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domingo, 9 de março de 2014

O menino e a biblioteca

Ninguém sabia o porquê de ele ficar trancado naquele cômodo da casa o dia todo. Viam aquele lugar estranho na casa como um ambiente qualquer, onde um velho tio tinha juntado uma gigantesca coleção de objetos velhos a que as pessoas chamavam de livros.
Como ninguém sabia o que fazer com eles nem se interessa por descobrir e por se tratar de uma herança, por uma questão de respeito à pessoa que os tinha deixado, guardaram-nos num cômodo da casa, fecharam a porta e esqueceram que tal lugar e tais objetos existiam. Ninguém pisava lá, ninguém sequer abria aquela porta, até que um sobrinho distante veio passar na casa da família alguns dias. Explorando a casa, andando por corredores longos, mal iluminados e silenciosos, ele chegou ao final daquele onde havia uma porta fechada, mas que ele mal se aproximou já foi se abrindo, dando-lhe passagem, mostrando um cômodo repleto de luzes e sons silenciosos. Prendeu a respiração, pois nunca tinha visto tantos livros juntos, e olhou para trás, para ver se ninguém o repreendia por ter aberto aquela porta que jazia fechada há tanto tempo. Com medo, não sabia se podia entrar ali, mas que mal poderia haver em entrar na biblioteca, lugar este mágico no qual, infelizmente, nenhuma pessoa entrava?! Deu um primeiro passo, passando pelo umbral da porta, depois deu mais outro, outro e outro, até que se viu ao pé da estante. Levantou lentamente o braço, abriu a mão e tocou alguns daqueles livros, que pareciam sedentos para serem abertos, lidos, saboreados e devidamente apreciados. Fechou os olhos e deixou seus dedos correrem livremente, passeando, tocando, sentindo as capas daqueles livros, até que seus dedos se detiveram em um livro. Lentamente ele abriu os olhos e sorriu ao ver que livro sua alma-de-leitor tinha escolhido. Pegou o livro, retirando-o da estante, com todo o cuidado do mundo e, abraçado a ele, sabendo que tinha em seus braços um preciosíssimo tesouro, foi até um canto da biblioteca reservado à leitura e devorou, saboreou aquela obra de arte feita de folhas, tinta e alma com uma ânsia que até então desconhecia. Dia após dia, ele passou a passar por aquela porta e, como em forma de um ritual, de uma escolha feita por sua alma, fechava os olhos e deixava suas mãos passearem livremente, até que se detivessem, escolhessem um livro, e aquele seria o que ele iria ler naquele dia.
Como era um menino no qual não prestavam atenção, de hábitos solitários por natureza, passou a frequentar a biblioteca da casa sem que se dessem conta. Passava longas horas entretido ali, no meio daquelas luzes, ouvindo tantas altas-sussurrantes vozes, em companhia de tantos autores e personagens. Pouco a pouco passou a ficar mais tempo entre os livros do que entre as pessoas, e estas nem se davam conta disso, achando aquele afastamento normal vindo de um menino solitário.
Deveria ter ficado apenas alguns dias, mas foi se esquecendo por ali, foi se fundindo à biblioteca de tal forma que acabou ficando sem que as pessoas da família se apercebessem de sua presença na casa. Fazia rapidamente as refeições com os membros da família e nos intervalos entre o café da manhã e o almoço, entre o almoço e a janta, ia se perder e se encontrar sendo embalado pelas melífluas palavras de um autor na companhia de mil e um personagens.
Ele foi mudando, foi crescendo, foi adquirindo uma nova vida e seu olhar foi ficando mais aguçado, seus olhos vendo mais do que apenas aquilo que se mostrava. Começou a falar de maneira diferente, de forma clara e precisa. Quando isso aconteceu, as pessoas começaram a estranhar e certa vez um alguém o seguiu, para saber onde ele ia e com quem estava nos momentos em que não era em companhia de pessoas. Tal não foi o seu espanto ao constatar que o menino entrava e ficava longas horas perdidos dentro do “cômodo esquecido da casa” que era a biblioteca. Correu para dizer aos outros.
- Deixe pra lá! Daqui a pouco ele esquece que existe uma biblioteca aqui – disse certa pessoa, para acalmar os ânimos dos que, em polvorosa, queriam que se tomasse alguma atitude para se por fim aquela atitude sediciosa do menino.
Mas o menino não se esqueceu, e, pelo contrário, começou a, ao passar dos dias, ficar mais e mais tempo na biblioteca, entre os livros, e aquilo gerou certa preocupação por parte das pessoas. Uma ou outra tentava lhe oferecer distrações, chamando-o para sair, para passear, ao que o menino respondia com um educado “estou ocupado” no início, e depois com um simples e definitivo “não” quando a pessoa muito insistia, e entrava naquela biblioteca e se esquecia do mundo exterior, ficando longas e longas horas entretido nas páginas daquele livro, viajando e saindo do mundo sem sair do lugar, deixando que sua alma vagasse livremente por mil e um espaços.
As pessoas, no entanto, consideravam aquela atitude estranha, inexplicável, e passaram a insistir mais enfaticamente, e certa vez uma a perguntou:
- Por que você lê tanto?
O menino, muito educadamente, olhou a pessoa, um amigo de um membro da família que viera ali com o intuito de “lhe salvar”, e respondeu:
- E tu, por que tanto respiras? – e fechou a porta, trancando-se na biblioteca.
Ao ouvirem aquilo, entenderam a resposta-pergunta do menino não como um ato de arrogância e grosseria, mas como palavras sábias, mesmo vindo de um alguém tão jovem.
No dia seguinte, quando o menino abriu a porta da biblioteca e entrou, um primo seu, curioso e de maneira tímida, perguntou se também podia entrar. Queria saber o que aquele lugar tinha de tão especial, o que tanto escondiam aqueles objetos chamados livros. Foi este segundo menino mais um a ser fisgado pelos livros, mais um a ser motivo de preocupação na família!
E quanto mais pessoas ficavam preocupadas, mais curiosas ficavam por descobrir e assim acabavam se deixando, movidas pela curiosidade, passar por aquela porta, se deixavam andar livremente por entre as estantes de livros e que suas almas escolhessem que livro abrir naquela manhã.
Pouco a pouco a biblioteca, que era um lugar esquecido, o mais distante da casa, foi se tornando o coração, pulsante de vidas mil, o ambiente mais frequentado, onde a porta nunca estava fechada, onde sempre havia um alguém a ler, seja no silêncio e no frio da madrugada, seja em pleno calor meio-dia.
As pessoas, então, passaram, também, a entender que livro não é só um objeto que resguarda, escondido entre seu seio, nas suas páginas, protegido por uma capa, um emaranhado de palavras, que deve ficar trancafiado, fechado, exposto numa estante e fechado atrás de uma porta de biblioteca, mas sim algo vivo, que pulsa, que tem alma própria, e que esta clama, grita, por se libertar, para viver, mas que isto só é possível graças e com a intervenção do leitor. Livro é algo repleto de significados e de transcende a todas as tentativas de definições e significações, pois só quem sabe o que ele realmente significa é aquele que, meio que por um acaso, se deixou levar por uma curiosidade e abriu, aleatoriamente um livro e leu a primeira palavra que lhe caiu nos olhos.

domingo, 20 de outubro de 2013

O homem que podia voar



Ele podia voar, apesar de não possuir asas, de ser grande, pesado e desengonçado; mesmo assim, ele podia voar. Bastava ele querer, fechar os olhos e abrir os braços, que podia sentir a leveza, paz e total tranquilidade tomar conta de todo o seu corpo, pegando sua alma pela mão e o libertando daquele mundo pequeno em que vivia, com os pés colados no chão e de alma aprisionada. Ele voava, sempre que podia, sempre que queria, e as pessoas que estavam ao seu redor o olhavam com estranheza sempre que o viam levantar-se do chão, algumas chegando mesmo a lhe apontar o dedo, criticando-o por aquele “exibicionismo barato e sem lógica”; mas ele não ouvia tais críticas e nem via os olhares recriminadores que as pessoas lhe lançavam, pois, mesmo quando estava com os olhos abertos, sua alma estava livre, e voava livremente pelo firmamento.
            Ele podia, em seus voos, visitar mil e um mundos, adentrar em todas as portas, pois era uma alma livre, leve e solta. O tempo também não lhe oferecia barreiras, pois quando estava a voar, ele podia visitar passados longínquos e vislumbrar um futuro distante, assim como se livrar de todo e qualquer tempo e viver numa total atemporalidade. A fantasia estava sempre com as portas abertas para ele, que podia, se quisesse, tanto viver entre os homens, normais, e viver suas rotinas, dramas e alegrias, quando entre seres imaginários, que só se tornavam reais para aqueles que possuíam a leveza da alma e que podiam voar livremente pelos sete céus.
            Ele podia, quando leve, quando seus pés se libertavam das amarras que lhe prendiam ao chão, que abria os braços e os olhos da alma, conhecer, viajar, ser o que ou quem quisesse ser, ou ser simplesmente ninguém, um mero expectador e assistir ao desfecho de todas as histórias. Podia se emocionar, rir, chorar, mas não podia ou conseguia ficar indiferente, em hipótese alguma, pois se assim o fizesse, cairia no chão, na dura realidade, e o dom de voar lhe seria proibido naquele momento. Indiferença e não-envolvimento-emocional e voo eram coisas que não combinavam,e ele sabia disso, por isso, sempre que voava, se entregava inteiramente de corpo e alma àquilo que se descortinava à sua frente e se oferecia tão livremente à sua alma.
            Ele, quando voava, entrava em estado de êxtase profundo, do qual ninguém nem nada podiam tirar. Ele havia se tornado um completo dependente de voos e de liberdade. Quando voava, ele era rico, era pobre, era homem, era mulher, era criança, jovem, adulto ou idoso; quando voava, ele era tudo ou era simplesmente ele.
            Ele, voando, podia ouvir mil e um sons, desde a música cantada pelo vento, passando pelas vozes das pessoas lá embaixo até o mais profundo, completo e reconfortante silêncio. Ele podia simplesmente tudo quando voava. Os seus cinco sentidos estavam completamente livres, aguçados: podia sentir todos os gostos, ver tudo, sentir os toques, os cheiros e ouvir.
            Ele voava onde quer que estivesse; mesmo com os pés colados ao chão, ele voava, pois para voar bastava querer, bastava sentir a textura daquele poderoso objeto mágico que tinha nas mãos, abri-lo e mergulhar de cabeça nas suas páginas e beber cada uma de suas palavras. Para voar, ele só precisava abrir aquele livro, sentir-se livre e deixar-se tomar por inteiro por aquelas palavras mágicas e encantatórias.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Espírito de Livreiro



Livreiro possui um espírito aventureiro, descobridor, tal qual aqueles personagens tão conhecidos de tantos livros. O livreiro busca incessantemente tesouros escondidos, perdidos naquela imensidão de prateleiras ou esquecido no canto de baixo de uma mesa.
            Livreiro não é vendedor, apesar de constar tal profissão assinalada em sua Carteira de Trabalho, pois seu trabalho não é vender, mas sim orientar, encantar, surpreender e cativar não ao cliente, mas sim ao leitor sedento de uma boa indicação de leitura. Livreiro também não é vendedor por que não vende produto algum, mas sim Livros, e o que um livro mantém aprisionado em suas páginas em branco e letras impressas não pode ser mensurado e comparado a produto algum.
            Livreiro é um completo e confesso apaixonado, e transparece a sua paixão em tudo, e é facilmente reconhecido em suas palavras, atos e gestos, pois tem tatuado não na pele, mas em sua alma, a sua paixão.
            Livreiro nunca é um alguém comum, pois tem “gostos e hábitos estranhos”, como ler em ônibus, nas filas, enquanto espera seu número em um painel eletrônico; como sentir o cheiro de livros com quem cheira a primeira flor a desabrochar na primavera; como ouvir as vozes dos personagens do livro que está lendo; como ser mais reservado e muitas vezes mais calado, silencioso e quieto, embora estas características em nada tem a ver com sua mente e alma em eterna ebulição, eternamente barulhenta que grita a tal ponto de lhe estourar os ouvidos.
            Livreiro não é livreiro apenas em seu ambiente de trabalho, pois carrega consigo sua paixão onde quer que vá, e sua paixão transcende a todas as paredes aonde venha a estar encarcerado.
            Livreiro não vive apenas uma vida, mas sim mil e uma ao mesmo tempo. Reconhece em leitores os personagens e situações vibrantes dos livros que leu e os cumprimenta como se fossem íntimos de longa data, intimidade esta que só um grande livro pode propiciar.
            Livreiro conversa sobre livros com intimidade e paixão apaixonantes, que faz com que aquele que ouve as suas brotantes palavras tão sinceras, vindas do âmago de sua alma, sendo reflexos da vida vivida nas páginas daquele cativante e formidável livro, entrem pelos ouvidos do leitor e se espalhem por sua corrente sanguínea, acelere os seus batimentos cardíacos e faça com que ele entre na história antes mesmo de iniciar sua leitura, só em ouvir as palavras do loucamente apaixonado livreiro.
            Na casa de um Livreiro não há livros guardados, mas sim vidas que brotam e voejam por todos os ambientes de seu recinto sempre que um alguém abre algum daqueles objetos mágicos e dá asas e vida aos personagens de cada uma daquelas histórias contidas naquelas centenas, quiçá milhares, de livros.
            Um Livreiro nunca poderá ser definido com poucas e imprecisas palavras, por mais hábil que seja aquele que tenta defini-lo, mas ele é claramente percebido em meio a uma multidão, principalmente pelo sorriso quando se encontra em seu habitat natural, dentro de uma biblioteca ou livraria, ou simplesmente entre livros ou pessoa cujas almas vibram em consonância com a sua, que compartilham a mesma paixão pelos mesmos livros.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Balanço Anual de Leitura



Eu sou um tanto quanto “chegado a uma tradição” e me apego ferrenhamente a cada uma que instituo. No que tange às minhas leituras, sou um completo e confesso tradicionalista. Todo ano eu inicio meu “ano de leitura” lendo um grande clássico ou relendo alguma obra que me marcou de uma forma especial. Em 2012, óbvio, segui a tradição, mas confesso tê-la levado a extremos logo no primeiro mês do ano, pois iniciei o ano com a leitura do extraordinário Nova Antologia do Conto Russo e em seguida mergulhei pela segunda vez nas maravilhas e fantasiosas histórias da família Buendia, em Cem Anos de Solidão. O impacto desse inicio de ano avassalador foi tamanho lendo em seguida meu primeiro Caio Fernando Abreu, Morangos Mofados, e depois O Templo do Pavilhão Dourado, mergulhando na delicada e sempre imaginativa literatura japonesa. Com um início de ano tão avassalador no que tange a leituras, lendo livros tão “carregados”, resolvi, então, nas semanas seguintes, ler algo mais ameno, por assim dizer, e peguei meio que por um acaso os livros A Chave de Sarah e O Tempo Entre Costuras, que me impressionaram enormemente, pois fui ler esses livros “com a guarda baixa”, sabendo, de antemão, pois já me haviam sido muito bem recomendados, que eram bons livros, mas não me disseram que eram tão bons.
Pois bem, movido por tão boas leituras logo de cara, nos dois primeiros meses do ano, fiquei com um pensamento na cabeça: 2012 promete! E foi um ano que prometeu e cumpriu. Foram no total 43 livros, sendo destes, 2 releituras, Cem Anos de Solidão,já citado, e Vidas Secas. E quando li este livro vi o quão pouco leio de literatura nacional e prometi para mim mesmo que iria ler mais autores brasileiros. Dito e feito: li José Lins do Rêgo (fantástico, como sempre), Ronaldo Correia de Brito, meu autor brasileiro contemporâneo favorito, meu conterrâneo Leonardo Barros, além de alguns outros (se eu for citar tudo e todos que eu li, a crônica iria ficar tão grande que ninguém iria ler!).
2012 foi um ano de leitura de muitos clássicos, e os russos, como sempre, merecem destaque. Comecei com uma coletânea de contos e li Tolstoi (óbvio!), Tchekhov e Gogol, e sempre fico, quando leio esses autores, me lamentando, pois são livros demais para serem lidos e tempo de menos. Eu costumo dizer, sempre, que quando mais a gente lê, mais descobre que não leu nada! Mas se a gente ficar se lamentando pelos livros que não vai conseguir ler, acaba, realmente, é não lendo nada...
Eu li, além dos russos, Kafka (meu primeiro Kafka, A Metamorfose), que me impressionou muitíssimo, Frankenstein, de Mary Shelley, e A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, clássicos da literatura do gênero que me faltavam após ter lido, em anos anteriores, Drácula e O Médico e o Monstro, além de histórias de H.P.Lovecraft. Li também meu primeiro Eça de Queiroz e li vários autores que podem ser colocados no hall dos “clássicos modernos”: Vargas Llosa, com o A Festa do Bode, que, de cara, passou a ocupar o posto do melhor livro que já li dele, Philip Roth, com o emocionante e fortíssimo Patrimônio, para mim o melhor escritor norte-americano da atualidade, Mário Benedetti, e a que embora não seja das mais bem-vistas escritoras pela academia, talvez por ser muito popular (para não dizer Best-Seller), Isabel Allende, com o magnífico A Casa dos Espíritos. Além desses, li também o fantasioso e maravilhoso Peter Pan, em sua versão original, e o magnífico e enigmático Jorge Luis Borges.
Dos chamados Best-Sellers, esse ano senti-me numa “saia justa” para listar os melhores, pois li obras simplesmente espantosas. Talvez o que mais me impressionou, por tudo, tenha sido Os Olhos Amarelos dos Crocodilos, um dos melhores livros de literatura contemporânea que li nos últimos anos, seguido, de muito perto, segundo meus critérios de avaliação que nem eu mesmo sei definir e listar quais são, por O Pacifista, do sempre sutil e surpreendente John Boyne. Fora esses dois, que se destacam especialmente na minha lista, devo citar também, pois foram leituras igualmente marcantes, o A Casa que amei, de Tatiana de Rosnay, A Filha Secreta, O Tempo Entre Costuras (citado anteriormente) e Dez Mulheres, além do Estive lá Fora, do Ronaldo Correia de Brito.
Li romances policiais, suspenses, dramas, romances, romances históricos, contos, crônicas, enfim, 2012 foi um ano recheado de grandes leituras nos mais variados gêneros, que guardaram muitas gratas surpresas. E deste gênero, a maior surpresa foi, sem dúvida, o livro Nas entrelinhas do horizonte, do meu ídolo na música, que está se tornando, também, meu ídolo na literatura, Humberto Gessinger. Entre os contos, Patricia Highsmith me surpreendeu enormemente com A Casa das Sombras e dentre os romances históricos, Miguel Sousa Tavares, que fiquei em dúvida sobre qual o melhor, Equador ou Rio das Flores, e devo colocar nesse gênero também os livros de Tatiana de Rosnay, A Casa que Amei e A Chave de Sarah, magníficos – foram esses dois autores, junto com Borges e John Boyne, inclusive, os únicos que eu li dois livros no ano. Do Zafon, um de meus escritores contemporâneos favoritos, li seu lançamento, Prisioneiro do Céu, muito bom, sem dúvida, mas um pouco abaixo dos seus livros anteriores, mas “dou um crédito” ao autor por se tratar esse de um livro “sem início nem fim”, já que serve de “ponte” entre seus maiores romances A Sombra do vento e O Jogo do Anjo, lidos em anos anteriores. Dentre os policiais, li e fiquei vidrado do início ao fim com Harlan Coben, em Não Conte a Ninguém.
Não tive, felizmente, em 2012, nenhuma grande decepção nem muito do que reclamar dos livros que tive o prazer de ler. Talvez um livro ou outro não tenha suprido todas as expectativas, é bem verdade, mas decepção mesmo, livro que me deixou com aquela sensação de “podia ter usado meu tempo para ter lido algo melhor”, nenhum. Mas para não dizerem que eu não citei nenhum, embora sabendo de antemão que irão “pedir minha cabeça” por isso, posso dizer que esperava algo diferente de Caio Fernando Abreu. Muito bem escrito, com uma técnica espantosa, sem dúvida, chocante mesmo em muitas histórias e personagens, mas sua leitura não me pegou como eu esperava, talvez por conta do mundo que ele retrata, repleto de muito liberalismo sexual, drogas e loucuras.
Enfim, 2012 foi um ano espantoso no que tange as leituras, e espero que 2013 seja igualmente magnífico, com grandes descobertas e surpresas escondidas nas entrelinhas de cada livro lido, de cada história, de cada trama, de cada personagem.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Balanço Anual de Leitura


Eu sou o tipo de pessoa que ter escrito na testa a palavra “metódico”. Sou, sempre fui e sempre vou ser um metódico e tradicionalista. Sou do tipo que segue cronogramas de leitura, que traça metas e que, embora por vezes se desvie em alguns momentos, acaba, de uma forma ou de outra, mais cedo ou mais tarde, voltando ao “plano original”. Nas minhas leituras, eu sou mais metódico ainda. Tenho “tradições” de reler pelo menos um livro por ano, iniciar o ano lendo um grande livro e terminá-lo também me deliciando com a leitura de uma grande obra literária.
            Esse ano, de 2011, foi bom, sem dúvida, mas eu confesso já ter tido anos bem melhores sob diversos aspectos, tanto no número de livros lidos quanto nas grandes surpresas encontradas ao longo do ano. Mas mesmo 2011 não tendo sido tão marcante, por assim dizer, do que anos anteriores, mesmo assim, foi muito bom...
            Iniciei o ano de leitura, lendo, logo de cara, para começar o ano bem, três grandes livros: Ratos e Homens, de John Steinbeck, Contos de Belkin, de Pushkin e A Aldeia de Stiepanchikov e seus habitantes, de Dostoievski. Li, como sempre, Tolstoi e muitos outros clássicos da literatura russa e mundial, mas também li excelentes “Best-sellers” e confesso ter me surpreendido enormemente, que eu julgava tão despretensiosos. É bom sempre se surpreender com as leituras, o que prova (comprova) que com a literatura a gente só tem a se surpreender, por mais que a gente leia e conheça de livros. Dos clássicos, por mais “antigos” que sejam, por mais que já se conheça a respeito, sempre nos surpreendem, e sempre há algum grande livro que não sabemos como nem por que nunca prestamos atenção, o que foi o caso, para mim, em 2011, de O Emblema Vermelho da Coragem, de Stephen Crane, um livro que até hoje está ecoando em minha cabeça e que está na minha lista de releituras para os próximos anos. Li e me surpreendi (sempre) com Tolstoi e me deliciei com as leituras de Steinbeck, principalmente com o primeiro livro do ano, que até agora está me angustia, por mais que eu já tenha “fechado o livro” há tantos meses. A minha releitura ficou por conta de Odisseia, de Homero, que eu tinha lido há tantos anos e já tinha esquecido como o livro é rico, escrito de uma forma magistral e tão envolvente, verdadeiramente hipnótica. Mas mesmo nas leituras de clássicos, nem tudo são flores, como se diz popularmente. Há clássicos de que se fala tanto, que tantos comentam, fala-se tão bem, e, quando os lemos, ficamos com aquela impressão de: “será que li o livro certo?”, “será que era esse o livro de que todos falavam tanto e tão bem?”. E ficamos com o gosto de certa frustração da leitura. Esse ano, a frustração literária foi o Jakob Von Gunten: um diário, de Robert Walser. O livro é bem escrito, sem dúvida, mas não acrescentou nada demais nas minhas leituras (é duro dizer isso, acreditem!) ao longo do ano.
            No que se refere aos “Best-sellers”, li alguns que me deixaram complexamente extasiado. Li bons policiais, suspenses psicológicos, romances e dramas. O Eu Mato, de Giorgio Faletti foi, talvez, o que mais me pegou desprevenido, pois eu jamais será capaz de imaginar quem estava por trás de todo aquele mistério, mas o As duas menininhas de azul, de Mary Higgins Clark também merece destaque, pelo ritmo frenético, pela magnífica “arquitetura da história” e pela forma como toda a trama é conduzida. E por falar em “arquitetura da história”, o que posso falar de Patrícia Highsmith? Simplesmente nada! Li dois livros dela, e adorei o primeiro, Este Doce Mal. Um suspense psicológico desses de tirar o fôlego e de enlouquecer o leitor com as loucuras do personagem. Romances, li alguns muito bons, e queimei a língua, felizmente, com um: o Água para elefantes. Conhecia muito superficialmente o livro e quando ouvi falar que ia ser adaptado para o cinema, pensei que se tratava apenas de mais um Best-Seller agradável, escrito só e unicamente para vender, sem grande valor literário. Mas logo nas primeiras páginas vi que a minha opinião estava equivocada, completamente enganada. O livro é muito bom, rico, agradável, envolvente, etc, etc e etc. Mas, em 2011, as gratas surpresas da literatura Best-Seller ficaram por conta dos livros A Guardiã da minha irmã, Quarto e Aqueles que nos salvaram, de Jodi Picoult, Emma Donoghue e Jenna Blum, respectivamente. São dramas fantásticos, livros de uma força surpreendente, de uma carga emocional ímpar, de “fator psicológico” capaz de mexer com o humano-leitor. E o que falar de Marina, de Carlos Ruiz Zafón? Um livro simplesmente magnífico, sob todas as óticas.
            Dos grandes livros, não clássicos (ainda), e que não podem ser colocados no mesmo patamar dos Best-Sellers, merecem destaque o Sombras Marcadas, de Kamila Shamsie, O 11º Mandamento, de Abraham Verghese, Nêmesis,de Philip Roth e O Silêncio, de Shusaku Endo, se bem que estes dois são verdadeiros clássicos modernos. O último, inclusive, é um livro que ouso colocar no nível de “perturbador” e “excessivamente forte”.
            Nas minhas leituras de 2011, óbvio, não faltaram grandes livros de literatura brasileira. Érico Veríssimo é lugar cativo nas minhas leituras anuais e já está entre as minhas “tradições”. Li Luis Fernando Veríssimo e Ronaldo Correia de Britto, mas talvez o brasileiro que mais “me pegou desprevenido” tenha sido o Rubem Fonseca. Sempre ouvi falar muito bem dele, mas nunca tinha parado para ler nada. Resolvi me render e ler um de seus livros, o Axilas e outras histórias indecorosas. É um livro, são histórias que linhas muito tênues separam um lado do outro: ácido, irônico e sarcástico do ridículo, o intelectual do banal, o “Cult” do “tosco”, e por aí vai...
            Para finalizar o ano, um grande livro era necessário, e, entre tantas opções que tinha à minha frente, escolhi o 1984, de George Orwell, um livro que estava na minha “lista” há um bom tempo, mas que, por motivos diversos, eu nunca pegava para ler.
Enfim, 2011, no fim das contas, foi um ano muito bom no que se refere às leituras. Foram no total 46 livros lidos e apenas 1 abandonado.
Expectativas para 2012? Muitas, muitas e muitas. Espero ser muito surpreendido, “queimar minha língua” e descobrir tesouros-literários escondidos entre as estantes das livrarias, ler aquele livro que jaz esquecido, que ninguém conhece ou ouviu falar. Reler grandes clássicos e descobrir outros tantos. Enfim, ter um 2012 repleto de livros, livros e mais livros.