sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Retrospectiva 2015 de leitura

Nunca é fácil olhar para trás e ver todos os livros lidos no ano anterior. Sempre que faço as minhas retrospectivas de leitura, tenho a certeza de que não li o que e quanto deveria, fico com aquela sensação de ter usado erradamente meu tempo ao ler determinado livro que não me proporcionou prazer algum nem me acresceu em absolutamente nada, fico emocionado ao relembrar a história e personagem de tal obra que me marcou profundamente...
            No geral, infelizmente 2015 não foi um ano tão proveitoso no que tange às leituras como anos anteriores. Muitas coisas interferiram, entre elas a mal escolha, em dados momentos, dos livros , o que me gerou maior lentidão na leitura, uma vez que as leituras não estavam sendo tão empolgantes e prazerosas quanto eu esperava e precisava, e por conta de trabalho, estudos e um monte de outros fatores extra-leitura. Mas mesmo assim, foram, aos trancos e barrancos, 43 livros, no entanto, 1 foi abandonado (porque tive que devolver – tratava-se de um livro que havia pego emprestado) e 3 lidos parcialmente (a maior parte – diga-se de passagem), tendo iniciado o meu 2015 com a leitura de Vida e Destino, de Vassili Grossman, obra muitíssimo interessante sob o prisma histórico, mas que no que tange a literatura se mostrou um tanto quanto “não das melhores”, e finalizou com Meio Sol Amarelo, de Chimamanda Ngozi Adichie, o melhor livro de literatura africana que já li em minha vida, uma grantíssima surpresa que me foi reservada justamente para o “apagar das luzes” do meu ano de leitura.
            No que se refere aos melhores livros, nunca um ano de leituras foi tão difícil de definir aquele que rotulo como “o melhor do ano”. Além do Meio Sol Amarelo, obra que não canso de recomendar, elogiar e recomendar a leitura, destaco também No silêncio entre dois suspiros, de Ayad Akhtar, além dos clássicos que me deixaram em êxtase, O Quinze, de Rachel de Queiroz, do poderosíssimo Carta ao Pai, de Kafka, dos gregos Antígona, de Sófocles, Hipólito, de Eurípides, e do estupendo e divertidíssimo Lisístrata, de Aristófanes, e seguindo no mesmo gênero do teatro, destaco também o Fedra, do francês Racine, fora o filosófico e extraordinário O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse. No outro extremo, destaco entre meus piores livros do ano, que me decepcionaram enormemente, que não recomendo a ninguém, estão A Última Imperatriz, de Da Chen (o mesmo autor de A Montanha e o Rio) e A Fazenda, de Tom Rob Smith, além do vencedor do Nobel de Literatura Patrick Modiano com o livro Remissão da Pena, livro que não empolga, que não tem um personagem cativante, que não tem uma narrativa que prenda, enfim, que não tem graça e que não me proporcionou em momento algum um momento de prazer e deleite literário, e do famigerado Ateneu, de Raul Pompéia, que foi uma leitura arrastada, chata e cansativa.
            Entre tantos livros, em 2015 fui da leitura de tirinhas de Snoopy e Calvin & Haroldo, que adoro, passando por Hamlet e por obras de Machado de Assis, tanto em sua face romântica com Helena quanto numa fase mais adiantada, com O Alienista, visitando os russos com Gogól com a novela A Briga dos dois Ivans, Maiakovski com  Percevejo, Dostoievski com Bobók e No Campo de Honra do Isaac Bábel. Li também obras de cunho histórico como o indispensável História Concisa da Rússia, de Paul Bushkovitch; obras de cunho teórico-crítico-literário, como livros de Harold Bloom e Massaud Moisés. Fora esses, ainda arranjei tempo para ler John Boyne, O ladrão do Tempo e A Casa Assombrada, para conhecer Lima Barreto com Triste Fim de Policarpo Quaresma; e meu primeiro Simenon, com Maigret e a Mulher do Ladrão.

            Pois é, apesar de não ter sido um ano tão recheado como anos anteriores, foi, no fim das contas, um bom ano de leitura, com uma boa multiplicidade de obras nas quais mergulhei e das quais extrai muita coisa boa, desde o simples grego antigo da Era de Ouro do teatro aos complexo Calvin, Charlie Brown e Snoopy.

1º de janeiro: o melhor dia do ano

Para mim, o melhor dia do ano é 1º de janeiro. Começo a contar os dias, em angustiante espera, desde o dia 2 de janeiro, observando o movimento da Terra em torno do sol, na ansiedade para que chegue logo o primeiro dia do ano seguinte só para poder ter o mundo inteiro só pra mim. Sim. O mundo inteiro.
            No dia 31 de dezembro, como já é de praxe, grande parte das pessoas sai, vai comemorar a chegada do ano novo em praias, organizam festas em família, ficam acordados até mais tarde, etc., de forma tal que nas manhãs do dia 1º a impressão que se tem, ao sair nas ruas, ao abrir uma janela, é a de que a humanidade foi extinta e só sobrou você na face da Terra. Não existe barulho algum de carros, não existem vozes de pessoas falando alto, não existem barulhos de portas e janelas sendo abertas e fechadas, ninguém faz questão de ligar o som em volume máximo para compartilhar aquela música odiada por todos, exceto por aquele que quer compartilhá-la com todos, etc. Enfim, manhã do primeiro dia do ano é o momento de paz e silêncio total, tanto que é justamente neste dia que podemos nos dar ao luxo de ficar e sentir realmente o silêncio em toda a sua plenitude. Podemos ouvir o uivo do vento, podemos ouvir a orquestra sinfônica dos pássaros que, felizes, podem encher os pulmões sem vergonha de suas notas harmoniosas atrapalharem os barulhos alheios. Podemos até sair na rua para uma caminhada/corridinha matinal sem nos preocuparmos com os carros que passam apressados ao nosso lado, chegando ao máximo até de ouvir o som de nossos próprios passos no asfalto da avenida!
            Sei que estou sendo um tanto quanto egoísta, sim, em ter o mundo inteiro só pra mim, mas em que outro dia do ano tenho esse privilégio? Pelo menos tenho o mundo só pra mim (e me vanglorio disso) até o início da tarde, que é quando aquele mal-educado da rua de frente acorda e liga o som com o intuito de compartilhar com o bairro inteiro aquela música que somente ele, em toda a sua insanidade, acha que as pessoas querem ouvir. Com esse ato o mundo começa a acordar (de ressaca) e o mundo volta a ser mundo, com todos os seus barulhos, e eu me vejo na obrigação de compartilhá-lo com os demais viventes deste planeta. Só fico triste pelos pássaros, que passam a ser obrigados a cantar baixinho para não incomodar o barulho das  pessoas...

            

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Mais um menino no sinal

Era perto de meio-dia e naquele sol escaldante, protegido por uma míngua de sombra, aguardava pacientemente um menino que o sinal de trânsito mudasse de cor e acendesse a luz vermelha para os carros pararem. Estava cansado, o suor escorria por seu rosto e estava preocupado, pois o que havia apurado naquela manhã era muito pouco. Pensou nos irmãos mais novos; pensou na escola em que deveria estar àquela hora, na aula que estava perdendo. Mas na dura realidade de menino pobre, de família muito humilde habitante de periferia de grande cidade, não havia a possibilidade de escolha: era frequentar a escola ou ajudar no sustento da casa. Adoraria poder estar na escola, aprendendo, absorvendo os conhecimentos transmitidos pelos professores daquela pequena escola localizada na zona oeste da cidade.
            Ficou tão absorvido pelos devaneios da escola que nem se deu conta que o sinal havia fechado e já estava prestes a novamente abrir. Xingou a si mesmo. Havia perdido a possibilidade de, talvez, ganhar alguns trocados. Parou de pensar nas aulas, nos professores e nos colegas para prestar atenção só e unicamente no sinal de trânsito que estava bem à sua frente e nos carros.
            O tráfico era intenso naquele cruzamento. Vendo todos aqueles carros de todas as cores e modelos, o menino se perguntou se alguma daquelas pessoas fechadas atrás daqueles vidros, protegidas do calor pelo ar-condicionado, prestava atenção nele. Muito provavelmente não. Talvez estivessem entretidas nas músicas que ouviam ou pensando nos compromissos do dia ou simplesmente preocupadas no processo de dirigir, executando os movimentos mecanizados da troca de marchas, aceleração e frenagem.
            Viu quando os carros começavam a diminuir a velocidade e olhou para o sinal. A luz verde dera lugar à amarela e ele se preparou para entrar em cena. Quando os carros pararam, ele se dirigiu à faixa de pedestres, por onde as pessoas atravessavam, cumprimentou os motoristas num gesto amplo, mas muitos dos quais nem sequer o perceberam, e começou a realizar seu número. Atirou algumas bolas para o alto e iniciou uma brincadeira de malabarismo que lhe fora ensinada, certa vez, por outro menino naquele mesmo cruzamento. Findo o número, inclinou-se, agradecendo, e só então voltou novamente os olhos para os motoristas, para perceber que mais uma vez praticamente ninguém o tinha observado. Estava já acostumado àquilo, a se sentir um alguém invisível num cruzamento em frente a um sinal, mas, mesmo assim, resolveu caminhar por entre os carros distribuindo sorrisos e pedindo algum dinheiro que algum daqueles motoristas compadecido de sua situação pudessem lhe dar. Naquela vez, apenas uma mulher, que vinha com uma criança no banco de trás, abaixou o vidro para lhe dar umas poucas moedas, que ele agradeceu ao receber. Era pouco, quase nada, mal dava para comprar pão, mas ele agradeceu imensamente. O sinal abriu novamente e ele voltou para a proteção de sua sombra.
            Olhou para a bolsa que tinha amarrada em torno da cintura, onde guardava o dinheiro. Aquele não tinha, definitivamente, sido seu dia de sorte. Iria tentar mais uma última vez e iria para casa. Talvez no dia seguinte alguém, motivado por um sentimento de misericórdia, prestaria atenção a sua habilidade no jogo de malabarismo com bolas e lhe recompensasse com algumas moedas ou talvez com alguma nota.
            Quando o sinal fechou para os carros, realizou o mesmo ritual de sempre. Cumprimentou os motoristas e começou a jogar as bolas para cima, mas algo dera errado, bateu uma mão na outra, perdeu o tempo e as bolas caíram no chão e rolaram entre os pneus dos carros. Sorriu, sem jeito, pedindo desculpas, e percebeu que dessa vez algumas pessoas o observavam mais atentamente, sorrindo ante a falta de jeito do menino, mas reconhecendo o seu esforço. Alguns abaixaram os vidros e lhe ofereceram como recompensa umas moedas, que ele recebeu de bom grado, e quando o sinal já estava prestes a fechar, quando já estava para sair do meio dos carros, ouviu a buzina de um que estava perto do final da fila. Ele levantou a cabeça e viu que um alguém lhe acenava. Correu até lá, olhando para trás, para o sinal, que já ia ficar verde. Quando chegou, viu que o motorista era um senhor de tez morena e cabelos grisalhos e, no banco de trás, vinha uma menina entretida com um objeto que ele não conseguiu reconhecer. O homem lhe entregou uma nota, algumas moedas e lhe deu algo que ele recebeu sem olhar, pois o sinal abrira. O menino correu para a calçada e voltou para a proteção de sua sombra, guardando o dinheiro dentro de sua bolsa, pensando se valeria a pena tentar mais uma última vez o seu número, mas estava muito cansado e o sol, muito quente. Melhor voltar para casa, pois aquele seu dia não estava sendo dos melhores. Quem sabe o outro teria mais a lhe oferecer do que umas pouquíssimas moedas e três notas de valor baixo.
            Quando já guardava suas coisas numa mochila rasgada, foi que se deu conta daquilo que aquele senhor lhe entregara e ele ainda não tinha atentado para o que era. Um livro! Aquele senhor lhe dera um livro! Durante todo aquele tempo em que pedia dinheiro nas ruas, em que realizava números diversos para chamar a atenção de motoristas, já recebera inúmeras coisas: dinheiro, comida, uma ou outra palavra, mas nunca ninguém lhe dera um livro. Não prestou atenção sequer as cores vibrantes da capa, não o abrira para ver as ilustrações e não chegou sequer a ler seu título, jogou-o dentro da mochila e foi embora pra casa.

Em casa, viu a mãe cansada, pois passara a manhã inteira a lavar e passar roupa; viu os irmãos menores brincando com outros meninos da rua. Jogou a mochila num canto do quarto e se jogou na cama, e só se levantou quando sentiu um vazio do estômago e o ouviu reclamar. Foi até a cozinha e levantou as tampas das panelas só para ver que tinha o mesmo do dia anterior, do anterior do anterior, do anterior do anterior do anterior... Soltou o ar de uma vez, pois esperava que, pelo dinheiro que conseguira em outros dias, pudesse ao menos comer algo diferente e um pouco melhor. Mas era melhor não reclamar, pois pelo menos tinha o que comer, enquanto outros meninos de sua rua nem isso tinham.
            A casa estava em silêncio. Sua mãe estava no quintal, lavando e estendendo roupa, e seus irmãos estavam do lado de fora. Foi para seu quarto e lá ficou olhando para o teto até que pegou no sono.
           
No dia seguinte, acordou com os primeiros raios de sol, tomou um banho fio, comeu um pão com margarina e bebeu um copo de café e se aprontou para sair. Antes de fechar a porta de casa, olhou para os irmãos dormindo e para a mãe, que já estava de pé, trabalhando.
            Quando chegou ao cruzamento, que abriu sua mochila, foi que se deu conta de que o livro ainda estava ali. Soltou todo o ar dos pulmões de uma vez, aborrecido, pois havia trazido aquele peso à toa. Mais uma vez, não reparou naquele objeto, pegou as bolas e esperou que o sinal fechasse para passagem de carros.
            Aquele dia foi bem melhor do que o anterior. Não deixou as bolas caírem nenhuma vez e recebeu muitas moedas, tanto que já pensava em ir pra casa mais cedo e passar antes no mercadinho do bairro para comprar algo diferente para almoçar, e quando já se preparava para ir embora, que abriu a mochila para guardar as bolas, atentou para o livro que estava ali dentro. Retirou-o da bolsa e prestou atenção pela primeira vez nele. Passou as páginas lentamente reparando nas ilustrações, mas não tentou lê-lo. Ficou tão entretido no colorido, imaginando a história que havia por trás de cada uma, no mistério que aquelas letras impressas guardavam, ansiando para serem descobertos, que nem se deu conta que um carro buzinava freneticamente tentando lhe chamar a atenção. Só quando levantou a cabeça foi que viu que uma mulher a lhe acenar, chamando-o. Ele, com o livro na mão, correu até ela, que sorridente, impressionada por ver um menino numa esquina, debaixo do sol, com um livro na mão, pegou um livro que trazia no banco de trás do carro e estendeu para ele. Junto com o livro ela lhe deu umas moedas, que ele recebeu de bom grado.
            O sinal então abriu e a mulher lhe sorriu abertamente antes de engatar a primeira marcha e seguir para seu compromisso, não sem antes lhe desejar uma boa leitura. O menino pegou os dois livros, guardou-os cuidadosamente na mochila e foi para casa.

Tomado por um estranho sentimento que não sentia há tempos, não saiu de casa no dia seguinte. Quando sua mãe lhe perguntou se estava se sentindo bem, ele apenas sorriu e disse que sim. Ela foi lavar roupa e ele foi para o quarto, onde tinha deixado sua mochila. Abriu-a delicadamente e de lá retirou o primeiro livro. Mesmo balbuciando, pois seu domínio de leitura era precário, conseguiu ler o título do livro, as primeiras palavras e frases, e logo se viu imergido naquela história fantástica. Quando o fechou, que olhou ao redor de si, viu que tinha muito de diferente-igual ao personagem do livro e sentiu uma imensa gratidão por aquele senhor que lhe dera aquele primeiro livro. Mal tomou novamente fôlego, pegou o segundo livro e o leu de supetão tomado por uma imensa alegria.
            Aquelas leituras, aquele momento em que esteve a sós consigo mesmo e com todo aquele mundo de personagens, trouxe consigo um sentimento de liberdade que jazia esquecido no peito do menino.
            Saiu de casa às pressas, pegou o primeiro ônibus que viu e chegou ao cruzamento onde ficava todos os dias sem fôlego, mas em êxtase. Naquele dia não fez uma única vez seu número de atirar bolas para o ar. Ficou o tempo todo com o olho nos carros para ver se reconhecia aquele carro cujo motorista lhe abrira a janela há dois dias e lhe entregara um livro que ele não prestara atenção, mas que só naquela manhã ele tinha notado o seu valor. Ficou olhando para todas as janelas para ver se via novamente aquela mulher de sorriso tão aberto
            Não viu nenhum dos carros, não encontrou nenhum daqueles olhares que desejava reencontrar, mas não ficou triste. Voltou para casa estranhamente pensativo. Chegando lá, viu que sua mãe tinha preparado algo especial para o almoço, e só então se deu conta de que dia era aquele: seu aniversário! E ele sequer tinha se dado conta.
            Recebeu das mãos da mãe um embrulho, que ele prontamente rasgou e viu uma mochila e alguns cadernos. Agradeceu imensamente os presentes e a abraçou.

Não foi para aquele cruzamento esperar que o sinal fechasse no dia seguinte, no outro e no outro, mas toda manhã saía de casa nas primeiras horas da manhã, como sempre fazia, mas com destino à escola. Sentia uma imensa alegria ao ouvir o sinal sonoro indicando o início das aulas e uma leve tristeza quando soava o do fim.
            Um dia sua aula havia terminado mais cedo e foi caminhando em direção ao ponto de ônibus. Passou naquele cruzamento tão seu conhecido quando viu um carro parado ao final da fila. O motorista o reconheceu e buzinou para lhe chamar a atenção. O menino abriu o sorriso e acenou, agradecendo. O sinal abriu o homem seguiu seu trajeto enquanto o menino continuou caminhando pelas calçadas, com a alma leve, com um pensamento vagando livremente. Seguia em silêncio, por mais que tudo ao seu redor fosse barulho, e ao atravessar uma rua, ouviu o barulho de um buzina. Olhou para o lado e viu aquela mulher sorridente e lhe acenar. Ele retribuiu seu sorriso e colocou a mão sobre o peito, como que para indicar o nome da escola, e ela acenou positivamente.
            Aqueles encontros, naquele dia, talvez tivessem sido mero acaso. Talvez aquelas duas pessoas se conhecessem, talvez não, mas fato é que ambos foram providenciais na vida daquele menino. Aqueles atos, simples, abriram os olhos e deram uma outra perspectiva de vida àquele pequeno malabarista, lhe deram uma outra possibilidade de crescimento na vida, e a forma que ele encontrou para expressar sua gratidão foi de reler aqueles livros vezes sem conta, em especial no dia de seu aniversário.
           
Mesmo já tendo passado tantos anos, mesmo ele já sendo, agora, um adulto, aposentado, ele continuava a ler aqueles livros infantis, e quando se deu conta de quão egoísta era, pegou-os, guardou-os dentro de uma mochila e saiu de casa. Dirigiu por ruas desconhecidas, passou por inúmeros cruzamentos até chegar àquele tão familiar, que mesmo tendo mudado tudo ao redor, continuava estranhamente familiar. Quando o sinal fechou, viu um menino se dirigir até o centro da faixa de pedestre e começar a atirar as bolas para cima. Quando ele terminou, ele sorriu, buzinou, chamando a atenção do menino, abriu o vidro do carro e lhe entregou a mochila onde estavam guardados os bens mais preciosos que alguém havia lhe dado naquela esquina. O menino agradeceu, mas quem agradeceu mais ainda foi o homem que um dia fora um menino igual ele, no mesmo sinal, fazendo as mesmas coisas, ganhando os mesmos trocados, e que agora estavam intrinsecamente unidos pelos mesmos livros.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Por que literatura?



Todos os dias quando acordo, eu fico a me perguntar “por que literatura?”. Eu poderia ter escolhido me dedicar, por exemplo, à medicina, assim passando a conhecer o corpo humano a fundo; ou poderia ter escolhido o direito, para entender o homem em sociedade. Escolhido a literatura, pois só ela é capaz de possibilitar o conhecimento não do corpo, mas sua alma, ele nos apresenta o homem não em sociedade, mas o homem consigo mesmo. Mas se engana quem pensa que a literatura é só isso. A literatura tem inúmeras serventias, dependendo de como se olha para o livro e de seu estado de espírito. Podemos encontrar, sim, um elaborado e complexo sistema filosófico, podemos encontrar uma visão revolucionário do homem pelo homem ou do homem em sociedade, mas podemos, por vezes, simplesmente nos deleitar com um livro pelo livro, experimentando momentos de um imensurável prazer no ato da leitura. A leitura pode nos levar a mil e um lugares sem precisar nos tirar do lugar.
                Todas as vezes que pego um livro, eu me pergunto o que posso vir a encontrar entre suas páginas, entre um parágrafo e outro, eu me pergunto se tal obra é atual, por exemplo. A descoberta é sempre única e o livro é sempre atual. O que falar, por exemplo, de um livro como os de Homero, atuais, que inspiraram termos de medicina (tendão de Aquiles) ou informática (o vírus de computador chamado “cavalo de troia”), que, mesmo numa conversa informal entre amigos, sempre, sempre tem um que fala que recebeu um “presente grego”, se referente ao presente mais astuto da história e da literatura mundial. Não só Homero, mas todos os gregos antigos, mesmo sua civilização tendo vivido seu auge há quase três mil anos continuam atuais, sendo constantemente revisitados em todas as artes, como cinema, música, artes plásticas e literatura, mas também no nosso dia-a-dia, no nosso imaginário, sendo mais presentes em nossa vida do que a gente é capaz de se dar conta. Mas não só Homero e os gregos são atuais, são importantes. O que podemos falar, por exemplo, de Dante, cuja criação transcende ao literário e artístico, tendo influenciado fortemente nossas crenças, tendo mesmo moldado o pensamento de Céu e Inferno de nossa sociedade ocidental, sejamos nós cristãos ou não? O que falar de Dom Quixote, que é, na minha opinião, o personagem que melhor sintetiza o homem moderno? E de Shakespeare, um dos maiores escritores de todos os tempos, tido como um dos principais cânones da literatura ocidental?
                A literatura é tão fantástica e atual que há personagens/criações, que se tornam maiores que seus escritores/criadores, chegando mesmo a ofuscá-los! O exemplo maior disso é quando falamos no nome Conan Doyle. Quantos conhecem esse nome assim que o falamos? Mas todos conhecem o nome Sherlock Holmes! O maior detetive do mundo nós reconhecemos imediatamente, sabemos citar suas frases, sabemos falar de como resolveu alguns notórios crimes, admiramos o seu raciocínio lógico, etc., a ponto de acreditarmos em sua existência (“como assim, ‘sua existência’?”, sempre tem alguém que fala! “Sherlock Holmes não existiu?”, ela sempre pergunta). O caso Doyle-Holmes é, talvez, o mais conhecido de todos nesse aspecto, mas há muitos outros, de personagens que são tão fortes e marcantes na história que sua existência ultrapassa os limites e páginas do livro em que são narradas as suas proezas.
                A literatura, além de ser fantástica em vários aspectos, é visionária e influencia inúmeras áreas do conhecimento. Para percebermos e ter uma real noção disso basta que vejamos e estudemos um pouco de Dostoievski, cuja obra era adorada e chegou, mesmo, a influencia o filósofo Nietzsche e teve um papel relevante nos estudos e desenvolvimento da teoria da psicanálise de Freud. Para vermos um aspecto visionário e crítico, por exemplo, da literatura, basta lermos os dois principais e mais conhecidos livros de Orwell. Temos a literatura crítica, aquela que denuncia a hipocrisia da sociedade e dos tipos humanos que a compõe, como no caso de obras como as de Flaubert, Tolstoi, Zola, Victor Hugo, entre outros. Além disso, a literatura é resgate e retrato da história e da vida das pessoas, independente de onde e em que época vivem, e exemplos disso estão na obra de Graciliano Ramos, que foi o autor brasileiro que melhor retratou a dura realidade e vida do sofrido povo nordestino, daquele povo que vive nas mais áridas regiões assoladas pela seca de nosso país. Percebemos isso também na leitura de Charles Dickens, que melhor do que ninguém retratou a dura vida das pessoas nas cidades de seu tempo.
                Temos a literatura fantástica, aquela que nos faz sonhar, que nos cativa e nos enfeitiça, como a de Gabriel Garcia Marquez; temos aquela poética, lírica e delicada ao extremo, como a de Kawabata; temos aquela que nos desafia e nos faz ser como o detetive responsável pela solução de determinado crime, como a de Agatha Christie; temos aquela que nos deleita com a plasticidade da linguagem, como a de Mia Couto; temos até aquela que nos causa calafrios, aquela que nos dá medo de pegar o livro à noite, como as de Stephen King, Bram Stocker, Lovecraft ou Allan Poe.
                A literatura não é só umas duas dúzias de nomes e de obras, literatura é um número infinito de autores, obras, personagens e universos mil que estão bem ali, ao nosso alcance, para serem descobertos, para nos convidar a entrar e caminhar num universo fantástico, que pode ser um descrito nas ruas de nossa cidade, na Paris, Londres ou Moscou do século XIX, em Narnia, na Terra Média, na Lua, no fundo do oceano ou seja lá em que local ou tempo for... Em se tratando de literatura, se pode tudo!
                Nas engana-se quem pensa que a literatura só acontece “lá fora”. Temos, aqui, em nosso país, autores extraordinários que nos fazem bater no peito e ter orgulho de ter nascido e de viver nas mesmas ruas, bairros, cidades ou apenas no país em que viveram Machado de Assis (o maior escritor brasileiro de todos os tempos!), Guimarães Rosa, Álvares de Azevedo, Monteiro Lobato, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, José de Alencar, Chico Buarque, Olavo Bilac, Augusto dos Anjos, Lima Barreto, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, entre tantos e tantos e tantos outros... E ainda tem os que não são brasileiros, mas são tão próximos, são tão irmãos, que os lemos como se o fossem, como os casos de Fernando Pessoa, Camões, Eça de Queiroz e Saramago.
                A literatura faz tanto parte de nossa vida que a gente nem mesmo se dá conta. Ela está em mil e um filmes que assistimos (repare na quantidade de filmes adaptados ou inspirados na história de amor, uma das mais famosas do mundo, de Romeu e Julieta), seja ele mais cult e intelectual, seja ele um voltado para o entretenimento, aventura, fantasia, suspense ou mistério (vide os baseados nas obras de Tolkien, O senhor dos anéis e O Hobbit, olhe os fantásticos filmes baseados na série de livros de Harry Potter), temos os seriados que amamos acompanhar episódio a episódio (como o Game of Thrones, baseado na obra de George R. R. Martin). Está, também, presente e inspirando as mais diversas artes.
                Quando eu paro e penso nisso tudo, na importância que a literatura tem para a nossa história, no quão presente está em nossa vida, que me dou conta do que já li e do que ainda tenho para ler e descobrir e que me aproximo de uma resposta que me seja realmente satisfatória para a pergunta que sempre me faço: “por que (e para quê) literatura?”

domingo, 3 de maio de 2015

Foi num fim de tarde...

Era fim de tarde e a anciã estava sentada, como sempre fazia àquela hora, vendo o pôr do sol. Sentada em sua cadeira de balanço no canto mais afastado da varanda de sua casa, ela, enquanto contemplava tão raro-comum momento, olhando ao longe, revivia os momentos passados de uma simples felicidade.
O pôr do sol, para ela, era a hora em que tudo acontecia. Foi num fim de tarde, quando ainda era uma adolescente, que vira o homem de sua vida pela primeira vez, e que só vários meses após aquele primeiro encontro, no exato instante em que o sol de deitava no horizonte, que eles se beijaram pela primeira vez. Foi num fim de tarde em que o sol demorava a se pôr, como que para contemplar a felicidade dela, que se casou, e nove meses depois, quando o sol se pôs, que deu a luz ao primeiro filho, cuja primeira visão foi a da luz do sol de fim de tarde que entrava pela janela entreaberta.
Teve vários filhos, todos nascidos à mesma hora, que levava, quando crianças, para brincar à sombra de uma árvore, para sentirem a brisa vespertina que soprava vinda do oceano e para, no exato instante em que o sol se punha, ficarem em silêncio só pelo prazer de verem o sol fechar os olhos lentamente no horizonte.
Era sempre ao final de cada tarde que ela se sentava para ver o pôr do sol enquanto esperava o marido chegar do trabalho, sempre trazendo presentes para ela e para as crianças, e foi num dia, no único dia naqueles longos anos de felicidade, em que se atrasou, chegando no início da noite, que trouxe consigo a notícia de que estava doente. Os dois choraram juntos, e prometeram um para o outro lutar juntos até o fim, e nunca deixarem um ao outro a sós, não importa o que acontecesse.
Lutaram, choraram, sorriram e tiveram esperanças, e foi num dia, num fim de tarde, em que tinham esquecido de por que um dia estiveram tristes, que ele se foi, junto com o sol que fechava os olhos para dar lugar a noite. Foi nessa noite de ventos frios em que a nuvem encobriu a lua e as estrelas, que ela chorou sozinha e que soube que nunca estaria a sós, pois ele estaria para sempre com ela e viria visitá-la ao final de cada tarde, e ficariam calados, de mãos dadas, vendo o sol se pôr.
Ele foi enterrado, ao final da tarde seguinte, embaixo de uma árvore na parte alta do cemitério, num pequeno morro, para que pudesse contemplar, todo dia, o espetáculo que a vida oferecia diariamente a todos que tinham sensibilidade para ver o momento.
Ela voltou calada durante todo o trajeto do cemitério até sua casa, onde se trancou no quarto por vários dias, só abrindo a janela para ficar junto e segurar a mão de seu marido enquanto contemplava o pôr do sol.
Foi num fim de tarde que recebeu a notícia do filho dizendo que ela ia ser avó, de um outro que tinha arranjado um emprego em outra cidade e de um terceiro que tinha passado no vestibular.
Foi enquanto o sol se punha que uma filha, que ainda muito jovem tinha saído de casa para ganhar a vida, trabalhando numa cidade distante, voltou para que ela conhecesse sua primeira neta. Ela sentou a criança em seu colo, que imediatamente olhou ao longe, para onde o sol se punha, e ficaram as três, mãe, filha e neta, a contemplar a beleza do instante.
Enquanto contemplava o pôr do sol foi que recebeu a notícia da morte trágica de um dos filhos, que ficou sabendo da doença de um irmão e que chorou de saudade dos tempos e das pessoas amadas.
Era em cada fim de tarde, de alegrias e tristezas, de lágrimas e sorrisos, que ela se sentia em paz. Era o silêncio do canto dos pássaros de cada fim de tarde que a reconfortava, que fazia de cada momento eterno, que fazia a vida valer a pena, que ela sentia como que o tempo parar ou passar lentamente, como a luz do sol que vai se apagando pouco a pouco.

Foi naquele fim de tarde em que contemplava o sol como da primeira vez, que viu seu marido se aproximar chorando, e ela o recebeu sorrindo, de braços abertos. Os dois ficaram lado a lado: ela em sua cadeira de balanço e ele de pé, que contemplaram o pôr do sol pela última vez que, quando o sol fechou seus olhos naquele fim de dia, ela também fechou os seus, e ficou para sempre com aquela luz dourada em seus olhos.