Mostrando postagens com marcador sugestão de leitura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sugestão de leitura. Mostrar todas as postagens

domingo, 30 de março de 2014

Doce gabito

Fala-se que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Há os que dizem que um escritor contemporâneo não “acerta a mão duas vezes seguidas ao escrever romances”! pois eis que raios caíram duas vezes no mesmo lugar e um escritor brasileiro escreveu não só dois bons livros, mas dois livros magníficos, marcantes, poéticos e de delicadezas impressionantes, capazes de envolver o leitor, embalando-o e fazendo com que ele se envolva com a história e se identifique prontamente com os personagem. Que autor é esse? Francisco Azevedo! E que livros são esses? O Arroz de Palma, o primeiro, e Doce Gabito o segundo
            Fico me lamentando e comento com todas as pessoas com quem converso, que demorei muito a descobrir Francisco Azevedo e seu estupendo Arroz de Palma. Um livro lançado em 2009, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e que só recentemente, no ano passado, foi que eu tive o imenso prazer de lê-lo. Por que demorei tanto a lê-lo? Nem eu mesmo sei. São tantos os livros a ler, tantos autores para conhecer, que, confesso nunca ter prestado tanta atenção aquele livro de capa tão delicada e singela e que nunca chegava em grande quantidade à livraria em que trabalho, mas que, mesmo assim, mesmo sem tanta divulgação, mesmo sem fazer barulho, era sempre bem vendido e que recebia elogios “rasgados” daqueles que o saborearam. Aconteceu que, na metade de 2013, aquele livro se jogou em meus braços e segurando meu rosto, gritou: “leia-me agora ou arrependa-se para sempre!”. Eu, diante de tais argumentos, nada pude fazer além de leva-lo para casa e iniciar, naquela mesma noite, sua leitura. E que livro! A cada parágrafo, uma poesia. Eu ficava entre querer devorá-lo em uma única noite ou prolongar o imenso prazer de sua leitura por dias a fio, saboreando, grão a grão de suas palavras.
            Ao fechar o livro, tendo lido o último ponto de O Arroz de Palma, continuei por longos dias com aquela história ecoando em minha cabeça, tendo por companhia aqueles tão cativantes personagens com os quais tanto me identifiquei. Com o passar dos dias, comecei a me sentir órfão, pois nada do que lia encontrava aquela poeticidade, aquela delicadeza das palavras de Francisco Azevedo. Encontrei, sim, muito bons livros, que marcaram o meu ano de leitura, mas nenhum tanto quanto aquele Arroz...
            “Livro vai, livro vem...” e acontece de eu, por acaso, resolver fuçar na internet (no facebook, para ser mais exato) e encontrar, entre milhões Franciscos e entre tantos Azevedos, o Francisco Azevedo que, com seu livro, fez eu me sentir órfão por meses após a leitura do incomparável O Arroz de Palma. Conversa vai, conversa vem, apresentações feitas, elogios também, acabo descobrindo que ele lançou outro livro de peculiar título, Doce Gabito. Como assim?! Ele tem um segundo livro e eu não sabia! Mas o livro, infelizmente, não tinha unzinho exemplar sequer na livraria em que trabalho. Relatei isso ao autor, comentei de meu “desespero” (dramático eu? Imagina!), e ele, se compadecendo de minha situação, mandou-me um exemplar do livro. Eu aceitei, óbvio, o presente, mas com uma condição: que o livro viesse autografado. Ele não titubeou, e mandou-me o exemplar do raro livro.
            Iniciei a leitura de Doce Gabito e senti, de cara, o mesmo impacto da leitura do livro anterior do autor. A mesma poeticidade, a mesma linguagem plástica, a mesma forma inigualável e até o mesmo eixo temático, família. Isso tudo sem contar as referências literárias e as “coincidências” na história da protagonista/ narradora, Gabriela Garcia Marques (isso mesmo! é este o nome dela), com a de seu homônimo, o famoso e laureado escritor colombiano, sem contar a presença constante de seu amigo, que sempre vem lhe visitar em sonhos (normalmente, mas que vez por outra aparece em plena luz do dia e dá o ar da graça quando ela está com os olhos bem abertos), que é presença constante na história, tão real quanto os demais personagens, Gabito (nada mais nada menos do que o próprio escritor nobel de literatura de 1982!).
            É inevitável se fazer comparações entre os dois livros, principalmente quando o primeiro é tão marcante, e talvez algumas pessoas ao lerem o segundo livro de Azevedo o achem “abaixo da expectativa” simplesmente por ter ficado “diferente” do outro, mesmo tendo tanto em comum. O Doce Gabito é, em muitos aspectos, inclusive, uma obra mais madura que O Arroz de Palma. No deparamos, nele, com uma maior gana de personagens, complexos e bem desenvolvidos, que pulsam de vida em todos os capítulos, pelos quais torcemos, que nos deixam curiosos sobre como vai terminar a história, nos obrigando a virar página atrás de página para chegar logo ao final. A condução da história continua “não linear”, com a personagem-narradora nos conduzindo ao seu bel prazer numa viagem através do tempo, nos contando suas histórias, suas lembranças, nos levando pela mão.
            Gabriela tem um avô espetacular e cuidadoso, tanto que numa das primeiras cenas em que nos deparamos com os dois juntos, o encontramos reparando nas costas da neta, verificando se suas asas estão crescendo retas, corretas, nos seus devidos lugares. Quando ele termina o minucioso exame, que diz a ela que está tudo bem com suas asas, ela abre um imenso sorriso, satisfeita. Moram apenas os dois num simples casebre localizado no alto do morro Santa Marta. Se faltam maiores contato com “o mundo exterior”, se a menina não vai a escola, ficando a encargo do avô a sua instrução, não lhe faltam boas lembranças dessa fase de sua vida e pessoas marcante em sua vida. São os momentos que passa com o avô os mais ternos e repletos de fantasia (incentivados e cultivados por ele) de sua vida. Mas toda esta vida, fantasia, é ameaçada, e quando os dois estão prestes a fugir do alto do morro, acontece uma fatalidade, tendo a vida de Vovô Gregório ceifada tão bruscamente, e a de Gabriela não o foi graças a intervenção de um misterioso homem moreno de fartos bigodes, que a salva.
            A vida da menina muda bruscamente quando passa a viver no casarão da tia, com quem nenhum terno contato tivera até então. É Letícia uma mulher de personalidade forte, dominadora, a dona da última palavra, que administra um conceituado e respeitado prostíbulo na cidade. Gabriela sente falta do aconchego do abraço gostoso do avô e dos amigos que tinha no morro, local a qual é terminantemente proibida de voltar pela tia, mas encontra em Verônica, a amiga que é como uma válvula de escape naquele novo mundo em que se viu subitamente inserida. O único ponto de discórdia entre as duas se dá na “questão Gabito”, pois Verônica se nega terminantemente a acreditar nas palavras e amizade de Gabriela com tão singular homem, ao qual ela nunca, Verônica, nunca viu!
            A harmonia e rotina na vida de Gabriela é quebrada subitamente quando, prestes a completar 15 anos, sua tia lhe faz um pedido-cobrança: compensar-lhe todos os anos que cuidou dela, começando a trabalhar para ela. Chocante e difícil momento na vida, Gabriela reluta em vender a sua virgindade, a tornar-se puta de homem, mas acaba por aceitar sob determinadas condições, condições estas que vão colocar em choque e gerar desavença entre sobrinha e tia, mas que acaba sendo contornada.
            Gabriela encontra, nos braços de José Aureliano (sempre as coincidências nos nomes e orbitando em toda a história!), algo que não esperava de um alguém que lhe compra os prazeres do corpo, mas até mesmo as fantasias de uma paixão. Descobre e amadurece muito como pessoa, e quando chega a maioridade sua vida dá uma guinada, e ela se vê não mais como uma menina, mas como uma mulher, que, no entanto, nunca deixou para trás aquela fantasia e que tem, sempre em si, aquela preocupação de saber se suas asas estão crescendo retas, no lugar que deveriam.
            Livro de paixões, inocência e fantasia; de amizades, descobertas e decepções. Doce Gabito tem na célula-família um ponto central na história, mas na vida de Gabriela e na sua doce relação com seu homônimo o fio condutor que vai nos conduzindo naquela formidável teia de histórias, personagens e de coincidências entrelaçadas. Livro gostoso e aconchegante como um abraço em que real e imaginário se entrecruzam. Livro com que nos identificamos não só com as personagens, situações e histórias, mas com o doce sabor das lembranças e com a fantasia que ele desperta. Livro humano acima de tudo, principalmente quando ele nos leva a pensar e a refletir acerca de nossas asas, nos levando a perguntar se elas realmente estão crescendo no lugar certo...

domingo, 17 de novembro de 2013

Um pedido às estrelas



“Não se deve julgar um livro pela capa”. Falar isso já virou um ditado de sabedoria popular, sendo usado / adaptado para várias circunstâncias. Essas palavras são tão verdadeiras que nós vivemos “quebrando a cara” quando julgamos algo por sua aparência, quando, na verdade, sua beleza, sua essência, está escondida por trás daquela capa feia, daquela capa que não nos chama a atenção (é lógico, também, que há capas belíssimas, que nos chamam a atenção, mas cujo conteúdo é pífio). Mas mesmo sabendo disso, nós continuamos fazendo o nosso juízo de valor quando nos damos de cara com um livro cuja capa não nos agrada. Continuamos olhando a capa e dizendo “esse livro é uma droga” sem nem ao menos nos dar ao trabalho de abri-lo e ler as primeiras palavras do primeiro capítulo.
            Aconteceu recentemente isso comigo, de julgar um livro pela capa, e acabei, felizmente, quebrando a cara! Trata-se do livro Um Pedido às Estrelas. Quando o vi pela primeira vez, antes mesmo de olhar para capa, só pelo título, disse “cá comigo”: mais um querendo pegar carona com o Best-Seller do momento, A culpa é das estrelas! E o deixei onde estava, no meio de uma pilha de livros. Depois, à medida em que ia guardando os livros, ia me aproximando dele, ia chegando o momento em que teria que pegá-lo para guardar numa estante e expô-lo em alguma mesa na livraria. Quando chegou o momento, só então olhei com atenção para a capa do livro, e aí tive a “certeza” de que além do livro ser um “oportunista”, por estar querendo pegar uma carona nas vendas do Best-Seller do momento, “com certeza” se tratava de um livro péssimo, ridículo, pois “com uma capa daquelas, como um livro pode ser bom?”. E cada detalhe do livro, na sua aparência, me fazia ter mais e mais certeza disso: uma “cinta promocional” fazendo uma menção, com uma frase bem “nada a ver” a Nicholas Sparks; uma sinopse não de todo clara, nada convidativa, para mim, à leitura do livro; entre outros detalhes (motivos) que só fazia reforçar a minha preconceituosa convicção.
            Quis o Destino, irônico como só ele o é, que calhasse de eu, por motivos diversos, entre eles o profissional, tivesse que ler o dito cujo livro do título, capa, cinta e sinopse nada convidativa à leitura (para mim). Trouxe-o para casa meio que aborrecido, confesso. Ao chegar a casa, retirei-o da mochila e como estava chateado, pois “iria perder meu tempo” lendo-o, deixei-o sobre uns livros de minha estante, para só “começar a minha sessão de tortura” no dia seguinte. Dormi naquela noite já pensando no que me aguardava na manhã seguinte. Acordei, no dia seguinte, e fiz todas as minhas atividades rotineiras (eu sou tão metódico que faço tudo cronometrado, em seus devidos horários), até que vi o livro me esperando. Respirei fundo duas ou três vezes, tomando fôlego, e o peguei; deitei-me no sofá (meu sofá é meu local favorito para leitura!), respirei novamente fundo e abri o livro.
            Ao ler aquelas primeiras palavras, ao ver os personagens entrando em cena e se apresentando um a um para o seu leitor-plateia (eu), ao ver o início da história sendo costurado, percebi o quão errado e preconceituoso tinha sido o meu julgamento sobre aquele livro. O Um Pedido às Estrelas é um livro fantabuloso em todos os aspectos, com medida certa em tudo (tensão, descrição, dilemas éticos e morais, romance, etc.), e com uma pitadinha acentuada de um bom drama, que nos mantém presos, vidrados, torcendo, seja para um lado ou seja para outro naquela complexa e nada fácil situação em que se encontram os personagens.
            A história versa sobre o romance de Matt e Elle, um casal que se conhece desde a infância. Foram vizinhos na infância e adolescência, foram amigos, foram confidentes um do outro, e o que parecia natural acabou acontecendo: casaram. Formam um casal feliz, mas um fato, apenas, não deixa que aquela felicidade seja completa: eles não conseguem ter um filho. Após tantas e tão frustradas tentativas de gravidez (inclusive uma não planejada na adolescência), resolvem desistir do “projeto filho”. Matt é um neurocirurgião competente, com uma promissora carreira pela frente, e Elle é uma prodígio, astrofísica respeitada, foi astronauta, nada mais natural vindo de uma pessoa tão apaixonada por estrelas como ela o é, e é professora numa universidade local. Tudo muda drasticamente na vida de Matt e Elle quando ela sofre um grave acidente e é levada para o hospital onde ele trabalha. Ele, ao ver os exames, ao analisar os resultados/ chamas de Raio X e ultrassonografias que foram feitas, como neurocirurgião, percebe a gravidade das lesões sofridas por ela, que é levada para fazer cirurgias de emergência numa tentativa de salvá-la. Matt sabe, antes dela entrar na sala de cirurgia, que será difícil salvá-la.
            Elle sofre danos cerebrais irreversíveis e tem a morte cerebral confirmada. Tendo sofrido, na infância e adolescência, com a morte lenta e dolorosa de sua mãe, sempre deixou expressa a sua vontade de, caso fosse para viver vegetativamente ou viver-em-vida, os aparelhos que a mantém viva fossem desligados. A família já sabendo disso, se preparam para a despedida. Cabe a mãe de Matt, que quer a Elle como a uma filha, a difícil tarefa de levar a cabo aquele último desejo dela. Mas algo inesperado os aguarda, quando os aparelhos estão prestes a ser desligados: Elle está grávida! Os resultados e confirmações pegam a todos de surpresa, principalmente a Matt, que após a perda ocorrida na última gravidez dela, julgava que as tentativas tinham se encerrado e que tomavam todas as atitudes no sentido de evitar uma nova gravidez. O que fazer agora? Elle está morta, sua vontade de ter os aparelhos que a mantém viva artificialmente precisam ser desligados e ela está grávida! Tem-se início, então, uma longa, difícil, tensa e desgastante disputa judicial, que mantém de lados opostos familiares e amigos, pelo que é correto fazer: se desligar os aparelhos, e deixar que Elle morra, ou mantê-la viva artificialmente, como um invólucro para o desenvolvimento do filho, numa gravidez de risco, que tende a não chegar ao fim devido ao longo histórico de gravidez malsucedidas dela.
            Paralela a essa história, temos muitas outras, de outros tantos personagens envolvidos, que se veem perdidos, sem saber o que fazer, sem saber de que lado ficar, sem saber como agir e que opinião “correta” ter naquela difícil situação, naquela verdadeira “guerra” que ameaça quebrar a paz reinante num ceio familiar.
            Livro tenso, intenso e envolvente, Um Pedido às Estrelas não é só um romance entre um homem e uma mulher, não é só um livro que põe em lados opostos parentes e amigos, não é só uma história sobre uma complexa questão judicial, mas sim, uma história, acima de tudo, sobre amor, vida e chances.
            Um Pedido às Estrelas me fez “quebrar a cara”, me fez ver (mais uma vez) o quão errado é se julgar um livro pela capa. Não foi essa a primeira vez, e felizmente não será a última, que isso acontece. Adoro quebrar a cara, julgar um livro como péssimo antes mesmo de iniciar sua leitura, e ser surpreendido enormemente por ele. Que venham, então, outros tantos livros para que eu possa, preconceituosamente, julgá-los pela capa (ou pelo título, pela sinopse ou pela “cinta promocional”) e ver que fui, mais uma vez, precipitado em meu julgamento.

sábado, 2 de novembro de 2013

Arroz de Palma



Cada livro que lemos deixa um nós uma marca, mexe conosco de uma forma diferente. Há aqueles que nos decepcionam, sim, há aqueles dos quais esperávamos “algo mais”, aqueles que não concordamos com o final; mas há aqueles que deixam marcas nas nossas almas de leitores, aqueles livros com os quais nos identificamos profundamente, da primeira palavra ao último ponto, que vemos espelhados nesse ou naquele personagem traços de nossa personalidade, os que temos a impressão de que retrataram tal como aconteceu um fato que aconteceu em nossas vidas. Há livros intensos, que nos prendem desde a primeira páginas, aqueles que impede que peguemos no sono enquanto não terminarmos “só mais esse capítulo”, e que acabamos passando noites em claro lendo-os. Há livros complexos, que só conseguimos ler e entender se o fizermos bem aos poucos, poucas páginas e palavras por vezes. Há livros que lemos correndo, cujos capítulos se sucedem de tal maneira que não conseguimos parar sequer para tomar fôlego. Há livros escritos em linguagem complexa e rebuscada, que tem em sua alma um “ar intelectual e rebuscado”. Mas há livros que nos marcam, com os quais nos identificamos, justamente por não serem complexos, por não terem uma linguagem rebuscada, que não precisamos correr, e sim por que são simples, por serem escritos de maneira simples, clara e delicada, e que não queremos correr em sua leitura, mas sim beber palavra por palavra. Arroz de Palma, de Francisco Azevedo, é um destes livros.
            Arroz de Palma é um livro para todos os amantes da boa literatura, para todos os que têm família, para todos que sabem saborear as palavras de um grande romance e que começam a salivar antes mesmo de ter o prato servido, antes mesmo de abri-lo na primeira página. Narrado com uma maestria ímpar, com uma delicadeza impressionante, é um livro que ao lermos somos fisgados pelas melífluas palavras do autor, de que somos hipnotizados e remexidos naquela panela de palavras e convidados a apreciar e acompanhar o preparo daquele formidável prato literário que será servido para nós, leitores, numa esplendorosa ceia, que iremos apreciar, que irá saciar a nossa fome literária por dias a fio.
            Contada de uma forma suave e delicada, como numa simples conversa, como que entre o preparo de um prato e outro para um jantar de reunião familiar, a história de Arroz de Palma é uma viagem no tempo, é um convite, tal como acontece numa reunião familiar, a uma das tão tocantes e gostosas histórias de família com a qual todos que a ouvem (leem) se identificam.
            A história começa como o preparo de um bom prato: um ingrediente sendo cuidadosamente colocado por vezes. Somos gentilmente convidados pelo narrador-personagem à cena do casamento de seus pais, quando estes são encharcados pela chuva de arroz jogada pelos convidados, desejando fertilidade e felicidade eterna aos recém-chegado. Tia Palma, pessoa-personagem sábia e anticonvencional que é, vê naquele arroz algo divino (plantado na terra, caído do céu e colhido na pedra). Recolhe grão a grão e o dá de presente a seu irmão, que o rejeita prontamente, pois não considera digno aquele presente, ao contrário de sua esposa, que compreende todo o simbolismo contido naquele gesto. O arroz, de simples grão jogado sobre os noivos, passa a personagem que irá estar presente ao longo de todo o livro. Símbolo de fertilidade e um dos protagonistas da história, torna-se uma valiosa herança e fica sob a guarda justamente do narrador-personagem, aquele filho do casal que sabe, como nenhum de seus irmãos, o significado real de cada um daqueles diminutos grãos.
            Arroz de Palma versa não sobre grãos de arroz, mas sobre vida, sobre família, sobre valores. Conduzida de forma delicada e sutil, a história nos convida a uma viagem através do tempo, acompanhando a história de uma família e seus personagens, a uma história de inúmeros “causos” com os quais, nós, leitores-humanos impreterivelmente nos identificamos, nos vemos espelhados em palavras, gestos, circunstâncias e sentimentos mil que permeiam toda essa fantástica saga familiar.

terça-feira, 11 de junho de 2013

O silêncio das montanhas


Desde o lançamento do livro Cidade do Sol, ocorrido em 2007 (no Brasil), temos nos sentido meio órfãos de Khaled Hosseini. Apenas dois anos antes, tínhamos sido arrebatados pelo primeiro livro do autor, O Caçador de Pipas, e nesse segundo livro, nossa ansiedade era tamanha, que não tivemos a oportunidade de saboreá-lo, acabando, pois, por devorá-lo. Foram esses, dois livros muito intensos, com carga emocional muito forte, com personagens muito bem construídos, com dramas muito reais. Depois desse segundo livro, ficamos a viver num estado letárgico, numa expectativa, numa ansiedade-comedida-silenciosa, até que ouvimos rumores (a princípio, eram apenas informações passadas de boca a boca, em que ninguém tinha nada de mais concreto para nos transmitir) sobre o lançamento de novo livro do autor. Nós, leitores órfãos, começamos, então, a deixar transparecer a nossa ansiedade. A cada nova notícia oficial que era vinculada, nossas expectativas aumentavam cada vez mais. Divulgaram o título, e ficamos imaginando qual seria o enredo; divulgaram uma primeira sinopse, ficamos ainda mais ansiosos. Passamos, então, a contar os dias para o lançamento do livro (torcendo para que não acontecesse nenhum atraso de um diazinho que seja!), até que finalmente os livros estavam ali, ao alcance de nossas mãos, nas mesas e prateleiras de todas as livrarias.
            Os órfãos correram às livrarias para serem os primeiros a adquirirem seus exemplares e serem os primeiros a ler e a opinar sobre o livro. Eu, por mais ansioso e expectante que estivesse, preferi esperar uns dias, para ouvir as primeiras opiniões e também para terminar de ler o livro que estava lendo. Fiquei feliz com algumas opiniões, mas também triste, pois vi no semblante de algumas pessoas, leitores desde sempre de Hosseini, certo “desapontamento” com esse novo livro. Alguns destes falaram que “o livro era bom, mas nem tanto”, que ele “tinha se perdido”, que ele “não era o mesmo autor que escreveu O caçador de pipas e Cidade do sol”, que ele “não era o mesmo Hosseini de outros tempos”, e coisas do tipo. Eu fiquei “com o ouvido em pé” ante tais críticas, e mais curioso ainda para ler tal livro. Mas seguirei um pouco minha ansiedade, esperando que a “poeira baixasse um pouco”, para ouvir, só então, as opiniões melhor formada de algumas pessoas/ leitores.
            Chegou, finalmente, a hora. Peguei o livro, mas para não incorrer no risco de ser injusto num julgamento sobre a obra, preferi deixá-lo “apurando” na minha estante, enquanto terminava a leitura de um outro livro. Quando senti que chegava o momento para lê-lo, que me sentei (deitei) em meu sofá, respirei fundo duas ou três vezes, e mergulhei de cabeça nas páginas e palavras mágicas de Hosseini.
            O Silêncio das Montanhas é, realmente, um livro muito diferente dos anteriores, e concordo em parte com a opinião de alguns que dizem que “nem parece Hosseini...”, no entanto, mesmo não sendo o mesmo, o autor, esse tão nosso (des)conhecido consegue nos surpreender enormemente. Nesse livro, Hosseini nos apresenta uma face sua que talvez tenha passado despercebida nos seus outros livros. Em O Silêncio das Montanhas transborda um lado mais lírico e suave do autor. Continuamos, é bem verdade, a nos deparar com o cenário tão nosso conhecido, com o lado imensamente belo do Afeganistão, dos valores sagrados da terra, do belo orgulho do seu povo, de seus apegos e suas belezas, mas também nos deparamos com histórias tristes, solitárias, com grandes e mais complexos dramas, o que nos faz viajar no tempo e voltar alguns anos (e livros) atrás e nos faz reviver o prazer da leitura de O Caçador de Pipas e A Cidade do Sol.
            À medida que mergulhava e permanecia submerso nas inúmeras histórias de O Silêncio das Montanhas, fui percebendo o fundamento das críticas de alguns leitores e entendendo parte de suas decepções. Esse novo livro do Hosseini, é como uma teia de fatos que se relacionam, uma teia de personagens, mundos e histórias que parecem soltas, diferente dos livros anteriores, em que há uma história e um foco mais centrado na vida de determinado personagem, em dramas específicos. Nesse, a história é conduzida mais solta, sem um foco específico dentro da história. Sim, há um fato em comum que liga a vida de todos aqueles personagens, há um drama em comum que mudou a vida de todos eles em determinado momento de suas vidas, e isso, essas ligações, faz com que reconheçamos o nosso tão familiar Khaled Hosseini.
            O Silêncio das Montanhas é um livro lírico, bem diferente dos outros livro do autor, é bem verdade, mas que possui a marca tão familiar, tão nossa conhecida de Khaled Hosseini. É uma obra que possui o tradicional pendor para o poético das imagens, uma saudável nostalgia da antiga Cabul que as palavras do autor exalam e um lado humano, que chora, que sente dor, mas que ri e que ama intensamente a vida.
            O Silêncio das Montanhas é um livro que guarda muito do “antigo Hosseini”, mas que tem acrescido muito de um novo autor que surge, que cativa, que envolve e que nos mantém mergulhados da primeira à última página do livro, que nos mantém presos da primeira à última história.