domingo, 11 de janeiro de 2015

De palavras e sedução

Ela caminhava deixando que seus passos a guiassem para um lugar em que pudesse estar bem longe de si, mas por maior que fosse a distância que seus pés a levassem, lá estava ela mesma, diante de seus olhos, seja através de um reflexo numa superfície espalhada, seja na própria sombra a seus pés, que não a deixavam esquecer de si e nem do que lhe acontecera. Procurava deixar que os pensamentos voassem para não se lembrar de nada, mas os fatos ainda eram muito recentes, e a memória teimava em lhe fazer lembrar aquilo que queria esquecer. Tapava os ouvidos para deixar que o silêncio a dominasse, mas ainda assim ouvia o eco de uma voz distante que vinha se aproximando até poder ser ouvido como um sussurro ao pé de seu ouvido, o eco da voz daquele que a seduzira, e ela, ingênua, pura como era, se deixara levar por aqueles sonhos, se deixara ludibriar por aquelas melífluas palavras proferidas por aquele que despertara o seu amor, mas que nunca tivera a real intenção de amá-la.
            Seus pés, já cansados, se negavam a dar mais um passo a mais além, e ela se deixou quedar de joelhos em frente ao mar, onde as ondas quebravam bem perto, diante de seus olhos, fazendo aquele barulho sedutor, como que a chamando. Deixou-se tomar pela solidão e que os barulhos e sussurros do mar sobrepujassem os sons que ouvia dentro de sua cabeça.
            Sem que percebesse, uma única e solitária lágrima escapou de seu olho e escorreu pelo rosto, deixando um profundo sulco em sua pele. Ela então sentiu a umidade deixada pela lágrima nos caminhos que percorrera e se lembrou das dolorosas lágrimas derramadas tão recentemente. Lembrou-se de cada momento, de cada palavra, da maneira como se sentira ludibriada, de como fora seduzida e levada a entregar àquele homem o que tinha de mais precioso.
            As dores que sentia no corpo não significavam nada comparadas às dores que sentia latejar no fundo da alma. Sentia-se perdida, sem saber o que fazer para afastar as lembranças, sem saber como diminuir a dor que lhe consumia pouco a pouco e ameaçava lhe tomar por inteiro.
            Fechava os olhos e tentava se concentrar apenas no barulho das ondas quebrando bem perto, lhe chamando para um mergulho, tentando lhe seduzir, esticando seus dedos para tocá-la, mas tudo que ouvia era a voz dele, as mentiras que ele desfiava, com as quais a envolvida sem que ela se desse conta. Lembrou-se que havia resistido além da conta, mas aquelas palavras sussurradas tinham um poder muito grande, e lembrando disso teve a certeza de que a palavra gritada é a mais fraca, de que a palavra falada baixinho, quando proferida enquanto se olha nos olhos é a que tem a verdadeira força.
            Com seus olhos belos e sua voz sibilante, ele conseguira arrancar dela um sorriso, depois outro e mais outro, até que ela, já sem defesas, acabou se entregando, não aos poucos, mas sem reservas. Amou perdidamente, mas em momento algum percebeu que ele só a amava da boca pra fora, que as palavras dele eram vazias de sentimento.
            Foi, para ela, um amor platônico se realizando. O amor platônico, o sonho, mostrou-se em sua verdadeira face quando ele a procurou e, com a mesma voz sussurrada, com o mesmo olhar sedutor, mas desta vez sem o brilho, e com uma fingida dor e um leve sorriso imperceptível aos olhos, disse que não podiam mais ficar juntos, que não podiam mais se ver e disse uma poção de palavras vazias que ela não pôde ouvir, pois a dor foi tão intensa que todos os seus sentidos ficaram como que anestesiados: não via, não ouvia e não sentia cheiro, mas sentiu o abraço frio que ele lhe deu e sentiu o gosto amargo na boca.
            E agora estava ali, sozinha, chorando, e a cada lágrima que escapava de seus olhos eram como se sentisse uma punhalada na alma. Deixou que a dor e as lágrimas lhe lavassem, lhe purificassem e lhe apaziguassem, e quando se sentiu reconfortada, levantou-se lentamente e entrou no mar. Lavou o rosto, deixando que o sal das lágrimas se misturasse ao sal da água do mar. Respirou fundo e olhou para o céu e para o sol, que lhe sorria lá do alto. Abriu os braços e deixou que o calor do sol aquecesse o frio que sentia na alma e assim realizasse o resgate de sua vontade de voltar a sorrir.
             Saiu do mar com o corpo e alma lavada. Seu corpo ainda estava dolorido, sim, mas na alma o processo de cicatrização daquela ferida já tinha sido iniciado, e em muito breve tudo que ficaria seriam meras lembranças e uma pequena marca, como de uma ferida que criou uma casca que caiu e que tal como acontece com os machucados de uma criança, logo foi esquecida.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Retrospectiva 2014 de leitura

Nunca um ano foi tão recheado de leituras de tão variados gêneros quanto o foi o de 2014 para mim. Para constatar este fato, bastou eu dar uma olhada para os livros que iniciei e o com qual finalizei o meu ano de leitura: Oblomóv, de Ivan Goncharov (como virou tradição minha, abrindo o ano de leituras com um grande clássico da literatura mundial) e Calvin & Haroldo – criaturas bizarras de outro planeta!, respectivamente. Entre um e outro, li clássicos da literatura mundial, best-sellers, quadrinhos, livros de filosofia, de crítica literária, de teoria literária, de história da literatura, etc. Li russos, brasileiros, japoneses, norte-americanos, gregos, contemporâneos e clássicos. Com uns, eu me identifiquei enormemente, devorando-os, saboreando palavra por palavra, mas também de decepcionei. Descobri obras extraordinárias, que eu me pergunto até hoje como pude não tê-las lido antes, e outras eu poderia ter ficado sem ler...
            Foram, no total, neste ano de 2014, 46 livros lidos, sendo que destes, um foi uma releitura, As Vinhas da Ira, de John Steinbeck, o meu livro e meu autor favorito da literatura norte-americana. Desfrutei e aprendi muito lendo filosofia, crítica e teoria literária, e dos livros desses gêneros, o que mais mexeu comigo, o que me foi mais impactante foi o Sobre o ofício do escritor, de Schopenhauer. Livro curtinho, que “dá para ser lido de um fôlego só”, como se diz popularmente, mas trata-se de uma obra tão crítica, tão pesada, tão edificante e reflexiva, que eu passei semanas para finalizá-lo. Outro gênero de leitura que muito contribuiu para a minha formação, que muito me fez refletir, e que de quebra me arrancou gargalhadas, foram os quadrinhos, com destaque para os três de Calvin & Haroldo que li ao longo do ano, mas não foram só quadrinhos engraçados e lúdicos que li neste ano. Li também a versão adaptada de Guerra e Paz, do qual não gostei nenhum pouco (está uma adaptação muito fraca, completamente superficial), e Sandman – os caçadores de sonhos, do Neil Gaiman, que é uma das mais delicadas e belas histórias de amor que já li em minha vida.
            Ponto negativo está no fato de eu nunca ter finalizado um ano me sentindo tão frustrado. Não falo da quantidade de livros lidos (um pouco abaixo dos anos anteriores), mas dos livros que não consegui ler por motivos diversos (entre eles, o maior é a falta de tempo). Foram tantos os livros não lidos que ficaria impossível listar todos, mas não poderia deixar de citar O ladrão do tempo, do John Boyne, os dois últimos da Jody Picoult, O Homem que amava os cachorros (que prometi para mim mesmo, e para a minha amiga Nicolle, que seria o segundo livro a ser lido em 2015), No silêncio entre dois suspiros, Doutor Sono, os novos livros de Amos Oz e de Ian McEwan, etc., etc. e etc.
            Outro fator que me chamou a atenção (que não sei se é algo positivo ou não) é o fato de, em 2014, eu não ter tido uma “unanimidade” de melhor livro do ano. Se em 2013 eu tive O Arroz de Palma a receber os louros de “melhor livro”, em 2014 eu não tive, em minhas leituras, uma obra que tenha se destacado tanto assim. Li o segundo livro do autor, Doce Gabito, que é MUITO BOM, em busca daquele que seria “o livro do ano”, e o livro é, na minha opinião, mais maduro do que o anterior, que tem um andamento narrativo mais bem definido, com mais personagens mais bem desenvolvidos, mas que não é tão surpreendente quanto O Arroz... e acabou ficando o Gabito entre os cinco melhores livros de 2014, mas o pódio ficou com O Melhor do Teatro Grego, publicação da editora Jorge Zahar que consiste numa reunião de quatro peças significativas do teatro grego; Marcoré, de Antônio Olavo Pereira, obra de literatura nacional extraordinária; e Sobre o ofício do escritor, de Schopenhauer. Para fechar o meu “top 5” de 2014, ocupou o lugar o livro O último dia de um condenado, de Victor Hugo. Merecem menção os livros Misery, de Stephen King, que é fodástico (fico me perguntando como pode um escritor prender e deixar o leitor tão tenso numa história que contém basicamente DOIS personagens e UM cenário!), o A Estrela de Prata, de Jeannette Walls, os dois de Sue Monk Kidd e o magnificamente bem escrito, reflexivo, poético e melancólico Quarto de Hotel, de meu grande amigo Adauto Carvalho.
            Li alguns livros bons, mas dos quais esperava bem mais, com destaque para Os Demônios, de Dostoievski, que, dos romances do escritor russo que eu li, foi o menos empolgante e intenso e Vinte mil léguas Submarinas, que é muito extenso e cansativo, repleto de detalhes e descrições que atestam a genialidade e conhecimento técnico do escritor, mas que, como foi o caso de excesso, acabou “travando a leitura”. Outros livros, de outros gêneros, me fizeram “salivar” quando li as sinopses e comentários, mas que me deixaram um tanto quanto decepcionados quando (e enquanto) os li, como O Fio da vida, que tem um início esplendoroso, mas que se perde um pouco, que passa a “desempolgar” da  metade para o fim, O trem dos órfãos, que tem duas personagens interessantes, com boas histórias, mas que poderiam ter se cruzado (as histórias), o que acaba não acontecendo, o Constelação de fenômenos vitais, e o Flor Negra, que tem um pano de fundo histórico interessante, mas como literatura, deixou um pouco a desejar. Mas estas “decepções” fazem parte de nossa vida como leitores. Por vezes o problema é o momento, que não é propício para a leitura daquele livro em específico, e em outras ocasiões é a expectativa que depositamos naquele livro...
            Este ano, se eu fosse defini-lo em uma palavra, eu o faria com a palavra Grego. Isso mesmo: grego! Foi 2014 o ano da leitura dos gregos para mim, como outros anos foram o ano dos russos, o ano dos franceses, o ano dos brasileiros. Li, além das tragédias (de Ésquilo, Sófocles, Eurípides e Aristófanes), o Fábulas, de Esopo, e o Poética, de Aristófanes, livros que me fizeram perceber ainda mais o quão somos filhos e herdeiros dos gregos, o quanto aquela civilização lançou bases para a nossa filosofia, cultura, literatura e pensamento e o quanto continuam atuais.
            Foi, também, 2014, um ano em dediquei um especial espaço de meu tempo para as leitura de ordem técnica e acadêmica. Além dos já mencionados Schopenhauer e Aristóteles, li Bakhtin, Auerbach, Alfredo Bosi, Tânia Carvalhal e Douglas Tufano.

            O que me aguarda o ano de leitura de 2015 eu nada além do fato de se iniciar no dia 1º de janeiro, com a leitura de um grande clássico da literatura mundial, um russo, pra variar, e se encerrará em 31 de dezembro, com algum livro ou autor especial (para “fechar o ano com chave de ouro”). Mas de uma coisa eu tenho certeza: independente de quantos forem os livros, serão edificantes e eu os saborearei palavra por palavra de suas histórias, me identificarei com seus personagens e perderei noites de sono (seja dormindo mais tarde ou acordando mais cedo) de tão instigado que ficarei com as histórias.

domingo, 30 de novembro de 2014

Nós e nossas leituras

Desde que nascemos, somos bombardeados por informações mil, por influências mil que farão parte e nos acompanharão, lado a lado, durante aquele instante ou fase nossa vida, e que, algumas, até certo grau, far-se-ão tão imprescindíveis, deixarão marcas tão profundas que nos acompanharão até o fim de nossos dias. Fazemos escolhas, selecionamos e até deixamos que um algo nos marque mais do que um outro, mas há casos que algo nos marca tal que nem nos damos conta, naquele momento, de sua importância e até onde vai sua influência.
            Quando crianças, as nossas escolhas são fáceis. É algo entre o personagem favorito, o ídolo do momento ou que canal de televisão e desenho assistir, e essas escolhas nos acompanharão pelo resto da vida, embora só consigamos nos dar conta bem na frente, quando nos bate aquela “seção nostalgia” e percebemos o quanto tal personagem nos marcou e temos dele, o quanto rimos e nos divertimos com tal desenho, etc. Na adolescência, já temos, talvez, que ser mais criteriosos e menos impulsivos como quando criança, pois nessa fase é que começamos a desenvolver o nosso senso crítico e começamos a ter a nossa própria opinião/posição diante daquilo que temos que escolher. Continuamos a ter os ídolos, sim, como em tempos passados, mas eles adquirem outro status e importância em nossa vida. Fazemos nossas escolhas em cima de critérios rígidos que desenvolvemos (se bem que por vezes nem tão rígidos assim). Escolhemos as nossas bandas favoritas, as músicas favoritas, e, em determinada fase da adolescência, devemos fazer uma opção crucial, que pode fazer com que a nossa vida tome um definitivo rumo, que é o de que curso fazer e que carreira seguir. Também nesta fase de nossa vida é que, por sermos mais criteriosos, passamos a sentir mais as influências de nossas escolhas e das experiências marcantes que vivemos. Quando adultos, as escolhas tornam-se ainda mais difíceis, pois entra, nessa fase, o quesito responsabilidade. As influências que sofremos, embora saibamos lidar com elas (na maioria das vezes), também são muito fortes.
            Algo de que muitas vezes não nos damos conta (por motivos diversos), e que nos influenciaram enormemente em nossa trajetória de vida, são as leituras que fizemos ao longo dos anos, de quais os livros que mais nos marcaram e quais colocamos como mais importantes para a nossa formação.
            Na infância, embora muitas vezes sequer nos lembremos, devemos fazer os devidos agradecimentos às leituras dos quadrinhos, que, muitas vezes, representam uma abertura de portas para o hábito da leitura. Personagens como os da Turma da Mônica nos deixam, até hoje, mesmo já adultos formados, fascinados e despertam em nós o gosto dos tempos passados. Além dos quadrinhos, devemos prestar homenagens aos autores formadores dessa fase, como Ziraldo, Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Monteiro Lobato, entre outros tantos, que acompanharam todas as fases do nosso letramento e que foram, em muitos casos, os primeiros livros que tivemos e que tivemos o prazer de ter lido. Lemos coleções diversas, acompanhamos os personagens e nos deixamos ser guiamos pelas gentis mãos de um habilidoso e (por vezes) fantasioso escritor.
            Na fase da adolescência, os livros e leituras adquirem um outro papel e são outras as motivações que nos levam a escolhê-los. É nessa fase que muitos de nós começamos a desenvolver efetivamente o hábito da leitura, que começamos a desenvolver a disciplina necessária para o cultivo sobre como a literatura irá semear a nossa vida e nossa personalidade. Continuamos, muitas vezes, a ler quadrinhos, mas muitas vezes negamos os que temos como infantis (afinal de contas, nessa fase de nossa vida tendemos a ser suicidas, negando muito do que diz respeito aos personagens e hábitos de certas leituras desenvolvidas na infância). Lemos os super-heróis das revistas da Marvel e DC. No que se refere aos livros, começamos a nos identificar com determinados gêneros e autores. Tomamos conhecimento, num primeiro momento, de alguns clássicos, por vezes em versões adaptadas para a linguagem adequada a tal fase da vida, uma vez que os textos na íntegra, no original, nos parecem tão pouco atrativos, nos aventuramos junto com determinados personagens, como Sherlock Holmes, que, além de ajudar a desenvolver o hábito da leitura, aguça o nosso raciocínio. Também fazem parte dessa fase a leitura de “livros do momento”, que lemos por impulso e influência de outros colegas de leitura, escola ou familiares. Quando adolescentes numa fase mais avançada, já com o hábito da leitura solidificado, começamos fazer as nossas próprias escolhas ao iniciar a leitura de livros de cunho fantasioso, como as de Tolkien, ficamos com o “cabelo em pé” com as de terror do Stephen King, aprendemos com as filosóficas e lúdicas obras de Jostein Gaarder. Começamos, já, em determinada fase da adolescência, a ler obras de maior “peso”, uma espécie de primeiros clássicos que lemos na íntegra, e a partir desse momento nossa vida, como leitores, começa a mudar profundamente.
            Na fase adulta, por vezes, já com a leitura fazendo parte de nosso dia a dia, nos deixamos levar e desafiar pelas mais diversas leituras. Por vezes, quando cansados, para não ficar sem ler nada, pois isso é algo que não conseguimos, nos aventuramos numa leitura de entretenimento, nas páginas de um bom (e bem selecionado) best-seller, que irá nos “arejar a mente”, que irá nos distrair e nos envolver com uma cativante e empolgante história. Deixamo-nos, também, envolver com a leitura de romances históricos, nos vemos “com a boca seca” com as histórias de suspense e mistério de Allan Poe, nos aventuramos nas narrativas detetivescas de Conan Doyle e Agatha Christie, lemos crônicas diversas, romances que nos tocam e marcam, mas é nos edificantes clássicos que nos deleitamos e nos sentimos, como leitores, mais completos.
            É na fase adulta que realmente tomamos conhecimento das chamadas altas literaturas e deixamos que elas lancem profundas marcas na maneira como passaremos a compreender o mundo. Lemos os essenciais gregos através dos épicos de Homero e sentimo-nos tragados pelas obras do teatro, escritas há tantos séculos, mas que influenciaram fortemente a nossa cultura e que continuam, mesmo (devido) com o passar dos anos, tão atuais. Nos deparamos com os italianos como Virgílio e Dante, este tão importante para não só a literatura, mas pelo forjamento de uma ideologia religiosa que prevaleceu durante tantas séculos e que tem forte influência, ainda hoje, no pensamento ocidental. Os ingleses dispensam apresentações e comentários. Afinal de contas, o que falar sobre Shakespeare, Dickens, Jane Austen, as irmãs Brönte (cada uma mais genial do que a outra), Walter Scott, Joyce, Oscar Wilde, Virgínia Woolf, entre tantos outros? Sobre os franceses, quais citar? Dumas, Victor Hugo, Stendhal, Zola, Balzac, Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Rabelaire, etc. fora La Fontaine, Perrault, autores de obras que fazem parte de nosso imaginário. E o que falar de Saint-Exupery, autor de uma obra que é eternamente nova a cada vez que a lemos? Não podemos deixar de mencionar o espanhol Cervantes, o alemão Goethe ou os portugueses Camões, Pessoa, Eça de Queiroz e Saramago. Os norte-americanos, apesar de como nação representarem um império que é com justeza criticado, na literatura nos deram autores formidáveis, principalmente no século XX, como Fitzgerald, Hemingway, Steinbeck e Salinger, foram os contemporâneos Paul Auster e Phillip Roth. E os russos, que marcam profundamente a alma de todos aqueles que se aventuram em suas narrativas densas e marcantes? Puchkin, Gogol, Leskov, Dostoievski, Turguêniev, Tolstoi, Gorki, Tchekhov, Pasternak, Nabokov. Existem tantos outros, de tantas outras nacionalidades, como Kawabata, Gabriel Garcia Marquez, Mia Couto, Jorge Luiz Borges, Kazantzakis... e que brasileiros mencionar? Falamos tantos, elogiamos tanto tantos autores estrangeiros e acabamos por relegar os nossos gênios da literatura. Machado de Assis é o maior deles, fato indiscutível, mas a nossa literatura não se limita só e unicamente a ele. Temos também os formidáveis Gregório de Matos, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Aloisio de Azevedo e os romancista dos movimento romântico brasileiro, temos o “príncipe dos poetas”, Olavo Bilac, temos os fenomenais pré-modernistas como Augusto dos Anjos, Lima Barreto e Monteiro Lobato, temos os modernistas de primeira fase e os geniais poetas e romancistas da segunda, surgidos principalmente a partir da década de 1930, como Carlos Drummond, Cecília Meireles, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado e Érico Veríssimo, há os que começaram a se distanciar do modernismo, representando um novo momento da nossa literatura, como Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, Ariano Suassuna, Nelson Rodrigues, Fernando Sabino, Lygia Fagundes Telles.
Como se vê, somos quase que um quebra-cabeça formado por mil e uma leituras que vamos fazendo, colecionando ao longo de nossa vida, que ora nos influencia mais, ora um pouco menos, mas que foram, todas, essenciais para a nossa formação humanística.
            Algumas pessoas usam o ditado popular “diga-me com quem andas, e te direi quem és”, mas nós, leitores, podemos parafrasear tal pensamento e dizer algo do tipo “diga-me o que lês, e te direi quem és”!

Somos, como seres dotados de consciência e senso crítico, fruto de nossas experiências de vida, e as leituras feitas estão entre as experiências que mais se mostram essenciais na nossa formação humanística, tendo elas sido realizadas lá atrás, como primeiro contato e experiência de leitura, seja via um livro ou revista, seja a leitura que acabamos de finalizar ontem, de um livro escrito na semana passada ou de um cujas palavras foram grafadas numa primeira edição há tantos séculos.

domingo, 16 de novembro de 2014

Escrevezinhar

Escrever é como cozinhar: envolve todo um longo processo, que executamos com imenso carinho, que vai desde a escolha do prato a ser preparado, escolha dos ingrediente ao paciente preparo e arranjo do prato para que seja melhor apreciado e degustado.
            O escritor, assim como o cozinheiro, precisa escolher bem o prato de acordo com a situação e os convidados que vai receber, se bem que de vez em quando, é bem verdade, surgem imprevistos, e é necessário se agir rápido, sem pensar muito. Às vezes o cozinheiro, assim como o escritor, não está muito inspirado, mas cozinhar, assim como escrever, se faz necessário, e ele prepara algo simples, como um feijão com arroz e bife, que vai saciar a fome imediata, mas vai, ao mesmo tempo, deixar nele a impressão de que poderia ter feito algo diferente, algo mais, como ter dado ao texto-prato um toque diferente, como ter posto um tempero capaz de surpreender os degustadores.
            O cozinheiro, assim como o escritor, escolhe bem os ingredientes necessários à preparação do prato-texto. Apalpa, sente a textura, cheira, vê se estão maduros, se estão “no ponto” para o preparo, coloca-os cuidadosamente na sua cestinha de supermercado, depois os passa no caixa e os organiza cuidadosamente numa sacola. Já em casa, quando vai iniciar o preparo do texto-prato, retira, um a um, os ingredientes, na ordem que vai utilizá-los. Descasca cuidadosamente os vegetais-palavras, corta com precisão as carnes, dando ponto finais às frases e vai vendo, pouco a pouco, o seu prato, mesmo ainda cru, tomar forma.
            O escritor, assim como o cozinheiro, não pode ter pressa no cozer de seu prato-texto. Não adianta querer acelerar ou atrasar a comida-texto. Se ele deixar passar do ponto, corre-se o risco do texto queimar, e se o retirar antes da hora, o texto não vai ter apurado devidamente os sabores dos condimentos e corre-se o risco, até, de, na pressa, o ter retirado ainda cru. Há textos-pratos que podem demorar até meses para serem preparados, pois, por vezes, falta um ingrediente específico que só pode ser colhido/encontrado em determinada época do ano e em determinado local. O cozinheiro, assim como o escritor, fica no dilema de seguir ou não no preparo do prato-texto, mas sabendo que ele, quando pronto, valerá a pena, opta por esperar, e enquanto o ingrediente que dará o sabor ao texto-prato não vem, ele seguirá preparando aperitivos, deixando os seus convivas entretidos a saborear pratos diversos, até que Voilà! surge ele, passando pelas portas da cozinha, equilibrando nas mãos uma travessa com tão belo e apetitoso prato, e os convivas, ao verem o esmero com que foi preparado, têm a certeza de que valeu a pena cada segundo daquela espera.
            O cozinheiro, assim como o escritor, é um ansioso, e olha com especial atenção as feições daqueles que provam seu texto-prato, analisando cada reação, de aprovação (ou não!), e só consegue soltar o ar de seus pulmões quando o outro, depois de mastigada a primeira garfada, exprime, com sinceridade, a sua opinião sobre o prato-texto. Se aprovada a comida-história, o escritor-cozinheiro, respira aliviado, satisfeito, mas se não, fica a rememorar cada passo dado no preparo, fica a se perguntar se usou os ingredientes na medida certa, fica sem saber se faltou uma pitada de sal, deixando o texto insosso, ou se colocou uma palavra a mais, fazendo com que o prato tenha passado do ponto, ficando salgado.
            O escritor, assim como o cozinheiro, é um solitário nato. Por vezes até tem uns alguéns por perto, opinando de que deveria escrever sobre isso, preparar um assado de tal maneira, explorar melhor esse personagem, deixar mais tempo a comida no fogo a fim de melhorar apurar os temperos, e essas ajudas são bem-vindas, sim, por mais que ele, por vezes, diga tê-las rejeitado, mas ele se sente, realmente, bem, quando sozinho, quando se sente rei do reino da cozinha ou de seu escritório, onde reina soberano, estando de posse de sua coroa e cetro, papel e caneta ou panelas e facas.

            Ambos, cozinheiro e escritor, são artistas. Um, prepara pratos finos para saciar a fome do corpo do homem, o outro, lapida palavras e as prepara num texto coeso e saboroso para saciar seu intelecto. São ambas as artes quedas quais o homem precisa para sobreviver, mas que precisa aprender a melhor apreciar, comendo devagar, garfada por garfada, lendo devagar, palavra por palavra.

domingo, 12 de outubro de 2014

A lucidez e o fim da inspiração

Não consigo mais escrever. Não sei o que se passa comigo, que fico horas e horas a fio com uma folha de papel em branco e uma caneta em mãos, e, quando me dou conta, vi que os ponteiros do relógio deram uma volta completa e a folha continua ali, em branco, mesmo eu estando de posse de um instrumento capaz de riscá-la por inteiro. Mas não! Eu simplesmente não consegui riscá-la, não consegui empunhar a espada/caneta e, tal qual Dom Quixote, ver, na folha em branco, um dragão e lutar contra ele. Talvez veio a mim o que, felizmente, não chegou (ou chegou muito tarde) ao Cavaleiro da Triste Figura: a lucidez!
            Talvez seja isso mesmo: eu estou lúcido! e, para escrever, se é necessária certa dose de desprendimento, certa inlucidez, certa toque de fantasia, e eu não consigo mais fantasiar. Talvez esteja com a minha fantasia aprisionada ou talvez esteja simplesmente preso por um algo que, mais cedo ou mais tarde, sempre nos alcança e exige de nós mais do que podemos dar: a rotina. A rotina é cruel. Ela aprisiona, toma a nossa inspiração, a nossa disposição (física e mental) e nos rouba inteiramente o nosso precioso tempo. Da rotina ninguém consegue fugir. No máximo a gente a vai enrolando, e ela, esperta como é, acaba se deixando levar. Mas chega uma hora que ela nos pega, nos abraça e diz que dela ninguém escapa! E quando se é realmente pego pela rotina, quando se está em suas mãos, nos tornamos seus escravos e lhe damos tudo que nos é mais precioso, e o maior castigo, justamente por termos tentado nos esconder dela, reside na lucidez. Ela exige que sejamos, sempre, durante as 24 horas do dia, lúcidos. Não nos é permitida sequer devaneio nem quando estamos sonhando. Os sonhos tornam-se verdadeiras projeções de nosso dia a dia, e não é permitido, nem ali, a entrada da fantasia.
            A rotina, portanto, está intrinsecamente relacionada à lucidez, e esta, por sua vez, age como uma carcereira da fantasia, e com isso perde-se a inspiração, seja ela a serviço do que for. O pintor, sem fantasia, sem inspiração, já não consegue mais pintar, e se o tenta, suas pinceladas saem grosseiras, sem cor, sem brilho, como que artificiais. O músico já não mais compõe, e, se tenta, o máximo que consegue extrair dos instrumentos são barulhos idênticos aos das buzinas dos carros e aos dos passos das pessoas correndo apressadas de um lado para o outro. O escritor, como que cego, já não mais vê poesia. Em ambos os casos o que há comum está no fato de que o que antes eram seus instrumentos de trabalho, agora são verdadeiras armas contra e com as quais têm que lutar diariamente em busca da inspiração perdida/aprisionada.
            O artista, seja ele aquele que empunha um pincel, uma caneta ou um instrumento musical, é um não-lúcido nato, é um fantasista, é um alguém que, mesmo quando engolido pela rotina, consegue encontrar um misero segundo, uma brecha no espaço-tempo e fugir, e nessa mera fração de tempo construir um mundo à parte em que segundos são valiosos como uma eternidade.

            Ser artista e viver e ver a sua inspiração limitada/aprisionada é sofrer em silêncio, é engolir o choro a cada vez que tenta produzir e liberar a sua arte e vê que nada sai de suas mãos. Mas ele, mesmo sofrendo, por amar e acreditar naquilo que faz, no poder de sua arte, ainda continua, persistente, a tentar tirar leite de pedra, como se diz popularmente, por mais que a pedra, por vezes, não lhe dê leite, no entanto ele continua a tentar, pois crê que, mais cedo ou mais tarde, irá encontrar uma que lhe dará de bom grado o néctar necessário à vida, à sua arte.