sábado, 23 de agosto de 2014

A leitora

Eu sou aquele tipo de pessoa estranha, dessas que ao entrar num ônibus olha os assentos ocupados e vejo todas aquelas pessoas, cada uma ocupada com seus computadores de mão (vulgos smartphones!), jogando algum joguinho sem graça, conversando no WhatsApp ou mandando e recebendo mensagens SMS, entretidos em algum aplicativo baixado na noite anterior ou simplesmente conversando alto e fazendo questão que todo mundo que está no ônibus ouça tudo; vejo, também, pessoas distraídas, ouvindo suas músicas, e algumas até mexendo os dedos ou batendo suavemente o pé na cadência da música; vejo também pessoas distraídas, olhando a paisagem ou pensando em como aquele dia tende a ser longo e cansativo; vez por outra tem aqueles que estão conversando alto e incomodam a metade do ônibus; e de vez em quando antes mesmo ouço antes de ver um daqueles desprezíveis DJs de ônibus, ouvindo suas músicas de qualidade duvidosa e incomodando o ônibus inteiro, e sempre que vejo (digo, ouço) tal ser, minha vontade é de pedir parada e descer imediatamente.
            Pois bem, eu não me enquadro em nenhuma dessas categorias (se bem que de vez em quando eu ouço minha música – com fones de ouvido, óbvio), e ao entrar no ônibus, ao me deparar com tão familiares figuras, busco com os olhos um lugar onde possa me sentar (normalmente à janela, no lado do sol – não me pergunte por que opto por me sentar no lado do sol). Devidamente sentado, sentindo-me confortável (por vezes nem tão confortável assim), abro minha mochila e tiro de dentro dela um objeto estranho, um livro, e ao fazer isso muitas pessoas me olham com certa estranheza, como se eu fosse um ser de outro mundo e portando um objeto deveras perigoso, talvez desconhecido (pelo menos no ambiente de um transporte público coletivo) para a maioria daquelas pessoas.
            Um dia desses tudo me parecia igual a todos os dias. Entrei no ônibus, procurei com os olhos um assento e me dirigi para lá. Infelizmente não era na janela, mas pelo menos era do lado do sol (!). Sentei-me e ao começar a abrir a mochila, olhei para o lado e vi que havia um elemento estranho naquele ônibus, um alguém que havia ocupado o meu lugar de “elemento estranho, extraterrestre, portador de um objeto deveras perigoso e desconhecido”. Eu, como bom curioso, procurei discretamente (se bem que não tão discretamente) averiguar que livro era aquele que aquela moça estava lendo e que a tinha fisgado de tal forma que ela estava profundamente concentrada na leitura. Quase dou um jeito no pescoço para ver a capa daquele livro, que fazia com que a leitura tivesse uma reação diferente a cada virar de página. Quando finalmente consegui ver a capa, já tendo chamado a atenção daquele que estava sentado ao meu lado e de algumas pessoas próximas, que àquela altura devia já ter me julgado um louco, quase me desequilibro ao constatar que a moça lia um de meus livros. Olhei bem para ela, tentando reconhecê-la entre uma daquelas a quem recomendei a leitura na livraria onde trabalho, mas por mais que me esforçasse, não conseguia lembrar de seu rosto. Fiquei me perguntando como aquele livro tinha lhe caído nas mãos, mas deixei esse questionamento de lado e comecei a reparar em suas reações, para constatar se ela estava ou não gostando, e pelas expressões de seu rosto e seu leve arquear das sobrancelhas, creio que sim. À essa altura, as pessoas no ônibus já estavam me olhando, vendo como eu reparava naquela leitora ao meu lado. Deviam achar que eu me tratava de algum maníaco-pervertido-com-fetiches-por-mulheres-que-leem-em-ônibus (se bem que eles, nesse sentido, têm certa razão). Fiquei pensando se deveria ou não me apresentar a ela como o autor daquele livro, aquele quem escreveu aquela história (uma crônica – tratava-se de um de meus livros de crônicas) que naquele momento lhe arrancava uma sonora gargalhada que acabou chamando a atenção de outros passageiros do ônibus, que olharam para ela com um olhar de estranheza e censura (pensando, por certo, se ela era louca para estar rindo “sozinha”!). Resolvi deixá-la quieta, em paz, final de contas é sempre mais engraçado e interessante ler um livro e suas histórias, se divertir e se identificar com elas do que conhecer aquele quem as escreveu.

            Quando dei por mim, minha parada estava chegando e eu tive que me levantar. Naquela manhã, um dia incomum, eu não li uma única páginas e sequer chegara a abrir a mochila. Quando, já de pé no corredor do ônibus, em frente à porta, olhei para trás, não resisti e dei mais uma espiada para trás, para aquela leitora desconhecida, e quando a vi sorrir novamente me dei conta de que a decisão que havia tomado, de não me apresentar, fora a mais sensata, afinal de contas, como disse, a leitura do livro era muito mais interessante e divertida do que conhecer seu autor.

domingo, 10 de agosto de 2014

Asas

Quando nascem, todas as crianças têm asas para poder ir aonde quiserem, para fazer o que bem desejarem, pois são inteiramente livres, pois pertencem só e unicamente a si mesmas. Elas brincam livres no céu, sob os olhares estupefatos dos adultos, invejosos daquela liberdade e alegria a que é permitido só aos que possuem alma de criança.
            No céu, as crianças se sentiam inteiramente donas de si, e podiam viajar livremente nos braços dos ventos, mas havia uma em especial que era mais livre do que as outras: um menino que tinha um riso capaz de sobrepujar o barulho dos trovões nas noites de tempestade, que tinha asas tão grandes que ele as usava para abraçar a si mesmo quando estava com frio nas noites de inverno. Ele, junto com seus amigos, voavam pelos céus e chegavam perto do sol, mas só ele, ousado como era, ousava se aproximar o suficiente para sentir seu calor a lhe queimar a pele, e fazia isso com tanta frequência que sua cor era de um saudável bronzeado. Nas noites de luar, todas as crianças eram livres para ficar até tarde acordadas, e algumas, quando sentiam sono, podiam mesmo dormir planando no ar ou nos braços de uma estrela, mas diante de tanta alegria e felicidade, eram raras as que sentiam sono. Umas, mais afoitas, voavam bem alto em torno na lua, enquanto outras, mais alegres, brincavam com as estrelas, jogando-as de um lado para o outro, e os adultos, infantis, imaginavam tratar-se de uma “estrela cadente”, quando, na verdade, era apenas uma estrela que se deixava fazer de brinquedo pelas crianças.
            As crianças eram inteiramente felizes e livres, mas aquele menino era mais do que todas as outras, e primeira vez que seu sorriso lhe sumiu do rosto foi quando viu um adulto segurando uma criança, um amigo seu, pelo pé, impedindo-a de voar, prendendo suas asas num abraço apertado para que elas não abrissem. Ele então entendeu que aquele era o primeiro indício de uma obrigação a que os adultos impunham às crianças: o crescimento. Aquela foi a primeira criança que ele via dar seus primeiros sinais de crescimento a que os adultos e o mundo impunham, e ficou triste por dias a fio, sem ânimo sequer para voar. Mas logo esqueceu, como todas as crianças esquecem rapidamente das coisas, pois tinha muitos outros amigos para brincar durante os dias e noites de sua eterna infância.
            Um dia, quando estava no céu a brincar com uma nuvem, fazendo cócegas nela para obriga-la a tomar a forma de um animal, viu uma criança com os pés plantados no chão. Ele a chamou, mostrando como estavam a se divertir, ele a nuvem, convidando-a a participar da brincadeira, ao que ela respondeu com um olhar triste, mostrando que suas asas pendiam inertes. Ele ainda fez menção de ir até ela e voar com ela nos braços, ao que ela recusou, dizendo que a partir daquele momento não poderia mais voar, pois seu lugar era ali, com os pés bem firmes no chão. Ficou com uma lágrima presa na garganta, mas se aquele era o desejo daquela criança, tudo bem, ele respeitaria. Ainda havia, mesmo assim, algumas crianças livres, com enormes asas, embora não tão grandes quanto as suas, com quem poderia brincar e voar livremente pelo céu.
            Passadas algumas semanas, ele, num voo solitário num início de manhã, percebeu que havia menos crianças do que o normal, e olhou para baixo e viu um massacre acontecendo diante de seus olhos: adultos ignorantes prendiam as asas das crianças para que elas não pudessem mais voar, e outros iam ainda mais longe e arrancavam as asas para que nunca mais elas pudessem ser livres. Dessa vez, ele chorou, e suas lágrimas caindo eram como uma tempestade a desabar sobre a cabeça dos incautos que faziam aquilo com as crianças, prendendo-as no chão.
            Algumas crianças, mesmo livres, começaram a não conseguir mais voar tão alto e pouco a pouco foram perdendo, naturalmente, capacidade de voar, e estas, quando punham seus pés no chão e não tinham mais forças nas asas, choravam tão alto que até as estrelas no céu se compadeciam de suas novas condições, presas ao chão. Outras, para evitar perderem suas capacidades de voar, suas preciosas liberdades, tentavam viver uma vida dupla: na terra, como todos, e no céu, livres; mas a estas logo as obrigações do dia-a-dia, as infindáveis rotinas prendiam, a ponto de elas se esquecerem de como se faz para voar, e suas asas caíam inertes ao longo do corpo.
            Uma a uma, as crianças começavam a ficar presas ao chão, umas por que eram obrigadas, com os adultos obrigando-as a se plantarem no chão, enquanto outras tinham as asas as asas brutalmente arrancadas, para que nunca mais pudessem voar livremente no céu.
            Todas aquelas crianças que um dia foram livres não mais voavam, com a exceção daquele menino, que agora brincava sozinho. Ia de uma nuvem a outra, brincava de esconde-esconde com o sol, conversava, à noite, com a lua e ainda jogava, vez por outra, uma estrela de um lado para o outro. Quando olhava para baixo e via um de seus antigos amigos, agora transformados em adultos, chamava por eles, mas eles, tão ocupados em suas rotinas, ou não ouviam, ou não escutavam ou chamado, ou fingiam não ouvir aquele chamado, e seguiam sempre em frente, com a cabeça baixa e os pés bem firmes plantados no chão.  Ele, mesmo percebendo que mais que chamasse os outros não olhariam para cima, continuava a chamar até cansar. E quando eles não podiam mais ser vistos, seja porque entravam em um ônibus, carro ou se trancavam num escritório ou dentro de casa, sentia-se cansado e triste e perdia, por um instante, a vontade de voar, e em uma ocasião quase foi pego por um adulto, que desejava lhe podar as asas.
            Sentia-se só, agora que não tinha uma outra criança com quem brincar e compartilhar as alegrias e sorrisos, e essa solidão foi lhe pesando dia após dia a ponto de tal peso lhe impedir de voar tão alto como gostava. Um dia, não aguentando mais tal peso, resolveu se deixar cair lentamente, tal qual uma pluma que se deixa levar ao sabor do vento. Pousou suavemente no chão e dobrou delicadamente suas asas e começou, a partir daquele dia, a viver como uma pessoa comum, a seguir uma rotina, a ter suas responsabilidades.
            Passaram-se muitos anos e ele cresceu, como toda criança cresce, e, tão ocupado como estava em viver a vida, se esquecia do menino que um dia fora. Nunca olhava para o céu, seja durante o dia seja à noite, e sua pele, antes bronzeada, perdeu a beleza da cor e o viço.
            Mas um dia, enquanto voltava de seu trabalho para casa, parou subitamente, como que algo estivesse a lhe chamar. Era noite e não havia uma única nuvem no céu e ele, ao olhar para cima, ao ver tantas estrelas e a lua a brilhar majestosa no firmamento, e foi então que um turbilhão de lembranças lhe tomou de assalto e ele sorriu e chorou ao lembrar do menino que um dia fora e do qual havia se esquecido. Olhou para as costas e viu as asas abrindo lentamente e sorriu ao perceber que elas ainda estavam vivas e possuíam vigor suficiente para levá-lo ao céu. Respirou fundo duas ou três vezes e deixou suas asas livres para baterem e lhe levarem de volta aos braços do céu. Sentiu seus pés iam pouco a pouco se soltando do chão e ele pôde se tornar o primeiro homem, adulto, a poder voar. Seguia suas rotinas e tinha suas responsabilidades do dia-a-dia, sim, mas sempre que, cansado, voltava para casa, parava, olhava para o céu e ao ver as estrelas e a lua, podia voltar a ser o menino livre que um dia fora, e voar livremente pelo céu, privilégio este que só é dado aos que possuem uma eterna alma de criança e aos que fazem devido uso de suas asas

domingo, 3 de agosto de 2014

Pássaro-livre

Aquele era um pássaro em muito diferente dos de sua espécie. Não era preso às convenções, mas sim inteiramente livre. Não tinha que migrar no inverno, em busca de calor e alimento, como seus iguais, mas ia e ficava onde o sol lhe aquecia e onde podia alimentar sua alma independente da estação do ano. Não cantava só e unicamente nas primeiras horas da manhã, como tantos outros faziam, mas enchia o peito e soltava a voz a qualquer hora, seja para louvar o sol e agradecer-lhe pelo calor, seja para declarar seu amor à lua ou às estrelas. Tinha uma forma peculiar de bater as asas, com um gingado que tornava o seu voar muito mais belo e suave, tendo mesmo certo “quê” de sensualidade. Despertava, sim, por ser como era, certa inveja de alguns pássaros, mas a maioria, o admirava e tinham por ele uma saudável inveja.
Gostava de, pela manhã, ao sentir os primeiros raios de sol a tocar seus olhos, ao sentir os suaves dedos da brisa matutina, estufar o peito e cantar em louvor a vida. Gostava de, quando todos os outros estavam parados, empoleirados numa árvore qualquer, abrir suas asas e sair a bailar livremente pelo céu, tendo como parceiro o vento que o conduzia em passos suaves naquela dança. Gostava até mesmo de, para espanto dos de sua espécie, voar em dias de chuva, deixando que aquelas gotas mágicas que caiam do céu banhassem seu corpo e encharcassem sua alma.
Por ser como era, por chamar a atenção como chamava, começou a chamar a atenção de outros seres de outras espécies, que ficavam pasmos, perguntando como aquele pássaro podia e conseguia ser tão diferente de outros que lhe pareciam tão iguais aos olhos. Por ser livre como era, não notava os olhares cobiçosos que alguns desses seres lhe lançavam e não percebeu quando um homem começou a lhe seduzir com presentes belos, mas tolos, a fim de tê-lo não mais livre, onde todos pudessem contemplar, mas somente para si.
O pássaro, de espírito puro e inocente como era, se deixou seduzir e começou a pousar sem medo perto do homem, que a cada dia o trazia para mais perto de si. Foi o homem ganhando, pouco a pouco, mais e mais, a confiança do pássaro a ponto deste chegar, de certa feita, a pousar em seu ombro e ali ficar por longos minutos e até a se deixar tocar e acariciar suavemente por aqueles dedos rudes.
Certa vez, quando já tinha ganhado a total confiança do pássaro, o homem lhe trouxe um presente: uma gaiola. Encheu aquele ambiente de elogios, dizendo que lhe traria segurança e conforto, e o ofereceu humildemente ao pássaro, que se deixou engabelar por aquelas palavras tão elogiosas e entrou na gaiola. Experimentou-a mas ficou meio desconfiada daquelas paredes vazadas, que lhe permitiam ver o mundo exterior, mas que, mesmo assim, eram paredes, e lhe transmitiam apenas uma ideia de falsa liberdade. Saiu da gaiola, onde se sentia sufocado e voou para bem longe.
No dia seguinte voltou, e o homem lhe ofereceu novamente a gaiola. O pássaro não se sentia confortável naquela clausura, mas vendo o sorriso do homem, e se deixando iludir por aquelas melífluas palavras, acabou por entrar mais uma vez. A mesma sensação de sufocamento lhe tomou, e ele saiu mais uma vez. No outro dia, a mesma coisa. No outro e no outro também, até que começou a se sentir relativamente bem na gaiola, muito embora aquelas paredes lhe transmitissem a sensação de estar enclausurado. Saia se sentindo sufocado daquela gaiola, que por maior e mais confortável que fosse, não deixava de ser o que era: uma gaiola.
Um dia o pássaro veio e se aproximou do homem, que lhe ofereceu, como sempre vinha fazendo nos últimos dias, a gaiola. O pássaro a rejeitou, mas diante daquele sorriso e daquelas palavras, acabou cedendo e entrando, mais uma vez, por aquela porta. Andou um pouco, observou um pouco o mundo através daquelas paredes, e quando já se sentia farto daquele ambiente, quando ele começava a se sentir sufocado, que quis sair, viu a porta fechada e através dela o homem, que lhe contemplava com um sorriso diferente.
- Agora você é meu, passarinho! – disse ele.
O pássaro tentou fugir, jogando-se sobre as paredes, tentando abrir uma pequena brecha por onde pudesse passar, mas por mais que fizesse, por maior que fosse a força que desprendesse, não conseguia mover aquelas grades. Ficou triste como jamais estivera em sua vida.
O homem passou a exibir com orgulho o seu pássaro, que continuou, sim, a cantar, mas não era um canto feliz, de louvor à liberdade e à vida, mas um canto de notas baixas como um lamento.
O pássaro, dentro de pouco tempo, devido ao uso limitado de suas asas, começou a senti-las atrofiar e de onde a sua gaiola ficava empoleirada, ele via, lá embaixo, algumas outras gaiolas que pertenceram outrora a outros pássaros, que em outros tempos foram seduzidos por aquele homem e feitos cativos.
Dia após dia ele começou a ficar mais e mais triste. Suas asas, devido ao uso limitado, começaram a atrofiar e sua garganta a secar, pois seu canto não era mais espontâneo. Quando o homem vinha vê-lo de manhã, que o via naquele estado de espírito, procurava estimula-lo, conversando e imitando, com um assovio, um canto de um pássaro. Mas nada que o outro fizesse seria capaz de fazê-lo voltar a se sentir e a ser o que era antes, pois agora ele não era mais um pássaro livre, mas sim um pássaro engaiolado.
Começou a definhar mais e mais e o seu único consolo era ver, através das grades de sua prisão, os pássaros livres a voar no céu. Um ou outro seu companheiro de outrora vinha pousar perto dele e até sobre a sua gaiola, o que lhe trazia certo conforto, pois isso reavivava o seu sonho/desejo de vir a ser novamente livre e sentir novamente o vento bater sob as suas asas. Quando o outro pássaro ia embora, que ele o via se afastar até se tornar não mais que um minúsculo ponto no horizonte, se deixava tomar por uma aguda depressão.
O homem, preocupado, compadecido com a tão latente dor de seu pássaro, tentava, de todas as maneiras, reanima-lo, mas quando via o olhar dele tão distante, fitando o horizonte infinito, sentia-se impotente, sem saber como trazer de volta o espírito daquele pássaro pelo qual se apaixonara e afeiçoara.
Mas o pássaro definhava à olhos vistos e o homem, não aguentando vê-lo morrer lentamente, abriu a porta da gaiola e atraiu o pássaro para fora. O pássaro, tão fraco estava que mal conseguia se mover, mas fez um imenso esforço para conseguir sair da gaiola que se acostumara a chamar de casa. Ao se ver fora da gaiola, finalmente de posse da liberdade pela qual sonhara, mas que acreditava que nunca mais iria readquirir, ficou desnorteado, sem saber o que fazer. Suas asas pesavam, e o homem, ao perceber tudo isso, o pegou delicadamente e procurou reensina-lo a forma correta de abrir as asas e batê-las. O vento, que passava perto, ao ver seu parceiro de dança naquele estado, resolveu ajuda-lo e soprou suavemente em sua direção. O pássaro, ao sentir aquele delicado toque no rosto, sorriu e abriu as asas. Não precisou batê-las, não precisou fazer qualquer esforço, precisou, apenas, se deixar levar nos braços do vento, que o conduziu suavemente nos passos daquela dança e o levou para o alto, de onde podia ver o mundo todo se descortinar perante seus olhos. O homem ficou, emocionado, a contemplar o pássaro readquirir seu antigo viço e prometeu, naquele momento, que nunca mais iria aprisionar pássaro algum.

O pássaro desceu num voo rasante e pousou no ombro do homem e cantou como cantara em outros tempos, e sua canção, e suas palavras eram de agradecimento por ele ter-lhe restituído a liberdade que, num ato impensado, lhe havia roubado. O homem sentiu-se feliz e honrado ao ouvir aquele canto entoado só e unicamente para ele. O pássaro, então, abriu novamente as asas e voou para longe, sendo novamente o pássaro livre que sempre fora, dançando seu balé no ar, cantando em louvor à vida, à liberdade.

domingo, 13 de julho de 2014

Perdemos em campo, mas fora dele fomos muito bem (obrigado!)

A "seleção brasileira" (entre aspas mesmo) foi um fracasso, e foi bem mais longe do que imaginávamos. O "time" nunca foi competitivo, e chegamos, mesmo, a nos enganar, dando crédito a ele, por conta daquela exibição atípica na final da Copa das Confederações do ano passado. Sentimo-nos verdadeiramente maravilhados e começamos a acreditar que, sim, que podíamos ganhar a copa (quanta ingenuidade - ou "sabe de nada, inocente", foi o que ganhamos em troca por nos ter deixado iludir tão facilmente). Mas nunca tivemos um time à altura da nossa Seleção, um grupo que pudesse, efetivamente, nos levar ao título. No entanto, a mídia contribuiu para que acreditássemos nesse conto de fadas do hexa.
Curioso é que o contrário aconteceu justamente com a organização da Copa. a mídia nos fez acreditar na incapacidade de organização do evento. Sei que tem MUITA COISA ERRADA, muita coisa não foi entregue no seu devido tempo e tivemos que lidar com a nossa tão conhecida e já batida "maquiagem", mas não podemos nos focar só e unicamente no errado (deu tudo errado?), mas sim, também, ver o que houve e ficou de positivo, colocar os dois lados numa balança e ver se o bom e ruim, pesando-os para ver para que lado tomba, e se formos justos, se nos despirmos de preconceitos ideológicos, se deixar de lado a politicamente e discursos socialoides ou direito-fascistas, vamos ver que, sim, que fomos MUITO BEM no que tange à organização do evento.
Sempre acontece de o crédito (ou descrédito) ser dado a quem está à frente naquele momento, ao que responde pelos atos, por assim dizer. Assim sendo, devido ao "sucesso" (aspas porque não foi de todo sucesso, dada os atrasos nas entregas das obras, devido aos erros cometidos ao longo do processo de organização do evento e preparação das cidades, etc., mas enfatizando, ao mesmo tempo, a palavra, pois foi, sim, pesando na balança, um sucesso) devemos dar um troféu pela competência na organização do evento ao Governo Federal (sim. na hora de "meter o pau" a gente não mete? então por que não podemos dar o braço a torcer e dizer que sim, que o PT merece créditos pela organização do evento? sejamos justos, despidos de preconceitos e discursos descerebrados!).
O nosso time, o que esteve em campo nos representando, teve uma atuação pífia (apesar de parte de a mídia promover o contrário até o jogo antes da semifinal), mas o nosso Governo (volto a dizer que na hora de "descer o sarrafo" o fazemos, mas na hora de reconhecer não fazemos! por que isso? por que essa injustiça?), que já tinha fracassado antes do início do evento, mostrou-se um vencedor, surpreendendo a todos e a tudo.
Como apreciador de futebol, como torcedor, gostaria, sim, de ter visto a minha Seleção (a verdadeira, não essa fajuta que esteve em campo) vencer, mas, convenhamos, muito melhor foi ter visto, é saber que saímos vencedores, com cabeça erguida, por termos, justamente, conseguido triunfar na organização do evento.

O que nos resta, então, é ver que nesta Copa aconteceu justamente o contrário de tudo que se vinha pregando: saímo-nos perdedores (ah, como essa palavra dói) dentro de campo, mas, em contrapartida, vencedores fora dele! Não sei se falar em Copa das Copas, como vem se falando, seria um exagero, uma vez que só o tempo pode dar o devido valor, rótulo e créditos ao evento, mas que nos saímos muito bem é inegável.

domingo, 6 de julho de 2014

O homem que guardou seus sentimentos



Ele parou em frente ao espelho, mas não mirou imediatamente aquele que lhe olhava tão fixamente no reflexo, através daquela parede de fino vidro. Estava cansado. Respirou fundo duas ou três vezes, e só então levantou os olhos e viu, para seu espanto, um alguém já velho, diferente  daquele que ele guardava a lembrança, com a pele ressecada, marcada por profundas cicatrizes que o tempo lhe deixara. Tinha os olhos secos e a boca fechada. Olhos que não choravam e boca que não se abria num único sorriso sequer. Foi subitamente tomado por uma lembrança; a lembrança do dia em que se investira daquela expressão, em que se fechara para o mundo, em que decidira se proteger por trás daquela grossa carapaça que nada poderia ultrapassar.
            Foi quando, com o coração em frangalhos, começou a vagar, deixando que seus pés o guiassem livremente. Mesmo com o corpo cansado, não parou de caminhar, até que, extenuado, se deixou cair pesadamente no chão. Aquela não foi a primeira vez em que se vira sofrendo com tanta intensidade, não foi a primeira vez em que sentira tamanha dor no peito, mas decidira, naquele momento, que seria a última das vezes. Cansado de sofrer, decidira que aquela fora a última vez que sofrera aquela dor.
            Eram tantas as dores que trazia no peito, eram tantos os sofrimentos que ficaram marcados no fundo de sua alma, que se sentia cansado de viver-sofrer. Não tinha mais forças, não aguentaria mais viver uma nova dor. Parado, ali, de joelhos, humilhado por aquele sentimento que lhe consumia por inteiro, por aquele sofrer, resolvera tomar uma atitude radical e expurgar tudo aquilo, todos aqueles sentimentos que lhe poderiam, de alguma forma, lhe fazer se decepcionar, lhe trazer alguma dor. Não queria mais sentir aquele gosto ruim na boca, não queria mais senti-lo se espalhar por todo o seu corpo, nos poros de sua pele, em suas veias, lhe turvando a visão, lhe pretendo a respiração, lhe roubando os sentidos. Pegou então, uma faca, mas não tinha coragem de tirar sua própria vida. Então se pôs a apunhalar todos aqueles sentimentos causadores de dor. Percebeu, no entanto, que os que lhe causavam de dor estavam intrinsecamente ligados aos que lhe traziam felicidades, os que lhe arrancavam lágrimas eram gêmeos dos que lhe abriam sorrisos, mas ele não deu importância para isso, e continuou em sua atitude intempestiva. Quando terminou, percebeu que tinha ao seu redor tantos sentimentos que não cabiam numa caixa, onde pretendia trancá-los para que nunca mais pudessem sair, então os pôs dentro de um container. Selou os sentimentos, todos os que viviam em seu peito, naquela imensa caixa de metal, e os guardou para sempre, escondendo em um local protegido nas profundezas de sua alma, onde ninguém, nunca, poderia chegar.
            Levantou-se lentamente, livre de toda e qualquer dor, de todo e qualquer sentimento. Pôs-se, então, a viver uma vida tranquila, cumprindo todas as suas obrigações, vivendo uma rotina sem reclamar, nunca, de nada. Não chorava, mas também não ria; não ficava triste, mas estava, também, livre de pequenas felicidades. Quando recebia um convite para alguma coisa, atendia com um “sim” ou um “não”, indiferente, pois “sim” e “não” para ele eram a mesma coisa, as faces de uma mesma moeda. Casou, mas sem se apaixonar, simplesmente porque precisava se casar, porque impuseram isso a ele. Traiu porque tinha que trair, e mesmo na traição era indiferente com relação àquela com quem ia para a cama, e com aquela que ficava a lhe esperar, aguardando-o em casa para esquentar o seu jantar e desenrolar seu cobertor para que pudesse dormir confortavelmente. Perdeu inúmeros entes queridos, como todos perdem no processo natural da vida, mas mesmo nos velórios e enterros, não derramava uma única lágrima sequer.
            Viveu toda uma vida inteira livre de sentimentos tristes, mas também dos felizes. Teve um filho, e mesmo ao segurar o recém-nascido pela primeira vez, não derramou uma única lágrima de felicidade. Viu a criança crescer, lhe dar os braços, lhe chamar de “pápá”, segurar na sua mão quando queria segurança, lhe chamar à noite quando tinha medo, viu-a caminhar com as próprias pernas, tomar as próprias decisões, viver sua própria vida, e em nenhum momento ele deixou que sentimentos escapassem, pois estes estavam tão bem guardados naquele container que até ele mesmo tinha se esquecido de sua existência.
            Na mesma medida em que viu o seu filho nascer, crescer, aprender a caminhar e ir embora, viu sua esposa, a quem não amava nem odiava, ir envelhecendo, perdendo as forças e tendo a sua centelha de vida se apagando pouco a pouco, até que, por viu, a viu fechar os olhos. Viu as pessoas, todas próximas, mas nunca próximas demais dele, chorando pela perda de uma pessoa tão querida, mas ele, em nenhum momento, teve os olhos úmidos. Recebeu palavras de consolo e a todas elas dizia apenas um “obrigado”, não porque estava tocado pelo que ouvia, não porque se sentia grato, mas porque devia, ao menos, retribuir às palavras com uma outra, nem que esta fosse apenas da boca pra fora.
            A cada conquista que o filho tinha, este lhe mandava uma carta, lhe ligava para compartilhar suas vitórias, e ele, como sempre, emitia palavras vagas, mas que, para aquele, feliz, lhe soavam encorajadoras. Viu-o envelhecer, vencer e, também, sua centelha se vida se apagar, e nem quando percebeu que o caixão dele pousou no fundo da cova, ele chorou, já que estava livre de todo e qualquer sentimento que pudesse lhe causar dor.
            Viu as pessoas que um dia lhe foram próximas, todas, uma a uma, indo embora, e só ele ficava, sozinho, sem derramar uma única lágrima pelas perdas.
            Agora, vendo-se só, olhando nos olhos daquele que lhe mirava do outro lado do espelho, se perguntava pela primeira vez em todos aqueles anos, se valera a pena ter tido aquela vida tão livre de sentimentos de dor. Pela primeira vez, em todos aqueles anos, olhou para baixo, respirou fundo e se deu conta de que viver é sentir dor, e em quem a vida não dói, não vive. Foi então que sentiu aqueles sentimentos adormecidos, guardados naquele container há tantos anos, ganhando novamente viva, acordando de seu longo torpor. Eram tantos e tão fortes, agora, que arrebentaram as paredes de ferro daquela prisão, arrebentaram as comportas que mantinham seguras tantas lágrimas contidas há tantos anos. Ele chorou até seus olhos cansarem, até que todos aqueles sulcos marcados em sua pele encharcarem. Quando as lágrimas cessaram, ele se deixou cair no chão e ficou ali, imóvel, por longos e longos minutos. Sentiu, pela primeira vez em anos, o seu coração bater. Ele batia acelerado, com uma imensa força, arrebentando por dentro, pois não suportava tantos sentimentos libertados de uma única vez. Ele foi fechando os olhos lentamente, sendo tomado por um sono. Revia toda a sua vida passar diante de seus olhos em uma fração de segundos, viu todos os sentimentos que deixou de viver pelo medo de sofrer, e chorou mais uma vez, arrependido. Esperou sua centelha de vida, aquela vida que não vivera, se apagar lentamente e no exato instante em que sentiu seu coração bater pela última vez, sorriu o primeiro sorriso em tantos anos.