domingo, 21 de outubro de 2012

Foi num fim de tarde...


Era fim de tarde e a anciã estava sentada, como sempre fazia àquela hora, vendo o pôr do sol. Sentada em sua cadeira de balanço no canto mais afastado da varanda de sua casa, ela, enquanto contemplava tão rarocomum momento, olhando ao longe, revivia os momentos passados de simples felicidade.
O pôr do sol, para ela, era a hora em que tudo acontecia. Foi num fim de tarde, quando ainda era uma adolescente, que vira o homem de sua vida pela primeira vez, e que só vários meses após aquele primeiro encontro, no exato instante em que o sol de deitava no horizonte, que eles se beijaram pela primeira vez. Foi num fim de tarde em que o sol demorava a se pôr, como que para contemplar a felicidade dela, que se casou, e nove meses depois, quando o sol se pôs, que deu a luz ao primeiro filho, cuja primeira visão foi a da luz do sol de fim de tarde que entrava pela janela entreaberta.
Teve vários filhos, todos nascidos à mesma hora, que levava, quando crianças, para brincar à sombra de uma árvore, para sentirem a brisa vespertina que soprava vinda do oceano e para, no exato instante em que o sol se punha, ficarem em silêncio só pelo prazer de verem o sol fechar os olhos lentamente no horizonte.
Era sempre ao final de cada tarde que ela se sentava para ver o pôr do sol enquanto esperava o marido chegar do trabalho, sempre trazendo presentes para ela e para as crianças, e foi num dia, no único dia naqueles longos anos de felicidade, em que se atrasou, chegando no início da noite, que trouxe consigo a notícia de que estava doente. Os dois choraram juntos, e prometeram um para o outro lutar juntos até o fim, e nunca deixarem um ao outro sozinho, não importa o que acontecesse.
Lutaram, choraram, sorriram e tiveram esperanças, e foi num dia, num fim de tarde, em que tinham esquecido de por que um dia estiveram tristes, que ele se foi, junto com o sol que fechava os olhos para dar lugar a noite. Foi nessa noite de ventos frios em que a nuvem encobriu a lua e as estrelas, que ela chorou sozinha e que soube que nunca estaria a sós, pois ele estaria para sempre com ela e viria visitá-la ao final de cada tarde, e ficariam calados, de mãos dadas, vendo o sol se pôr.
Ele foi enterrado, ao final da tarde seguinte, embaixo de uma árvore na parte alta do cemitério, em cima de um pequeno morro, para que pudesse contemplar, todo dia, o espetáculo que a vida oferecia diariamente a todos que tinham sensibilidade para ver o momento.
Ela voltou calada durante todo o trajeto do cemitério até sua casa, onde se trancou no quarto por vários dias, só abrindo a janela do para ficar junto e segurar a mão de seu marido enquanto contemplava o pôr do sol.
Foi num fim de tarde que recebeu a notícia do filho dizendo que ela ia ser avó, de um outro que tinha arranjado um emprego e outra cidade e de um terceiro que tinha passado no vestibular.
Foi enquanto o sol se punha que uma filha, que ainda muito jovem tinha saído de casa para ganhar a vida, trabalhando numa cidade distante, voltou para que ela conhecesse sua primeira neta. Ela sentou a criança em seu colo, que imediatamente olhou ao longe, para onde o sol se punha, e ficaram as três, mãe, filha e neta, a contemplar a beleza do momento.
Enquanto contemplava o pôr do sol foi que recebeu a notícia da morte trágica de um dos filhos, que ficou sabendo da doença de um irmão e que chorou de saudade dos tempos e das pessoas passadas.
Era em cada fim de tarde, de alegrias e tristezas, de lágrimas e sorrisos, que ela se sentia em paz. Era o silêncio do canto dos pássaros de cada fim de tarde que a reconfortava, que fazia de cada momento eterno, que fazia a vida valer a pena, que ela sentia como que o tempo parar ou passar lentamente, como a luz do sol que vai se apagando pouco a pouco.
Foi naquele fim de tarde em que contemplava o sol como da primeira vez, que viu seu marido se aproximar chorando, e ela o recebeu sorrindo, de braços abertos. Os dois ficaram lado a lado: ela em sua cadeira de balanço e ele de pé, que contemplaram o pôr do sol pela última vez que, quando o sol fechou seus olhos naquele fim de dia, ela também fechou os seus, e ficou para sempre com o brilho eterno do sol em seus olhos.

sábado, 13 de outubro de 2012

Quando não te vi...


Subi correndo aqueles dois lances de escadas e cheguei à porta do apartamento com o coração ameaçando me sair pela boca, mas com um sorriso estampado no rosto. Demorei-me alguns segundos até a respiração voltar ao normal e, com a mão tremendo, coloquei a chave na fechadura da porta. Mas não a girei a princípio, aproveitando e saboreando cada instante antes de abrir a porta. Coloquei meu ouvido na porta, para ouvir os passos de quem estava dentro do apartamento, mas só ouvi o silêncio. Bati suavemente na porta, mas não obtive qualquer resposta.
            Já com a respiração normalizada, mas com o coração ainda aos pulos e um sorriso estampado no rosto, girei lentamente a chave na fechadura, abrindo a porta aos poucos para que ela não fizesse barulho. Quando abri totalmente a porta, ouvi apenas o silêncio ao invés de passos de uma pessoa correndo para vir me abraçar. Chamei seu nome baixinho, depois mais alto, mais alto e mais alto, mas só ouvi como resposta o eco de minha própria voz. O sorriso tinha sumido, ficando em seu lugar uma expressão de preocupação no rosto, e coração começou a bater tão fracamente que ameaçava parar a qualquer instante. Dei um passo inseguro para dentro de casa e senti um vento frio que entrava pela janela aberta me saudar com seu abraço. A cada passa que dava as minhas pernas pareciam ficar mais pesadas. Chamava seu nome já com medo da resposta que receberia: o silêncio.
            Procurei em todos os cômodos, mas ela não estava em canto algum, e já desesperado fui ao quarto e vi, sobre a cama, sua toalha. Peguei-a e a levei lentamente ao rosto. A toalha, ainda úmida, tinha seu cheiro tão inebriante e doce quanto o desabrochar de mil primaveras. Joguei-me na cama, sobre os lençóis amarrotados, que ainda guardavam o calor do aconchego de seu corpo. No travesseiro, vi, fios de seus cabelos. Fechei os olhos com força e relembrei a noite passada e consegui ouvir a sua respiração entrecortada por suspiros e gemidos; senti novamente o calor de seu corpo colado ao meu, o seu suor se misturando ao meu e os seus lábios a me procurar. Inspirei fundo e senti o cheiro de seu corpo tão vivo naquele quarto, naquela cama e em meu próprio corpo. Senti o gosto de seu beijo tão forte e intenso.
            Ao abrir os olhos, vi que ela não estava mais ali, que tudo aquilo que sentia eram apenas lembranças, que estavam impregnadas em todos os cantos. Fechei novamente os olhos e deixei que deles escapassem algumas poucas lágrimas silenciosas e dolorosas. Quando os reabri, com a visão nublada, vi que num canto do quarto, no chão, jazia uma folha de papel, que tinha ido parar ali, por certo, tendo sido empurrada pelo vento. Em minha pressa e com minha falta de jeito, amassei a folha. Não consegui ler o que havia escrito nela. O coração batia descompassado e o ar que puxava parecia não chegar aos pulmões. Procurei me acalmar, o que demorou uma eternidade para acontecer. Quando finalmente me voltou à clareza da razão e dos sentimentos, o que li o que ela havia escrito, sorri, tranquilizado por aquelas palavras, por aquela voz que ecoava em minha cabeça como se fosse ela que estivesse a ler aquela breve carta.
            Levantei-me e peguei novamente a toalha e fiquei me abraçando a ela, sentindo aquele cheiro, deixando que ele me tomasse toda a alma, até que fui acordado de meu devaneio por uma batida na porta. Sorri, antevendo o reencontro. Deixei que ela batesse mais uma vez na porta e me chamasse, e só quando ela assim o fez, dei os primeiros passos. Queria correr para ir abrir a porta, mas preferi andar devagar, como que contando os passos, como que para saborear os momentos que antecedem ao reencontro. Chegando a porta, respirei fundo duas ou três vezes e girei lentamente a chave na fechadura. Quando abri a porta, nossos olhos se encontraram e nossas almas pularam, uma nos braços da outra e sorrimos um para o outro...

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Pensado ato impensado


Quando conseguiram abrir a porta de sua casa, que entraram, sentiram o cheiro de vazio no ar. Correram imediatamente ao quarto, onde viram um corpo pendurado, seguro precariamente por uma corda que se mantinha firme, segurando o corpo já abandonado de vida. Algumas das pessoas não conseguiram ver a cena que se descortinava perante seus olhos e saíram tropeçando em suas próprias pernas para longe daquele quarto transformado em túmulo, enquanto outros apenas observavam, boquiabertos, buscando respostas que pudessem, de alguma maneira, explicar o inexplicável; uns choravam lágrimas silenciosas, outros permaneciam completamente estáticos, como se suas almas tivessem subitamente abandonado seus corpos. Ninguém falava, não se ouvia um único som além daquele produzido pelo vento tamborilando com seus dedos as janelas do quarto, como que pedindo permissão para entrar.
            Quem quebrou o silêncio, quem primeiro se moveu, foi um homem, que deu um passo adentrando ao quarto escuro em que pairava no ar um cheiro de sem-vida, do mais completo abandono. Segurou cuidadosamente o corpo enquanto tentava desatar aquele nó, mas não conseguiu fazer isso só, e um outro homem, amigo, venceu o choque inicial do que tinha diante de si, e foi ajudá-lo. Juntos, os dois homens, auxiliado por um outro, conseguiram desatar os nós que uniam o corpo à corda e, com toda a delicadeza, deitaram o invólucro que um dia guardara a alma do amigo na cama. O corpo estava leve como uma pena, como se todo o peso de uma vida tivesse sido deixado para trás no momento em que decidira, ainda de posse de sua vida, prender-se àquele nó que ao invés de apertar, desuniria corpo e alma.
            Um silêncio pesado pairava no ar, como se houvesse um acordo tácito firmado de que ninguém poderia e deveria pronunciar qualquer palavra que fosse dentro daquele quarto. O corpo desprovido de vida jazia sobre a cama com um sorriso sereno no rosto, como se aquele ato impensado tivesse sido o mais pensado de sua vida, como se se atirar para tirar a própria vida tivesse lhe libertado não da vida, mas do enorme peso que carregava, e isso, por si só, lhe devolvesse a leveza pela qual sua alma tanto ansiava, e por isso mesmo, de tão leve, tivesse abandonado o corpo.
            Aos poucos as pessoas, que observaram da porta do quarto, foram se tomando de coragem e dando passos inseguros, se aproximando do leve corpo sem vida. O sorriso que ele tinha no rosto, que iria lhe acompanhar por toda a eternidade, era impressionante de tão vivo e espontâneo. Vendo aquilo, algumas pessoas logo começaram a conversar aos sussurros enquanto outras buscavam pelos cantos da casa e do quarto algum indício de algo que pudesse vir a explicar os motivos daquele ato insensato que era o suicídio.
            Procuraram nas gavetas, e tudo o que encontraram foram cartas recém-chegadas de faturas de cartões de crédito e de contas a pagar; ligaram o celular dele, e não havia uma única ligação feita, uma única ligação recebida nas últimas semanas, uma única mensagem de texto na caixa de enviadas ou recebidas; colocaram, praticamente, a casa inteira de cabeça para baixo, em busca de algo, de uma pista, de uma palavra, mas ninguém encontrou absolutamente nada. Tudo parecia no lugar, na mais perfeita ordem, até que um alguém encontrou algo, num canto, sobre a mesa de cabeceira, no canto do quarto, quase esquecida. Era uma folha de papel e uma caneta. Pegou a folha, procurando nela palavras escritas, mas não havia nenhum rabisco sequer nela, completamente imaculada. Mostrou a folha aos outros, que, curiosos, queriam saber o que havia escrito nela, mas que, vendo que nada havia sido dito, ficaram decepcionadas, e continuaram a buscar respostas onde nada havia para ser encontrado.
           
Soube-se, muito tempo depois daquele dia em que encontraram o corpo desprovido de vida, que a única pista que ele realmente tinha deixado era justamente aquela folha de papel em branco, que era como um reflexo de sua vida, que por ser tão vazia e desprovida de marcas e rascunhos, lhe fazia pesar tanto a alma a ponto de tal peso tornar-se insuportável e ele querer e precisar, desesperadamente, se livrar dele, e a única maneira de se livrar de tal peso era se livrar daquilo que lhe pesava: a solidão, a vida.

domingo, 7 de outubro de 2012

Voltar a ser menino


Eu queria voltar a ser menino, nem que fosse por cinco minutos em minha vida. Queria simplesmente ser menino, esquecer das coisas facilmente como só os meninos esquecem e manter vivas, na memória, outras. Queria não ter preocupação alguma, responsabilidade com nada, viver só e unicamente para mim, para aquele momento, e só. Queria poder ver a chuva caindo lá fora e não temê-la, não me preocupar com ela; simplesmente poder abrir a porta de casa e sair, tomar um bom, revigorante e sempre rejuvenescedor banho de chuva.
            Eu queria voltar a ser menino para isso tudo, mas para muito mais. Queria poder ser livre, rir com um nada, brincar com um tudo, queria simplesmente viver. Queria ficar por uns instantes com a cabeça tão longe, pensando em algo que está tão perto. Queria poder me sentir como um pássaro no alto de uma árvore, colher uma fruta madura, direto do pé, e sentir o seu sabor doce como a vida.  Queria poder brincar com um cachorro, correr atrás dele, depois deixar que ele me perseguisse numa corrida louca e desenfreada na rua. Queria poder soltar pipa, jogar biloca (também conhecida como “bolinha de gude”), chupar confeito, mascar chiclete e me deliciar com outras tantas guloseimas. Queria poder ficar descalço, jogar futebol na rua, me arrebentar inteiro numa queda de bicicleta e, quando ouvir minha mãe chamar, gritar um “já vou”.
            Eu queria voltar a ser menino simplesmente para brincar, para correr, para me esconder e para me achar, para ser o que eu era, para ser o que sempre fui e que nunca deixarei de ser – ser simplesmente menino.
            Eu queria voltar a ser menino para brincar na rua, para ter de volta, nem que seja por um curto instante, medo do escuro à noite, medo dos trovões em noite de tempestade. Queria poder acordar de madrugada, nessas noites escuras, frias e chuvosas, e ir bater à porta do quarto de meus pais, e pedir para dormir naquela cama enorme, entre meu pai e minha mãe, debaixo daquele cobertor que está sempre quentinho.
            Eu queria voltar a ser menino para, ao fechar os olhos, não pensar em nada, e ter simplesmente uma boa e longa noite de um sono reparador, que me deixaria pronto para o dia seguinte repleto de coisas novas, de novas, velhas e conhecidas brincadeiras.
            Eu não quero, não posso, nunca em minha vida, deixar de ser menino, porque deixar de ser menino e esquecer todos os maravilhosos momentos que tive em minha vida, que não voltarão nunca mais, que vivem, vívidos, eternamente em minha memória, e só lá eu posso, sempre, voltar a ser o que sempre fui: um eterno menino.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O menino de metal - uma história de um Pinóquio

Um homem criou um boneco de metal tão perfeito, empregando tanto sentimento naquela criação, que o que a princípio era apenas um brinquedo, tomou vida. O homem, fascinado por sua criação, o tomou como um filho e o tratou como tal, tanto que, pouco a pouco, o que havia de metal, óleos e engrenagens no corpo do boneco, foi se transformando, metamorfoseando em pele, sangue e órgãos.
            O pai daquela criação-boneco-menino, sentia-se cada dia mais feliz, embora se preocupasse, pois as pessoas pareciam não entender e ver aquela forma de vida, criada por suas próprias mãos e sentimentos, como humana, por mais dotado de sentimentos que fosse. O menino, então, foi criado e cresceu dentro daquela casa, sem conhecer o mundo exterior além daquele que o seu pai queria lhe mostrar.
            Aquela casa enorme, no entanto, começou a ficar pouco a pouco pequena para o menino, que ansiava em ver o mundo, que só via muito de longe através de um janela que vivia trancada e protegida por grades. Ele pediu, com lágrimas nos olhos, ao pai, todo dia, para ver o mundo, e o pai, por mais que sentisse doer fundo na alma ver as lágrimas do filho, negava aquele pedido.
            Um dia o homem saiu de casa e deixou o menino sozinho por alguns instantes, que observava com olhos atentos todos os movimentos do pai. Quando ele saiu, o menino afastou os móveis para subir até uma janela bem alta, a única que não tinha grades na casa e que ficava aberta, e lá do alto, pôde vislumbrar com clareza o que era o Mundo. Ele se apoiou no parapeito da janela e olhou para baixo. Era um salto/ queda de muito alto, e ele sentiu, pela primeira vez na vida, a sensação de medo, mas o desejo e curiosidade de conhecer o mundo era maior, e ele se deixou levar sendo seguro pelos braços do vento. Aterrissou no chão com um baque surto e desejou que seu corpo fosse ainda de metal, e não de ossos, músculos e articulações. Sentiu uma dor lascinante nas pernas. Olhou para o alto, para a janela, e se perguntou se tinha tomado a decisão correta, se seu pai ficaria muito furioso, decepcionado com ele, por ele ter fugido de casa.
            O menino, a princípio assustado com todo o mundo que se descortinava à sua frente, deu uns passos incertos, mas logo estava correndo, livre, tal como um pássaro no céu numa primeira manhã de Primavera. Viu animais que ele não sabia existir, encontrou pessoas, que, assustadas com aquela alegria e os gritos do menino livre, se afastavam, dando caminho para que ele corresse pelas ruas.
            Extasiado com aquela alegria provocada pela liberdade adquirida, o menino ficou dias a fio andando, dormindo ao relento, se protegendo do sol do meio dia sob a sombra de uma frondosa árvore, comendo apenas frutas que encontrava no chão, que ainda árvore soltava para ele. Viveu feliz até o dia em que as pessoas descobriram quem ele era. A partir de então ele passou a ser apontado nas ruas e onde quer que andasse. As pessoas bloqueavam o seu caminho e outros meninos, quando ele passava correndo, colocavam o pé para que ele tropeçasse. Até as árvores, que antes lhe davam frutos, pareciam esconder entre suas folhagens aquilo que o menino tão humildemente pedia. Os cachorros, na rua, latiam para ele e o faziam fugir correndo dos bairros por onde antes andava tão tranquilamente.
Quando ficou sozinho, vendo ao longe as pessoas apontando para ele com olhares recriminadores, repletos de preconceitos, ele chorou, e ninguém ousou se aproximar dele, que naquele momento não era nada mais nada menos do que um menino, para dar sequer um pingo de conforto e afeto, abraçá-lo e dizer que ia ficar tudo bem.
Desanimado, voltou para sua casa caminhando de cabeça baixa, contando os passos.
Seu pai o estava a esperar, sentado no batente em frente à casa, e ao vê-lo, correu para abraçá-lo, agradecendo aos céus pelo retorno do filho. Mesmo sem o menino falar nada, ele bem imaginou o que tinha acontecido para que filho estivesse com aquele rosto marcado por tão dolorosas lágrimas.
Pai e filho entraram juntos, de mãos dadas, na casa, e o menino se postou no meio da sala e encarou o pai.
- Quero que você me torne de novo de metal – disse ele.
O homem não entendeu e pediu para que o menino repetisse o que dissera.
- Quero que você me torno de novo de metal. O mundo lá fora é muito duro e perigoso. Não quero mais, nunca mais, ir lá fora,e quero voltar a ser de metal e nunca mais sair dessa casa.
O homem olhou para os olhos do filho e viu quando duas grossas lágrimas escaparam de seus olhos. Também chorou abraçado ao menino e as lágrimas dos dois se misturaram e a medida que escorriam pelos rosto e corpo deste, ele ia voltando a sua forma original: de boneco, de brinquedo, de metal.