Cada livro que lemos deixa um nós uma marca, mexe conosco de
uma forma diferente. Há aqueles que nos decepcionam, sim, há aqueles dos quais
esperávamos “algo mais”, aqueles que não concordamos com o final; mas há
aqueles que deixam marcas nas nossas almas de leitores, aqueles livros com os
quais nos identificamos profundamente, da primeira palavra ao último ponto, que
vemos espelhados nesse ou naquele personagem traços de nossa personalidade, os
que temos a impressão de que retrataram tal como aconteceu um fato que
aconteceu em nossas vidas. Há livros intensos, que nos prendem desde a primeira
páginas, aqueles que impede que peguemos no sono enquanto não terminarmos “só
mais esse capítulo”, e que acabamos passando noites em claro lendo-os. Há livros
complexos, que só conseguimos ler e entender se o fizermos bem aos poucos,
poucas páginas e palavras por vezes. Há livros que lemos correndo, cujos
capítulos se sucedem de tal maneira que não conseguimos parar sequer para tomar
fôlego. Há livros escritos em linguagem complexa e rebuscada, que tem em sua
alma um “ar intelectual e rebuscado”. Mas há livros que nos marcam, com os
quais nos identificamos, justamente por não serem complexos, por não terem uma
linguagem rebuscada, que não precisamos correr, e sim por que são simples, por
serem escritos de maneira simples, clara e delicada, e que não queremos correr
em sua leitura, mas sim beber palavra por palavra. Arroz de Palma, de Francisco Azevedo, é um destes livros.
Arroz de Palma é um livro para todos os
amantes da boa literatura, para todos os que têm família, para todos que sabem
saborear as palavras de um grande romance e que começam a salivar antes mesmo
de ter o prato servido, antes mesmo de abri-lo na primeira página. Narrado com
uma maestria ímpar, com uma delicadeza impressionante, é um livro que ao lermos
somos fisgados pelas melífluas palavras do autor, de que somos hipnotizados e
remexidos naquela panela de palavras e convidados a apreciar e acompanhar o
preparo daquele formidável prato literário que será servido para nós, leitores,
numa esplendorosa ceia, que iremos apreciar, que irá saciar a nossa fome literária
por dias a fio.
Contada de
uma forma suave e delicada, como numa simples conversa, como que entre o
preparo de um prato e outro para um jantar de reunião familiar, a história de Arroz de Palma é uma viagem no tempo, é
um convite, tal como acontece numa reunião familiar, a uma das tão tocantes e
gostosas histórias de família com a qual todos que a ouvem (leem) se
identificam.
A história
começa como o preparo de um bom prato: um ingrediente sendo cuidadosamente
colocado por vezes. Somos gentilmente convidados pelo narrador-personagem à
cena do casamento de seus pais, quando estes são encharcados pela chuva de
arroz jogada pelos convidados, desejando fertilidade e felicidade eterna aos
recém-chegado. Tia Palma, pessoa-personagem sábia e anticonvencional que é, vê
naquele arroz algo divino (plantado na terra, caído do céu e colhido na pedra).
Recolhe grão a grão e o dá de presente a seu irmão, que o rejeita prontamente,
pois não considera digno aquele presente, ao contrário de sua esposa, que
compreende todo o simbolismo contido naquele gesto. O arroz, de simples grão jogado
sobre os noivos, passa a personagem que irá estar presente ao longo de todo o
livro. Símbolo de fertilidade e um dos protagonistas da história, torna-se uma
valiosa herança e fica sob a guarda justamente do narrador-personagem, aquele
filho do casal que sabe, como nenhum de seus irmãos, o significado real de cada
um daqueles diminutos grãos.
Arroz de Palma versa não sobre grãos de
arroz, mas sobre vida, sobre família, sobre valores. Conduzida de forma
delicada e sutil, a história nos convida a uma viagem através do tempo, acompanhando
a história de uma família e seus personagens, a uma história de inúmeros “causos”
com os quais, nós, leitores-humanos impreterivelmente nos identificamos, nos
vemos espelhados em palavras, gestos, circunstâncias e sentimentos mil que permeiam
toda essa fantástica saga familiar.
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