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sábado, 26 de janeiro de 2013

A Melhor História está por vir



Há alguns autores e livros, que quando o lemos pela primeira vez, a primeira coisa que nos passa na cabeça, quando fechamos o livro, quando finalizamos a leitura é: quero ler, imediatamente, outro livro desse autor. Com María Dueñas isso aconteceu não só comigo, mas com certeza, com todos aqueles que se deliciaram, se envolveram e devoraram da primeira à última página do seu livro O Tempo Entre Costuras. No entanto, quando fechamos esse livro, surgiu um “ponto negativo”: a autora só havia lançado, no Brasil, esse livro. Senti-me, ao constatar isso (e tenho absoluta certeza de que todos os que leram o livro também se sentiram dessa maneira) frustrado, pois a necessidade e o desejo de mergulhar novamente nas histórias da maravilhosa escritora espanhola. Nós, leitores de Dueñas, sentimo-nos “órfãos de um livro só”, e passamos um longo tempo na expectativa, verdadeiramente sonhando com um novo livro da autora, que não fazíamos ideia de quando viria a ser lançado no Brasil.
            O tempo passou, mas o que não diminuiu foi a vontade de ler uma outra história escrita pela autora de O Tempo entre costuras, e quando começaram a surgir os primeiros rumores de que sua editora, aqui no Brasil, estava preparando o lançamento de seu segundo livro, nós, seus ávidos e sedentos leitores, passamos a contar os minutos para o dia em que seu livro estaria a nossa disposição, nas estantes das livrarias, para podermos, enfim, mergulhar em suas palavras, viver e fazer viver seus personagens. Mas o lançamento demorou, e quando mais demorava, mais nós ficávamos na expectativa, mais ansiosos ficávamos, já imaginando, de antemão, o que nos aguardava.
            Finalmente, o lançamento se confirmou. Já tínhamos o título, já sabíamos, em parte, do que se tratava a história, mas era pouco para quem esperava com tamanha ânsia por tal livro, e não queríamos apenas saber algo sobre o livro, queríamos tê-lo o quanto antes em nossa mão e devorá-lo, tal como o fizemos com o primeiro livro (publicado no Brasil) da autora. Vimos a capa, belíssima, simples e que dizia tanta coisa, e cada detalhe novo era, para nós, um motivo para aguçar a nossa curiosidade, para aumentar a nossa necessidade de ter o livro em mãos.
            O livro demorou muito para ser lançado (queríamos tê-lo lido logo após o fechamento de O tempo entre costuras), mas tudo foi esquecido, perdoado, quando o pudemos, finalmente, vê-lo (tê-lo) nas livrarias. Lê-lo (devorá-lo) era uma verdadeira necessidade fisiológica que tínhamos.
A Melhor História está por vir não decepciona em nenhum momento, e fez valer a pena a angústia da espera pelo seu lançamento, muito embora não tenha o ritmo tão alucinado quando o primeiro livro da autora, no entanto, possui personagens tão bem construídos e cativantes que compensam (e superam, talvez) quando comparamos (inevitável fazer isso!) os dois livros da autora.
Blanca Perea é uma professora universitária de meia-idade, que recebe um tremendo baque quando um furacão varre a tranquilidade e paz de sua vida: seu marido, com quem vivia um casamento de mais de vinte anos, sai de casa e se envolve com uma outra mulher, mais jovem. Sem saber o que fazer nem o que pensar, sua única alternativa (ela assim entende) é se afastar para poder refletir melhor sobre o que passava, agora, a ser sua vida. Passa a ver possibilidades de ir para uma outra universidade, em um outro país, para ficar de longe de tudo e de todos, e resolve aceitar a proposta de ir para os Estados Unidos, mesmo o projeto não lhe sendo de todo de seu interesse acadêmico, só e unicamente pelo único motivo de ser o local mais longe para onde poderia ir.
A professora Perea se depara com um projeto de organizar para resgatar todo o legado de um ex-professor, seu compatriota, da Universidade de Santa Cecília, Califórnia. Todo esse trabalho lhe é, de certa forma, indiferente, e ela não demonstra qualquer maior interesse pessoal ou profissional com tal resgate. Entende, sim, óbvio, tudo o que o ex-professor, Andrés Fontana deixou para o Departamento, mas apesar de todas as palavras entusiastas e saudosas por parte de todos os que ali trabalha e principalmente daqueles que conviveram com o professor, que fora chefe daquele mesmo departamento tantos anos antes, até a ocasião de sua morte num acidente trágico, ela mantém-se “emocionalmente distante” do trabalho.
Mas na medida em que vai se aprofundando no trabalho, Blanca passa a se afeiçoar e a conhecer mais e mais aquele simples estudante que viera tanto tempo atrás para aquela mesma universidade e acabara ficando, adotando e sendo adotado por aquela universidade, vivendo como uma espécie de autoexilado naquele país tão diferente do seu.
Conhece inúmeros professores e membros do departamento, entre eles o sedutor Luis Zárate e o engajado nas hispanidades Daniel Carter, e a medida em que se envolve com esses homens, novas janelas se abrem naquela pesquisa, no resgate da história e legado do professor Fontana. Todos, naquele departamento, de uma forma ou de outra, estão, em maior ou menor grau, envolvidos com Andrés Fontana, e Blanca passa a mergulhar no mundo de cada uma delas, principalmente no do professor Carter, que fora tão próximo do antigo chefe daquele Departamento.
A melhor história está por vir é um livro de descobertas, de resgates e de eternos reinícios, nos mostrando que o melhor momento de nossa vida, a melhor história que estamos vivendo, é justamente aquela que está por vir.

domingo, 22 de julho de 2012

A casa que amei

Uma casa é muito mais do que uma simples casa. Uma casa é povoada de lembranças, guarda em seus corredores ecos de tempos passados, de vidas e momentos vividos; uma casa possui alma e vida próprias. Para alguns desapegados, para alguns que não possuem raízes, a casa pode até ser um simples lugar onde se faz as refeições, onde se dorme e até onde se vive alguns anos de uma vida (pode até se viver uma vida inteira), mas para os que fecham os olhos e conseguem sentir um pulsar daquele lugar, para os que, quando fecham os olhos se veem invadidos por tantas e tão vívidas lembranças daquele lugar, a casa é um local especial, possui vida, possui alma.
            Rose é uma mulher que apesar da idade avançada, de ser viúva, de ter tido a vida do filho ceifada tão cedo e da única filha viver tão longe e distante, não se sente só, pois aquela casa onde vive é tão cheia de vida, tem uma alma tão latente, que não a deixa sentir o peso da solidão. Aquela casa e as doces lembranças que ela lhe faz viver constantemente lhe são caras, tanto que mesmo quando recebe uma carta anunciando a expropriação do imóvel, devido aos projetos urbanísticos e de modernização da cidade de Paris no século XIX, resolve não ceder ao “irreversível poder do progresso” e ir até as últimas consequências para não deixar que seja ceifada a vida, para não deixar que seja arrancada a alma daquela casa que ela tanta ama.
            Um livro emocionante, uma história de vida não só de pessoas e de seus momentos vividos, mas de uma casa e de toda a história que ela guarda, da alma que ela possui. Contado em forma de cartas que a personagem, Rose, troca / envia para seu falecido marido, um livro é repleto de uma carga emocional densa, mas expresso de uma forma tão suave e delicada que nos faz viver e relembrar de momentos passados no local onde vivemos alguns dos momentos mais importantes de nossas vidas, dos locais onde fomos criados e onde temos raízes tão firmemente fincadas, do lugar onde a que chamamos de lar, de nossa casa.

domingo, 5 de setembro de 2010

O Palácio de Inverno

Sempre que lemos um livro que nos surpreende, que ficamos com ele “ecoando” em nossas cabeças por dias a fio, passamos a viver uma espécie de ansiedade pela leitura do seguinte do mesmo autor. Uma ansiedade, mescla de grande expectativa com um certo temor. Temor porque, caso o livro (o segundo) não nos agrade tanto quanto o primeiro, ficaremos com um gosto de frustração na boca, gosto este que vai acabar até “amargando” o sabor do primeiro livro. Por outro lado, a expectativa é tamanha que acabamos não resistindo e mergulhando na história daquele segundo livro. Às vezes gostamos, outras vezes não; às vezes a expectativa é superada, em outras ficamos frustrados, mas, de maneira geral, usamos, nesses casos, duas expressões: “é tão bom quanto o primeiro” ou simplesmente “é bom, sem dúvida, mas o primeiro é melhor”. É difícil se falar que o segundo é melhor. Lógico que há muitos casos em que o segundo supera em diversos aspectos o primeiro, mas, sempre, o primeiro livro se torna o “parâmetro”. E quando se chega um terceiro livro? Nossa, aí nós, leitores, ficamos em polvorosa! Será que ele é tão bom quanto o primeiro? Será que ele supera o segundo? Será que o autor segue mais a linha do primeiro ou do segundo? Será que vale a pena lê-lo, já que já li dois livros desse mesmo autor? Entre outros questionamentos que costumamos nos fazer ante tal situação.
            Com John Boyne, comigo, aconteceu a mesma coisa. Li O Menino do Pijama Listrado e adorei. Achei-o um livro belíssimo, de rara sensibilidade, um livro para amantes de livros, de literatura, que não leem só por ler, que entram na história e a vivem da primeira à última página. Com o lançamento do segundo livro do autor, O garoto no convés, vivi os dilemas e expectativa do “segundo livro”. Gostei muito do segundo, sem dúvida. Vi as semelhanças da delicadeza da escrita, vi um roteiro melhor trabalhado, mais personagens, mais situações, uma história mais longa, etc, etc e etc. mas, mesmo com isso tudo, o primeiro ainda tornou-se a minha referência tratando-se de John Boyne. Agora o autor lança seu terceiro livro no Brasil, O Palácio de Inverno, e eu fiquei algumas horas me perguntando se valeria a pena lê-lo. Eu olhava para o livro, o livro olhava para mim, e eu acabei não resistindo. Fui ler o livro “desarmado”, imaginando que iria encontrar, sem dúvida, uma história bem contada, enfim, um bom livro, talvez melhor que o segundo, mas dificilmente tão magnífico quanto o primeiro. Que grata surpresa descobri naquelas páginas, naquelas palavras, naquela belíssima história! Devorei o livro em poucos dias e estou com a história, com passagens inteiras do livro, com determinados personagens e com um cálido sentimento ainda ecoando em minha cabeça, mesmo após o fim de sua leitura.
            O Palácio de Inverno é um livro belíssimo, como eu não lia, já, há algum tempo. Livro delicado, bonito, terno, cativante, bem contato, com lindos personagens e, acima de tudo, que trata, entre outras coisas, do mais nobre e belo dos sentimentos humanos: o amor. Isso mesmo. O livro fala de amor! Tem um pano de fundo histórico muito bem elaborado, possui um roteiro ímpar, com duas histórias, com dois tempos, que são conduzidos de forma magistral de encontro um ao outro, tem personagens reais mesclado com outros tantos fictícios, tão reais quanto os que existiram, mas tem, também, uma linda história de amor. Não uma história de um amor platônico, meloso, impossível, mas sim do sentimento tal como ele é, para ser sonhado e vivido e, principalmente, amado.
            O livro narra a história do jovem camponês Geórgui Jachmenev que vive numa remota aldeia no interior da Rússia. Na ocasião da passagem do grão-senhor Nicolau Nicolaievich, pela aldeia, Geórgui impede um atentado à vida do irmão do czar, que seria levado a cabo por seu único amigo, a quem queria como um verdadeiro irmão. Por tal ato de coragem lhe é concedido um lugar de honra na corte do czar Nicolau II, mas, por outro, valeu a vida de seu amigo/irmão, que por sua insensatez é julgado e executado.
            De simples mujique, vivendo numa afastada aldeia, Geórgui passa a viver em São Petersburgo, no Palácio de Inverno, uma das residências oficiais do czar. Lá, o menino será encarregado de ser um amigo e guarda-costas pessoal do filho do Nicolau II, Alexei, a quem se destina o trono e lugar de czar da Rússia. A Rússia, no entanto, nesse período, está passando por um longo período de conflitos externos e algum descontentamento dentro do próprio país.
            Acompanhamos, em O Palácio de Inverno, não só a vida de Geórgui Jachmenev e sua adoração por Anastácia, filha do Czar, e seu amor incondicional por Zoia, mas parte da história da Rússia do período da Primeira Guerra Mundial e da Revolução Bolchevique, além de diversos outros acontecimentos da história do sec. XX. História e ficção, personagens reais e fictícios se misturam em O Palácio de Inverno, uma leitura extremamente prazerosa, bela, cativante e tocante, uma verdadeira obra-prima da literatura mundial.