domingo, 9 de dezembro de 2012

A única certeza...


Ele sentia suas forças se acabando, sua vida escoando por entre seus dedos. Olhava ao redor em busca de algo em que pudesse se agarrar e se agarrar aquele fiapo de vida que ainda lhe restava. Sempre vivera de forma a não se preocupar com o dia de amanhã, sem se poupar, preocupando-se com só e unicamente viver cada momento, cada instante, como se este fosse o último. Viveu últimos dias da vida desde o momento que assim deveria vivê-los, e agora estava ali, no fim da vida, perguntando-se o que tinha acontecido, o que tinha feito da vida, para que ela estivesse se acabando, para que tivesse se passado de forma tão rápida. Não que sua vida tivesse sido curta, muito pelo contrário; tivera uma vida longa, vivida intensamente cada instante, no entanto, ainda restava tanto a se ver, provar o gosto, ouvir os sons, sentir o cheiro e o toque. Seriam necessárias dez vidas para se viver tudo aquilo que gostaria.
            Estava sozinho naquele quarto, a janela estava aberta, deixando entrar uma suave brisa de fim de tarde. Tudo ao seu redor era silêncio, com a exceção do toque dos dedos do vento ao balançar o suave tecido das cortinas, fazendo-o bailar. Respirava devagar, mas fundo, sentindo, a cada inspiração, pela última vez os cheiros da vida. Com os olhos fechados ele via tudo que vivera até ali, todos os nasceres do sol, todas as luas cheia que contemplara, todas as estrelas que contara e todos os sorrisos que vira, como a vida passando em um flash back. Fora tão feliz em vida, mas, mesmo assim, a sentia, naquele momento, tão vazia, como se nada tivesse feito, como se não tivesse usufruído o suficiente, como se não tivesse vivido. Sentiu-se triste e uma única, solitária e dolorida lágrima escapou de seu olho e banhou sua face, e só então abriu os olhos e viu, num canto, jogado, um álbum de fotografias velho, esquecido. Se ao menos ainda lhe restasse alguma força, iria pegá-lo, só para poder reviver cada um daqueles momentos que foram registrados em fotos que já deveriam estar desbotadas, mas que, ainda assim, resguardavam todas as vívidas cores do momento. Olhou para o outro lado e viu objetos há tempos esquecidos que lhe foram dados por amigos nas inúmeras viagens que fizera. Olhou para a estante e viu os inúmeros livros que estavam guardados e lembrou-se das histórias que vivera, dos vários mundos que visitara, sendo conduzido pelas mãos e palavras de um autor, seguro só e unicamente por sua imaginação, que lhe fazia flutuar num mundo de fantasia, por mais que tivesse uma consciência, uma vaga lembrança de que seus pés continuavam presos e firmes num mundo real, na vida real.
            Sorriu ao constatar que mesmo não sendo possível viver as dez necessárias vidas que gostaria, viveu uma vida longa, intensa e feliz. Lembrou-se do dia anterior, quando sentiu que só lhe restavam poucas horas de vida, quando, mesmo tendo consciência disso, da proximidade do fim, pediu que todos se retirassem, que o deixassem ali, só, para viver seus últimos momentos de forma egoística consigo mesmo, apenas. Lembrou e chorou de cada lembrança de cada despedida, das lágrimas sem fim de cada filho, de cada amigo, de cada neto, de cada um daqueles que estavam ali, que vinham até ele, diziam palavras de despedida, o agradeciam e iam embora. Lembrou e sorriu de volta para cada sorriso de cada uma dessas pessoas, dos sorrisos sinceros, apesar das lágrimas que havia nos olhos de cada uma. Lembrou-se de cada palavra dita e também das não ditas, que foram mencionadas apenas por olhares, sorrisos, lágrimas e gestos. Sorriu e chorou ao lembrar-se disso tudo, principalmente quando se lembrou da última pessoa a sair da casa, seu filho mais velho, quando ele o olhou uma última vez e, com os olhos cheios de lágrimas, sorriu e o agradeceu, e fechou a porta.
            Estava perto, muito perto, ele podia sentir. Não tinha medo, pois, embora quisesse se agarrar com todas as suas forças ao tempo de vida que ainda lhe restava, estava preparado para o que estava por vir, pois, no fim das contas, no fim de tudo, aquele momento que se avizinhava era a única certeza a que todos nós, humanos, podemos ter em vida...
            Agora, cada respiração era a última. Ele fechou os olhos e deixou que o final do filme de sua vida passasse diante de si. Reviu numa fração de segundos toda a sua infância, sua adolescência, seu primeiro amor, seus primeiros sonhos, suas primeiras realizações, suas primeiras felicidades, seu primeiro luar, seu primeiro amanhecer, seu primeiro banho de mar, a primeira vez em que sentiu frio, a primeira vez em que sentiu o calor de um abraço, a primeira vez em que se entregou de corpo e alma e a primeira vez em que sentiu todo o ardor de uma entrega, de uma paixão. Reviu e reviveu cada uma daquelas primeiras vezes e sorriu, um último sorriso de plena, completa e simples felicidade, ao ter a plena, total e completa consciência de que viveu e usufruiu de tudo aquilo que a vida lhe dera.
            Com os olhos fechados e um sorriso estampado no rosto, ele se deixou levar lentamente, sendo guiado por uma mão invisível, de toque suave mas firme, que o conduzia a um infinito, a um desconhecido, a uma eternidade a que ele não temia, pois findara essa vida tendo uma única certeza, a de que vivera e de que deixara um legado, a de que deixara ecoando muitos sorrisos e lágrimas de muitos momentos vividos.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Tenho medo



Tenho medo de acordar e abrir os olhos, de perceber que já cresci, que deixei de ser o menino que um dia fui, de, ao ver o meu reflexo no espelho do banheiro, não me reconhecer, de me achar um estranho, um intruso em meu próprio corpo, em minha própria vida, de ser simplesmente um estrangeiro.
Tenho medo de me levantar e me descobrir só mais um num mundo com tanta gente, de ser e viver preso em meu dia-a-dia, em minha rotina, de ser um prisioneiro de mim mesmo, de minha vida.
Tenho medo de, ao dar um primeiro passo, me desequilibrar e cair, vindo ao chão, da mesma forma que as minhas esperanças de uma vida de ser um eterno menino vieram.
Tenho medo de enfrentar o dia e de ser derrotado, subjugado por ele, e voltar para casa humilhado, quando o sol se pôr, tão cabisbaixo que sequer teria coragem de olhar para o alto, para o céu e ver que, apesar do sol não mais poder ser visto, o céu está repleto de estrelas, coroado com uma majestosa lua, que nos cobre com sua luz prateada.
Tenho medo de ficar sozinho, de me sentir só, mesmo estando cercado por tantas pessoas.
Tenho medo de, prisioneiro, ficar surdo para os sons do mundo, de não mais ouvir os risos, os cantos dos pássaros ao saudarem o sol num nascer de um novo dia e de não ouvir o barulho da chuva enquanto durmo.
Tenho medo de ficar mudo para o mundo, de não mais sorrir, de não mais falar, pois não teria ninguém para me escutar, para me dar um abraço, para me confortar e dizer que está tudo bem, que tudo não passou de um pesadelo, que amanhã será um novo dia e tudo vai voltar a ser como antes, como sempre foi, como sempre deveria ter sido.
Tenho medo de enfrentar a vida sem esperanças, de cabeça baixa, esperando apenas que o tempo passe e eu continue assim, aqui, com medo.

domingo, 25 de novembro de 2012

O Prisioneiro

Quanto anos já havia passado ali?, ele se perguntou ao acordar naquela manhã. Quanto anos havia perdido, tendo sido privado de sua liberdade?, ficou a se perguntar. Olhava ao redor e só via aquelas paredes repletas de marcas deixadas por outros iguais a ele que haviam sido trancafiados, ficado presos naquela minúscula cela daquela prisão, marcas usadas para marcar o tempo, tempo este que passa sempre igual, sempre tão devagar...
            Ele se levanta e anda de um lado para o outro, desesperado, perguntando-se o que será feito dele, e quando virão buscá-lo para levá-lo a que lugar, nem ele mesmo sabia. Já havia, em todo aquele tempo desde que fora feito prisioneiro, se feito as mesmas perguntas, já tinha dado os mesmos passos, já tinha sido consumido vezes sem conta pelas mesmas angústias. Olhava para o teto e ouvia ecos de passos de um prisioneiro que, por certo, estava mesma situação que ele, olhava para ambos os lados, e via as paredes, olhava ara frente e via a minúscula janela, no canto mais alto, através da qual ele sequer conseguia ver o que havia do outro lado, fora da cela, e, às suas costas, a pesada porta de ferro, que ele nunca vira ser aberta desde que fora desumanamente jogado ali. A parca alimentação e água que recebia era entregue através de uma portinhola no rés do chão, aberta duas vezes por dia, uma pela manhã e uma no final da tarde, por onde passava um prato de ferro com uma comida que ele não conseguia distinguir do que se tratava, e um copo com uma água suja, de gosto terroso. Uma vez por dia, em horários que variavam conforme o estado de espírito do carcereiro, a portinhola era aberta para recolher os dejetos do homem, que ele entregava dentro de um balde.
            Tentava se lembrar dos motivos que o levaram até ali, os momentos que antecederam a sua prisão, o julgamento, os últimos instantes de uma liberdade esquecida, mas por mais que se esforçasse, nenhuma lembrança lhe vinha a ente, como se todas tivessem sido esquecidas, agora que ele estava ali, tão privado de tudo, como que lembranças, ali dentro, fossem proibidas. Ele se sentava na cama dura de cimento com um fino colchão já gasto, repleto de sujeira e cheiros indistintos, com as mãos cobrindo o rosto e os olhos fechados com força, esforçando-se para se lembrar de algo. Mas lembrança alguma lhe vinha à mente, e ele voltava a se levantar e a andar de um lado pro outro. Não conseguia se lembrar do seu passado, do que o trouxe até ali, já não conseguia sequer se lembrar mesmo de quem era, de seu nome, do homem que um dia fora. Não conseguia se lembrar de absolutamente nada e de tanto conversar apenas com seus próprios pensamentos, sequer se lembrava de sua própria voz.
Sua garganta vivia eternamente seca com a sede lhe consumia, a fome que sentia era demasiadamente forte e seu estômago sempre doía e ameaçava explodir em dores sempre que comia aquilo que lhe era servido, mas, mesmo assim, ele comia, pois era sentir dor ou sentir fome; seu corpo inteiro doía, fruto das noites mal dormidas e do pouco espaço que tinha para se movimentar; sentia tantos e tão desagradáveis cheiros que começou a achar que tudo provinha dele, pois desde que fora encarcerado ali, nunca lhe fora dada a oportunidade de tomar um banho. Sentia calor e frio intensos, por vezes frio ao meio-dia e calores em plena madrugada.
Aquela tortura o estava matando pouco a pouco, estava lhe consumindo por dentro, fazendo-o se esquecer de tudo. Não se lembrava sequer de qual era o seu nome, não se lembrava do som de sua própria voz e não se lembrava mais qual a sua aparência. Punha, por vezes, a mão sobre o rosto, acariciando-o, tentando adivinhar suas feições, mas só o que sentia eram os pelos ásperos de uma barba que crescia diariamente que havia tomado todo o seu rosto. Passava a mão na cabeça, e só sentia o cabelo duro, sujo e malcuidado. Usando suas mãos, apalpava o corpo, e só sentia um amontoado de ossos cobertos por uma pele seca e suja como um pedaço velho de um pergaminho quebradiço.
Cansou de tudo aquilo e levantando-se de súbito, foi até a porta, que começou a esmurrar, mas estava tão fraco, já tendo esquecido até mesmo a força que um dia tivera, que seus socos não produziam som algum quando batiam na pesada porta, só lhe provocavam dor nas mãos frágeis. Não deu importância para a dor, continuando a bater na porta. De sua boca saía um som indistinto que parecia tudo, menos uma voz humana, muito mais parecido com um grunhido ou o gemido de um animal agonizante. Quando cansou, que se deixou escorregar, ficando deitado no chão, com a cabeça colada à porta, ouviu, ou imaginou ouvir, vozes e risos do outro lado da porta. Ele tentou, num último esforço, bater mais uma vez, respirou fundo, deixando que o ar ficasse preso em seus pulmões, para tentar gritar e falar alguma coisa, mas som algum saiu, ficando o grito preso em sua garganta, fazendo-o sufocar.
Adormeceu e foi acometido por mil e um pesadelos e, ao acordar na manhã seguinte, viu que havia uma pequena abertura na porta, por onde passava uma luz fugidia, que parecia lhe chamar. Ele sentiu-se cego com aquela luz que nunca tinha visto, que lhe entrava pelos olhos, mas que não lhe iluminava a consciência. Cobriu com a mão os olhos para não ficar completamente cego e se arrastou usando cotovelos e joelhos, pois de tão fraco sequer conseguia ficar de pé.
Do lado de fora da cela, ele olhava de um lado para o outro e não acreditava no que seus olhos viam: um longo corredor, com portas de celas iguais à sua. Se arrastando, pois não conseguia andar, ele foi de cela em cela, olhar, chamando com palavras incertas e voz não humana, por um alguém ou alguma coisa que lhe dissesse onde estava e o que fazia ali, mas não obteve resposta alguma. Chegando ao final do corredor, viu que havia uma longa e estreita escada que levava para algum lugar lá no alto, de onde vinham sons de vozes que ele imaginava serem humanas. Mesmo com medo e se sentindo fraco, fez um esforço sobre-humano para se por de pé e, vencendo todos os medos, para dar um primeiro passo. Subia degrau a degrau e a medida que se aproximava do topo, a luz ficava mais forte a ponto de obriga-lo a subir com os olhos fechados, e as vozes mais altas, embora ele não conseguisse entender o que dizia, sabendo apenas que eram muitas vozes, de muitas pessoas, que estavam ali no alto. Parou inúmeras vezes para tomar fôlego e, enquanto respirava, sentiu um cheiro desconhecido, límpido, que lhe deixou ainda mais excitado, desejoso de saber, ver e sentir o que havia lá no alto. Tropeava nos próprios pés e por vezes chegou a cair e rolar alguns degraus escada abaixo, mas sempre que parava, que se recuperava, com o coração ameaçando explodir em seu peito, se punha de pé e continuava a sua subida.
A luz era cada vez mais forte, as vozes mais altas e o cheiro mais intenso, e este era o que o motivava, apesar das quedas e dores, do corpo e da alma, a seguirem subindo, pé ante pé, passo ante passo, em direção àquilo que ele não sabia com o que iria se deparar.
No alto, havia uma porta parcialmente aberta, através da qual ele mal conseguia ver o que havia do outro lado. Respirou fundo duas ou três vezes antes de por a mão trêmula sob sua superfície áspera e empurrá-la. Quando ela se abriu por completo, uma luz intensa atingiu seus olhos e ele recuou alguns passos e virou o rosto, cobrindo com as mãos os olhos feridos por aquele jorro de luz. Com os olhos fechados, feridos, ele subiu os últimos degraus e, com a porta aberta, ele deu um longo e decidido passo para fora. Foi recebido por um turbilhão de cheiros. Demorou um longo tempo para seus olhos se acostumarem e conseguirem enxergar alguma coisa do que havia ao seu redor. Quando, após um longo tempo, conseguiu abrir os olhos, viu que estava num lugar alto, às suas costas, de onde viera, descia um íngreme desfiladeiro, e à frente, um imenso planalto. Viu, ao longe, umas pessoas, que caminhavam tropegamente, tropeçando nas próprias pernas, umas longe das outras, como se estivessem uma a perseguir a que estava à sua frente enquanto fugia da que vinha logo atrás. Ele tentou gritar, chamar por uma delas, mas não tinha força na voz. Resolveu, então, num ato de insensatez, dar um passo depois outro, correr atrás de tais pessoas e sentir um pouco da liberdade correr pelas suas veias.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A cama de nossos pais


Um dos maiores segredos do Universo, um dos maiores enigmas que os homens tem se debruçado, sobre o qual tantos sábios, filósofos e cientistas estudaram, está em descobrir por que a cama de nossos pais é sempre a melhor cama do mundo, o lugar mais seguro, quentinho e aconchegante do Universo. A cama de nossos pais é uma verdadeira ilha de calor e paz em meio ao oceano de águas profundas e geladas onde fomos jogados.
            Desde que o mundo é Mundo e foi criado o quarto dos filhos, para que os pais possam ter uma noite de sono sossegada em seus quartos, é que as pobres crianças sentem-se verdadeiras órfãs, pois muitas vezes existe uma parede quase intransponível que os separa da cama de seus pais, e desde esses imemoriais tempos que estas crianças dão seu jeitinho para atravessar a aparente inexpugnável muralha que os separa de seu objetivo. E a maneira encontrada é simples: bater a porta do quarto, tendo sempre um coberto enrolado ao corpo e um travesseiro debaixo do braço, alegando estar com medo do escuro, dizendo que tem um bicho-papão debaixo da cama, quando, na verdade, o que há, no máximo, é um playmobil esquecido na última brincadeira ou aquela sandália ou sapato que a gente nunca encontra na hora que mais precisa. E então vem nossa mãe, é normalmente ela quem abre a porta, e olha para nós, da forma como só as mães nos olham.
            - O que foi, menino? – pergunta ela.
            Então nós desenrolamos a nossa história, a nossa desculpa, quando, na verdade, só o que queremos é um pouco do espaço mágico daquela cama.
            Quando nossa mãe está, finalmente, se convencendo da veracidade da nossa história do bicho-papão e do escuro que quer nos tragar para sua profundeza, ouvimos a voz de nosso pai, que acorda de repente e quer saber o motivo de estarmos ali, parados à porta do quarto. Ele nos manda voltar para nosso próprio quarto, para dormir em nossa própria cama e, já com olhos chorosos, damos o primeiro passo para trás, eis que nossa mãe, sempre ela, nos salva e nos dá passagem, de forma que nos jogamos sobre sua cama e muitas vezes antes mesmo dela se deitar, já estamos dormindo um sono tão pesado que nem mesmo um carnaval fora de época, se passasse em frente a nossa casa, seria capaz de nos acordar. E ficamos ali, naquela cama tão grande, entre nosso pai e nossa mãe, impedindo que eles se abracem, desejando apenas o abraço de ambos.
            Muitos são os que se debruçam sobre essa complexa questão primordial para a existência de qualquer ser humano. Os matemáticos, por exemplo, alegam que o ângulo do colchão de nossos pais com relação ao travesseiro faz com que aquele seja um local tão propício para um sono agradável; os físicos, por seu lado, falam de calor; os poetas tentam, em vão, com seus versos explicar a relação existente entre os filhos e a cama de seus pais; os psicólogos chegaram a conclusão de que, nesse caso, nem Freud explica;os biólogos falam que esse é um de nossos instintos primitivos; os geógrafos, que esse é nosso norte; os historiadores, bem, esses não chegaram a um consenso, ainda. Enfim, todos falam, falam e falam, mas nenhum chegou a questão primordial.
            Eu, por meu lado, acredito que essa é uma questão por demais complexa, que por mais que nos debrucemos sobre ela jamais chegaremos a um consenso, que é uma questão puramente afetiva.
            E de tanto falar nisso, enquanto escrevo esse texto, ouvi um barulho vindo debaixo de minha cama. Olho para o quarto escuro e começo a tremer de medo e resolvo sair de meu quarto, e ir para o de meus pais. Lá, quando eu bater a porta, provavelmente virá minha mãe abri-la e me olhará com uma cara estranha, como se dissesse “o que que tu ‘tá fazendo aqui, menino?” e eu, enrolado a meu lençol, tendo o travesseiro debaixo do braço, olharia para ela como se respondesse que o que fazia ali era óbvio, que vinha dormir na sua cama, onde não me deitava há tempos. Ela me lançaria um olhar indiferente, daria de ombros e me daria passagem. Quando me deitasse na cama, antes de pegar no sono, ainda escutaria meu pai reclamar, dizendo:
            - Esse menino aqui de novo? Você já está grande demais, rapaz. Vai dormir na sua cama!
            Mas antes que ele terminasse de falar isso, eu, do alto dos meus vinte e poucos anos, já estaria dormindo.