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sábado, 20 de fevereiro de 2016

O Eco de uma voz


Ontem eu fui dormir triste.
Ministrei uma aula de literatura em que correu tudo bem: usei um belo e tocante vídeo (curta de animação) que contagiou e arrancou risos e lágrimas de algumas pessoas da plateia; a conversa sobre paixão pela arte das letras correu maravilhosamente bem, com as pessoas interagindo, anotando os nomes dos autores e livros que mencionei para, assim que terminasse a aula, pudessem correr à livraria mais próxima a fim de comprar as obras; ao final de aula, reservamos um espaço para discussões diversas e para uma breve, porém essencial, confraternização. Finda as formalidades da aula, sai do auditório com a sensação de dever cumprido, de que dei o meu melhor, de que a semente de literatura fora planta e que iria germinar, dar um pequeno broto, se tornar uma plantinha, que vai fincar bem fundo suas raízes, que se tornará uma frondosa árvore. Mas, ao chegar a casa, recebi uma triste de notícia que me deixou um tanto quanto abalado e me fez demorar a pegar no sono: Umberto Eco morreu!
Mas como assim, morreu?! Eu havia acabado de ministrar uma aula em que, mais uma vez, o usei como exemplo, mencionei suas obras, falei de sua importância não só para a literatura, mas para toda a cultura ocidental! E ao chegar a casa, a notícia que me tirou o chão, que me fez sentir um imenso vazio no peito e nas estantes onde guardo meus livros, que com que passasse sentir um sentimento de orfandade...
A literatura, ao longo dos séculos, passou por diversas transformações e evoluções. Vivemos uma Era de Formação, verdadeiramente Mitológica, em que nomes tão distante, mas ao mesmo tempo tão próximos, surgiram e moldaram a nossa forma de escrever, de ver o mundo, de sentir as palavras. Homero, Esopo, Sófocles, Eurípides, Virgílio, Dante, Shakespeare, Camões, Rabelais, Racine, Montaigne, Cervantes e tantos e tantos e tantos outros que fazem parte de nosso imaginário e que já foram incorporados ao nosso código genético, que tiveram e têm um papel fundamental na nossa formação humanística.
Depois dessa época, que lançou as bases e alicerces da nossa literatura e da nossa cultura, vivemos uma Era de Ouro entre o século XIX e primeiros anos do XX. A literatura se espalhou por todo o corpo. Se antes era somente o gene, agora passou a ser um aglomerado de células compondo um tecido, depois um órgão e, por fim, Sistema que propulsiona o nosso organismo e nos mantém vivos. Em todos os países surgiram gigantes que assombraram a literatura e a cultura mundial. Jane Austen, Charles Dickens, as irmãs Brontë, Stevenson e Thomas Hardy; Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós; Stendhal, Honoré de Balzac, Alexandre Dumas, Victor Hugo, Gustav Flaubert, Émile Zolá, Maupassant, Baudelaire e Malarmé; José de Alencar, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Machado de Assis, Lima Barreto e Olavo Bilac; Goethe, Schiller, Novalis, Heine e Rilke; Pirandelo e Lampedusa; Puchkin, Gógol, Turgueniev, Dostoievski, Tolstoi, Tchekhov e Gorki; Poe, Hawthorne, Melville, Whitman e Twain; Kazantzakis e Kavafis; isso para citar somente uns poucos, pois se fôssemos citar todos, não caberia num único texto.
Na primeira metade do século XX, ainda sob o eco da Era de Ouro, que vinha perdendo relativa força, as principais “potências culturais e literárias” europeia perderam um pouco de força, muito embora tenham nos legado grandes gênios como Kafka, Brecht, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Mário de Sá-Carneiro, Unamuno, Pasternak, Maikóvski, Oscar Wilde, Lawrence, Virgínia Woolf, James Joyce, Hesse, Thomas Mann, Proust, Sartre, Beauvoir e Sartre. Poucos comparado ao período anterior. Fato é que a literatura mudara de ambiente, e alguns dos grandes nomes nascia do outro lado do oceano. Borges, Casares, Mistral, Neruda, Donoso, Onetti, Octávio Paz e Juan Rulfo foram os que puxaram o boom latino-americano com sotaque hispânico; mais ao norte, Faulkner, Hemingway, Steinbeck, Salinger, Henry Miller, Capote e Eugene O’Neill; o Brasil viveu sua Era de Ouro entre as décadas de 1930 e 1950/60, com nomes como Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Graciliano Ramos, Rachel de Queirós, Jorge Amado, José Lins do Rego, Érico Veríssimo, João Guimarães-Rosa e Clarice Lispector; esses e outros passaram a assombrar o mundo com uma poderosíssima, mas até então desconhecida por muitos leitores, literatura, que passara subitamente a ser obrigatória em toda e qualquer estante de livros ao redor do mundo.
No entanto, mesmo com tantos nomes, mesmo com tantos autores tendo surgido num curto espaço de um século e meio, a maternidade literária, os tempos seguintes não foram tão generosos conosco, pobres e apaixonados leitores. Vieram, sim, Saramago, Garcia-Márquez, Llosa, Calvino, Philip Roth, Paul Auster, Kundera, Coetzee, Chimamanda Ngozi Adichie, Chinua Achebe, Pepetela, Ondjaki e Mia Couto. Poucos, pouquíssimos diante da nossa sede de literatura, da necessidade intrínseca que temos de mais, mais e mais grandes autores. Desses, Calvino, Saramago, Gabo e Achebe já nos deixaram; Roth se aposentou; Kundera há tempos não lança uma obra que nos deixe em êxtase, e mesma coisa se aplica a Coetzee; Llosa e Auster até lançam bons livros, mas nada que se comparam aos seus livros de alguns anos atrás. Resta-nos, portanto, a poderosíssima Chimamanda, uma verdadeira ilha literária que surge em meio a um tempestuosos oceano, que assombra por sua literatura lírica, poderosa e politizada, e os africanos de língua portuguesa, que, além de tudo, fazem um trabalho excepcional em prol da língua, divulgando mais do que literatura, promovendo em todo o mundo um vasto universo cultural que é produzido pelos falantes de língua portuguesa. Com estes, restam-nos pouquíssimos autores que ocupam “lugar de honra” nos nossos corações-literários e nas nossas estantes.
Com a recém-perda de Umberto Eco, um súbito vazio intelectual nos toma. Eco tornou-se uma figura presente, respeitada e admirada em todo o mundo por sua inteligência e postura, como um dos maiores intelectuais do século XX que se mantinha ativo. Mesmo quem o leu pouco, tendo tido a oportunidade se deleitar apenas com um ou outro texto, e até quem não o leu, tinha um respeito imenso pelo italiano. Conhecido sobretudo pelo seu romance O Nome da Rosa, que recebeu uma primorosa adaptação para o cinema na década de 1980, Eco é muito maior e muito mais labiríntico do que o romance que projetou sua carreira mundialmente. Crítico, filósofo, semiólogo, linguista, romancista e historiador... é difícil definir quem foi Eco e qual de suas faces é a que mais nos toca, a que mais nos engrandece e enriquece. Multifacetado, foi um intelectual que ultrapassou as barreiras do sec. XX e chegou ativo ao XXI, era em que nos vemos tão carentes de pessoas a quem admirar. Sua vida, ceifada tão bruscamente quando menos esperávamos, deixa um vazio imenso não só em nossos corações, mas também em nossas estantes de livros. Agora, quando mirarmos a estante e vermos seus livros ali expostos, imortais, que serão herança para futuras gerações de leitores, nos sentiremos órfãos, pois não mais aguardaremos ansiosos pelos seus próximos lançamentos. Além disso tem o agravante de que nessa época, tão escassa de intelectuais, não sabemos mais quem expor com orgulho numa prateleira de destaque como sendo “meu autor favorito vivo”.
Resta-nos, como leitores, apenas nos conformar, pois ele, mesmo que chegássemos a pensar e desejar o contrário, era mortal, como eu sou, como todos somos, e ler e admirar até o fim dos tempos a sua obra, toma-lo, mais do que nunca, como referência e ouvir o eco de sua voz, que calou como efeito sonoro, mas continua a reverberar em sua obra.

domingo, 14 de agosto de 2011

Bullying e Preconceito


Hoje em dia as pessoas se doem com absolutamente tudo. Tudo que a gente fale ou faça é Bullying, preconceito ou simples desrespeito. Tudo bem que esses temas tem sido cada vez mais debatidos com mais frequencia  na sociedade atual, mas não é por conta disso que tudo se enquadre como “subversivo”, “agressivo” e “desrespeitoso”. Apelidos, por exemplo. Ter apelidos é normal, natural e ouso dizer que até saudável. O apelido é como uma maca registrada que vai ser levado para toda uma vida, é como um retrato de um tempo que passou. Tudo bem que existem apelidos mais agressivos, que pessoas não gostam do que recebem (normalmente as pessoas não gostam, mas, de uma forma ou de outra, acabam se acostumando e até gostando dos apelidos que receberam), mas daí a se afirmar que todo apelido é Bullying a ponto de quase proibirem as pessoas de colocarem apelidos umas nas outras e receberem seus devidos apelidos já é demais.
            Apelidos, como disse anteriormente, são saudáveis até, e nos fazem lembrar épocas, amigos e fatos acontecidos há anos dos quais sentimos imensa saudade. Eu, por exemplo, já recebi inúmeros apelidos em diferentes épocas de minha vida. Fui, na adolescência, devido ao grande número de espinhas que tinha cara, chamado de Choquito, fui, em outra época, quando jogava vôlei com os amigos, chamado de Moloide, por que era um tanto quando desengonçado (todo molenga mesmo) e não levava muito jeito para o esporte. Já fui o Preguiça (não preciso explicar esse apelido né?), fui (e continuo sendo) o Chato, fui o Pata de Caranguejo, por que minhas canelas são finas e cabeludas, entre tantos outros apelidos que recebi e continuo a receber (embora, nessa época em que tudo é Bullying e preconceito, com menos frequencia) outros apelidos, que irão continuar comigo pelo resto da vida, embora eu não tenha mais espinhas (deixei de ser o Choquito), não jogue mais vôlei (deixei o Moloide de lado) e tenha conseguido deixar minhas pernas um pouco menos finas (me livrei da alcunha de Pata de Caranguejo), mas alguns eu ainda continuo sendo, como o Preguiça e o Chato.
            Tive amigos em que os apelidos pegaram tanto, de tal forma, que se tornaram quase os nomes dele, e chego até a pensar seriamente se o Abelha (amigo de minha infância) tem esse nome no registro, se o Miqui Jegue (uma corruptela de Mick Jagger) tinha sido batizado como tal. Tem uns até que não lembro nem o nome, como o Toco, o Bucho-de-Sôia, o Carrapicho, o Batatão, o Nino e o Cádá, e outros que o apelido se incorporou de verdade aos nomes, como Adonias-Cabeção, Wandersapo e o Kléber-Gordo. Tive amigos na escola em que todos só os chamavam pelo apelido, como o Bicho-do-Mato, o João-Gordo e o Nhonho.
            Acabar com o direito de colocar apelidos, considerando tudo como uma forma de Bullying, é como cortar um pedaço da infância, como proibir algo que é natural, prazeroso e que vai nos fazer lembrar momentos e de pessoas que irão nos marcar para o resto de nossa vida.
            Coisa semelhante acontece com o preconceito. Hoje, tudo é uma forma de preconceito velado, e ninguém pode chamar ninguém de Branquelo, Amarelo, Moreno, Negro ou fazer qualquer relação com sua cor.
            Balela!, todo mundo teve um amigo, na infância, a quem chamava de Negão, e se este tinha um irmão menor, o outro seria o Neguinho, se tivesse uma irmã, Neguinha, e isso, na época, não se configurava como um preconceito. Havia sempre um alguém que recebia o apelido de Amarelo-Palemado (não me perguntem o que é “palemado” que até hoje eu não sei o que isso significa), um outro de Branco-Papel. Também tinha um (em todo grupo tem um) a quem chamamos de Crente, por frequentar uma igreja evangélica.
            Hoje em dia, se você chama um alguém de “negro”, se é, logo de cara, tachado de “preconceituoso”, só por que se fez uma referência à pessoa pela cor de sua pele. Se chamar, até, uma pessoa de “morena” é, por alguns, correr o risco de ser considerado preconceituoso. Hoje em dias, todos são o que se chama (que virou moda) de Afrodescendente (confesso achar horrível esse nome, que nem sequer soa bem).
            Existe, sim, sempre existiu e sempre existirá, preconceito, os valentões das escolas, praticando o Bullying, e isso tem de ser combatido, óbvio, mas daí a colocar tudo no mesmo nível, considerar tudo como sendo “prática de bullying” e “preconceito” já é demais. Temos que, tanto nas escolas, como no trabalho ou onde quer que estejamos inseridos, saber os limites e continuar brincando, colocando apelidos, como sempre fizemos, que nem por isso estaremos praticando bullying.
            Apelidos não se configuram Bullying (pelo menos não todos), assim como chamar uma pessoa de negra não é preconceito racial ou de Crente um preconceito religioso. Mas agir de forma contrária, “se doendo”, considerando tudo Bullying e preconceito é uma maneira de se mostrar o quão preconceituoso e complexado se é quanto a essas questões.
            Devemos, sim, combater o Bullying e o preconceito, seja ele de cor, crença religiosa e opção (ou orientação, ou seja lá de como estejam chamando hoje em dia) sexual, mas devemos, também, combater os excessos de complexos e segregações que estão implantando em nossa sociedade, caso contrário, em breve, deixaremos de ser um país do respeito, onde todos as cores, raças e crenças vivem em perfeita harmonia, e passaremos a ser um país separado em pequenos grupos de complexados-imbecis.

domingo, 19 de junho de 2011

Acadêmicos e a Academia


Foi-se o tempo em que Academia era sinônimo de cultura, grande livro, critério, grandes escritores, etc, etc e etc. Antigamente (se bem que não faz tanto tempo assim), quando ouvíamos o nome Academia Brasileira de Letras (O termo ABL só veio a se popularizar recentemente), tínhamos a certeza de uma grande obra literária, escrita não por um escritor qualquer, mas sim por um Escritor. Foram muitos os grandes intelectuais brasileiros, tanto da literatura quanto de outras áreas afins, que tiveram seus nomes imortalizados por ocuparem uma cadeira na Academia. Lógico que, por motivos diversos e às vezes particulares, um ou outro se recusou a ocupar um lugar que lhe seria de direito, como os casos de Sérgio Buarque de Holanda e mais recentemente Chico Buarque (o Chico letrista, compositor, não o romancista, diga-se de passagem), Mário Quintana, entre outros.
            No entanto, atualmente, temos visto um total descaso com a Academia, pelos membros que nela ingressam. Antes, havia todo um critério, uma análise da obra, algo que pode ser chamado de “mérito acadêmico”. Via-se a importância do autor, valor literário da obra e sua história. Hoje, o que vemos? De todos os membros, pode-se citar dois nomes que são unanimidades, de escritores que tem até alguma importância, sim, que podem até ter escrito algum livro em que exista algum lampejo de literatura, mas que não o suficiente para ocuparem uma cadeira que lhe dá o título de “Imortal da Literatura Brasileira”: Paulo Coelho, José Sarney e Ivo Pitanguy. Paulo Coelho é um dos escritores mais vendidos do mundo, publicado nas mais diversas línguas, vendido nos quatro cantos do mundo, com livros lidos pelos mais diversos públicos, etc, etc e etc, mas, literariamente, ele é fraco. Não falo isso com preconceito, como um “dono da verdade”, por odiar Paulo Coelho ou coisa do tipo. Não. Muito pelo contrário. Eu li, e muito, Paulo Coelho, e posso dizer, aqui, que adquiri o hábito da leitura lendo Paulo Coelho. Li todos os seus livros até O Zahir e, na condição de leitor, tanto de Paulo Coelho quanto dos mais diversos autores, gêneros, estilos e escolas literárias, que “O Mago” é um escritor em que seu mérito literário é apenas mediano. Seus personagens não têm profundidade psicológica, suas histórias são mal exploradas e sua escrita é excessivamente elementar. Tudo bem... Paulo Coelho tem seus méritos por ter alcançado marcas de vendas que nenhum outro escritor brasileiro tenha alcançado. Mas se vendas representassem valor literário que o qualificassem a ocupar uma cadeira de uma Academia de Letras, Stephanie Meyer, Dan Brown e J. K. Rowling deveriam, já, ter ganhado o Nobel de Literatura. José Sarney... o que podemos falar de José Sarney como escritor? Não vamos entrar aqui em debate sobre a questão política, apenas nos detendo à literatura. E aí? Alguma opinião, sobre o Sarney escritor? Pois é. A opinião é essa mesmo: ninguém tem opinião sobre Sarney como escritor, simplesmente por que ele não tem um grande valor como escritor. Eu confesso que até li (experimentei, digamos assim) livros dele, um romance e um de crônicas, para ficar com uma opinião bem formada, e confesso que não achei ruim, não. No entanto, não são bons livros. Sarney é escritor daqueles livros que você termina a leitura e fica com aquela impressão de poderia ter gastado o tempo lendo algo mais produtivo, que marcasse mais. São aqueles livros que você define com aquela “gíria” que diz “Não inflÓi nem contribÓi”. Pitanguy, é melhor nem falar, né?! Falei Sarney e Paulo Coelho, só para me deter aos que hoje ocupam cadeiras da Academia, mas se voltarmos só um pouquinho no tempo, nos deparamos com a figura de Roberto Marinho, e sobre esse é melhor nem falar muito, por que na literatura e nas letras, no valor acadêmico, não há muito (para não falar nada) do Fundador e Presidente das Organizações Globo.
            Não estou falando, aqui, que Academia Brasileira de Letras não significa nada. O que afirmo, sim, é que ela significa, sim, e muito, e me sinto indignado quando vejo o descaso com que ela vem sendo tratada e mesmo como trata a si mesma.
            Temos, hoje intelectuais reconhecidos internacionalmente, estudiosos da língua portuguesa, como Bechara, que estão fazendo um trabalho belíssimo (não vamos entrar, aqui, em debate sobre a questão do Acordo, se é válido ou não, se era necessário ou não), e escritores respeitadíssimos, como Ana Maria Machado, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Carlos Heitor Cony, José Murilo de Carvalho, Ariano Suassuna, entre outros tantos intelectuais nas mais diversas áreas de atuação.
            Precisa-se, com urgência, de uma aproximação das pessoas, dos leitores, com a Academia. Necessita-se, com mais urgência ainda, que a Academia readquira o respeito que lhe é de direito, para ocupar o lugar que lhe é reservado na sociedade, não só se restringindo à importância acadêmica, agindo com critério, não contradizendo seu próprio “estatuto” quando a questão é referente ao “reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livros de valor literário”, para citarmos o próprio “estatuto” da Academia.
            Caso não se tomem essas medidas, caso a ABL não readquira o respeito que lhe é devido e não aja com verdadeiro critério quanto ao ingresso de seus membros, acabaremos, daqui a algum tempo, tendo aceito Bruna Surfistinha como membro ou Collor (e olhe que este é membro da Academia Alagoana de Letras e, ao que se consta, ninguém sabe ou leu o que ele escreveu).

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Desabafo político

Brasileiro não tem memória política, brasileiro tem, no máximo, uma vaga lembrança. Quer exemplos? Collor, Sarney, toda aquela corja envolvida em escândalos e mais escândalos políticos, todos aqueles políticos corruptos, aqueles típicos coronéis intocáveis, que podem tudo, fazem tudo, do jeito que querem, quando querem e ainda saem impunes. E ainda há pessoas que conseguem manter distância disso tudo, que perderam as esperanças e, pra elas, tanto faz como tanto fez. Pessoas que, ao se depararem com uma denuncia muito forte, com um escândalo político (mais um), simplesmente conseguem dar de ombros, agem como se não devessem fazer nada, que se sentir indignado com toda a situação é como uma completa “perda de tempo”. Não, essas pessoas estão erradas, pois a partir do momento em que você se acomoda, que você começa a não mais se sentir enojado com tudo isso que estão fazendo com o seu país, aí é que começamos a correr sérios riscos. Eu, particularmente, me considero uma pessoa consciente, politicamente falando, e não consigo, não aguento mais assistir a um telejornal, a ver uma revista e me deparar com a sessão política e não sentir ânsias de vômito. É tanta desgraça, é tanto escândalo, é tanta politicagem (não é nem política, é politicagem mesmo!), e as esferas do governo (municipal, estadual e federal) ainda têm o descaramento de apresentar números que comprovem sua eficiência. Números não dizem nada. Números comprovam só que as coisas são superfaturadas, que os valores repassados não são suficientes, que houve desvio (com certeza) de verba pública (que pertence a todos nós, brasileiros). E ainda temos que aturar propagandas dizendo que a cidade está melhor, que o Estado está cada vez melhor, que o Governo Federal está trabalhando... Não falo, aqui, nesse desabafo, um belo palavrão, o mais “pesado” de meu vasto repertório, por respeito a você, leitor, que acompanha. Respeito este, que tenho, muito grande, um respeito que não é compartilhado pelo(s) seu(s) (pelos nossos, na verdade) governante(s).
            Eu estou cansado, confesso; eu estou muito chateado, indignado, não só com o governo em si, mas também com as pessoas passivas, que assistem a isso tudo e que não tem consciência, ou que não querem saber, do que estão fazendo com o nosso país. Eu confesso sentir até uma certa inveja dessas pessoas, pois elas simplesmente dão de ombro para tudo quanto é escândalo, que, quando passa uma reportagem num telejornal sobre algum esquema de corrupção, apenas mudam de canal, e vão assistir à sua novela ou a um reality show, enquanto eu fico aqui, indignado, querendo fazer alguma coisa, mas me sentindo impotente, correndo o sério risco de ficar estressado (mais do que já estou).
            Mas eu sou brasileiro, e, apesar dos pesares, não desisto nunca. Não canso, não desisto, de tentar mudar meu país com gestos pequenos, com palavras que, apesar de parecerem soltas ao vento, um dia, mais cedo ou mais tarde irão ser ouvidas. Não canso de tentar fazer com que uma pessoa abra os olhos, que passe a ter consciência política, que seja, se não um militante, um alguém que atua ativamente, que pelo menos não se porte de forma tão passiva com tudo que estão fazendo a nosso país.
            Eu sei, uma andorinha só não faz verão, mas se cada andorinha pensar assim, nunca elas irão se juntar para marcar a entrada da estação em que o sol brilha radioso no céu de nossa “terra adorada, salve, salve”. Por isso, eu, na minha condição de andorinha, que não faço verão só, é verdade, mas faço a minha parte, estou começando uma nova série de textos críticos de cunho político, não com a intenção de “forma opinião”, pois esta nunca foi a intenção deste blog, mas só e unicamente objetivando abrir o blog para debates, discussões produtivas a respeito não exclusivamente de política, mas sim, de nosso país, que, embora não seja “o melhor país do mundo”, que tenha suas desigualdades, que tenha todos os seus problemas, é um lugar maravilhoso de se viver, principalmente por conta das pessoas.
            E, lembrando, em 2012 tem eleição municipal, e não vamos ter apenas “uma vaga lembrança” do que os prefeitos e vereadores fizeram no último mandato. Vamos pesar, medir e contar, começar a ter a nossa tão falada “consciência política” nas esferas políticas menores, municipais. Afinal de contas, as mudanças começam de baixo, aos poucos, do município. Pouco a pouco, se pensarmos assim, se agirmos nesse sentido, em breve conseguiremos fazer do Brasil um país digno de nosso povo, que faça com que todos nós tenhamos orgulho de “chegar lá fora” e bater no peito para dizer: “EU sou BRASILEIRO!”.

domingo, 7 de novembro de 2010

Um nobel de literatura para o Brasil, quando teremos?

            Há alguma semana saiu o tão aguardado anúncio do escritor laureado com o Nobel de literatura de 2010. Fiquei feliz com o resultado, com a maior honraria da literatura mundial sendo dada a um escritor latino-americano, peruano, que tem uma relação tão estreita com o Brasil, tendo, inclusive, uma de suas maiores obras, Guerra do Fim do Mundo, sido inspirada num marcante episódio da história de nosso país e num livro em especial: Os Sertões, de Euclides da Cunha.
            Mário Vargas Llosa é um escritor com um longo engajamento político, um escritor cuja obra não se resume só e unicamente aos méritos literários. A obra do peruano congratulado com o Nobel de literatura ultrapassa as fronteiras da literatura e está inserida num contexto histórico, político, sociológico e cultural. Repleta de personagens marcantes, sua obra cativa leitores de todo o mundo, apaixonados e amantes da verdadeira literatura.
            No mesmo dia em que fiquei sabendo que Llosa tinha ganhado o Nobel, um amigo me parou para perguntar o que eu tinha achado da premiação. Achei a premiação justa, uma vez que o escritor tem uma obra tão vasta e importante e fiquei feliz, por ele não ser um inteiro desconhecido, para mim. Já li dois livros dele, um que adorei, e outro nem tanto assim. Mas aí esse mesmo amigo foi o soltou a pergunta que me deixou por dias e mais dias pensando: e nós, quando teremos um Nobel?
            Realmente, nós, brasileiros, não temos nenhum Nobel, seja lá em que área for: química, física, medicina, paz, economia, literatura, etc. Ser congratulado com o Nobel é um reconhecimento pelo trabalho realizado, seja ele em prol da ciência, sociedade ou arte (como, no caso, a literatura) e apesar de haver as contestações (sempre há) e interesses, tal prêmio é um gral de distinção dentro de um contexto no que se refere ao avanço da ciência e pesquisa. O Nobel é um motivo de orgulho à nação do vencedor.
            Mas e na literatura em específico, quando ganharemos tal distinção? Para ser sincero, eu não saberia responder a tal questão. Hoje, dentro da literatura brasileira, eu não consigo enxergar um grande nome, uma “unanimidade”. Temos, lógico, grandes escritores, como João Ubaldo Ribeiro, Cristóvão Tezza e Milton Hatoum, poetas magníficos, como Ferreira Gullar, entre tantos outros, como Nélida Piñon, Ignácio de Loyola Brandão, etc. alguns desses, inclusive, já tendo recebido inúmeras premiações, inclusive internacionais. Temos outros grandes escritores, sem dúvida, mas estes que citei representam, na minha humilde opinião, o que de melhor há no contexto da literatura brasileira.
            Analisando a história e os nomes da literatura brasileiro desde o início do século XX, surgem nomes de peso, autores magníficos, que bem poderiam ter recebido a honraria do Nobel, pela importância de sua obra. Podemos citar escritores como Jorge Amado, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa, Clarisse Lispector, José Lins do Rêgo, Fernando Sabino, poetas espetaculares, Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes, mas, hoje, a literatura brasileira passa por um processo de “renovação”, de criação de uma identidade, para, só então, se criar esse grande nome.
            A literatura brasileira, hoje, está carente. Não se há um grande nome que inspire respeito, como o foram alguns dos escritores do século XX e outros tantos que os precederam.
            Paulo Coelho? Sem comentários. Ele tem lá seus méritos, sim, embora a crítica o condene, mas é inegável a sua importância dentro do mercado editorial. Chico Buarque? Falar dele é perigoso, uma vez que seu nome inspira tanto respeito, principalmente por conta de sua estupenda história dentro da música brasileira. Talvez Chico, como escritor, romancista, seja mais respeitado como compositor do que por seus méritos literários propriamente ditos. Seus leitores confundem os dois Chicos. Ganhou inúmeros prêmios, inclusive esse ano, de 2010, sendo honrado com o Jabuti, o mais importante prêmio da literatura brasileira, mas, torno a dizer, seu respeito seja mais dado por conta de sua história e seu talento dentro de outras artes que não a literatura. Não estou dizendo, aqui, que Chico Buarque seja um mau escritor ou coisa do tipo (não me entenda mal, amigo leitor, por favor), o que questiono, e sempre questionei, está no fato do nome Chico Buarque, dentro da literatura, ser superestimado. Luiz Fernando Veríssimo? Grande cronista, sem dúvida. Gosto muito de seus textos, mas ele está longe de ser um Nobel. Martha Medeiros? Outro grande nome dentro do gênero crônicas, mas sua literatura ainda tem muito a amadurecer, ela ainda terá que incursionar em outros estilos, escrever mais, para só então se firmar como um grande nome dentro do cenário nacional da literatura. Talvez, só tenhamos nomes de maior respeito, “unanimidades” dentro da literatura infanto-juvenil. Nesse segmento da literatura estamos muito bem representados, com escritores como Pedro Bandeira, Ruth Rocha, Ziraldo, Ana Maria Machado, Lygia Bojunga, entre tantos outros. Esses escritores semeiam hoje a literatura naqueles que serão os leitores de amanhã. Mas infelizmente, literatura infanto-juvenil não ganha Nobel!
            Talvez, daqui a alguns anos surja e seja reconhecido um grande escritor, respeitado pela crítica e público, não só aqui, no Brasil, mas também no exterior, que possa, que seja digno de ser honrado com o Nobel de Literatura. Tomara que eu ainda esteja vivo daqui pra lá, que possa sentir orgulho ao ver meu “irmão de pátria” ocupar o “posto mais alto” da literatura mundial.