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quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

O Livro do Rei dos Gatos

A pequena Karolinne andava segurando firmemente na mão protetora de sua mãe. Tinha medo de se perder no meio daquela multidão, com pessoas andando apressadas de um lado para o outro. Sua mãe caminhava apressada, pois ainda tinha muito até o final daquele dia, e vez por outra, quando a pequena menina diminuía o passo para observar algo que lhe chamava a atenção, a mulher a puxava bruscamente.
            Era meio dia, horário em que as pessoas estão mais apressadas, seja para correrem para casa a fim de fazerem uma breve refeição e retomarem em seguida para a segunda parte de sua jornada de trabalho, seja para fugirem do sol inclemente, buscando desesperadamente por uma sombra. O barulho das ruas era ensurdecedor, com carros buzinando, com o barulho dos motores, com as lojas anunciando as ofertas em alto-falantes, com as pessoas falando alto para poderem se fazer ouvir, e a menina, cansada, era quase arrastada por sua mãe, que queria fugir o quanto antes daquele caos urbano de centro de cidade. Karolinne estava com calor e ao ver um carrinho de sorvete, pediu para sua mãe comprar um. A mulher, a princípio relutante, pois não queria se atrasar, negou o pedido da filha, mas não conseguiu resistir aqueles lindos e brilhantes olhos suplicantes.
            - ‘Tá bom, Karol! Vou comprar seu sorvete, mas fique exatamente aqui – falou a mulher, deixando a filha sentada num banco enquanto ia comprar o que a filha pedira.
            A menina, comportada, ficou exatamente como e onde a mãe mandara, sentada e protegida sob sombra de uma frondosa árvore, vendo a mulher se fundir à multidão. Ficou balançando suas perninhas curtas, olhando as pessoas caminhando apressadas, indo de um lugar para o outro. Olhava, vez por outra, para o céu, que estava de um azul claro, belo, naquele horário, sem nenhuma nuvem. As folhas da árvore não se moviam um centímetro sequer e a menina sentia o suor deixando grudados fios de cabelo no alto da cabeça. Fechou os olhos e sentiu uma suave e fria brisa lhe envolver. Quando abriu os olhos, viu, parado, a poucos metros de onde estava, um gato cinza lhe olhando nos olhos. A menina achou estranho um gato ali, despercebido entre tantas pessoas. Sorriu para ele e o chamou com sua mãozinha, mas o gato não deu um único passo em sua direção, mas balançou o rabo e se virou. Com um andar suave, começou a passar por entre as pernas das pessoas, que sequer o notavam. A menina, curiosa, olhou para o lado, para onde sua mãe tinha ido, e a viu ainda na fila para comprar o sorvete, e olhou para onde o gato sumira, e viu apenas a ponta de sua cauda. Não pensou duas vezes e saltou no chão e correu em direção ao gato, chamando-o. Passou esbarrando nas pessoas, que desviavam dela e gritavam às suas costas “cuidado por onde anda, menina!”. Perdeu de vista duas ou três vezes o gato, mas logo encontrava seu rastro, a ponta de seu rabo dobrando uma esquina ou outra. Corria o máximo que lhe permitiam suas pernas curtas. Passou por becos estreitos por onde só andavam umas poucas pessoas, atravessou ruas antigas pelas quais ela não lembrava de ter passado, até que se viu sozinha num beco aparentemente sem saída. Com a certeza de que tinha se perdido, sentiu as lágrimas lhe vindo aos olhos e a garganta ficar apertada com um soluço, quando viu, pouco a sua frente, o gato, que estava como que lhe esperando. Ele miou e se virou, atravessando as grades de uma enorme casa. A menina correu até onde estava, implorando para que o bichano a esperasse, mas ele não lhe deu ouvidos.
            Karolinne parou em frente a um casarão abandonado, com erva daninha cobrindo toda a entrada e com as grades enferrujadas. Sentiu certo medo, pois casarões daquele tipo lhe lembravam os fantasmas e bruxas que habitavam casas daquele tipo nas histórias que li e nos filmes que assistia, mas ao ver o gato entrando por aquela porta, seu medo se dissipou e ela empurrou o portão enferrujado, que abriu facilmente, dando-lhe passagem. Ela correu até a porta, que estava parcialmente aberta, e a empurrou para poder entrar, e tal não foi a surpresa ao ver, ao invés de um interior deteriorado, de uma casa velha como sua fachada deduzia, uma imensidão de estantes e livros, tudo organizado, bonito, convidativo a um passeio nas páginas e melífluas palavras de um autor.
            Andou pelos corredores atulhados de livros, com estantes do chão ao teto dos mais variados títulos e se perdeu e se achou um sem número de vezes, deixando-se guiar apenas pelo instinto. Passava a mão nas lombadas dos livros e vez por outra tirava um ou outro para folhear. Um livro lhe chamou a atenção, e ela sentiu uma força irresistível vindo dele, como se ele estivesse clamando para ser lido. Karolinne o retirou da estante. Era um livro comum entre tantos outros livros iguais na sua aparência, tinha uma capa dura e não era tão volumoso, era repleto de belas ilustrações e a história era a de um Rei Gato. Só então, ao ver o título do livro, foi que ela se lembrou que tinha esquecido completamente do gato que seguira, que a conduzira até ali. Fechou o livro de supetão e levantou a cabeça e se espantou a ver não só um gato, mas vários ao seu redor, e entre eles, aquele gato cinza que a trouxera até ali. Sentiu o coração acelerar ao se ver cercada por tantos gatos, mas aquele que havia seguido deu um passo á frente dos demais, abriu a boca, mas ao invés de soltar um miado, falou suavemente.
            - Não tenha medo, Linda Menina. Nós não lhe faremos nenhum mal. Eu só lhe trouxe até aqui para que você encontrasse entre esses tantos livros que aqui estão, aquele que nos é o mais precioso, o que tem a mais bela história, e queria que você o lesse para nós.
            A menina ficou estática, pois nunca tinha visto um gato falando. Olhou para os outros e os viu sentando-se e assentindo, esperando para que ela abrisse novamente o livro e iniciasse a leitura. Eram tantos gatos, de todos os tamanhos, cores e idades, todos expectantes, observando-a detidamente. Um a um, os gatos começaram a abrir a boca e falar, pedir, suplicar para que ela lesse aquele precioso livro para eles, e ela sorriu ao ver tantos gatos falando.
            - Tudo bem. Eu irei ler pra vocês! – disse ela.
            Os gatos soltaram gritos e miados entusiasmados ao ouvirem aquilo. Ela então se sentou e abriu o livro no colo, e os gatos logo a cercaram. Alguns se empoleiravam em seus ombros para melhor verem as letras graúdas e as imagens, uns esticavam os pescoços para melhor verem e seguirem a história, enquanto outros simplesmente ficavam perto, deitando-se e fechando os olhos para melhor imaginarem e viverem aquela fantástica história.
            Karolinne ficou longas horas lendo a história do lendário Rei dos Gatos, que havia sumido há séculos, mas que deixara um importante legado e uma infinidade de súditos que deveriam aguardar pelo seu retorno, que aconteceria quando aquele livro fosse lido por mil e uma meninas especiais, que acreditassem naquelas palavras e lessem aquele livro para mil e um gatos nos dias seguintes à descoberta do livro, na janela de sua casa, e espalhassem aquela história para todos os gatos do mundo, e quando isso acontecesse, que todos os gatos soubessem da história do Rei dos Gatos, ele retornaria e seu reino seria restabelecido, e todas as pessoas do mundo não mais ouviriam os miados dos gatos, mas sim suas verdadeiras vozes.
            A menina terminou a história e respirou fundo duas ou três vezes e ficou completamente em silêncio antes de se dar conta de que estava novamente sozinha entre aquelas estantes. Dos gatos, todos que antes estavam ali, somente um, aquele que a trouxera, permanecia. Ela então se deu conta de que um longo tempo já tinha se passado, de que sua mãe devia estar preocupada com seu sumiço, e saiu correndo daquela casa, levando consigo o livro debaixo do braço.
            Seu instinto a guiou pelas mesmas ruas e becos que tinha percorrido antes, até encontrar o mesmo banco sob a mesma árvore. Correu até lá e ao se sentar, viu sua mãe vindo em sua direção com um sorvete.
            - Trouxe de baunilha, seu sabor favorito – disse a mulher, entregando para a filha o sorvete.
            Karolinne olhou para a mãe, e só então se deu conta de que o tempo não tinha passado. Se perguntou se aquela aventura, aquela perseguição ao gato, a leitura, a história e o livro tinham realmente acontecido.
            - O que é isso? Onde você achou esse livro? – perguntou sua mãe, apontando para o livro que estava embaixo do braço da menina.
            - Esse livro? Ah, eu achei! – falou ela, dando a resposta mais óbvia que toda criança daria numa situação daquelas. A mulher apenas sorriu, passou a mão na cabeça da filha e esperou que ela terminasse de tomar seu sorvete.
            Foram para casa, mas sem pressa de chegar, com Karolinne protegendo seu precioso tesouro.

Naquela noite e nas noites seguintes, assim que todos iam dormir, ela abria a janela de seu quarto e no silêncio da noite, esperava que um gato qualquer passasse por ali, e quando isso acontecia, ela abria o livro e lia a história do Rei dos Gatos. Quando terminava, o gato soltava um miado de aprovação, pulava o muro e ia embora, e ela fechava o livro e ia dormir. Fez isso por muito tempo, por exatas mil e umas noites seguidas, lendo a história e difundindo-a para mil e um gatos. Quando terminou a milésima primeira leitura, fechou o livro e o guardou na sua prateleira de livros.
            O tempo passou, e Karolinne já não era mais uma pequena menina como outrora, e muitas coisas que vivera na infância já eram apenas, agora, vagas lembranças. Havia se tornado uma bela mulher e tinha uma linda filha. Karolinne estava apressada, como sempre andava nos últimos tempos, e caminhava esbarrando nas pessoas pelo centro da cidade, carregando pela mão a filha, que reclamava do calor e do cansaço.
            - Mãe, eu quero um sorvete – pediu a menina.
Karolinne, contrariada, queria ir para casa, onde tinha muita coisa a fazer, mas a filha realmente estava cansada e adorava sorvete. Levou-a até um banco de praça e pediu para que ela ali ficasse, e foi comprar o sorvete da filha.

Enquanto estava na fila para comprar o sorvete, viu a menina se levantar e sair correndo. Pensou, por um instante, em gritar, chamando-a, pois ela poderia se perder, quando viu o que havia chamado a atenção da menina: um gato, o mesmo gato que ela seguira outrora. Ela sorriu por dentro, tomada um turbilhão de lembranças. Comprou um sorvete para si mesma e ficou esperando que filha retornasse, para só então comprar o dela e ver, reconhecer, o livro que ela traria para casa e leria para os gatos, através da janela aberta, pelas mil e uma noites seguintes.

domingo, 30 de março de 2014

Doce gabito

Fala-se que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Há os que dizem que um escritor contemporâneo não “acerta a mão duas vezes seguidas ao escrever romances”! pois eis que raios caíram duas vezes no mesmo lugar e um escritor brasileiro escreveu não só dois bons livros, mas dois livros magníficos, marcantes, poéticos e de delicadezas impressionantes, capazes de envolver o leitor, embalando-o e fazendo com que ele se envolva com a história e se identifique prontamente com os personagem. Que autor é esse? Francisco Azevedo! E que livros são esses? O Arroz de Palma, o primeiro, e Doce Gabito o segundo
            Fico me lamentando e comento com todas as pessoas com quem converso, que demorei muito a descobrir Francisco Azevedo e seu estupendo Arroz de Palma. Um livro lançado em 2009, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e que só recentemente, no ano passado, foi que eu tive o imenso prazer de lê-lo. Por que demorei tanto a lê-lo? Nem eu mesmo sei. São tantos os livros a ler, tantos autores para conhecer, que, confesso nunca ter prestado tanta atenção aquele livro de capa tão delicada e singela e que nunca chegava em grande quantidade à livraria em que trabalho, mas que, mesmo assim, mesmo sem tanta divulgação, mesmo sem fazer barulho, era sempre bem vendido e que recebia elogios “rasgados” daqueles que o saborearam. Aconteceu que, na metade de 2013, aquele livro se jogou em meus braços e segurando meu rosto, gritou: “leia-me agora ou arrependa-se para sempre!”. Eu, diante de tais argumentos, nada pude fazer além de leva-lo para casa e iniciar, naquela mesma noite, sua leitura. E que livro! A cada parágrafo, uma poesia. Eu ficava entre querer devorá-lo em uma única noite ou prolongar o imenso prazer de sua leitura por dias a fio, saboreando, grão a grão de suas palavras.
            Ao fechar o livro, tendo lido o último ponto de O Arroz de Palma, continuei por longos dias com aquela história ecoando em minha cabeça, tendo por companhia aqueles tão cativantes personagens com os quais tanto me identifiquei. Com o passar dos dias, comecei a me sentir órfão, pois nada do que lia encontrava aquela poeticidade, aquela delicadeza das palavras de Francisco Azevedo. Encontrei, sim, muito bons livros, que marcaram o meu ano de leitura, mas nenhum tanto quanto aquele Arroz...
            “Livro vai, livro vem...” e acontece de eu, por acaso, resolver fuçar na internet (no facebook, para ser mais exato) e encontrar, entre milhões Franciscos e entre tantos Azevedos, o Francisco Azevedo que, com seu livro, fez eu me sentir órfão por meses após a leitura do incomparável O Arroz de Palma. Conversa vai, conversa vem, apresentações feitas, elogios também, acabo descobrindo que ele lançou outro livro de peculiar título, Doce Gabito. Como assim?! Ele tem um segundo livro e eu não sabia! Mas o livro, infelizmente, não tinha unzinho exemplar sequer na livraria em que trabalho. Relatei isso ao autor, comentei de meu “desespero” (dramático eu? Imagina!), e ele, se compadecendo de minha situação, mandou-me um exemplar do livro. Eu aceitei, óbvio, o presente, mas com uma condição: que o livro viesse autografado. Ele não titubeou, e mandou-me o exemplar do raro livro.
            Iniciei a leitura de Doce Gabito e senti, de cara, o mesmo impacto da leitura do livro anterior do autor. A mesma poeticidade, a mesma linguagem plástica, a mesma forma inigualável e até o mesmo eixo temático, família. Isso tudo sem contar as referências literárias e as “coincidências” na história da protagonista/ narradora, Gabriela Garcia Marques (isso mesmo! é este o nome dela), com a de seu homônimo, o famoso e laureado escritor colombiano, sem contar a presença constante de seu amigo, que sempre vem lhe visitar em sonhos (normalmente, mas que vez por outra aparece em plena luz do dia e dá o ar da graça quando ela está com os olhos bem abertos), que é presença constante na história, tão real quanto os demais personagens, Gabito (nada mais nada menos do que o próprio escritor nobel de literatura de 1982!).
            É inevitável se fazer comparações entre os dois livros, principalmente quando o primeiro é tão marcante, e talvez algumas pessoas ao lerem o segundo livro de Azevedo o achem “abaixo da expectativa” simplesmente por ter ficado “diferente” do outro, mesmo tendo tanto em comum. O Doce Gabito é, em muitos aspectos, inclusive, uma obra mais madura que O Arroz de Palma. No deparamos, nele, com uma maior gana de personagens, complexos e bem desenvolvidos, que pulsam de vida em todos os capítulos, pelos quais torcemos, que nos deixam curiosos sobre como vai terminar a história, nos obrigando a virar página atrás de página para chegar logo ao final. A condução da história continua “não linear”, com a personagem-narradora nos conduzindo ao seu bel prazer numa viagem através do tempo, nos contando suas histórias, suas lembranças, nos levando pela mão.
            Gabriela tem um avô espetacular e cuidadoso, tanto que numa das primeiras cenas em que nos deparamos com os dois juntos, o encontramos reparando nas costas da neta, verificando se suas asas estão crescendo retas, corretas, nos seus devidos lugares. Quando ele termina o minucioso exame, que diz a ela que está tudo bem com suas asas, ela abre um imenso sorriso, satisfeita. Moram apenas os dois num simples casebre localizado no alto do morro Santa Marta. Se faltam maiores contato com “o mundo exterior”, se a menina não vai a escola, ficando a encargo do avô a sua instrução, não lhe faltam boas lembranças dessa fase de sua vida e pessoas marcante em sua vida. São os momentos que passa com o avô os mais ternos e repletos de fantasia (incentivados e cultivados por ele) de sua vida. Mas toda esta vida, fantasia, é ameaçada, e quando os dois estão prestes a fugir do alto do morro, acontece uma fatalidade, tendo a vida de Vovô Gregório ceifada tão bruscamente, e a de Gabriela não o foi graças a intervenção de um misterioso homem moreno de fartos bigodes, que a salva.
            A vida da menina muda bruscamente quando passa a viver no casarão da tia, com quem nenhum terno contato tivera até então. É Letícia uma mulher de personalidade forte, dominadora, a dona da última palavra, que administra um conceituado e respeitado prostíbulo na cidade. Gabriela sente falta do aconchego do abraço gostoso do avô e dos amigos que tinha no morro, local a qual é terminantemente proibida de voltar pela tia, mas encontra em Verônica, a amiga que é como uma válvula de escape naquele novo mundo em que se viu subitamente inserida. O único ponto de discórdia entre as duas se dá na “questão Gabito”, pois Verônica se nega terminantemente a acreditar nas palavras e amizade de Gabriela com tão singular homem, ao qual ela nunca, Verônica, nunca viu!
            A harmonia e rotina na vida de Gabriela é quebrada subitamente quando, prestes a completar 15 anos, sua tia lhe faz um pedido-cobrança: compensar-lhe todos os anos que cuidou dela, começando a trabalhar para ela. Chocante e difícil momento na vida, Gabriela reluta em vender a sua virgindade, a tornar-se puta de homem, mas acaba por aceitar sob determinadas condições, condições estas que vão colocar em choque e gerar desavença entre sobrinha e tia, mas que acaba sendo contornada.
            Gabriela encontra, nos braços de José Aureliano (sempre as coincidências nos nomes e orbitando em toda a história!), algo que não esperava de um alguém que lhe compra os prazeres do corpo, mas até mesmo as fantasias de uma paixão. Descobre e amadurece muito como pessoa, e quando chega a maioridade sua vida dá uma guinada, e ela se vê não mais como uma menina, mas como uma mulher, que, no entanto, nunca deixou para trás aquela fantasia e que tem, sempre em si, aquela preocupação de saber se suas asas estão crescendo retas, no lugar que deveriam.
            Livro de paixões, inocência e fantasia; de amizades, descobertas e decepções. Doce Gabito tem na célula-família um ponto central na história, mas na vida de Gabriela e na sua doce relação com seu homônimo o fio condutor que vai nos conduzindo naquela formidável teia de histórias, personagens e de coincidências entrelaçadas. Livro gostoso e aconchegante como um abraço em que real e imaginário se entrecruzam. Livro com que nos identificamos não só com as personagens, situações e histórias, mas com o doce sabor das lembranças e com a fantasia que ele desperta. Livro humano acima de tudo, principalmente quando ele nos leva a pensar e a refletir acerca de nossas asas, nos levando a perguntar se elas realmente estão crescendo no lugar certo...

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O livro do Rei dos Gatos



A pequena Karolinne andava segurando firmemente na mão protetora de sua mãe. Tinha medo de se perder no meio daquela multidão, com pessoas andando apressadas de um lado para o outro. Sua mãe caminhava apressada, pois ainda tinha muito até o final daquele dia, e vez por outra, quando a pequena menina diminuía o passo para observar algo que lhe chamava a atenção, a mulher a puxava bruscamente.
            Era meio dia, horário em que as pessoas estão mais apressadas, seja para correrem para casa a fim de fazerem uma breve refeição e retomarem em seguida para a segunda parte de sua jornada de trabalho, seja para fugirem do sol inclemente, buscando desesperadamente por uma sombra. O barulho das ruas era ensurdecedor, com carros buzinando, com o barulho dos motores, com as lojas anunciando as ofertas em alto-falantes, com as pessoas falando alto para poderem se fazer ouvir, e a menina, cansada, era quase arrastada por sua mãe, que queria fugir o quanto antes daquele caos urbano de centro de cidade. Karolinne estava com calor e ao ver um carrinho de sorvete, pediu para sua mãe comprar um. A mulher, a princípio relutante, pois não queria se atrasar, negou o pedido da filha, mas não conseguiu resistir aqueles lindos e brilhantes olhos suplicantes.
            - ‘Tá bom, Karol! Vou comprar seu sorvete, mas fique exatamente aqui – falou a mulher, deixando a filha sentada num banco enquanto ia comprar o que a filha pedira.
            A menina, comportada, ficou exatamente como e onde a mãe mandara, sentada e protegida sob sombra de uma frondosa árvore, vendo a mulher se fundir à multidão. Ficou balançando suas perninhas curtas, olhando as pessoas caminhando apressadas, indo de um lugar para o outro. Olhava, vez por outra, para o céu, que estava de um azul claro, belo, naquele horário, sem nenhuma nuvem. As folhas da árvore não se moviam um centímetro sequer e a menina sentia o suor deixando grudados fios de cabelo no alto da cabeça. Fechou os olhos e sentiu uma suave e fria brisa lhe envolver. Quando abriu os olhos, viu, parado, a poucos metros de onde estava, um gato cinza lhe olhando nos olhos. A menina achou estranho um gato ali, despercebido entre tantas pessoas. Sorriu para ele e o chamou com sua mãozinha, mas o gato não deu um único passo em sua direção, mas balançou o rabo e se virou. Com um andar suave, começou a passar por entre as pernas das pessoas, que sequer o notavam. A menina, curiosa, olhou para o lado, para onde sua mãe tinha ido, e a viu ainda na fila para comprar o sorvete, e olhou para onde o gato sumira, e viu apenas a ponta de sua cauda. Não pensou duas vezes e saltou no chão e correu em direção ao gato, chamando-o. Passou esbarrando nas pessoas, que desviavam dela e gritavam às suas costas “cuidado por onde anda, menina!”. Perdeu de vista duas ou três vezes o gato, mas logo encontrava seu rastro, a ponta de seu rabo dobrando uma esquina ou outra. Corria o máximo que lhe permitiam suas pernas curtas. Passou por becos estreitos por onde só andavam umas poucas pessoas, atravessou ruas antigas pelas quais ela não lembrava de ter passado, até que se viu sozinha num beco aparentemente sem saída. Com a certeza de que tinha se perdido, sentiu as lágrimas lhe vindo aos olhos e a garganta ficar apertada com um soluço, quando viu, pouco a sua frente, o gato, que estava como que lhe esperando. Ele miou e se virou, atravessando as grades de uma enorme casa. A menina correu até onde estava, implorando para que o bichano a esperasse, mas ele não lhe deu ouvidos.
            Karolinne parou em frente a um casarão abandonado, com erva daninha cobrindo toda a entrada e com as grades enferrujadas. Sentiu certo medo, pois casarões daquele tipo lhe lembravam os fantasmas e bruxas que habitavam casas daquele tipo nas histórias que li e nos filmes que assistia, mas ao ver o gato entrando por aquela porta, seu medo se dissipou e ela empurrou o portão enferrujado, que abriu facilmente, dando-lhe passagem. Ela correu até a porta, que estava parcialmente aberta, e a empurrou para poder entrar, e tal não foi a surpresa ao ver, ao invés de um interior deteriorado, de uma casa velha como sua fachada deduzia, uma imensidão de estantes e livros, tudo organizado, bonito, convidativo a um passeio nas páginas e melífluas palavras de um autor.
            Andou pelos corredores atulhados de livros, com estantes do chão ao teto dos mais variados títulos e se perdeu e se achou um sem número de vezes, deixando-se guiar apenas pelo instinto. Passava a mão nas lombadas dos livros e vez por outra tirava um ou outro para folhear. Um livro lhe chamou a atenção, e ela sentiu uma força irresistível vindo dele, como se ele estivesse clamando para ser lido. Karolinne o retirou da estante. Era um livro comum entre tantos outros livros iguais na sua aparência, tinha uma capa dura e não era tão volumoso, era repleto de belas ilustrações e a história era a de um Rei Gato. Só então, ao ver o título do livro, foi que ela se lembrou que tinha esquecido completamente do gato que seguira, que a conduzira até ali. Fechou o livro de supetão e levantou a cabeça e se espantou a ver não só um gato, mas vários ao seu redor, e entre eles, aquele gato cinza que a trouxera até ali. Sentiu o coração acelerar ao se ver cercada por tantos gatos, mas aquele que havia seguido deu um passo á frente dos demais, abriu a boca, mas ao invés de soltar um miado, falou suavemente.
            - Não tenha medo, Linda Menina. Nós não lhe faremos nenhum mal. Eu só lhe trouxe até aqui para que você encontrasse entre esses tantos livros que aqui estão, aquele que nos é o mais precioso, o que tem a mais bela história, e queria que você o lesse para nós.
            A menina ficou estática, pois nunca tinha visto um gato falando. Olhou para os outros e os viu sentando-se e assentindo, esperando para que ela abrisse novamente o livro e iniciasse a leitura. Eram tantos gatos, de todos os tamanhos, cores e idades, todos expectantes, observando-a detidamente. Um a um, os gatos começaram a abrir a boca e falar, pedir, suplicar para que ela lesse aquele precioso livro para eles, e ela sorriu ao ver tantos gatos falando.
            - Tudo bem. Eu irei ler pra vocês! – disse ela.
            Os gatos soltaram gritos e miados entusiasmados ao ouvirem aquilo. Ela então se sentou e abriu o livro no colo, e os gatos logo a cercaram. Alguns se empoleiravam em seus ombros para melhor verem as letras graúdas e as imagens, uns esticavam os pescoços para melhor verem e seguirem a história, enquanto outros simplesmente ficavam perto, deitando-se e fechando os olhos para melhor imaginarem e viverem aquela fantástica história.
            Karolinne ficou longas horas lendo a história do lendário Rei dos Gatos, que havia sumido há séculos, mas que deixara um importante legado e uma infinidade de súditos que deveriam aguardar pelo seu retorno, que aconteceria quando aquele livro fosse lido por mil e uma meninas especiais, que acreditassem naquelas palavras e lessem aquele livro para mil e um gatos nos dias seguintes à descoberta do livro, na janela de sua casa, e espalhassem aquela história para todos os gatos do mundo, e quando isso acontecesse, que todos os gatos soubessem da história do Rei dos Gatos, ele retornaria e seu reino seria restabelecido, e todas as pessoas do mundo não mais ouviriam os miados dos gatos, mas sim suas verdadeiras vozes.
            A menina terminou a história e respirou fundo duas ou três vezes e ficou completamente em silêncio antes de se dar conta de que estava novamente sozinha entre aquelas estantes. Dos gatos, todos que antes estavam ali, somente um, aquele que a trouxera, permanecia. Ela então se deu conta de que um longo tempo já tinha se passado, de que sua mãe devia estar preocupada com seu sumiço, e saiu correndo daquela casa, levando consigo o livro debaixo do braço.
            Seu instinto a guiou pelas mesmas ruas e becos que tinha percorrido antes, até encontrar o mesmo banco sob a mesma árvore. Correu até lá e ao se sentar, viu sua mãe vindo em sua direção com um sorvete.
            - Trouxe de baunilha, seu sabor favorito – disse a mulher, entregando para a filha o sorvete.
            Karolinne olhou para a mãe, e só então se deu conta de que o tempo não tinha passado. Se perguntou se aquela aventura, aquela perseguição ao gato, a leitura, a história e o livro tinham realmente acontecido.
            - O que é isso? Onde você achou esse livro? – perguntou sua mãe, apontando para o livro que estava embaixo do braço da menina.
            - Esse livro? Ah, eu achei! – falou ela, dando a resposta mais óbvia que toda criança daria numa situação daquelas. A mulher apenas sorriu, passou a mão na cabeça da filha e esperou que ela terminasse de tomar seu sorvete.
            Foram para casa, mas sem pressa de chegar, com Karolinne protegendo seu precioso tesouro.

Naquela noite e nas noites seguintes, assim que todos iam dormir, ela abria a janela de seu quarto e no silêncio da noite, esperava que um gato qualquer passasse por ali, e quando isso acontecia, ela abria o livro e lia a história do Rei dos Gatos. Quando terminava, o gato soltava um miado de aprovação, pulava o muro e ia embora, e ela fechava o livro e ia dormir. Fez isso por muito tempo, por exatas mil e umas noites seguidas, lendo a história e difundindo-a para mil e um gatos. Quando terminou a milésima primeira leitura, fechou o livro e o guardou na sua prateleira de livros.
            O tempo passou, e Karolinne já não era mais uma pequena menina como outrora, e muitas coisas que vivera na infância já eram apenas, agora, vagas lembranças. Havia se tornado uma bela mulher e tinha uma linda filha. Karolinne estava apressada, como sempre andava nos últimos tempos, e caminhava esbarrando nas pessoas pelo centro da cidade, carregando pela mão a filha, que reclamava do calor e do cansaço.
            - Mãe, eu quero um sorvete – pediu a menina.
Karolinne, contrariada, queria ir para casa, onde tinha muita coisa a fazer, mas a filha realmente estava cansada e adorava sorvete. Levou-a até um banco de praça e pediu para que ela ali ficasse, e foi comprar o sorvete da filha.
Enquanto estava na fila para comprar o sorvete, viu a menina se levantar e sair correndo. Pensou, por um instante, em gritar, chamando-a, pois ela poderia se perder, quando viu o que havia chamado a atenção da menina: um gato, o mesmo gato que ela seguira outrora. Ela sorriu por dentro, tomada um turbilhão de lembranças. Comprou um sorvete para si mesma e ficou esperando que filha retornasse, para só então comprar o dela e ver, reconhecer, o livro que ela traria para casa e leria para os gatos, através da janela aberta, pelas mil e uma noites seguintes.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Presságio



Leio Leonardo Barros desde o seu primeiro livro, O Amor de Yoni e tenho, desde então, acompanhado a sua carreira como escritor. O seu primeiro livro, com uma forte conotação erótica, me chamou a atenção não pelo erotismo em si, mas pela sua linguagem, pela sensualidade latente inerente a cada uma das personagens, mas também pelo seu humor. O seu livro seguinte, O Maníaco do Circo, eu tive a oportunidade/ privilégio de ler antes do lançamento oficial, que aconteceu na Bienal do livro do Rio de Janeiro de 2009. Neste livro, notei uma mudança drástica quanto a forma do escritor, quanto às historias que se desenrolavam nesse segundo romance. No segundo livro, Leonardo Barros apresentou uma face mais perversa, tendo uma forte carga psicológica permeando toda a história, sem deixar, nunca, de ser Leonardo Barros, com seu toque de sensualidade nas personagens, seu erotismo velado e, nesse livro em específico, um tom de um humor mais ácido, mais negro.
Livro após livro, Leonardo Barros não foi apenas se superando, mas sim evoluindo, tanto que quando ouvimos rumores sobre o lançamento de seu próximo livro, a primeira pergunta que fazemos é: “o que será que ele vai aprontar agora?”.
É sempre bom ler um livro, lançamento, de Leonardo Barros, e olhar para trás e rever, reviver todas as histórias já lidos dele, e ao ler Presságio me envolvi com a história, vi traços, sim, óbvio, do primeiro Leonardo Barros, no entanto acabei me surpreendendo ao ver um novo autor, mais maduro, mais conciso, mais direto, que sabe onde quer chegar, que sabe melhor conduzir a história, que sabe prender mais o leitor. Leonardo Barros tem várias faces, e em Presságio encontramos todas essas expostas na medida certa. Um toque de mistério/ suspense, pitadas de um característico humor (provocado pela inusitada situação em que personagens se metem), uma sensualidade (dessa vez mais sutil e disfarçada, e por isso mesmo, talvez, mais provocante e imaginativa para o leitor), tramas psicológicas e momentos de tensão capazes de deixar o leitor com o coração acelerado e a sensação de boca seca.
Fiquei tenso em algumas passagens, ri de determinadas circunstâncias da história, torci em outros momentos, fiquei curioso para saber onde iria dar todo aquele "emaranhado" em que se tornou a trama e só me dei por satisfeito de verdade quando li a última palavra e vi um último ponto final na última página, quando pude fechar satisfeito o livro, e comprovar, mais do que nunca, o momento ímpar que vive Leonardo Barros, o seu momento de notável e grande evolução.

domingo, 20 de novembro de 2011

Solteiro em Trinta Dias - receitas de sucesso de um ex-otário

O autor consagrado pelos romances Amor de Amor de Yoni e O Maníaco do Circo (este, inclusive, tendo sido lançado na Bienal do Livro do Rio de Janeiro em 2009) acaba de lançar seu novo livro, Solteiro em trinta dias. Neste, segue o estilo comédia, muito bem-aceito depois de Saúde, Beleza, Prosperidade e Riqueza, uma paródia aos livros e axiomas de autoajuda, mas sempre com um “toque Leonardo Barros”, ou seja, sempre com a pitada de um erotismo. Leonardo Barros encontrou a medida exata do erótico em Solteiro em Trinta Dias, muito mais sutil e sugerido do que nos romances anteriores.
            A história é centrada em João Rickson, compositor de uma música só que foi (e continua sendo) um grande sucesso, tendo sido tema de novela, música de filme de Hollywood, tendo embalado romances,... João tem um casamento que, em sua concepção, é perfeito. Tem um grande baque quando sua adorável e perfeita esposa, Ilíada, o abandona, tendo jogado em sua cara o estigma de “fracassado”, por ele ter se acomodado durante tanto tempo (dez anos) sem nunca ter feito nada de proveitoso além de viver às custas dos direitos autorais de sua única música. Agora solteiro, João precisa reaprender a viver como tal, e terá na ajuda de Teseu, Gibson, Sócrates e Leocádio amigos inseparáveis, que acreditarão nele, abrirão seus olhos e ensinarão pra ele tudo que precisa saber na arte da sedução, mas antes de se preocupar com as “aulas de solteirice”, João terá mais com o que se preocupar, como, por exemplo, o que aconteceu naquela primeira noite primeira noite após ter sido abandonado por Ilíada, um mistério com muitas pistas e poucas respostas. João, com a ajuda de Sócrates, irá se debruçar sobre o mistério e ligará uma pista a outra a fim de descobrir a verdade. Seguirá e unirá as pistas, dois ovos, um pacote de fraldas e um frango congelado (!), conversará (ou tentará conversar) com o português da farmácia e seu emblemático vizinho com o intuito de ter, finalmente revelado, aquele enigma, cuja resposta será um “ponto chave” para que ele possa viver em paz e tranquilo e dar prosseguimento à sua vida.
            João Rickson descobre que seu casamento não era tão perfeito quanto imaginava, nem a sua esposa, Ilíada, tão santa e imaculada, mas nas situações de maior desespero e drama terá nos amigos pessoas com quem pode contar e que lhe ensinarão tudo que ele precisa sobre “a arte de viver”, e para isso ele terá todo o apoio e esquema de um projeto previamente definido, chamado “projeto Cavalgada” (!), com o qual João irá, finalmente, aprender o verdadeiro sentido (e valor) do que é ser solteiro nos dias de hoje...
            Livro bem construído e articulado, Solteiro em Trinta Dias é repleto de personagens bastante vivos e facilmente encontrados em nosso dia-a-dia, de humor, mistério e um toque de erotismo e sensualidade, características já marcantes (e esperadas) dos livros de Leonardo Barros.

domingo, 6 de novembro de 2011

Uma História em Cinco Vozes

O Rio

            Nascido na mais alta montanha, brotando da velha, dura e áspera rocha, um milagre de vida. Corro caudaloso, descendo das maiores alturas, tendo que atravessar sinuosos caminhos, ora virando abruptamente para a direita, ora tendo de saltar do alto, formando uma cachoeira, para cair sobre o chão duro. Atravesso caminhos nunca antes visto por olhos humanos, de tão inóspitos que são, tendo que sentir em meu corpo pedras duras, que me ferem ao mesmo tempo em que me fortalece. Sou fonte de vida de inúmeros seres, sinto pulsar em meu corpo inúmeros corações. Minhas águas são cristalinas e frias. No sopé da montanha corro tranqüilo, muito devagar, quase não me movendo, é onde descanso antes de voltar a minha corrida desenfreada em direção ao mergulho na imensidão do mar azul.
            É manhã e o sol aparece encoberto por algumas nuvens, preguiçoso, ainda não de todo levantado no horizonte. Teima em não querer nascer para um novo dia. Sua luz ainda fraca, seu calor ainda não aquece, mas, mesmo assim, os pássaros cantam em seu louvor. Como eu gosto de pássaros! Sinto-me fascinado por suas belezas, por suas penas multicoloridas, por suas vozes que enchem o ar. Como invejo o céu por tê-los em seu seio, por senti-los em seu corpo, por fazê-los se sentir livres; e o sol, por ter, todas as manhãs, músicas cantadas em seu louvor, entoadas em suas vozes harmoniosas! Eu, por meu lado, tenho em meu corpo peixes, que os amo, por serem meus filhos, e os abrigo em meu âmago. Mas eles não cantam para mim, pois suas vozes não podem ser ouvidas.
            Ora corro, ora me arrasto, ora paro, aonde pessoas às vezes vêm e se deixam banhar por minhas águas frias e cristalinas.
Há um homem sentado sobre uma pedra à beira de onde descanso, sonolento à luz do sol desta manhã cinzenta, com as pernas suspensas no ar. Ele parece distraído, olhando para o céu, sentindo o sol encher seus olhos de luz, sentindo a brisa acariciar seu rosto e seus ouvidos inundados pelo canto dos pássaros. Lanço uma pequena onda em sua direção, que não o toca. Então formo outra, maior, que ao chegar perto dele, estico meus dedos para tocá-lo. Meu toque, frio, o assusta. Mas ele estica os pés, descalços, até me tocar. O toque de seus pés, quentes e macios, me afagando, me acalenta. Deixo que ele brinque com minhas águas, formando pequenas ondulações na superfície, balançando os pés para frente e para trás.
            Ele desce da pedra onde estava sentado e deixa as pernas submersas. Ali meus braços não alcançam mais do que a altura de seus joelhos, mas me sinto como se o abraçasse inteiramente. Eu o invejo por ele possuir duas pernas que podem levá-lo a qualquer lugar, que fazem dele um homem livre, enquanto eu, aqui, estou preso a esse meu corpo e meus olhos nunca verão outro lugar que não estes a que estou encarcerado. Sinto-me pequeno em minha finitude, comparado a esse homem livre.
            O homem se inclina em minha direção e com suas mãos em concha apanha um pouco de minhas águas para banhar seu rosto. Sinto sua pele quente e seu cheiro, seus pêlos eriçados pelo toque frio de meus dedos. Então ele se abaixa um pouco e olha diretamente para mim. Vejo a mim mesmo refletido em seus belos olhos azuis, tão límpidos, de um azul que me faz lembrar o céu nos dias de verão.

O Homem

            Acordo nas primeiras horas da manhã com o canto dos pássaros e um raio de sol, que passa pela fresta da janela de meu quarto, incidindo diretamente em meu rosto. Muito preguiçoso, me sento em minha cama e espero o sono se dissipar pouco a pouco até eu acordar por completo. Saio de casa em seguida e vou até o rio mais próximo, que corre vagaroso, no sopé da montanha, e lá me sento às suas margens numa pedra, a contemplar o céu azul, infinito, sobre minha cabeça e sinto meus ouvidos se encherem do som do canto dos pássaros. Assim me sinto em paz, com a suave e fria brisa matutina a acariciar meu rosto.
            Estou perdido em meus devaneios, sentindo uma paz de espírito me invadir, quando sinto roçar em meus pés algo frio, o que me assusta. Olho para baixo, depois para frente e me dou conta do rio de águas límpidas e cristalinas que se estende à minha frente. Deixo meus olhos se perderem a distância, fixando-se num ponto longínquo, onde o rio encontra o mar. Olho para o céu sobre minha cabeça, olho para o mar ao longe e o rio à minha frente e me dou conta de minha pequenez. Sinto-me insignificante, como um grão de areia numa enorme duna à beira mar, carregada, movimentando-se ao sabor do vento.
            Tiro minhas sandálias e salto dentro do rio, que é tão raso que mal alcança meus joelhos. O toque daquela água fria faz com que todos os pêlos de meu corpo se ericem. Para espantar o frio, resolvo lavar o rosto com aquela água fria, e mergulho minhas mãos e, embora muito da água escoe por entre meus dedos, trago um pouco para banhar minha face. Quando as águas se acalmam, vejo a minha face refletida naquelas águas límpidas. Fico a me contemplar por um curto tempo e acordo de meu devaneio quando ouço, ao longe, o barulho de um trovão anunciado uma tempestade que se aproxima. Saio apressado de dentro d’água e, caminhando descalço, sinto as pedras duras e afiadas como o gume de uma faca me ferindo os pés.
            Caminhava tão apressado que por muito pouco não vi o milagre da natureza que brotava daquele solo estéril, surgido por entre aquelas pedras ásperas e duras, projetando-se para o alto, em busca de sol, luz e ar. Me abaixo para melhor contemplar aquele minúsculo e tão belo ser, aquela tão delicada e majestosa flor. Muito delicadamente, aproximo meus dedos indelicados e grosseiros de suas diminutas pétalas, e sinto o toque de seda de seu corpo. Inclino-me um pouco mais a fim de aproximar meu nariz da flor e sentir o seu delicado e inebriante perfume. Inspiro profundamente duas ou três vezes antes de me reerguer. Fico de joelhos a contemplá-la. Como a invejo por ser tão bela, tão delicada e determinada, por conseguir surgir e sobreviver a tamanhas adversidades e nascer e viver naquele terreno tão hostil e pedregoso. Aproximo novamente minha mão da flor e seguro entre meus dedos seu delicado e fino caule. Muito suavemente, eu o seguro entre meus dedos para arrancá-la daquele chão. Seus pequenos espinhos me furam e algumas gotas de sangue já surgem por entre os dedos, mas suporto a dor, pois pretendo ter para mim aquela efêmera beleza, aquela vida, que passa tão rápido quanto um piscar de olhos.
            Ao colher aquela flor, a levo novamente até próximo a meu rosto para sentir novamente seu perfume. Sinto suas delicadas pétalas em contato com meus dedos. Ergo-me sobressaltado ao escutar outro trovão, dessa vez mais perto e olho para o céu e vejo as nuvens carregadas que se aproximam.

A Flor

            Minha semente foi deixada aqui, nesse solo estéril, cheio de pedras e duro, não sei por quem. A germinação foi difícil, mas consegui lançar raízes profundas nesse chão; raízes tão fortes que eu julgava que nada poderia me tirar daquele lugar. Mas eu não queria só germinar, eu queria nascer, ver a luz do sol, sentir o vento a me acariciar.
            Pouco a pouco fui crescendo e me levantando, e só ao chegar a superfície me dei conta do lugar em que tinha germinado. Era noite quando eu saí. Senti o vento frio, cortante, que me congelava e machucava. Olhei para o céu azul estrelado, mas meus olhos ainda pouco viam, pois minhas pétalas não estavam prontas, ainda, para serem abertas para verem e serem vistas e admiradas. Para me proteger, criei espinhos ao longo de todo o meu corpo.
            Numa manhã fria, quando o sol mal acabara de nascer, foi que desabrochei. E a partir daquele dia, todas as manhãs, logo que os primeiros raios de sol surgiam no horizonte, eu via os pássaros voando livremente pelo céu, cantando em louvor ao sol, ao nascimento de um novo dia. Alguns se aproximavam de mim e ficavam a me fitar, como que estranhando a minha presença ali, como se eu fosse um corpo estranho, uma rara beleza surgida naquele lugar. Logo outros pássaros se aproximavam, como se eu representasse, ali, um oásis no meio daquele deserto. Insetos também se aproximavam de mim, faziam com que o ar se enchesse de sua cantoria monocórdia, recolhiam meu pólen para depositá-lo em outra flor, como se esses tão diminutos seres vivos, tão frágeis e tão livres, tivessem a tarefa de levar o pouco que eu tinha para oferecer. Mas de quem eu mais gostava era dos beija-flores, tão belos, tão perfeitos em seu balé sincronizado a que dançavam em pleno ar. E seus beijos, tão inebriantes, faziam com que eu, em meu devaneio, desejasse me livrar de minhas raízes e voar junto com eles, tornar-me um beija-flor voar dançar livremente pele céu e beijar outras flores iguais a mim.
            Numa manhã em que o sol mal havia nascido no horizonte e nuvens encobriam o céu azul, um homem aproximou-se. Muito delicadamente, aproximou seus dedos de mim e acariciou minhas pétalas, inclinou seu rosto e deixou-o tão próximo ao meu que senti o seu cheiro. Podia sentir a maciez de sua pele, o calor de seu corpo. Ele ficou um tempo a contemplar-me. Estendeu sua mão para me tocar, segurando firmemente meu corpo. Meus espinhos, que eu julgava tão fortes, se mostraram tão frágeis e delicados quanto minhas pétalas. Lutei contra ele, mas minhas forças eram insuficientes para vencê-lo. Meus espinhos, apesar de frágeis, feriram a sua pele e seu sangue, rubro, maculou minhas pétalas brancas.
            Após arrancas minhas raízes, ele voltou a me fitar e me trouxe novamente para junto de si, a fim de sentir o meu cheiro. Agonizando, eu o odiei com todas as forças que ainda me restavam por sua mesquinhez, por ele me querer para si, por desejar ter a minha beleza, pois era apenas isso que seus olhos viam: beleza.
            Colocou-me junto a seu peito. Eu ouvia o seu coração bater acelerado e sentia o calor de seu corpo. Seus punhos, cerrados, me escondiam, não me deixavam ver o sol, e quando se abriram ele me entregava a outra pessoa, a uma mulher, que sorriu ao me ver. Meus espinhos feriram sua delicada mão, quando ele me entregou, mas ela não me soltou. Tocou minhas pétalas com as pontas dos dedos e sorriu. Seu sorriso era tão lindo quanto o amanhecer. Aproximou seu rosto do meu e me beijou. Seus lábios, seu beijo era tão delicado quanto o dos beija-flores. Ela era tão linda, tão pura e tão verdadeira que eu a invejei, que eu a quis para mim, queria lhe dar raízes para mantê-la para sempre comigo.

A Mulher

            Normalmente o céu, naquela época do ano, se mostrava de um azul tão profundo, tão belo, de nuvens tão brancas. No entanto, naquele dia ele mal se mostrava por entre as nuvens, tão carregadas, de um cinza escuro, feio. Estava começando a me preocupar, com meu amado que não chegava. Escutei ao longe o ribombar do primeiro trovão, que me fez estremecer por dentro, com medo da chuva que se avizinhava. Temi que ele não chegasse e eu fosse obrigada a ficar sozinha naquela casa, que ficava tão grande, quando ele não estava. Foi então que resolvi ir a seu encontro, pelo mesmo caminho que ele percorria todas as manhãs em que vinha se encontrar comigo. Mal andei alguns metros quando as primeiras gotas d’água começaram a cair do céu. A princípio tão finas e agradáveis que mal molhavam meu rosto, mas sim me acariciava a pele como o suave toque dos dedos de um amante.
Andei mais alguns metros sob aquela chuva que começava a precipitar com maior intensidade, e instintivamente comecei a apressar os passos e, sem que percebesse, logo estava correndo. Quando o vi, à distância, correndo, meio inclinado, com os punhos fechados sob o queixo, como que a proteger algo, abri meus braços para recebê-lo. Assim que ele olhou para frente e me viu, abriu um sorriso. Vê-lo sorrir era o mesmo que ver as nuvens que encobriam o céu se abrirem e o sol aparecer majestoso para iluminar o meu dia. Abraçamos-nos longamente e, ao nos afastarmos, ele me mostrou o que trazia consigo, protegendo com tanto cuidado da chuva: uma linda e delicada flor. Possuía uma haste longa, de um verde vívido, e lindas e delicadas pétalas brancas. Eu não resisti e a segurei em minhas mãos com tanta pressa que me esqueci de ter cuidado com seus espinhos, que me feriram a mão. Apesar da dor que sentia, eu não a larguei. A fascinação de segurar algo tão belo em minhas mãos compensava qualquer dor causada por qualquer ferimento.
            A flor era linda, como eu jamais havia visto. Pena que sua beleza fosse passageira, que sua vida durasse tão pouco. Mas, mesmo assim, eu me sentia fascinada e invejava as flores, pois elas, mesmo em suas vidas tão curtas, as viviam de forma tão intensa, brilhavam tanto em sua beleza que permaneciam vivas para sempre nas memórias daqueles que as contemplaram.
            A chuva continuava a cair a minha volta e sobre minha cabeça, os trovões continuavam a ribombar e os raios a cair, quando me dei conta de que estava inteiramente encharcada e que meu amado me esperava, pacientemente, a meu lado, para voltarmos ao aconchego do lar. Segurei sua mão e sorri. Começamos a correr juntos, quando tropecei e na queda acabei largando a flor que ele me presenteara. Não a encontrei, pois a chuva caía de forma tão intensa que mal se podia ver o que havia a frente. Ergui-me triste por ter deixado escapar aquela flor tão bela, e fui para casa, tendo, sobre minha cabeça, o céu que desabava, como se estivesse a chorar pela perda daquele ser vivo tão belo e delicado, como se chorasse por não mais poder contemplar aquela tão sublime e delicada beleza.

A Nuvem de Chuva

            Daqui de cima, do alto da montanha, para onde fui trazida pelos ventos, vejo o imenso vale a se descortinar a minha frente. Tão belo, com seu rio que nasce do coração da montanha e percorre longos e tortuosos caminhos até poder descansar, tranqüilo, na planície, até ter que reiniciar sua descida, rumo ao mergulho no mar azul, ao longe. Olho o sol, nascendo às minhas costas, e sinto seu calor a me aquecer, ouço as aves cantando em seu louvor. Desejo poder me aproximar dessas aves, tão belas e diminutas, senti-las voando ao meu redor, me tocando, brincando com meu corpo.
            O canto das aves me atrai, sempre belo, harmonioso, e resolvo me aproximar. Mas quando o faço, elas fogem, pois acabo lançando uma enorme e escura sombra aos meus pés, encobrindo a terra, roubando assim a luz do sol, e é em louvor dele que os pássaros cantam. Faz-se um silêncio sepulcral, e me sinto culpada por isso. Sinto-me triste, como jamais me senti. Tudo que eu mais queria era me aproximar dos pássaros, poder tocá-los e senti-los voando ao meu redor. Mas eles fogem de mim. Algumas lágrimas me vêm aos olhos, e não consigo suprimi-las, e elas acabam por se precipitar, indo cair lá embaixo. E quanto mais choro, mais os pássaros fogem de mim e maior é a minha dor. Quero fugir, ir embora, para longe, para o lugar mais longínquo onde os ventos possam me carregar, mas o enorme peso em meu peito, o ferimento causado pela decepção que sofri me impede que me reerga e retome o meu caminho.
            Estou tão baixa que quase posso tocar com meus dedos as copas das árvores mais altas, onde estão escondidos os pássaros a quem tanto amo. Mas eles estão tão assustados que mal se movem. Olham para o alto e não me vêem, pois só têm olhos para o sol, a quem procuram desesperadamente.
            Um pouco mais abaixo vejo uma mulher, que mesmo assustada, enfrenta-me, foge e me procura, e sinto todas as minhas lágrimas percorrendo seu corpo e sinto seu calor. Ela se sente feliz ao encontrar seu amado. Os dois se abraçam e se beijam. Ela recebe das mãos dele um presente, uma linda flor, de um branco que fora tão imaculado quando eu fui um dia, mas que está manchada, da mesma forma que estou.
            A mulher se sente feliz. E eu posso sentir isso, pois sou parte dela. Ela se deixa banhar por minhas lágrimas, por um tempo, antes de voltar para o abrigo de sua casa, como se a fugir e se esconder de mim.
            Em sua fuga, ela acaba deixando escapar por entre seus dedos a sua tão preciosa flor, que é carregada por minhas águas em direção ao rio.
            Sinto-me leve, com aquela flor em meus braços, indo em direção ao rio. Aquela flor é como um canto de louvor que entrego ao rio, como os pássaros entregam seus cantos ao sol.
            Eis que, em minha queda, tendo a flor em meus braços, antes de mergulhar por inteiro e me unir ao rio, olho para o alto e vejo surgir por entre as alvas nuvens que surgem no céu um arco-íris, tão lindo e multicolorido quanto são as penas dos pássaros que voam livres no céu azul depois que me entrego aos braços do rio.