domingo, 30 de novembro de 2014

Nós e nossas leituras

Desde que nascemos, somos bombardeados por informações mil, por influências mil que farão parte e nos acompanharão, lado a lado, durante aquele instante ou fase nossa vida, e que, algumas, até certo grau, far-se-ão tão imprescindíveis, deixarão marcas tão profundas que nos acompanharão até o fim de nossos dias. Fazemos escolhas, selecionamos e até deixamos que um algo nos marque mais do que um outro, mas há casos que algo nos marca tal que nem nos damos conta, naquele momento, de sua importância e até onde vai sua influência.
            Quando crianças, as nossas escolhas são fáceis. É algo entre o personagem favorito, o ídolo do momento ou que canal de televisão e desenho assistir, e essas escolhas nos acompanharão pelo resto da vida, embora só consigamos nos dar conta bem na frente, quando nos bate aquela “seção nostalgia” e percebemos o quanto tal personagem nos marcou e temos dele, o quanto rimos e nos divertimos com tal desenho, etc. Na adolescência, já temos, talvez, que ser mais criteriosos e menos impulsivos como quando criança, pois nessa fase é que começamos a desenvolver o nosso senso crítico e começamos a ter a nossa própria opinião/posição diante daquilo que temos que escolher. Continuamos a ter os ídolos, sim, como em tempos passados, mas eles adquirem outro status e importância em nossa vida. Fazemos nossas escolhas em cima de critérios rígidos que desenvolvemos (se bem que por vezes nem tão rígidos assim). Escolhemos as nossas bandas favoritas, as músicas favoritas, e, em determinada fase da adolescência, devemos fazer uma opção crucial, que pode fazer com que a nossa vida tome um definitivo rumo, que é o de que curso fazer e que carreira seguir. Também nesta fase de nossa vida é que, por sermos mais criteriosos, passamos a sentir mais as influências de nossas escolhas e das experiências marcantes que vivemos. Quando adultos, as escolhas tornam-se ainda mais difíceis, pois entra, nessa fase, o quesito responsabilidade. As influências que sofremos, embora saibamos lidar com elas (na maioria das vezes), também são muito fortes.
            Algo de que muitas vezes não nos damos conta (por motivos diversos), e que nos influenciaram enormemente em nossa trajetória de vida, são as leituras que fizemos ao longo dos anos, de quais os livros que mais nos marcaram e quais colocamos como mais importantes para a nossa formação.
            Na infância, embora muitas vezes sequer nos lembremos, devemos fazer os devidos agradecimentos às leituras dos quadrinhos, que, muitas vezes, representam uma abertura de portas para o hábito da leitura. Personagens como os da Turma da Mônica nos deixam, até hoje, mesmo já adultos formados, fascinados e despertam em nós o gosto dos tempos passados. Além dos quadrinhos, devemos prestar homenagens aos autores formadores dessa fase, como Ziraldo, Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Monteiro Lobato, entre outros tantos, que acompanharam todas as fases do nosso letramento e que foram, em muitos casos, os primeiros livros que tivemos e que tivemos o prazer de ter lido. Lemos coleções diversas, acompanhamos os personagens e nos deixamos ser guiamos pelas gentis mãos de um habilidoso e (por vezes) fantasioso escritor.
            Na fase da adolescência, os livros e leituras adquirem um outro papel e são outras as motivações que nos levam a escolhê-los. É nessa fase que muitos de nós começamos a desenvolver efetivamente o hábito da leitura, que começamos a desenvolver a disciplina necessária para o cultivo sobre como a literatura irá semear a nossa vida e nossa personalidade. Continuamos, muitas vezes, a ler quadrinhos, mas muitas vezes negamos os que temos como infantis (afinal de contas, nessa fase de nossa vida tendemos a ser suicidas, negando muito do que diz respeito aos personagens e hábitos de certas leituras desenvolvidas na infância). Lemos os super-heróis das revistas da Marvel e DC. No que se refere aos livros, começamos a nos identificar com determinados gêneros e autores. Tomamos conhecimento, num primeiro momento, de alguns clássicos, por vezes em versões adaptadas para a linguagem adequada a tal fase da vida, uma vez que os textos na íntegra, no original, nos parecem tão pouco atrativos, nos aventuramos junto com determinados personagens, como Sherlock Holmes, que, além de ajudar a desenvolver o hábito da leitura, aguça o nosso raciocínio. Também fazem parte dessa fase a leitura de “livros do momento”, que lemos por impulso e influência de outros colegas de leitura, escola ou familiares. Quando adolescentes numa fase mais avançada, já com o hábito da leitura solidificado, começamos fazer as nossas próprias escolhas ao iniciar a leitura de livros de cunho fantasioso, como as de Tolkien, ficamos com o “cabelo em pé” com as de terror do Stephen King, aprendemos com as filosóficas e lúdicas obras de Jostein Gaarder. Começamos, já, em determinada fase da adolescência, a ler obras de maior “peso”, uma espécie de primeiros clássicos que lemos na íntegra, e a partir desse momento nossa vida, como leitores, começa a mudar profundamente.
            Na fase adulta, por vezes, já com a leitura fazendo parte de nosso dia a dia, nos deixamos levar e desafiar pelas mais diversas leituras. Por vezes, quando cansados, para não ficar sem ler nada, pois isso é algo que não conseguimos, nos aventuramos numa leitura de entretenimento, nas páginas de um bom (e bem selecionado) best-seller, que irá nos “arejar a mente”, que irá nos distrair e nos envolver com uma cativante e empolgante história. Deixamo-nos, também, envolver com a leitura de romances históricos, nos vemos “com a boca seca” com as histórias de suspense e mistério de Allan Poe, nos aventuramos nas narrativas detetivescas de Conan Doyle e Agatha Christie, lemos crônicas diversas, romances que nos tocam e marcam, mas é nos edificantes clássicos que nos deleitamos e nos sentimos, como leitores, mais completos.
            É na fase adulta que realmente tomamos conhecimento das chamadas altas literaturas e deixamos que elas lancem profundas marcas na maneira como passaremos a compreender o mundo. Lemos os essenciais gregos através dos épicos de Homero e sentimo-nos tragados pelas obras do teatro, escritas há tantos séculos, mas que influenciaram fortemente a nossa cultura e que continuam, mesmo (devido) com o passar dos anos, tão atuais. Nos deparamos com os italianos como Virgílio e Dante, este tão importante para não só a literatura, mas pelo forjamento de uma ideologia religiosa que prevaleceu durante tantas séculos e que tem forte influência, ainda hoje, no pensamento ocidental. Os ingleses dispensam apresentações e comentários. Afinal de contas, o que falar sobre Shakespeare, Dickens, Jane Austen, as irmãs Brönte (cada uma mais genial do que a outra), Walter Scott, Joyce, Oscar Wilde, Virgínia Woolf, entre tantos outros? Sobre os franceses, quais citar? Dumas, Victor Hugo, Stendhal, Zola, Balzac, Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Rabelaire, etc. fora La Fontaine, Perrault, autores de obras que fazem parte de nosso imaginário. E o que falar de Saint-Exupery, autor de uma obra que é eternamente nova a cada vez que a lemos? Não podemos deixar de mencionar o espanhol Cervantes, o alemão Goethe ou os portugueses Camões, Pessoa, Eça de Queiroz e Saramago. Os norte-americanos, apesar de como nação representarem um império que é com justeza criticado, na literatura nos deram autores formidáveis, principalmente no século XX, como Fitzgerald, Hemingway, Steinbeck e Salinger, foram os contemporâneos Paul Auster e Phillip Roth. E os russos, que marcam profundamente a alma de todos aqueles que se aventuram em suas narrativas densas e marcantes? Puchkin, Gogol, Leskov, Dostoievski, Turguêniev, Tolstoi, Gorki, Tchekhov, Pasternak, Nabokov. Existem tantos outros, de tantas outras nacionalidades, como Kawabata, Gabriel Garcia Marquez, Mia Couto, Jorge Luiz Borges, Kazantzakis... e que brasileiros mencionar? Falamos tantos, elogiamos tanto tantos autores estrangeiros e acabamos por relegar os nossos gênios da literatura. Machado de Assis é o maior deles, fato indiscutível, mas a nossa literatura não se limita só e unicamente a ele. Temos também os formidáveis Gregório de Matos, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Aloisio de Azevedo e os romancista dos movimento romântico brasileiro, temos o “príncipe dos poetas”, Olavo Bilac, temos os fenomenais pré-modernistas como Augusto dos Anjos, Lima Barreto e Monteiro Lobato, temos os modernistas de primeira fase e os geniais poetas e romancistas da segunda, surgidos principalmente a partir da década de 1930, como Carlos Drummond, Cecília Meireles, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado e Érico Veríssimo, há os que começaram a se distanciar do modernismo, representando um novo momento da nossa literatura, como Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, Ariano Suassuna, Nelson Rodrigues, Fernando Sabino, Lygia Fagundes Telles.
Como se vê, somos quase que um quebra-cabeça formado por mil e uma leituras que vamos fazendo, colecionando ao longo de nossa vida, que ora nos influencia mais, ora um pouco menos, mas que foram, todas, essenciais para a nossa formação humanística.
            Algumas pessoas usam o ditado popular “diga-me com quem andas, e te direi quem és”, mas nós, leitores, podemos parafrasear tal pensamento e dizer algo do tipo “diga-me o que lês, e te direi quem és”!

Somos, como seres dotados de consciência e senso crítico, fruto de nossas experiências de vida, e as leituras feitas estão entre as experiências que mais se mostram essenciais na nossa formação humanística, tendo elas sido realizadas lá atrás, como primeiro contato e experiência de leitura, seja via um livro ou revista, seja a leitura que acabamos de finalizar ontem, de um livro escrito na semana passada ou de um cujas palavras foram grafadas numa primeira edição há tantos séculos.

domingo, 16 de novembro de 2014

Escrevezinhar

Escrever é como cozinhar: envolve todo um longo processo, que executamos com imenso carinho, que vai desde a escolha do prato a ser preparado, escolha dos ingrediente ao paciente preparo e arranjo do prato para que seja melhor apreciado e degustado.
            O escritor, assim como o cozinheiro, precisa escolher bem o prato de acordo com a situação e os convidados que vai receber, se bem que de vez em quando, é bem verdade, surgem imprevistos, e é necessário se agir rápido, sem pensar muito. Às vezes o cozinheiro, assim como o escritor, não está muito inspirado, mas cozinhar, assim como escrever, se faz necessário, e ele prepara algo simples, como um feijão com arroz e bife, que vai saciar a fome imediata, mas vai, ao mesmo tempo, deixar nele a impressão de que poderia ter feito algo diferente, algo mais, como ter dado ao texto-prato um toque diferente, como ter posto um tempero capaz de surpreender os degustadores.
            O cozinheiro, assim como o escritor, escolhe bem os ingredientes necessários à preparação do prato-texto. Apalpa, sente a textura, cheira, vê se estão maduros, se estão “no ponto” para o preparo, coloca-os cuidadosamente na sua cestinha de supermercado, depois os passa no caixa e os organiza cuidadosamente numa sacola. Já em casa, quando vai iniciar o preparo do texto-prato, retira, um a um, os ingredientes, na ordem que vai utilizá-los. Descasca cuidadosamente os vegetais-palavras, corta com precisão as carnes, dando ponto finais às frases e vai vendo, pouco a pouco, o seu prato, mesmo ainda cru, tomar forma.
            O escritor, assim como o cozinheiro, não pode ter pressa no cozer de seu prato-texto. Não adianta querer acelerar ou atrasar a comida-texto. Se ele deixar passar do ponto, corre-se o risco do texto queimar, e se o retirar antes da hora, o texto não vai ter apurado devidamente os sabores dos condimentos e corre-se o risco, até, de, na pressa, o ter retirado ainda cru. Há textos-pratos que podem demorar até meses para serem preparados, pois, por vezes, falta um ingrediente específico que só pode ser colhido/encontrado em determinada época do ano e em determinado local. O cozinheiro, assim como o escritor, fica no dilema de seguir ou não no preparo do prato-texto, mas sabendo que ele, quando pronto, valerá a pena, opta por esperar, e enquanto o ingrediente que dará o sabor ao texto-prato não vem, ele seguirá preparando aperitivos, deixando os seus convivas entretidos a saborear pratos diversos, até que Voilà! surge ele, passando pelas portas da cozinha, equilibrando nas mãos uma travessa com tão belo e apetitoso prato, e os convivas, ao verem o esmero com que foi preparado, têm a certeza de que valeu a pena cada segundo daquela espera.
            O cozinheiro, assim como o escritor, é um ansioso, e olha com especial atenção as feições daqueles que provam seu texto-prato, analisando cada reação, de aprovação (ou não!), e só consegue soltar o ar de seus pulmões quando o outro, depois de mastigada a primeira garfada, exprime, com sinceridade, a sua opinião sobre o prato-texto. Se aprovada a comida-história, o escritor-cozinheiro, respira aliviado, satisfeito, mas se não, fica a rememorar cada passo dado no preparo, fica a se perguntar se usou os ingredientes na medida certa, fica sem saber se faltou uma pitada de sal, deixando o texto insosso, ou se colocou uma palavra a mais, fazendo com que o prato tenha passado do ponto, ficando salgado.
            O escritor, assim como o cozinheiro, é um solitário nato. Por vezes até tem uns alguéns por perto, opinando de que deveria escrever sobre isso, preparar um assado de tal maneira, explorar melhor esse personagem, deixar mais tempo a comida no fogo a fim de melhorar apurar os temperos, e essas ajudas são bem-vindas, sim, por mais que ele, por vezes, diga tê-las rejeitado, mas ele se sente, realmente, bem, quando sozinho, quando se sente rei do reino da cozinha ou de seu escritório, onde reina soberano, estando de posse de sua coroa e cetro, papel e caneta ou panelas e facas.

            Ambos, cozinheiro e escritor, são artistas. Um, prepara pratos finos para saciar a fome do corpo do homem, o outro, lapida palavras e as prepara num texto coeso e saboroso para saciar seu intelecto. São ambas as artes quedas quais o homem precisa para sobreviver, mas que precisa aprender a melhor apreciar, comendo devagar, garfada por garfada, lendo devagar, palavra por palavra.

domingo, 12 de outubro de 2014

A lucidez e o fim da inspiração

Não consigo mais escrever. Não sei o que se passa comigo, que fico horas e horas a fio com uma folha de papel em branco e uma caneta em mãos, e, quando me dou conta, vi que os ponteiros do relógio deram uma volta completa e a folha continua ali, em branco, mesmo eu estando de posse de um instrumento capaz de riscá-la por inteiro. Mas não! Eu simplesmente não consegui riscá-la, não consegui empunhar a espada/caneta e, tal qual Dom Quixote, ver, na folha em branco, um dragão e lutar contra ele. Talvez veio a mim o que, felizmente, não chegou (ou chegou muito tarde) ao Cavaleiro da Triste Figura: a lucidez!
            Talvez seja isso mesmo: eu estou lúcido! e, para escrever, se é necessária certa dose de desprendimento, certa inlucidez, certa toque de fantasia, e eu não consigo mais fantasiar. Talvez esteja com a minha fantasia aprisionada ou talvez esteja simplesmente preso por um algo que, mais cedo ou mais tarde, sempre nos alcança e exige de nós mais do que podemos dar: a rotina. A rotina é cruel. Ela aprisiona, toma a nossa inspiração, a nossa disposição (física e mental) e nos rouba inteiramente o nosso precioso tempo. Da rotina ninguém consegue fugir. No máximo a gente a vai enrolando, e ela, esperta como é, acaba se deixando levar. Mas chega uma hora que ela nos pega, nos abraça e diz que dela ninguém escapa! E quando se é realmente pego pela rotina, quando se está em suas mãos, nos tornamos seus escravos e lhe damos tudo que nos é mais precioso, e o maior castigo, justamente por termos tentado nos esconder dela, reside na lucidez. Ela exige que sejamos, sempre, durante as 24 horas do dia, lúcidos. Não nos é permitida sequer devaneio nem quando estamos sonhando. Os sonhos tornam-se verdadeiras projeções de nosso dia a dia, e não é permitido, nem ali, a entrada da fantasia.
            A rotina, portanto, está intrinsecamente relacionada à lucidez, e esta, por sua vez, age como uma carcereira da fantasia, e com isso perde-se a inspiração, seja ela a serviço do que for. O pintor, sem fantasia, sem inspiração, já não consegue mais pintar, e se o tenta, suas pinceladas saem grosseiras, sem cor, sem brilho, como que artificiais. O músico já não mais compõe, e, se tenta, o máximo que consegue extrair dos instrumentos são barulhos idênticos aos das buzinas dos carros e aos dos passos das pessoas correndo apressadas de um lado para o outro. O escritor, como que cego, já não mais vê poesia. Em ambos os casos o que há comum está no fato de que o que antes eram seus instrumentos de trabalho, agora são verdadeiras armas contra e com as quais têm que lutar diariamente em busca da inspiração perdida/aprisionada.
            O artista, seja ele aquele que empunha um pincel, uma caneta ou um instrumento musical, é um não-lúcido nato, é um fantasista, é um alguém que, mesmo quando engolido pela rotina, consegue encontrar um misero segundo, uma brecha no espaço-tempo e fugir, e nessa mera fração de tempo construir um mundo à parte em que segundos são valiosos como uma eternidade.

            Ser artista e viver e ver a sua inspiração limitada/aprisionada é sofrer em silêncio, é engolir o choro a cada vez que tenta produzir e liberar a sua arte e vê que nada sai de suas mãos. Mas ele, mesmo sofrendo, por amar e acreditar naquilo que faz, no poder de sua arte, ainda continua, persistente, a tentar tirar leite de pedra, como se diz popularmente, por mais que a pedra, por vezes, não lhe dê leite, no entanto ele continua a tentar, pois crê que, mais cedo ou mais tarde, irá encontrar uma que lhe dará de bom grado o néctar necessário à vida, à sua arte.

domingo, 28 de setembro de 2014

Mea culpa

Ninguém mais precisa procurar pelo culpado por tudo, por todas as “desgraças” que estão acontecendo em nosso país: eu sou o culpado.
            Eu sou o grande culpado por toda essa corja de políticos que está aí no poder, pelas pessoas a quem dei o cargo, a quem escolhi para me representar no dia da eleição, por todos esses que ao invés de política se entregaram ao vício e práticas da politicagem. Eu sou o grande culpado, portanto, por toda a desgraça que a política nacional tem causado. Sou o único culpado por escolher pessoas que vão ocupar os cargos para defender os meus interesses, particulares, de minha classe, ao invés de pensar em defender os interesses da nação, de todas as pessoas.
            Sou o único culpado pela inatividade, pela passividade perante tudo que acontece. Poderia e deveria lutar mais, ter feito mais barulho, me fazer entender, gritar mesmo, mas, ao invés disso, preferi/ optei, pelo conforto e a paz de meu lar, e fingir que tudo que está acontecendo não me diz respeito. Se estoura mais um escândalo de corrupção, finjo indignação quando estou com amigos e até sinto certa ojeriza ao meu país quando assisto a um noticiário ou leio notícias dessa ordem num jornal qualquer, mas é um sentimento de repulsa passageiro, e logo estou agindo como se tudo aquilo não fosse comigo. Vejo noticia após notícia em telejornais, de escândalos após escândalos de corrupção, de mil e uma CPIs, das práticas políticas (ou, melhor dizendo, das politicagens) tão comuns, e a única coisa que penso é “mais uma” e “não vai acontecer nada de mais com nenhum dos envolvidos”, e pronto. Minha única ação é desligar a televisão ou mudar de canal, ou fechar a revista ou o jornal.
            Sou eu quem coloca os Renans Calheiros, os Bossonaros, os Dirceus, os Jenuinos e os Felicianos da vida onde eles estão, sou eu quem lhes dá amplos poderes.
            Sou eu o responsável por tantas leis defasadas, pela justiça injusta, por deixar que tanta coisa aconteça tanto “a torto e a direito”, só e unicamente por que “não estou nem aí”, porque não me preocupo, porque não fiscalizo. Sou eu aquele que não mais se choca com as injustiças...
            E eu sou culpado não só por isso, pelo que está acontecendo com o país; sou o verdadeiro e único culpado, também, por todas e tantas as miudezas que causam mal a tanta gente e as quais ninguém se dá conta.
            Sou o culpado pela televisão que temos, pelos BBBs de número intergaláctico que ainda estão por vir, só e unicamente por que eu lhes dou audiência, apesar de reclamar, reclamar e reclamar. Tais reclamações, confesso, são da boca pra fora, apenas. Quando estou só, em casa, quando ninguém mais vê, ligo a TV e coloco no canal a que tanto critico, acreditando que só nele eu vou estar bem informado, acreditando que ele é o detentor da única e universal verdade, que ele é o imparcial, que retrata os fatos tal como eles são, que ele só mostra o que me imprescindível, e se não é noticiado algo de que todos falam, algo que é importante, significa que é importante para um alguém, que não é importante para mim e não me diz respeito.
            Sou o culpado pela sujeira na rua, no bairro e na cidade, pois sou eu quem não joga o lixo no lixo, quem joga o papel quando ninguém está olhando na lixeira, quem joga o lixo pela janela do carro no meio da rua. E ainda tenho o descaramento de reclamar, para todo mundo ouvir, da sujeira!
            Sou eu quem não fiscaliza, quem “deixa pra lá”, que digo que aquilo não me diz importância, embora saiba, em meu íntimo, que aquilo, sim, é de meu interesse, que se eu ‘deixar pra lá” agora, depois não vou estar aqui, e o problema já não irá mais me afetar, já não mais “me dirá respeito”.
            Sou eu o grande e único responsável por toda essa baixeza que vemos na televisão e ouvimos nas rádios, pois sou eu quem lhes dá a audiência.
            Sou eu aquele que se julga “o puro”, “o incorruptível”, “o de consciência limpa”, sendo o primeiro a tentar proveito de algo, a oferecer “um trocado” para um guarda de trânsito para que ele não me multe, sou o que fura a fila, quem não respeita as leis.
            Sou eu aquele típico brasileiro, aquele que acredita e cuja lei universal é a do “jeitinho”.
            E sou eu, principalmente, aquele que está perpetuando tudo isso, quem está espalhando o mau exemplo, quem está deixando todo esse legado, toda essa herança maldita para as gerações vindouras, para que elas vivam nesse mesmo país que eu vivo, para que esse país viva sempre a se iludir naquele jargão de “Brasil, o país do futuro”, mas de um futuro nunca irá se tornar presente.
            Eu sou o culpado, e torno aqui, pública, a minha culpa. Não procurem mais por ninguém, não apontem mais seus dedos para ninguém, pois aqui estou eu, de consciência limpa, ao menos uma vez na vida, tirando um peso das costas, da consciência, ao me entregar para ser julgado, condenado e para cumprir minha pena, só e unicamente por ser o responsável por toda uma série de desgraças que têm acontecido no país e na sociedade.

domingo, 21 de setembro de 2014

O conto da cidade fantasma

Aquela era uma cidade fantasma. Abandonada há décadas, até mesmo pelas almas dos que viveram e foram enterrados naquele velho cemitério localizado atrás da única igreja onde não era rezada uma missa há décadas. Até as árvores perderam a vida naquela cidade, com os troncos ressecados, inteiramente sem folhas e só não vinham inteiramente ao chão por que até os ventos não sopravam mais ali. O mato havia crescido nos primeiros anos por todos os lados, em todas as casas, no meio das ruas, mas depois deixou de crescer, secou, e jazia abandonado, em grandes tufos, por todos os cantos. Ali, animal algum pisava. Os pássaros não cantavam pela manhã, para saldar o novo dia que começava. O único rio que cortava a cidade não mais corria em direção ao mar. Ficou parado durante tanto tempo ali que acabou morrendo. Ali não havia estações do ano. No verão o sol jamais conseguia aparecer por entre as nuvens, no inverno não chovia, na primavera não havia vida para desabrochar e no outono as árvores não perdiam as folhas, pois já a haviam perdido há tempos.
            Não havia ninguém vivo que se lembrava da existência daquela cidade, pois todos os que nasceram e, em algum momento da vida viveram ali, já estavam mortos ou tinham se esquecido completamente da cidade que um dia tivera vida. Não havia qualquer registro, dados e informações oficiais sobre a existência da cidade, de forma que ela não fazia parte da jurisdição de qualquer Estado ou País. Não havia placas indicando como chegar àquele lugar, mesmo por que, aquele lugar não existia. As rodovias que outrora levavam àquela cidade tinham sumido, como que consumidas pelo tempo. A antiga ferrovia também.
            Tudo ali era um completo e absoluto silêncio, pois não havia nenhum vivente por perto disposto quebrá-lo.
            Mas apesar de tudo, de todo o abandono, aquela cidade fantasma não estava totalmente morta.
            Um homem, em viagem de um lugar qualquer para outro desconhecido, acabou se perdendo e saiu da estrada. Rumou sem destino por longas horas até que percebeu que a gasolina de seu carro estava acabando. Já era quase noite, e ele percebeu isso ao olhar para o relógio, pois pela janela do carro, olhando para o céu, não conseguiria distinguir que horas eram, se quem estava no céu era o sol ou a lua, já que não se via nenhum sinal de ambos.
            O barulho dos pneus do carro em contato com a terra e as pedras quebrou subitamente o silêncio naquela região deserta, mas logo o silêncio voltou a surgir quando o carro parou.
            O homem abriu a porta profundamente aborrecido. Só lhe faltava aquela mesmo: ficar no meio do nada, perdido, sem ninguém por perto. Bateu a porta com força ao fechá-la. Olhou ao redor, como que procurando alguém que pudesse lhe dar alguma informação ou ajuda, que pudesse pelo menos lhe dizer onde estava. Não encontrando, passou a mão no rosto, pensando no que poderia fazer naquele momento, naquele lugar. Olhou mais uma vez para o céu e de novo para o relógio, e percebeu que este havia parado. Tirou o relógio do pulso e o jogou no chão.
            - Que droga! Só me faltava essa agora – disse ele, consigo próprio. Começou então a dar alguns passos incertos, em qualquer direção, chamando por algum alguém. Mas ninguém lhe respondeu. Talvez só quem tenha lhe ouvido foi a cidade, que naquele momento, como que acordada em pleno sono, se mostrou, pela primeira vez em anos, a olhos mortais.
            A neblina que cobria a que outrora fora a entrada da cidade, afastou-se e o homem, ao ver aquela cidade sem vida que subitamente voltava a respirar, sentiu um arrepio correr por toda a sua espinha e um frio percorrer todo seu corpo.
            - Oi? Tem alguém aí? – chamou ele. Mas ninguém respondeu. Só então se deu conta de que estava completamente sozinho, na entrada daquela cidade.
            Hesitou por longos minutos, sem saber o que fazer. Pegou seu celular no bolso, mas para sua decepção, estava sem sinal. Chegou a tentar ligar para vários números, a fim de pedir ajuda, mas só o que ouviu foi o ruído estranho. Respirou fundo duas ou três vezes e com passos curtos e hesitantes, se dirigiu à cidade. A todo instante, olhava ao seu redor, a procura de alguém, de algo que lhe indicasse onde estava ou de pelo menos algum ser vivo. Aquela total ausência de vida ao seu redor lhe deixava inquieto. Mas precisava fazer algo, e continuou sua caminhada em direção à cidade, com cada passo mais lento do que o anterior.
            - Oi? Tem alguém aí? – tornou a chamar.
            Como o silêncio se fechava ao seu redor, ele retrocedeu e, ao olhar para trás, viu que a espessa neblina tinha descido, impedindo-o mesmo de ver seu próprio carro. Atemorizado, deu alguns passos incertos para o local onde julgava estar seu carro, mas tropeçou a acabou se machucando na queda.
            - Onde estou? Que cidade é essa? Onde foram as pessoas dessa cidade? – perguntava, como que sussurrando.
            À duras custas conseguiu se levantar e, mancando, foi caminhando até uma casa próxima de onde estava. Bateu na porta, chamou, mas não ouviu nada em resposta além do eco que reverberava pelos corredores e cômodos da residência. Empurrou a porta e viu que estava aberta, mas não ousou entrar na casa. Olhou para a rua, inteiramente deserta, viu as árvores nuas, mortas, inteiramente ressecadas. O único som que lhe chegava aos ouvidos era o de seus próprios passos.
            A cada dois passos que dava, ele parava e chamava, mas como nunca lhe chegava uma resposta, ele continuava a andar. Parou quando chegou a uma praça abandonada. Viu os bancos quebrados, um balanço com as correntes inteiramente enferrujadas e as pedras da calçada fora de lugar, como se alguém as tivesse retirado de seus devidos lugares, revirando-as.
            Já cansado e com a perna dolorida, ele se senta num banco daquela triste praça. Fica olhando ao redor, imaginando as pessoas que viviam ali e o que tinha acontecido a elas e à cidade para que o local tivesse se tornado aquilo que ele via diante de seus olhos.
            Perdido em seus próprios pensamentos, ele se esqueceu que estava sozinho num lugar desconhecido, até que ouviu um barulho longínquo, como de algo muito pesado sendo arrastado. Levantou-se de um salto e aguçou os ouvidos. Silêncio. Ele pensou que sua imaginação estava lhe pregando peças quando escutou novamente, o mesmo barulho, dessa vez mais próximo. E de novo e de novo. Assustado, procurou um lugar onde pudesse se esconder. Correu até uma casa grande, no final da rua, que estava com os portões e a portas abertas. Entrou e ficou escondido, num canto, agachado, abraçado às próprias pernas, esperando ouvir novamente aquele barulho, que ele não sabia do que se tratava. O único barulho que ouvia, no entanto, era o de sua própria respiração.
            Quanto tempo ficou ali, naquela posição, tremendo de medo, ele não sabia, mas tinha a impressão de que havia passado uma eternidade.
            A cidade inteira havia mergulhado, novamente, em seu mais completo silêncio, e ele resolveu sair de onde estava. Suas pernas ainda tremiam e seus passos eram inseguros. Percebeu que, do lado de fora, a neblina se adensara a ponto dele não conseguir enxergar absolutamente nada do que estava à sua frente. Chegou a esbarrar no portão de frente a casa e a tropeçar numa calçada. Caminhava com os braços esticados para frente, como se procurasse algo em que pudesse tocar. Tinha a impressão de que havia algo escondido naquela névoa, que o observava. Sentia um frio percorrendo todo o corpo e apressou os passos, para escapar daquilo que o estava escondido na névoa, mas parou quando esbarrou em algo. Algo se aproximava dele, e ele sentia isso. Escutou novamente aquele mesmo barulho, mais próximo, ao seu lado, junto ao seu ouvido. Suas pernas tremiam e algumas lágrimas começaram a lhe vir ao rosto. Sentia como se mil mãos lhe pegassem as pernas e o estivessem carregando para algum lugar. Tentou gritar, mas o silêncio ao seu redor era tão denso que sufocou sua voz. Sem mais forças para se manter de pé, ele desabou no chão, ainda consciente. Algo o estava sufocando de dentro pra fora e ele foi perdendo pouco a pouco a consciência. Sentia a neblina ao seu redor, densa, lhe abraçando, lhe engolindo pouco a pouco até que, por fim, fechou os olhos e caiu num sono profundo do qual nunca mais voltaria a acordar.