ar letras e palavras que estão ali, à nossa frente, flutuando, juntando-as, por vezes brigando com elas, segurando firmemente com nossas mãos, lutando para que se encaixem perfeitamente no corpo daquela frase.
            Escrever dói! Escrever é cortar a própria carne, é expor a própria alma, fazer aflorar e se deixar tomar por aquele sentimento que jazia adormecido no fundo do coração, com o qual não queremos nunca mais nos deparar justamente por temê-lo. Escrever é falar de si mesmo, do que acredita, mesmo que esta verdade venha disfarçada, camuflada entre mil e uma palavras bonitas de uma bela ficção.
            Escrever é viver, é suar, é chorar! Nenhum texto vem ao mundo pelas hábeis mãos de um simples escritor sem a medida exata de dor, sofrimento e esforço. Existem, sim, momentos de “iluminação”, de um “rompante de inspiração”, que são raros, e nestes os textos fluem mais, as palavras “saem mais fácil” e se encaixam com naturalidade naquela “frase perfeita”, mas mesmo nestes momentos, o escritor sofre para manter-se na luz, sofre para não deixá-lo passar e fazer jorrar mais, mais e mais palavras e chora, angustiado, ante o medo de perdê-lo sem que antes tenha colocado o último ponto na última frase daquele texto que, a seus olhos, adquire a beleza de uma obra-prima.
            Escritor é um ser deveras mentiroso! Ele pega uma verdade e a distorce, contando-a de tal maneira, disfarçando-a, camuflando-a de tal forma que ela se torna irreconhecível sob a roupagem de uma ficção. Por outro lado, ele colhe uma mentira, uma ficção, e com ímpar habilidade para tecê-la de forma que, no final, ela está tão bem contata e apresentável que se confunde e confunde muita gente que a toma como “a verdade absoluta e indiscutível”.

            Escritor, apesar de humano, é um ser a parte! Ele é diferente, vive mil e uma vidas, que se mostra com mil e uma faces, todas elas sendo diferentes, mas nenhuma delas deixando de ser ele. Ele tem hábitos, gostos e rotinas diferentes de todas as outras pessoas, pois é regido não pelas “vontades do mundo”, mas sim pelo que manda o texto que quer e força um “nascimento”, sendo dele uma espécie de escravo, um canal para que possa vir ao mundo!

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O homem que não tinha tempo

Ele tinha muita pressa. Corria sem parar de um lado para o outro, impaciente. Não conseguia conceber a ideia de esperar um pouco para que as coisas dessem certo: queria tudo “pra ontem!”, como costumava dizer. Para ele, “desperdiçar tempo é desperdiçar dinheiro”, e ele nunca tinha tempo algum para nada, nem para usufruir de todo o dinheiro que tinha conseguido acumular ao longo dos anos, fruto de seu trabalho e da falta de tempo. Contava os segundos. Tudo seu era rigorosamente cronometrado, desde as horas de sono, o tempo do banho e até o tempo dedicado para fazer amor com sua esposa; esposa com quem ele nunca saia à noite ou numa tarde de domingo, com quem ele vivia há anos, mas nem ele mesmo sabia há tanto tempo estavam juntos (logo ele, que tinha “o tempo nas mãos”).
            Seu tempo ia passando rápido, e ele sempre a reclamar que não tinha tempo para nada. Seus filhos foram crescendo sem que ele se desse conta. Um dia, haviam nascido, passado algumas noites chorando (incomodando seu precioso tempo dedicado ao sono), e na hora seguinte estavam já adolescentes, entrando na universidade, para em seguida já serem adultos, constituindo suas próprias família, e só percebeu isso, que seus filhos não moravam mais na mesma casa que ele, quando, por um acaso, ele estava em casa, num feriado, quando não tinha nada para fazer, que os chamou. Ninguém respondeu. A enorme casa onde morava estava vazia. Tornou a chamar um a um pelos nomes, e a única resposta que teve foi o silêncio. Abriu a enorme e pesada porta do seu escritório e olhou pelo longo corredor. Nenhum eco de um único passo! Voltou contrariado para dentro do escritório, quando bateu os olhos numa série de porta-retratos. Neles havia fotos de todos os principais momentos da vida da família: a esposa grávida, os meninos pequenos, os primeiros passos, os aniversários, fotos de escola, viagens na adolescência, formatura, casamentos, entre outros tantos momentos retratados. Em todas as fotos havia algo em comum: em nenhuma delas, ele estava presente. Lembrou-se, então, das desculpas que dera para cada uma daquelas ausências: não tinha tempo para estar presente.
            Sentia, agora, o peso da idade, dos anos acumulados sobre os ombros e do tempo perdido. Fechou os olhos e jogou todo o peso de seu corpo desabando na poltrona, que protestou contra aquele repentino golpe. Numa mesa ele viu uma foto de sua esposa, uma foto antiga, de quando se conheceram. Estava linda, com seu sorriso radiante naquele dia, e ele sorriu ante essa lembrança. Chamou-a pelo nome, depois pelos apelidos carinhosos com que a tratava. Ela não apareceu. Tornou a chamar, quase gritando, com insistência, até perder a voz. Quando cansou, deu por si e os ecos de uma lembrança, de palavras, começaram a vir à sua mente. Nessas palavras, que lhe chegaram vindas de tão longe, lhe davam conta da morte repentina de sua esposa. Ele estava envolvido, como sempre, em importantes negócios, e não chegou a tempo do velório e enterro. Apareceu em casa vários dias depois, e mesmo muito triste pela perda de sua companheira de tantos e tão longos anos, só ficou uns breves minutos no cemitério, em frente a sepultura da esposa, esperando em silencio que, de alguma forma, ela lhe dissesse algumas palavras que lhe desculpassem por mais essa falta cometida pela falta de tempo. Sentiu-se decepcionado, como que tivesse perdido um precioso tempo ali, e não obtivera resposta alguma.
            Com os olhos marejados das lágrimas que nunca tivera tempo de dar vazão, levantou-se e, às cegas, caminhou pelos amplos e vazios aposentos de sua casa. Viu os quartos dos filhos como nunca havia visto antes, passou por enormes salas que nunca eram usadas, pela cozinha ampla tão com cheiro de vazia e entrou no seu quarto e se sentou na cama que dividira com a esposa. Ali chorou copiosamente, como nunca antes havia chorado em sua vida. Quando o pranto cessou, levantou-se e caminhou a esmo pelos cômodos da casa, todos repletos de ecos de lembranças às quais ele não tinha, pois não estivera presente pela simples falta de tempo para coisas tão banais (e essenciais) da vida!
            Em sua caminhada pela casa vazia, seus passos acabaram por levá-lo até um enorme espelho. Ele então levantou a cabeça e se mirou nele. Não reconhecia aquele homem que via no reflexo do espelho. Aquele rosto não era o seu, aqueles cabelos, aquelas rugas, aquela expressão cansada, aqueles olhos... nada naquele que via no espelho representava ele! Mas ao se mirar melhor, percebeu que aquele no reflexo do espelho era ele, sim, muito mais velho, tendo sofrido a ação do tempo e dos anos passados, pesados, sobre seus ombros. E enquanto se olhava no espelho, percebeu uma sombra se aproximando lentamente, e foi só então, quando viu sua face, se deu conta de que o seu tempo tinha findado, de que naquele momento, realmente, não lhe restava mais tempo.

domingo, 27 de outubro de 2013

A Nuvem Misteriosa



por Caio Cesar

Parecia um dia como qualquer outro. Acordei, tomei meu café, tomei banho, fui pra escola. Cheguei em casa muito cansado como sempre, almocei e fui dormir. Em meu sonho, eu estava admirando um arco-íris lindo que resplandecia no céu após uma chuva fina que molhara a grama da minha casa. Ao acordar, tive um susto. Eram 15h 30min. Eu tinha um treino às 16h 00min e a minha casa fica a quarenta minutos do local onde o meu mestre me aguardava.
– Não tem mais jeito. Terei que perder o treino de hoje – pensei, convicto de que não chegaria a tempo.
            Neste momento, olho rapidamente para a janela de onde vinha um vento frio e refrescante e observo atentamente uma nuvem que parara momentaneamente no céu límpido e azul. Mas não era uma nuvem como qualquer outra. Não. Ela não assumia a forma de nada que eu conhecesse. Tentei associar sua forma a qualquer coisa que me vinhesse a mente, mas não tive êxito.
            – Um rato? Um F-14 da aeronáutica? Meu Deus, com o que isso se parece mesmo? – me inquietava, e continuava a tentar.
            De repente, após eu piscar meus olhos, a nuvem desapareceu. Neste momento, coço meus olhos para saber se isso era alguma pegadinha do meu subconsciente. Quem dera o fosse. De fato a nuvem não estava mais ali. O que teria acontecido? Será que ela existira de fato ou fora apenas uma ilusão extremamente real produzida na minha cabeça? Eram muitas as dúvidas suscitadas em minhas cabeças.
            Após tomar um belo de um banho e refrescar a minha cabeça e a minha mente, tentei, em silêncio absoluto, meditar e relembrar aqueles momentos em que vislumbrava a nuvem misteriosa. Recordava-me de seu formato nada normal e tentava buscar uma explicação para tudo aquilo, quando me veio à mente uma pergunta:
– Por que ter explicação? Por que simplesmente não me debrucei naquele momento sublime? Por que tentar explicar tudo que acontece ao meu redor? Por quê? – me questionava.
Logo eu, uma pessoa que sempre tentou buscar respostas e soluções imediatas para tudo que acontecia na minha vida, acabei descobrindo uma importante lição naquela simples meditação: nem tudo na vida deve ser explicado. Nem tudo deve ter definição própria e exata. Em determinadas ocasiões, devemos apenas apreciar, viver o momento e as oportunidades que nos são oferecidas. Debruçar-nos na felicidade pelas coisas simples da vida. Essa é uma das regras para viver bem.
Ao abrir os olhos após aquela prazerosa e extremamente benéfica meditação, me dei conta de que já era noite e que, por incrível que pareça, a nuvem lá estava novamente. Dessa vez, não tentei buscar respostas para tamanho e estranho fato. Apenas vislumbrei com muito mais prazer a nuvem que me ensinara uma importante lição. E após horas e horas de vislumbre, peguei no sono.