domingo, 6 de março de 2011

Conto da Cidade Fantasma

Aquela era uma cidade fantasma. Abandonada há décadas, até mesmo pelas almas dos que viveram e foram enterrados naquele velho cemitério localizado atrás da única igreja onde não era rezada uma missa há décadas. Até as árvores perderam a vida naquela cidade, com os troncos ressecados, inteiramente sem folhas e só não vinham inteiramente ao chão por que até os ventos não sopravam mais ali. O mato havia crescido nos primeiros anos por todos os lados, em todas as casas, no meio das ruas, mas depois deixou de crescer, secou, e jazia abandonado, em grandes tufos, por todos os cantos. Ali, animal algum pisava. Os pássaros não cantavam pela manhã, para saldar o novo dia que começava. O único rio que cortava a cidade não mais corria em direção ao mar. Ficou parado durante tanto tempo ali que acabou morrendo. Ali não havia estações do ano. No verão o sol jamais conseguia aparecer por entre as nuvens, no inverno não chovia, na primavera não havia vida para desabrochar e no outono as árvores não perdiam as folhas, pois já a haviam perdido há tempos.
            Não havia ninguém vivo que lembrava da existência daquela cidade, pois todos os que nasceram e, em algum momento da vida viveram ali, já estavam mortos ou tinham se esquecido completamente da cidade que um dia tivera vida. Não havia qualquer registro, dados e informações oficiais sobre a existência da cidade, de forma que ela não fazia parte da jurisdição de qualquer Estado ou País. Não havia placas indicando como chegar àquele lugar, mesmo por que, aquele lugar não existia. As rodovias que outrora levavam àquela cidade tinham sumido, como que consumidas pelo tempo. A antiga ferrovia também.
            Tudo ali era um completo e absoluto silêncio, pois não havia nenhum vivente por perto disposto quebrá-lo.
            Mas apesar de tudo, de todo o abandono, aquela cidade fantasma não estava totalmente morta.
            Um homem, em viagem de um lugar qualquer para um outro desconhecido, acabou se perdendo e saiu da estrada. Rumou sem destino por longas horas até que percebeu que a gasolina de seu carro estava acabando. Já era quase noite, e ele percebeu isso ao olhar para o relógio, pois pela janela do carro, olhando para o céu, não conseguiria distinguir que horas eram, se quem estava no céu era o sol ou a lua, já que não se via nenhum sinal de ambos.
            O barulho dos pneus do carro em contato com a terra e as pedras quebrou subitamente o silêncio naquela região deserta, mas logo o silêncio voltou a surgir quando o carro parou.
            O homem abriu a porta profundamente aborrecido. Só lhe faltava aquela mesmo: ficar no meio do nada, perdido, sem ninguém por perto. Bateu a porta com força ao fechá-la. Olhou ao redor, como que procurando alguém que pudesse lhe dar alguma informação ou ajuda, que pudesse pelo menos lhe dizer onde estava. Não encontrando, passou a mão no rosto, pensando no que poderia fazer naquele momento, naquele lugar. Olhou mais uma vez para o céu e de novo para o relógio, e percebeu que este havia parado. Tirou o relógio do pulso e o jogou no chão.
            - Que droga! Só me faltava essa agora – disse ele, consigo próprio. Começou então a dar alguns passos incertos, em qualquer direção, chamando por algum alguém. Mas ninguém lhe respondeu. Talvez só quem tenha lhe ouvido foi a cidade, que naquele momento, como que acordada em pleno sono, se mostrou, pela primeira vez em anos, a olhos mortais.
            A neblina que cobria a que outrora fora a entrada da cidade, afastou-se e o homem, ao ver aquela cidade sem vida que subitamente voltava a respirar, sentiu um arrepio correr por toda a sua espinha e um frio percorrer todo seu corpo.
            - Oi? Tem alguém aí? – chamou ele. Mas ninguém respondeu. Só então se deu conta de que estava completamente sozinho, na entrada daquela cidade.
            Hesitou por longos minutos, sem saber o que fazer. Pegou seu celular no bolso, mas para sua decepção, estava sem sinal. Chegou a tentar ligar para vários números, a fim de pedir ajuda, mas só o que ouviu foi o ruído estranho. Respirou fundo duas ou três vezes e com passos curtos e hesitantes, se dirigiu à cidade. A todo instante, olhava ao seu redor, a procura de alguém, de algo que lhe indicasse onde estava ou de pelo menos algum ser vivo. Aquela total ausência de vida ao seu redor lhe deixava inquieto. Mas precisava fazer algo, e continuou sua caminhada em direção à cidade, com cada passo mais lento do que o anterior.
            - Oi? Tem alguém aí? – tornou a chamar.
            Como o silêncio se fechava ao seu redor, ele retrocedeu e, ao olhar para trás, viu que a espessa neblina tinha descido, impedindo-o mesmo de ver seu próprio carro. Atemorizado, deu alguns passos incertos para o local onde julgava estar seu carro, mas tropeçou a acabou se machucando na queda.
            - Onde estou? Que cidade é essa? Onde foram as pessoas dessa cidade? – perguntava, como que sussurrando.
            À duras custas conseguiu se levantar e, mancando, foi caminhando até uma casa próxima de onde estava. Bateu na porta, chamou, mas não ouviu nada em resposta além do eco que reverberava pelos corredores e cômodos da residência. Empurrou a porta e viu que estava aberta, mas não ousou entrar na casa. Olhou para a rua, inteiramente deserta, viu as árvores nuas, mortas, inteiramente ressecadas. O único som que lhe chegava aos ouvidos era o de seus próprios passos.
            A cada dois passos que dava, ele parava e chamava, mas como nunca lhe chegava uma resposta, ele continuava a andar. Parou quando chegou a uma praça abandonada. Viu os bancos quebrados, um balanço com as correntes inteiramente enferrujadas e as pedras da calçada fora de lugar, como se alguém as tivesse retirado de seus devidos lugares, revirando-as.
            Já cansado e com a perna dolorida, ele se senta num banco daquela triste praça. Fica olhando ao redor, imaginando as pessoas que viviam ali e o que tinha acontecido a elas e à cidade para que o local tivesse se tornado aquilo que ele via diante de seus olhos.
            Perdido em seus próprios pensamentos, ele se esqueceu que estava sozinho num lugar desconhecido, até que ouviu um barulho longínquo, como de algo muito pesado sendo arrastado. Levantou-se de um salto e aguçou os ouvidos. Silêncio. Ele pensou que sua imaginação estava lhe pregando peças quando escutou novamente, o mesmo barulho, dessa vez mais próximo. E de novo e de novo. Assustado, procurou um lugar onde pudesse se esconder. Correu até uma casa grande, no final da rua, que estava com os portões e a portas abertas. Entrou e ficou escondido, num canto, agachado, abraçado às próprias pernas, esperando ouvir novamente aquele barulho, que ele não sabia do que se tratava. O único barulho que ouvia, no entanto, era o de sua própria respiração.
            Quanto tempo ficou ali, naquela posição, tremendo de medo, ele não sabia, mas tinha a impressão de que havia passado uma eternidade.
            A cidade inteira havia mergulhado, novamente, em seu mais completo silêncio, e ele resolveu sair de onde estava. Suas pernas ainda tremiam e seus passos eram inseguros. Percebeu que, do lado de fora, a neblina se adensara a ponto dele não conseguir enxergar absolutamente nada do que estava à sua frente. Chegou a esbarrar no portão de frente a casa e a tropeçar numa calçada. Caminhava com os braços esticados para frente, como se procurasse algo em que pudesse tocar. Tinha a impressão de que havia algo escondido naquela névoa, que o observava. Sentia um frio percorrendo todo o corpo e apressou os passos, para escapar daquilo que o estava escondido na névoa, mas parou quando esbarrou em algo. Algo se aproximava dele, e ele sentia isso. Escutou novamente aquele mesmo barulho, mais próximo, ao seu lado, junto ao seu ouvido. Suas pernas tremiam e algumas lágrimas começaram a lhe vir ao rosto. Sentia como se mil mãos lhe pegassem as pernas e o estivessem carregando para algum lugar. Tentou gritar, mas o silêncio ao seu redor era tão denso que sufocou sua voz. Sem mais forças para se manter de pé, ele desabou no chão, ainda consciente. Algo o estava sufocando de dentro pra fora e ele foi perdendo pouco a pouco a consciência. Sentia a neblina ao seu redor, densa, lhe abraçando, lhe engolindo pouco a pouco até que, por fim, fechou os olhos e caiu num sono profundo do qual nunca mais voltaria a acordar.
           

sexta-feira, 4 de março de 2011

Lançamento - Intimidade com Deus


Sinopse: Textos do Livro dos Salmos e comentários de natureza devocional, estimulando o cultivo da vida espiritual, nos quadros da relação com Deus, conforme a visão cristã. Citações de vários pensadores cristãos e orações relacionadas às temáticas dos Salmos, de Henri W. Nouwen, Anselm Grün, Madre Teresa de Calcutá, Thomas Merton, entre outros.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Semana-de-véspera-de-carnaval

Essa semana o país inteiro vai parar! Não adianta dizer que estou exagerando ou que esteja inventando. O fato é que para, sim, pois, é a semana-de-véspera-de-carnaval, a semana mais importante do ano – só ficando atrás do próprio carnaval. É nessa semana que todos decidem para onde vão, na casa de quem ainda tem lugar, se vai de ônibus ou carona, se vai brincar o carnaval em algum bloco ou se vai na “pipoca” mesmo, em que clube vão estar as melhores bandas, etc, etc e etc.
            Carnaval é o assunto reinante onde quer que se vá (e olhe que ainda falta uma semana!). No ônibus tem sempre uma pessoa sentada ao seu lado conversando com um que está no banco às suas costas. Os assuntos são banais, diversos, mas, tais assuntos conversados são só um aperitivo, pois logo uma das pessoas vai olhar para a outra e, com um sorriso nos lábios, vai perguntar: “e você, vai passar o carnaval onde?”. Batata, como se diz na linguagem popular. Sempre a resposta, nesses casos, é a mesma: “não sei, ainda. Talvez esse ano eu vá para tal cidade ou vá passar em tal praia, talvez até fique em casa, pois não estou com vontade de curtir o carnaval esse ano...” enfim, essa pessoa vai pra qualquer lugar, pode ter certeza, só não vai ficar em casa.
            Impressionante como o carnaval mexe com as pessoas e é capaz de parar um país inteiro! Tudo bem, eu sei que todo mundo tem o direito de se divertir, que tem gente que adora o clima, a descontração e a “bagunça” característica desse mega-feriadão, mas tudo tem limite. Sem contar que tem gente que, por motivos diversos, não gosta de carnaval (só gosta mesmo é de poder ficar em casa os quatro dias, de folga), e que já está cansado de ver na televisão, nesses momentos que antecedem os “grandes dias”, a cada intervalo comercial, algum comercial sobre carnaval ou aquelas coisas ridículas (que não sei se devo chamar de “comercial” ou do que que chamo) com as famosas escolas de samba do grupo especial apresentando as suas músicas, marchas, samba-enredo ou como quer que chamem essas músicas irritantes.
            Sei, amigo, que acompanha este blog e lê as minhas crônicas, textos e artigos semanais, que você deve estar pensando que estou de forma diferente, hoje, escrevendo até com uma certa raiva. Pois bem, você acertou. Eu estou com uma certa raiva, pois eu não gosto de carnaval e não suporto esse clima-pré-carnaval. Nada contra quem gosta, óbvio, pois cada um tem seu gosto e tem todo o direito do mundo de se divertir, de escutar aquelas de samba, axé, pagode ou frevo, de dividir uma casa muitas vezes minúscula com tanta gente que não caberia nem num hotel, de se alimentar mal durante quatro dias e dormir pior ainda. Nada contra, cada um tem seu gosto e faz suas escolhas. Agora, eu, não gosto, mas simplesmente não é possível não se gostar de carnaval e se ficar totalmente fora, alheio a tudo que vai acontecer, pois sempre, em todo canto que se vá, tem pessoas conversando sobre carnaval.
            Mas o pior ainda está por vir. Sempre nesses dias que antecedem o carnaval você acaba, de uma forma ou de outra, num canto ou noutro, esbarrando num velho amigo que não via há tempos, e depois daquela animação e surpresa inicial pelo reencontro, após tanto tempo, mesmo se tendo tanto para conversar, como, por exemplo, o que se tem feito da vida, se já casou, se realmente conseguiu ser aprovado no teste que ia fazer para um clube de futebol, se entrou no exército, se passou num concurso público, se fez faculdade, se largou o vício da bebida, se casou com aquela menina que era sua paixão na adolescência ou mil e um outros assuntos tão importantes para se saber numa amizade tão antiga como esses... mas não, a pessoa, seu velho amigo, que a partir daquele instante passa a ser se mais novo ex-amigo, tem que lhe soltar a para você tão evitada pergunta, que você odeia ter que responder 50 vezes por dia: “onde você vai passar o carnaval?”. E você olha para esse amigo, que considerava tanto na infância e adolescência, que julgava que lhe conhecia tanto e tão bem, e que justamente por isso soubesse que você simplesmente não gosta de carnaval, para não passar por grosso e dar uma resposta pouco diplomática, apenas sorri, dá de ombros, e diz que simplesmente vai ficar em casa. Ele então bate na própria testa, como que lembrando: “ah, desculpa. Esqueci que você não gosta de carnaval”, ele diz. Então você diz que está tudo bem, se despede, decepcionado, é verdade, mas pelo menos relativamente feliz por ter reencontrado após tanto tempo um antigo amigo, mesmo percebendo, agora, que ele não lhe conhecia tão bem quando você achava que conhecia. Mas tudo bem. Você vai ter que responder aquela mesma pergunta umas outras tantas vezes ao longo dessa semana, mas quem não gosta de carnaval já está acostumado com isso, apesar dos pesares.
O prêmio de consolação disso tudo é que pelo menos, durante o carnaval, como tudo está fechado, é um grande (o maior) feriado do país, você pode, tem o direito adquirido de ficar em casa sem fazer nada, descansando, afinal de contas, quatro dias em casa não são de se jogar fora. Portanto aguente só mais essa semana, respire fundo sempre que alguém lhe perguntar sobre onde vai passar o carnaval, pense nos quatro dias livres que vai poder desfrutar, e viva essa semana como ela é: a última antes do carnaval, a derradeira semana-de-véspera-de-carnaval.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O Homem que esperava

O tempo passava lento, se arrastando, e o homem continuava ali, no mais completo silêncio, inteiramente sozinho. Até seus pensamentos tinham lhe abandonado. Ele apenas observava as pessoas, indo e vindo, para onde, ele não sabia, de onde, não lhe importava. Ele apenas as observava. Via o homem de terno e gravata indo apressado para o trabalho, falando ao celular, acertando, por certo, algum detalhe sobre a reunião do trabalho, ou reclamando de sua eterna falta de tempo; via a bela mulher, vaidosa, que caminhava sem olhar para os lados, sem se importar com os olhares desejosos dos homens . Via os estudantes barulhentos, falando alto, gesticulando, que não se importavam com o futuro que se aproximava cada vez mais rápido. Também via os casais, que passavam discutindo, como se, em sua pressa, não tivessem tempo e oportunidade de discutir em casa, quando chegassem do trabalho. Via pessoas de todos os tipos, cores, credos, umas vestidas de forma elegante, outras usando fardas, outras usando simplesmente roupas comuns, as mesmas que usam todos os dias quando estão em casa.
            Esse homem não estava triste nem feliz. Na verdade, ele se sentia, naquele momento, como se estivesse e fosse livre de qualquer sentimento. Ele não mais trabalhava e tinha todo o tempo só para si, para observar sem precisar ser observado por ninguém. Era velho, mas não de uma velhice que não se podia definir exatamente. Devia ter entre cinquenta e sessenta anos. Tinha cabelos grisalhos e uma expressão cansada no rosto, mas seus olhos ainda eram cheios de vida. Tinha um olhar penetrante, e por isso observava tão atentamente as pessoas.
            Em meio a todo aquele caos, que era o ir e vir das pessoas, ninguém atentava para ninguém, muito menos para o homem sentado, sozinho, naquele banco. Em seu colo pousava um jornal, que ele sequer tinha aberto, pois as notícias daquele dia não lhe interessavam, pois o tempo presente, naquele momento, não lhe dizia nada. Aliás, tempo algum lhe interessava. Ele apenas observava as pessoas e sentia o tempo passar vagaroso. Ele não chama a atenção de ninguém, mesmo por que, ninguém tem tempo para parar e olhá-lo atentamente, nem que seja por apenas cinco segundos.
            Como que acordando de seu estado de transe, o homem percebe, pela primeira vez naquele dia, que está só, mesmo havendo tanta gente ao seu redor. Mas ele não se importa com a solidão, pois já está acostumado com a sua companhia constante ao longo de toda a sua vida. Sempre fora só.
            Vinha de todos os cantos barulhos distintos, de ora passos acelerados, de pessoas que estavam atrasadas para seus compromissos, ora lentos, de pessoas que voltavam para suas casas, após um longo e estafante dia de trabalho.
            O sol nasceu, descreveu sua trajetória no céu e estava para se pôr no horizonte, e o homem continuava ali, na mesma posição, imóvel. Só seus olhos se moviam, fitando ora uma pessoa, ora uma outra. Não as observava mais do que o necessário. Observava-as o suficiente apenas para conhecê-las, nem que fosse apenas superficialmente. Olhava todas as pessoas que passavam a sua frente, mas nenhuma o via ali, sentado, tão observador e curioso.
            Naquele momento, quando o sol ia descansar e as primeiras luzes se acendiam, ele sentiu, talvez pela primeira vez na vida, o desejo de uma companhia. Mas quem poderia, naquele momento, lhe fazer companhia, se todos passavam sem notá-lo, cada um preocupado só e unicamente com sua rotina, com seu dia a dia, com seu próprio umbigo?! Ninguém o notou, nem quando ele se levantou e começou a caminhar de um lado para o outro, por entre a multidão que, ainda àquela hora, ia e vinha muitas vezes sem saber para onde nem por quê.
            Mas mesmo cercado por dezenas de pessoas, entre aquela multidão, ele se sentia sozinho. Voltou a se sentar e ficou ali longos minutos, pensativo, sentindo-se mais sozinho do que estava antes. Foi quando sentiu um olhar sobre si. Levantou-se de um salto procurou ao seu redor, entre aquelas pessoas a que o estava observando, mas não encontrou atenção sendo lhe dispensada entre aquelas pessoas, olhar algum entre tantos olhos. Mas sabia, sentia, que um alguém o observava. Desesperado de tanto procurar sem encontrar tais olhos, deixou seus olhos caírem sobre uma menina, que mesmo distante, o observava. Ela sorria, observando-o. Ele sorriu de volta e naquela troca de olhares, ele rejuvenesceu décadas em apenas alguns segundos. Ela foi embora, se despedindo antes com um breve aceno e um grande sorriso. Ele voltou a se sentar em seu banco em êxtase, afinal de contas, todo aquele dia tinha valido apenas para receber apenas aquele belo sorriso. Pegou seu jornal, que estava inteiramente amassado, mas continuava fechado, colocou-o debaixo de braço e foi embora, para sua casa.
            Onde ele mora? Em todo lugar e ao mesmo tempo em nenhum. A única certeza sobre ele é que no dia seguinte ele estaria de volta, sentado no mesmo banco, esperando que, em algum momento do dia, um alguém o notasse e simplesmente lhe sorrisse, para fazer seu dia valer a pena.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Insônia

Ainda era noite, mas já se via no horizonte os primeiros sinais do sol, que nascia para um novo dia. Soprava uma brisa suave e fria, a última da madrugada. A cidade inteira dormia, ainda, mas alguns poucos já acordavam antes mesmo do primeiro canto dos pássaros para mais um longo e estafante dia de trabalho. Mas enquanto uns ainda dormiam e outros estavam acordando, um homem, sozinho em sua casa, ainda não tinha dormido. Seus olhos ardiam, sua cabeça pesava, seu corpo clamava por descanso, mas não conseguia dormir. Tivera mais uma noite insone na qual andara por toda a casa, de um lado para o outro, até suas pernas cansarem e ele desabar ali, onde se encontrava, no estofado, em frente à janela.
            Mirava o horizonte, como se com o nascer o sol lhe viesse a paz de espírito de que tanto precisava para dormir. Mas nem quando o sol nasceu e os pássaros começaram a cantar, saldando o novo dia, ele conseguiu pregar os olhos.
            Desesperado, com a alma cansada, com o peso da solidão sobre seus ombros, levantou-se e caminhou em direção a varanda, onde podia escutar melhor os primeiros sons da manhã. Escutou o barulho das janelas sendo abertas, das primeiras pessoas acordando, dos primeiros carros nas ruas, dos primeiros cumprimentos trocados entre pessoas. Fechou brevemente os olhos e imaginou como seria poder ter uma noite como todas as pessoas normais, e simplesmente dormir. Sentiu o gosto amargo da inveja na boca, por não poder dormir como todas aquelas pessoas e, mais angustiado do que já estava, foi até o quarto e se jogou na cama, deixando sua cabeça afundar no travesseiro.
            Fechava os olhos cor força, se cobria, depois jogava longe os lençóis, mudava de posição, mas nada do que fizesse fazia com que o reparador sono viesse e lhe tomasse em seus braços. Mas o sono não vinha.
            Angustiado, cansado, desesperado, ele se senta na cama. Passa as mãos vigorosamente sobre os olhos e dá tapas no próprio rosto, como se brigasse consigo mesmo, como se aquilo pudesse adiantar de alguma coisa. Levanta-se, cambaleante, e caminha até o banheiro. Vê refletida no espelho a face de um outro homem, desconhecido para ele. Tinha os olhos vermelhos, olheiras profundas, barba para fazer, cabelos despenteados e uma expressão angustiada na face. Fechou os olhos e, ao reabri-los, aquele estranho lhe fitava diretamente nos olhos. Fechou novamente os olhos e cobriu o rosto com as mãos e deu dois passos para trás, saindo do banheiro.
            Voltando ao quarto, ele se sentou na cama e a viu inteiramente revirada, com um lençol jogado no chão enquanto outro estava junto ao travesseiro. Olhou para todos os lados do quarto, como se procurasse ajuda, mas não encontrou nada além das sombras e dos primeiros raios de sol que entravam pelas brechas da janela. Aquela luz lhe queimava os olhos como um ferro em brasa queima a pele.
            Os barulhos dos apartamentos vizinhos lhe feriam os ouvidos a ponto dele, angustiado, pedir para que todos se calassem, que o deixassem em paz, que fizessem silêncio. Começa a caminhar de um lado pro outro, falando sozinho, conversando com a própria sombra que lhe persegue implacavelmente, que está como a vigiá-lo, rindo, ironicamente, de seu desespero. Ele olha para ela e a vê sorrindo. Em seu desespero, ele a pisa e a xinga, mas ela apenas sorri de tudo aquilo. Ele apaga as luzes, como que para se ver livre dela, mas o sol a projeta no chão, aos seus pés e nas paredes de sua casa. Ele fecha as cortinas, mas não adianta: a luz já está em todo lugar.
            Seu despertador toca, e ele corre ao quarto, pega-o, abre a janela e o arremessa o mais longe possível. Ainda escuta o barulho irritante do alarme que soa uma última vez antes de se espatifar no chão, no meio da rua. Já estava na hora de acordar e ele não havia sequer dormido um único instante naquela noite!
            Já não consegue mais pensar, seu corpo já não mais lhe obedece e sua cabeça roda. Vê imagens desconexas à sua frente e grita com elas. Sua boca está seca e vai à cozinha, abre a geladeira para fechá-la bruscamente logo em seguida, pois não sabe o que procurar ali. Suas pernas não conseguem mais levá-lo a lugar algum e ele vai ao chão, inteiramente sem forças para nada. Tenta se arrastar em direção ao estofado, onde pode, pelo menos ter algum conforto, mas seus braços também não mais lhe obedecem e ele se deita no chão frio.
            Escuta o barulho irritante do relógio que marca o passar das horas. Vê, pela janela, o sol realizar lentamente sua trajetória no céu. E ele ainda ali, deitado no chão, que rouba o pouco calor que ainda lhe resta.
            Deita-se voltado pra cima e fita o teto, que parece tão alto, mas que de repente ele tem a impressão de que está caindo em sua cabeça, mas ele não tem mais como se proteger, não lhe resta mais forças sequer para levantar os braços e cobrir o próprio rosto.
            Vai perdendo a consciência tão lentamente como uma nuvem é carregada por um vento fraco e vagaroso de início de tarde. Ele olha para baixo e vê seu corpo como que adormecendo, num sono tão intranquilo naquela manhã como foi sua noite insone. Em seu sono sem sonhos, ele sabe que logo irá acordar e que quando isso acontecer, ele não vai mais conseguir dormir, pelo menos, não da forma por que tanto anseia.