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domingo, 11 de janeiro de 2015

De palavras e sedução

Ela caminhava deixando que seus passos a guiassem para um lugar em que pudesse estar bem longe de si, mas por maior que fosse a distância que seus pés a levassem, lá estava ela mesma, diante de seus olhos, seja através de um reflexo numa superfície espalhada, seja na própria sombra a seus pés, que não a deixavam esquecer de si e nem do que lhe acontecera. Procurava deixar que os pensamentos voassem para não se lembrar de nada, mas os fatos ainda eram muito recentes, e a memória teimava em lhe fazer lembrar aquilo que queria esquecer. Tapava os ouvidos para deixar que o silêncio a dominasse, mas ainda assim ouvia o eco de uma voz distante que vinha se aproximando até poder ser ouvido como um sussurro ao pé de seu ouvido, o eco da voz daquele que a seduzira, e ela, ingênua, pura como era, se deixara levar por aqueles sonhos, se deixara ludibriar por aquelas melífluas palavras proferidas por aquele que despertara o seu amor, mas que nunca tivera a real intenção de amá-la.
            Seus pés, já cansados, se negavam a dar mais um passo a mais além, e ela se deixou quedar de joelhos em frente ao mar, onde as ondas quebravam bem perto, diante de seus olhos, fazendo aquele barulho sedutor, como que a chamando. Deixou-se tomar pela solidão e que os barulhos e sussurros do mar sobrepujassem os sons que ouvia dentro de sua cabeça.
            Sem que percebesse, uma única e solitária lágrima escapou de seu olho e escorreu pelo rosto, deixando um profundo sulco em sua pele. Ela então sentiu a umidade deixada pela lágrima nos caminhos que percorrera e se lembrou das dolorosas lágrimas derramadas tão recentemente. Lembrou-se de cada momento, de cada palavra, da maneira como se sentira ludibriada, de como fora seduzida e levada a entregar àquele homem o que tinha de mais precioso.
            As dores que sentia no corpo não significavam nada comparadas às dores que sentia latejar no fundo da alma. Sentia-se perdida, sem saber o que fazer para afastar as lembranças, sem saber como diminuir a dor que lhe consumia pouco a pouco e ameaçava lhe tomar por inteiro.
            Fechava os olhos e tentava se concentrar apenas no barulho das ondas quebrando bem perto, lhe chamando para um mergulho, tentando lhe seduzir, esticando seus dedos para tocá-la, mas tudo que ouvia era a voz dele, as mentiras que ele desfiava, com as quais a envolvida sem que ela se desse conta. Lembrou-se que havia resistido além da conta, mas aquelas palavras sussurradas tinham um poder muito grande, e lembrando disso teve a certeza de que a palavra gritada é a mais fraca, de que a palavra falada baixinho, quando proferida enquanto se olha nos olhos é a que tem a verdadeira força.
            Com seus olhos belos e sua voz sibilante, ele conseguira arrancar dela um sorriso, depois outro e mais outro, até que ela, já sem defesas, acabou se entregando, não aos poucos, mas sem reservas. Amou perdidamente, mas em momento algum percebeu que ele só a amava da boca pra fora, que as palavras dele eram vazias de sentimento.
            Foi, para ela, um amor platônico se realizando. O amor platônico, o sonho, mostrou-se em sua verdadeira face quando ele a procurou e, com a mesma voz sussurrada, com o mesmo olhar sedutor, mas desta vez sem o brilho, e com uma fingida dor e um leve sorriso imperceptível aos olhos, disse que não podiam mais ficar juntos, que não podiam mais se ver e disse uma poção de palavras vazias que ela não pôde ouvir, pois a dor foi tão intensa que todos os seus sentidos ficaram como que anestesiados: não via, não ouvia e não sentia cheiro, mas sentiu o abraço frio que ele lhe deu e sentiu o gosto amargo na boca.
            E agora estava ali, sozinha, chorando, e a cada lágrima que escapava de seus olhos eram como se sentisse uma punhalada na alma. Deixou que a dor e as lágrimas lhe lavassem, lhe purificassem e lhe apaziguassem, e quando se sentiu reconfortada, levantou-se lentamente e entrou no mar. Lavou o rosto, deixando que o sal das lágrimas se misturasse ao sal da água do mar. Respirou fundo e olhou para o céu e para o sol, que lhe sorria lá do alto. Abriu os braços e deixou que o calor do sol aquecesse o frio que sentia na alma e assim realizasse o resgate de sua vontade de voltar a sorrir.
             Saiu do mar com o corpo e alma lavada. Seu corpo ainda estava dolorido, sim, mas na alma o processo de cicatrização daquela ferida já tinha sido iniciado, e em muito breve tudo que ficaria seriam meras lembranças e uma pequena marca, como de uma ferida que criou uma casca que caiu e que tal como acontece com os machucados de uma criança, logo foi esquecida.

domingo, 6 de julho de 2014

O homem que guardou seus sentimentos



Ele parou em frente ao espelho, mas não mirou imediatamente aquele que lhe olhava tão fixamente no reflexo, através daquela parede de fino vidro. Estava cansado. Respirou fundo duas ou três vezes, e só então levantou os olhos e viu, para seu espanto, um alguém já velho, diferente  daquele que ele guardava a lembrança, com a pele ressecada, marcada por profundas cicatrizes que o tempo lhe deixara. Tinha os olhos secos e a boca fechada. Olhos que não choravam e boca que não se abria num único sorriso sequer. Foi subitamente tomado por uma lembrança; a lembrança do dia em que se investira daquela expressão, em que se fechara para o mundo, em que decidira se proteger por trás daquela grossa carapaça que nada poderia ultrapassar.
            Foi quando, com o coração em frangalhos, começou a vagar, deixando que seus pés o guiassem livremente. Mesmo com o corpo cansado, não parou de caminhar, até que, extenuado, se deixou cair pesadamente no chão. Aquela não foi a primeira vez em que se vira sofrendo com tanta intensidade, não foi a primeira vez em que sentira tamanha dor no peito, mas decidira, naquele momento, que seria a última das vezes. Cansado de sofrer, decidira que aquela fora a última vez que sofrera aquela dor.
            Eram tantas as dores que trazia no peito, eram tantos os sofrimentos que ficaram marcados no fundo de sua alma, que se sentia cansado de viver-sofrer. Não tinha mais forças, não aguentaria mais viver uma nova dor. Parado, ali, de joelhos, humilhado por aquele sentimento que lhe consumia por inteiro, por aquele sofrer, resolvera tomar uma atitude radical e expurgar tudo aquilo, todos aqueles sentimentos que lhe poderiam, de alguma forma, lhe fazer se decepcionar, lhe trazer alguma dor. Não queria mais sentir aquele gosto ruim na boca, não queria mais senti-lo se espalhar por todo o seu corpo, nos poros de sua pele, em suas veias, lhe turvando a visão, lhe pretendo a respiração, lhe roubando os sentidos. Pegou então, uma faca, mas não tinha coragem de tirar sua própria vida. Então se pôs a apunhalar todos aqueles sentimentos causadores de dor. Percebeu, no entanto, que os que lhe causavam de dor estavam intrinsecamente ligados aos que lhe traziam felicidades, os que lhe arrancavam lágrimas eram gêmeos dos que lhe abriam sorrisos, mas ele não deu importância para isso, e continuou em sua atitude intempestiva. Quando terminou, percebeu que tinha ao seu redor tantos sentimentos que não cabiam numa caixa, onde pretendia trancá-los para que nunca mais pudessem sair, então os pôs dentro de um container. Selou os sentimentos, todos os que viviam em seu peito, naquela imensa caixa de metal, e os guardou para sempre, escondendo em um local protegido nas profundezas de sua alma, onde ninguém, nunca, poderia chegar.
            Levantou-se lentamente, livre de toda e qualquer dor, de todo e qualquer sentimento. Pôs-se, então, a viver uma vida tranquila, cumprindo todas as suas obrigações, vivendo uma rotina sem reclamar, nunca, de nada. Não chorava, mas também não ria; não ficava triste, mas estava, também, livre de pequenas felicidades. Quando recebia um convite para alguma coisa, atendia com um “sim” ou um “não”, indiferente, pois “sim” e “não” para ele eram a mesma coisa, as faces de uma mesma moeda. Casou, mas sem se apaixonar, simplesmente porque precisava se casar, porque impuseram isso a ele. Traiu porque tinha que trair, e mesmo na traição era indiferente com relação àquela com quem ia para a cama, e com aquela que ficava a lhe esperar, aguardando-o em casa para esquentar o seu jantar e desenrolar seu cobertor para que pudesse dormir confortavelmente. Perdeu inúmeros entes queridos, como todos perdem no processo natural da vida, mas mesmo nos velórios e enterros, não derramava uma única lágrima sequer.
            Viveu toda uma vida inteira livre de sentimentos tristes, mas também dos felizes. Teve um filho, e mesmo ao segurar o recém-nascido pela primeira vez, não derramou uma única lágrima de felicidade. Viu a criança crescer, lhe dar os braços, lhe chamar de “pápá”, segurar na sua mão quando queria segurança, lhe chamar à noite quando tinha medo, viu-a caminhar com as próprias pernas, tomar as próprias decisões, viver sua própria vida, e em nenhum momento ele deixou que sentimentos escapassem, pois estes estavam tão bem guardados naquele container que até ele mesmo tinha se esquecido de sua existência.
            Na mesma medida em que viu o seu filho nascer, crescer, aprender a caminhar e ir embora, viu sua esposa, a quem não amava nem odiava, ir envelhecendo, perdendo as forças e tendo a sua centelha de vida se apagando pouco a pouco, até que, por viu, a viu fechar os olhos. Viu as pessoas, todas próximas, mas nunca próximas demais dele, chorando pela perda de uma pessoa tão querida, mas ele, em nenhum momento, teve os olhos úmidos. Recebeu palavras de consolo e a todas elas dizia apenas um “obrigado”, não porque estava tocado pelo que ouvia, não porque se sentia grato, mas porque devia, ao menos, retribuir às palavras com uma outra, nem que esta fosse apenas da boca pra fora.
            A cada conquista que o filho tinha, este lhe mandava uma carta, lhe ligava para compartilhar suas vitórias, e ele, como sempre, emitia palavras vagas, mas que, para aquele, feliz, lhe soavam encorajadoras. Viu-o envelhecer, vencer e, também, sua centelha se vida se apagar, e nem quando percebeu que o caixão dele pousou no fundo da cova, ele chorou, já que estava livre de todo e qualquer sentimento que pudesse lhe causar dor.
            Viu as pessoas que um dia lhe foram próximas, todas, uma a uma, indo embora, e só ele ficava, sozinho, sem derramar uma única lágrima pelas perdas.
            Agora, vendo-se só, olhando nos olhos daquele que lhe mirava do outro lado do espelho, se perguntava pela primeira vez em todos aqueles anos, se valera a pena ter tido aquela vida tão livre de sentimentos de dor. Pela primeira vez, em todos aqueles anos, olhou para baixo, respirou fundo e se deu conta de que viver é sentir dor, e em quem a vida não dói, não vive. Foi então que sentiu aqueles sentimentos adormecidos, guardados naquele container há tantos anos, ganhando novamente viva, acordando de seu longo torpor. Eram tantos e tão fortes, agora, que arrebentaram as paredes de ferro daquela prisão, arrebentaram as comportas que mantinham seguras tantas lágrimas contidas há tantos anos. Ele chorou até seus olhos cansarem, até que todos aqueles sulcos marcados em sua pele encharcarem. Quando as lágrimas cessaram, ele se deixou cair no chão e ficou ali, imóvel, por longos e longos minutos. Sentiu, pela primeira vez em anos, o seu coração bater. Ele batia acelerado, com uma imensa força, arrebentando por dentro, pois não suportava tantos sentimentos libertados de uma única vez. Ele foi fechando os olhos lentamente, sendo tomado por um sono. Revia toda a sua vida passar diante de seus olhos em uma fração de segundos, viu todos os sentimentos que deixou de viver pelo medo de sofrer, e chorou mais uma vez, arrependido. Esperou sua centelha de vida, aquela vida que não vivera, se apagar lentamente e no exato instante em que sentiu seu coração bater pela última vez, sorriu o primeiro sorriso em tantos anos.

domingo, 29 de junho de 2014

O fim de uma longa espera



Ele via através tênue vidraça da janela as lágrimas que o céu derramava e, lá longe, ao pé da montanha, um alguém não maior que um minúsculo ponto no horizonte. Vinha caminhando devagar, como que contando os passos, como se seus pés estivessem pesados e cansados de tanto caminhar, por já terem percorrido uma longa distância e só agora, após tanto tempo, estivessem voltando para o local de sua partida e de seu ponto de chegada. Ele tentou se levantar, mas já não tinha forças para isso. Seu corpo, já velho e cansado, estava debilitado, pois já tinha usado todas as suas energias em se manter vivo, na espera, por aquele momento, para aquele reencontro. Seu coração, que um dia fora tão forte, que batia com tanta força, mas que nos últimos anos se tornara tão frágil, batendo tão fracamente que só era capaz de lhe manter vivo, subitamente começou a bater acelerado em seu peito, fazendo-o se sentir revigorado, novamente vivo após tão longos anos. Abriu-se pouco a pouco, na sua pele enrugada e ressecada, um sorriso, algo que há tanto tempo ele não se lembrava de quando fora a última vez que seus lábios se abriram, desenhando um arco naquela face.
            Ele queria correr ao encontro daquela que tão lentamente vinha ao seu encontro, mas seu corpo se negava a atender àquele desejo, sendo obrigado a passar pelo tormento de mais aquela espera. Ela a via, mesmo de tão longe, tão claramente como a vira tantos anos atrás, tão bela, com o viço da vida brilhando e cada célula de seu corpo. Lembrava das lágrimas derramadas na despedida, momento que ficara gravado como ferro em braça na pele de sua alma, e da promessa feita por ela antes de virar o rosto e ir embora, de que voltaria, pedindo para que ele a aguardasse, para que ficasse a olhar naquela direção. E assim ele fizera, não duvidando, nunca, nas palavras dela, mas não imaginava que aquela promessa iria demorar tanto a ser cumprida.
Agora, quando ele já estava no fim da vida, quando a única coisa que lhe mantinha vivo era uma tênue linha, uma fraca força, é que ela voltava. Ela já estava mais perto, mas não perto o bastante que coubesse no espaço de um abraço, e através daquela vidraça ele já conseguia distinguir suas formas, que, reparou, estavam tão mudadas, mas tão iguais às de quando ele a viu pela última vez. Quanto mais perto ela chegava, mais difícil, para ele, era se manter vivo. Sentia a respiração difícil, o coração batendo cada vez mais fraco e os olhos pesados. Mas ele se segurou firmemente aquele fiapo de vida que ainda lhe restava para vê-la uma última vez, para estreitá-la em braços, para sentir, no abraço, seus corações batendo no mesmo compasso, antes de fechar os olhos.
Ele viu, através da janela, quando ela se aproximou e parou, como se buscasse em sua memória o momento em que vira pela última vez aquela casa que tinha diante de seus olhos, como se, subitamente, não tivesse certeza de que deveria dar mais aqueles curtos passos que a separavam daquela porta pela qual passara tantos anos antes. Ela respirou fundo duas ou três vezes enquanto pensava, e, dentro da casa, ele, percebendo a indecisão dela, prendia a respiração.
            Ela deu um passo, depois outro e mais outro, parando em frente à porta. Estendeu lentamente a mão até a maçaneta da porta, girando-a lentamente até conseguir, por fim, abri-la. Entrou na casa e demorou um pouco até seus olhos se acostumarem à escuridão. Ele a observava, deitado em sua cama. Via-a não como ela se apresentava agora, com o corpo tendo sofrido com as ações do tempo, mas como ela sempre fora em seus sonhos, como a guardara em sua memória. Ele sorriu, e quando o fez, ela olhou em sua direção, enxergando-o entre aquelas sombras que se espalhavam pelo cômodo. Veio lentamente em sua direção, com os passos que se tornaram tão curtos devido à inclemente ação do tempo.
            Os dois ficaram a se fitar, como se um não acreditasse que tinha o outro diante dos olhos, num silêncio que muito falava, ela de pé, ao pé da cama, ele deitado, lutando para se manter são e vivo.
            - Você voltou, como prometido! – disse ele com a voz sussurrante, desprendendo uma enorme força para fazer com que aquelas poucas palavras lhe saltassem pela boca.
            Ela nada respondeu, limitando-se a sorrir. Segurou na mão dele, e naquele simples toque havia tanto calor que transmitiu a ele um pouco de sua força vital. Ele, com aquele toque, sentiu-se rejuvenescer. Ele abriu os braços para recebe-la, e ela deitou-se sobre ele, num estreito abraço. Seus corações bateram em compasso enquanto seus corpos permaneceram unidos como há tempos não ficavam, como nunca deixaram de estar, mesmo quando estiveram separados.
            Foram fechando lentamente os olhos ao mesmo tempo em que puxavam o ar pelas últimas vezes e que seus corações começavam a parar de bater. Quando, por fim, a vida cessou, suas almas se levantaram, desprendendo-se dos corpos, e foram caminhando lentamente de mãos dadas. Passaram pela porta e olharam para trás, para onde seus corpos estavam, unidos, como nunca suas almas deixaram de estar. Sorriram um para o outro e seguiram seu caminho, agora efetivamente unidos.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Simprônio Calado



Quando nasceu, devido a uma promessa que sua mãe fizera para que o filho nascesse saudável, recebera o incomum nome de Simprônio. Cresceu, como toda criança cresce, sem se dar conta do tempo que passava, e na adolescência um alguém lhe dissera, jogando-lhe como um elogio, embora ele não tenha entendido como tal, que ele era uma pessoa de notável senciência devido a sua sensibilidade e à maneira como percebia o mundo ao seu redor. Acabaram os dois caindo no chão, arranhando-se, esmurrando-se, xingando-se de tudo quanto era ofensa, imaginando, Simprônio, que o outro lhe xingava de néscio, de um sem-ciência, ou coisa do tipo. Fechou-se em seu mundo, mais do que vivia fechado, com mais uma estranha palavra que recebera na vida. Já não lhe bastava aquele nome que sua mãe havia lhe dado, agora mais aquela palavra. O outro, o ex-amigo, tentara lhe explicar, quando ele partira com os punhos em riste, que a palavra senciência não era nada daquilo que imaginara, mas sim um elogio, mas ele, acostumado a receber tantas piadas dirigidas por seus colegas de escola devido ao seu nome, às rimas que faziam, jogando-lhe tantas e tantas palavras na cara, que ele, cego e surdo como estava, perdeu a razão a acabou com a única amizade que tinha na escola. A mãe nunca entendeu o mutismo do filho, que se acentuou após aquela briga. A atitude mais sensata fora tomada: Simprônio mudaria de escola.
            A mudança não lhe fez bem, pois tudo continuava como antes: as mesmas brincadeiras sem graça, as mesmas rimas com seu nome, as mesmas piadas, a ponto dele ficar mais e mais fechado em seu silêncio. Aprendeu, a duras penas, que a melhor maneira era, para tantas e tão incomuns palavras que lhe eram jogadas na cara, a desenvolver um “ouvido de mercador”. E assim o fez, com o intuito de recomeçar, com a esperança de nunca mais ouvir aquela balela sem importância que lhe era atirada diariamente, fechado em um cárcere que construíra protegido por grossas paredes para si, como que num sótão de suas próprias emoções. Sua mãe, preocupada, o levou a um médico, com a esperança de curar o menino daquele mutismo, mas este, incapaz de fazê-lo falar seja lá o que for, foi taxativo em seu diagnóstico: esquizofrenia! A mulher deu um grito quando viu aquela palavra escrita em letras garrafais, chorou o abraçou o filho, que apenas levantou levemente a sobrancelha quando ouviu aquela palavra dita pelos lábios do médico, mais uma para a sua “coleção de palavras”. A mãe, então, movida pela única coisa que lhe restava, sua fé, levou o menino a padres, pastores e curandeiros, e todos extraíram dinheiro e mais dinheiro da ingênua mulher, que sempre voltava para casa mais e mais abatida ao ver o seu filho naquele estado eternamente isolado em seu próprio mundo. Tomou uma difícil e sensata decisão: deixar o filho viver do jeito que ele entendia ser a melhor para ele, respeitando os seus silêncios. Simprônio, então, ao ouvir aquelas palavras vindas da boca de sua mãe, sorriu, coisa que não fazia há anos, e a mãe, ao ver aquelas curvas nos lábios do filho, chorou de alegria e o abraçou.
            Simprônio continuou a viver normalmente sua vida, não mais dando ouvidos aos que lhe endereçavam palavras ásperas a ponto das pessoas não mais repararem nele. Ingressou na universidade e ali, pela primeira vez, as pessoas não se importavam com seu estranho nome e muito menos com o seu mutismo, a ponto dele se sentir um pouco mais a vontade para abrir a boca e conseguir ouvir, vez por outra, a sua própria voz. Mas o mundo de uma universidade não era fácil, e ele tinha que seguir uma rígida rotina de estudos, trabalhos, atividades acadêmicas diversas e mais os estágios num caos-ordeiro que tinha se instalado em sua vida. Passava os dias tão ocupado, tão sem-tempo para falar banalidades que todos falam em corredores de universidade, que logo colocaram seu apelido de Simprônio Calado, do qual ele gostou, pois não era, aquela alcunha, proferida com tons pejorativos pelos seus colegas de curso.
            Simprônio Calado, havia realmente adotado a alcunha como sobrenome, graduou-se com méritos acadêmicos e logo conseguiu ser designado para funções administrativas numa repartição pública. Lá era responsável por toda a burocracia. Ficava, da hora em que chegava até a da saída, isolado, dentro de uma sala, soterrado por um número incalculável de documentos para analisar, de autorizações para assinar, de alvarás para conceder e de uma poção de outras coisas rotineiras de seu trabalho. Mas apesar de sempre igual e cansativa rotina, ele, ali, se sentia feliz como jamais estivera. Aquelas palavras, termos estranhos, escritos tão pomposos, eram como música para seus olhos, e ele logo incorporou-as a seu “dicionário de palavras estranhas”. Por vezes, ele não as entendia totalmente, mas ficava tão fascinado por ela que se negava a assinar uma autorização sendo pedida via tão belas e polidas palavras, o que acabou por lhe gerar algumas advertências e ser, depois, obrigado a corrigir os erros cometidos. Mesmo com a revolta que lhe consumia nesses momentos, respirava fundo quando via aqueles documentos novamente sobre a sua mesa, tendo sido anexado um bilhete, escrito com caneta vermelha, um gentil bilhete de seu superior pedindo para que ele relesse com mais atenção os documentos, revisse o que havia assinasse e, após isso, fosse entrega-lo nas mãos dele. Quando isso acontecia, ele, mesmo sentindo que cortava em sua própria carne, refazia o trabalho, negava a autorização, e se dirigia por aquele longo, estreito e úmido corredor até a sala do chefe. Batia duas ou três vezes na porta, e sempre ouvia, ao abrir uma brecha na porta, um “espere aí fora, que daqui a pouco lhe chamo. Estou ocupando, numa ligação importante com um secretário!”, e ele fechava a porta delicadamente e esperava, sentado num banco duro de madeira, que seu chefe terminasse a ligação. Exercitava a tolerância e paciência, pois, por vezes, essas ligações duravam horas, e só quando seu chefe soltava um sonoro suspiro, sabia que em breve seria chamado e receberia o sermão a que estava tão acostumado. Eram sempre as mesmas palavras duras, embora ditas de forma educada, lhe chamando a atenção para mais um erro naquela semana. “E se eu não tivesse aqui para revisar o seu trabalho, como seria? Já perdi as contas de quantas autorizações equivocadas você assinou nos últimos meses, Simprônio! Por favor, preste mais atenção ao que está lendo antes de assinar um documento, seja lá qual for!”, dizia seu chefe, e depois abaixava a cabeça e ia se deter em outros trabalhos, dando por encerrada aquela reunião.
            Simprônio, sempre que chamado a atenção por algo que ele julgava injusto, tornava-se ainda mais calado, e passava dias inteiros chegando mais cedo e saindo mais tarde do trabalho só para não ter que esbarrar com pessoas e proferir um “bom dia!” ou um “boa noite e até amanhã”, preferindo passar os dias entretido na leitura de documentos diversos escritos com tão belas e incomuns palavras. Mas de tanto errar, assinando o que não deveria assinar, acabou sendo designado para uma outra função dentro da repartição, pois seu chefe já havia cansado de lhe chamar a atenção. Foi com um sentimento de pesar que deixou para trás aquela mesa, vendo que ainda havia sobre ela tantos e tantos documentos escritos tão magistralmente que deixara de ler, tantas e tantas palavras que não lhe fora permitido tomar para si e incorporar ao seu já tão vasto vocabulário. No entanto, apesar dos pesares, foi com o desejo de superação e imensa satisfação que assumiu a nova função: agora seria responsável por toda a correspondência inter-repartições.
            Passava ininterruptas horas daqueles longos dias lendo aquelas cartas tão insossas e impessoais que sequer lhe despertavam qualquer interesse quando ele chegava ao trabalho e as via empilhadas sobre o seu birô. Apenas respirava fundo duas ou três vezes, com saudade dos tempos passados no setor anterior, em que entre tantos documentos, encontrava um ou outro que lhe tirava lágrimas dos olhos e lhe deixava com a respiração presa ao lê-los. Por vezes era obrigado a escrever, também, algumas cartas para outras repartições, e a reciprocidade nas palavras que deixava as marcas no papel era a mesma: sempre palavras insossas e impessoais.
            Por vezes, seus dias eram tão sem-sentido, tão sem-gosto, que ele tinha vontade de largar tudo e ir embora. Mas ir embora pra onde?, ele pensava. Ir fazer o quê? Trabalhar com o quê?, se perguntava. E continuava a seguir seus dias como sempre os seguira: impassível, sem reclamar, sem se mover para frente nem para trás, apenas se deixando levar pela maré. Aquele, entendia Simprônio, era um momento de superação em sua vida, e sentiu certo alívio e gratidão por tudo pelo que estava passando.
            Um dia chegou mais cedo ao trabalho e ao abrir sua sala, que viu aquela enorme pilha de correspondências, respirou, como sempre, duas ou três vezes. Fechou os olhos e só quando se despiu da impaciência que vinha se avolumando em seu peito nas últimas semanas, foi que se sentou e começou a trabalhar.
            Algo naquela pilha de cartas não estava certo. Estavam, todas organizadas como sempre estavam, e salvo o fato de talvez haver uma quantidade um pouco menor de cartas do que no dia anterior, tudo parecia em ordem, como sempre estivera. Foi então que reparou, bem no meio daquela pilha de correspondências, um envelope diferente. Não daqueles brancos, cinza ou pardo característico, mas de um tom de cor incomum: rosa! Ele, em sua pressa para pegar aquela misteriosa carta, derrubou a pilha com todas as outras bem na hora em que ia passando em frente a sua sala um colega de trabalho.
            - Credo, Simprônio! Parece que acabou de receber uma carta escrita pelo próprio presidente dos Estados Unidos! – falou, e saiu rindo da própria piada.
            Simprônio não ouviu o que o outro dissera. Estava mais ocupado procurando a carta cor-de-rosa que tinha se perdido. Ficou agachado, com as mãos se batendo uma na outra na sua pressa de encontrar o tesouro encontrado-perdido. Passava as mãos ora na cabeça, numa tentativa de retomar a calma, ora nos olhos, como que para acordar, perguntando-se se seus olhos por um acaso não tinham lhe enganado tão poucos minutos antes. Mas não. Seus olhos não tinham lhe enganado. Lá estava ela, a carta, soterrada entre o peso morto de tantas outras. Ele a pegou sofregamente como um náufrago apanha o primeiro pedaço de madeira flutuante que vê como única forma de salvação. Esperou a respiração e os batimentos cardíacos voltarem ao normal, para só então se levantar e lê-la.
            Ajeitou de forma desajeitada as correspondências comuns sobre sua mesa e começou a andar de um lado para o outro pela sala, segurando firme mas com delicadeza a precisa carta, e só quando se sentiu perfeitamente de posses de suas faculdades, foi que parou e a olhou contra a luz, para que, ao abrir o envelope, não rasgar junto o precioso tesouro. Ouviu o suave chiado-grito de dor do envelope enquanto era rasgado e quando retirou de seu seio a preciosidade que ele guardava, respirou fundo antes de mergulhar na leitura.
            Era uma carta comum, escrita em termos comuns, com uma finalidade comum, mas que, para os olhos de Simprônio, era uma carta única, que só ele conseguia identificar o clamor que existia por trás daquelas palavras contidas, pois eram palavras em formas e sentidos que ele mesmo escreveria. Seu conteúdo era o mesmo daquelas todas cartas que jaziam ali, na sua mesa, mas havia algo ímpar nela. Leu-a duas ou três vezes, saboreando cada palavra, a forma como eram tecidas as frases, e só quando apreendeu sua forma e belas palavras, foi que atendeu para o nome e assinatura da remetente. Era um nome belo, tão incomum quanto Simprônio. Uma lágrima escapou de seu olho e mergulhou naquela carta, manchando-a no canto em que se espatifou. Simprônio se jogou na cadeira, abraçado a carta, e assim ficou durante todo o dia. Releu-a um sem-número de vezes, e só quando já a havia decorado vírgula por vírgula, foi que a guardou delicadamente no bolso de sua camisa e, pela primeira vez em anos, saiu do trabalho antes do fim do expediente, sem ao menos atentar para o fato de que não havia aberto uma única outra correspondência naquele dia.
            Dormiu e acordou pensando naquela carta, e ao chegar ao trabalho no dia seguinte, houve um impasse sobre a melhor maneira de escrever uma resposta, profissional/polida. Escreveu uma carta-resposta, mas esta lhe pareceu muito insossa, escrita em termos idênticos aos que encontrava naquelas cartas que estavam sobre a sua mesa; escreveu uma outra, que lhe pareceu excessivamente impessoal; escreveu uma terceira, que lhe soou excessivamente pessoal. Aos poucos, no cesto ao lado de sua mesa, havia um monte de papel amassado. Ele passava vigorosamente as mãos na cabeça, sem saber como e o que escrever.
            Passou o dia inteiro tentando se distrair, lendo e escrevendo as mesmas cartas de todos os dias, e por um momento, entretido como estava no trabalho, se esqueceu, realmente, da carta que tinha guardado na gaveta de sua mesa, e só quando viu tinha finalizado todo o trabalho daquele dia e posto em dia o do anterior, que deixou as mãos caírem ao longo do corpo, que bateu os olhos na gaveta fechada, que se deu conta de que tinha que dar uma resposta àquela carta. Pegou uma pilha de papeis em branco e iniciou uma série de cartas-resposta, mas não se deu satisfeito com o resultado de nenhuma delas, e quando todos já tinham ido embora da repartição, que ele se deu conta de que estava sozinho ali, de que não havia nos corredores o som de um único passo, que se deu conta de que teria que ir embora, novamente, sem conseguir escrever linha alguma que lhe satisfizesse.
            Voltou para casa cabisbaixo, levando consigo, colada ao peito, no bolso da camisa, a carta que esperava ansiosamente por uma resposta.
            Durante todo o final de semana que se seguiu ficou trancado no quarto, tendo à sua frente folhas e mais folhas de papel em branco, esperando para serem marcadas com a ponta cirúrgica de sua caneta, e, ao lado, a carta, à qual ele recorria a cada vez que escrevia uma palavra. No final da tarde do domingo, ele, finalmente, se deu por satisfeito com a carta-resposta que escrevera, em termos polidos, de forma direta e profissional, como a sua posição pedia, mas repleto de inversões sintáticas e de termos minuciosamente escolhidos, que só uma pessoa como ele e como aquela que tinha lhe escrito aquela carta, seriam capazes de perceber.
            Na segunda-feira, a primeira coisa que fez ao chegar ao trabalho, foi pôr a carta que com tanto esmero escreveu num envelope especial, de uma cor diferente aos que a repartição dispunha, e despachou a correspondência. Mal a despachou, já ficou esperando, impaciente, pela resposta. Esperava pela resposta da mesma forma que o solo espera que uma gota de chuva caia do sol após um longo verão e lhe sacie a sede.
            Passaram-se dias inteiros sem que nada de diferente acontecesse. Sempre chegava ao trabalho mais cedo, para receber ele mesmo as correspondências do dia, e sempre via os mesmos tão-iguais envelopes, com as mesmas cartas, escritas da mesma maneira, com o mesmo vocabulário e pelos mesmos remetentes. Já tinha até perdido as esperanças devido àquela espera-agonia sem-fim, quando, no final da tarde da sexta-feira, chegou uma correspondência atrasada, e o funcionário que a entregou pediu desculpas, alegando que tinha ficado perdida, confundida com outros tipos de correspondência, uma vez que as cartas oficiais, trocadas inter-repartições, nunca eram remetidas naquele tipo de envelope! Simprônio não lhe deu ouvido e arrancou das mãos sujas do outro aquele precioso tesouro.
            Em seu afã de ler a carta, o fez com tanta pressa que não apreendeu uma única palavra de tudo que lera. Balançou a cabeça de um lado pro outro a fim de poder se concentrar, e só então, quando se julgava de posse de suas faculdades mentais, foi que a leu com calma, palavra por palavra, vírgula por vírgula. Seu coração, ele sentia, batia em uníssono ao da pessoa que escrevera aquela tão bela carta, tão repleta de sutis e belas incomuns palavras, tão repleta de inversões sintáticas, tão esmeradamente bem escrita!
            Saiu do trabalho como quem sai a andar nas nuvens e passou o final de semana inteiro a esculpir, letra por letra, uma segunda carta. Em sua empolgação, chegou a pensar em escrevê-la num antigo pergaminho que tinha, mas achou que seria um exagero, pelo menos naquele momento.
            Começaram, nas semanas seguintes, a trocar uma infinidade de cartas, todas escritas com a mesma minúcia, com as palavras escolhidas uma a uma. Mal Simprônio despachava a sua correspondência, já começava a viver a impaciência da espera pelo recebimento da resposta, e quando se passavam dois ou três dias sem ver na pilha de cartas um envelope de cor diferente, já começava a se angustiar. Havia momentos em que de tão alvoroçado que estava, mal conseguia encaixar uma palavra a que só ela, ao receber e ler a carta, poderia captar o verdadeiro sentido. Mas ele tinha persistência, e com muita paciência, tecia, no meio das frases e palavras insossas, alguma saborosa e repleta dos sentimentos que sentia naquele momento.
            Algo novo, inteiramente diferente, nascia e crescia no peito de Simprônio, uma palavra que ele já tinha ouvido, mas há muito tempo, e que não conhecia o verdadeiro sentido, mas agora, com aquelas cartas, com a angústia, com os medos que sentia, passou a entende-la.
            Ele tomou uma resolução: iria, na manhã seguinte, enviar uma carta não direcionada à repartição, ao departamento, mas à pessoa. Ao despachar a correspondência, sentiu insegurança e medo, uma vez que aquela era a primeira vez que direcionava palavras tão pessoais para uma mulher.
            A resposta demorou a vir e ele ficou noites inteiras sem dormir, chegando ao trabalho, na manhã seguinte, com olheiras profundas. Fazia seu trabalho de maneira distraída, mas o seu trabalho era tão pouco relevante diante dos outros da repartição, que seus erros sequer foram notados.
            A carta-resposta veio no momento de maior angústia de Simprônio, que, ao recebe-la, estava tão atarantado que por pouco não a rasgou no meio e acabou amassando-a inteira. Leu-a de um fôlego só e quando leu o último ponto, uma sutil e fina lágrima escapou do canto de seu olho e um sorriso se abriu em sua face.
            Começaram, os dois, a trocar longas cartas em que cada um podia ser a si mesmo, sem preocupações com as linguagens insossas e impessoais das correspondências oficiais das repartições públicas. Combinaram a enviar, agora, cartas um para o endereço do outro, e a cada dois ou três dias, sempre que chegava a casa, Simprônio, ao abrir sua caixa de correspondência, onde antes só chegavam os boletos de suas contas a pagar, encontrava uma carta selada num envelope colorido e perfumado.
            As cartas começaram a ficar ainda mais pessoais e as palavras que ela emprestava e dava e que ele igualmente retribuía, passaram a ser ainda mais sérias e ela, certa vez, escreveu uma carta que continha uma única frase/pergunta, feita de forma clara e objetiva: “vamos nos encontrar?”. Simprônio não soube o que nem como responder. Acostumado a uma linguagem de palavras incomuns e inversões na ordem dos termos da oração, não conseguia emitir uma resposta de forma tão direta quanto a pergunta exigia.
            Ficou doente e pôs um atestado para poder se afastar por uns dias das atividades profissionais. Não tinha a menor condição de sair de casa e de pensar no que quer que fosse. Tomou um sumiço na vida por algum tempo, meditando sobre como responder aquela pergunta que mexera tanto com o seu ser. Foi então que ele decidiu deixar de lado a linguagem pomposa, os termos pernósticos e os jargões prototípicos de sua forma de se expressar e foi direto.
            Trocaram, ainda, mais algumas cartas antes de combinarem o encontro, e em cada carta, apesar de retomarem a suas maneiras particulares de conversar, havia expressa, em cada palavra, uma emoção nova para cada um deles, com a qual nenhum dos dois estava acostumado a lidar.
            Marcaram, finalmente, de se encontrar. No dia, tanto Simprônio Calado, que havia se tornado surpreendentemente falantes nas últimas semanas, quando ela, estavam agitados, e quando se viram, se reconheceram imediatamente. Ambos ficaram quietos, um olhando para o outro. Haviam sido companheiros de sala de aula durante toda a vida escolar, moravam no mesmo bairro, em ruas bem próximas, mas por serem fechados, cada um em seu próprio mundo, nunca tinham dedicado um olhar um para o outro. Eram como que os excluídos da sala, os de nomes estranhos, os sem-amigos, e agora estavam ali, um de frente para o outro, sorrindo. Simprônio abriu os braços e ela os dela, e ambos não precisaram falar nada, nem uma palavra desconhecida, pomposa, nenhuma simples e direta.