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domingo, 22 de setembro de 2013

Palavras, palavras, palavras...

Eu nunca aprendi a ser direto. Minhas respostas nunca se pautaram em um simples “sim” ou “não”, e se for preciso responder de forma a usar uma única palavra, opto pelo “talvez”, justamente porque esta é uma palavra que exige muitas outras, explicações mil, e aí eu posso me derramar e fazer amplo uso indiscriminado de dezenas, centenas e quiçá milhares de palavras.
Nunca gostei de economizar em palavras, nunca tendo sido eu um exímio mesquinho na linguagem escrita ou falada. As palavras foram feitas para serem usadas amplamente, não economizadas e tomadas em doses homeopáticas. Sempre adorei usar as palavras indiscriminadamente, em me derramar nelas, em passar longos minutos pensando-as, saboreando-as, escolhendo-as tão cuidadosamente, com todo o carinho o amor, só para que elas se encaixem de forma perfeita e precisa na perfeita frase.
Ser direto nas respostas, usar poucas palavras, para mim, tem o sentido de uma reta numa estrada. Retas dão a impressão de pressa, de se querer e precisar chegar logo a algum lugar, de se pisar fundo no acelerador. Eu, ao contrário, prefiro as curvas, gostando de dirigir, de curtir a viagem da língua, de suas paisagens que se descortinam perante nossos olhos, das mil e uma possibilidades que podem surgir a cada quilômetro e metro percorrido.
Cada palavra tem seu sabor, costumo dizer, e o perfeito uso e escolha delas em uma frase, em uma resposta, tem o sabor da perfeita combinação de uma saborosa salada de frutas, enquanto a economia no uso delas, quando não nos damos o simples prazer de escolhê-las e saboreá-las sem pressa, nossas respostas tem o sabor de água, de comida insossa, da total ausência de temperos. Cabe a cada um de nós a escolha de nosso prato linguístico-léxico-gramátical, e o nosso cardápio é o dicionário, cabendo a nós a dupla função de comensal-glutão e o cozinheiro.
Palavras bem colocadas e escolhidas são como chaves-mestras capazes de abrir todas as portas e cadeados. Palavras são capazes de inspirar mil e um sentimentos, de nos arrancar sorrisos e lágrimas, por vezes até os dois juntos. Palavras gritadas nem sempre são ouvidas, e palavras não ditas podem dizer mais do que milhões de palavras vazias. Palavras podem quebrar o mais profundo silêncio, mas também podem silenciar o maior dos barulhos. Palavras são boas, excepcionais, quando ditas bem baixinho, ao pé do ouvido, e também são boas quando gritadas para todo mundo ouvir. Palavras não devem ficar guardadas em nosso peito nem sufocadas em nossa garganta. Palavras gritam e clamam para ser jogadas ao vento, libertadas das amarras com que, por vezes, as prendemos. Pedem para não serem guardadas em nosso peito ou sufocadas em nossa garganta, clamando para serem sussurradas, gritadas, para se verem livres, jogadas ao vento, para ser escritas, imortalizadas, ou faladas, para todo o sempre.

domingo, 12 de dezembro de 2010

as palavras e seus sabores


Cada palavra tem seu sabor. O Amor, por exemplo (ah, o amor! Sempre ele, tão presente, mesmo quando ausente em nossas vidas!), tem um sabor doce e suave, que de tão suave sai por nossa boca e sem que percebamos, sorrimos. Amor é doce como um suave doce inebriante, que preenche nossa boca e nossa alma do mais doce amor.
            Paixão, ao contrário do amor, tem um sabor mais característico e forte, mais intenso. É doce, sim, mas de um doce mais marcante, mais intenso, que gera um vício, que pede sempre mais, que nunca se sacia.
            Infância, para mim, tem sabor de bala de morango, igual àquelas que costumava comprar na mercearia da esquina, mas também pode ter mil e um sabores, todos eles doces.
            Não sei por que, Noite, para mim, sempre teve sabor de papa de chocolate e Dia de manga. Frio tem gosto de sopa e Quente de picolé.
            Mas nem toda palavra é doce. Solidão, por exemplo, tem um sabor amargo, que nos faz sentir um peso no peito, um aperto na garganta, tal qual uma lágrima presa. Solidão fica com o sabor preso em nossa boca, que demora a nos abandonar, por mais que bebamos água para afastá-la.
            Talvez, o gosto de Solidão, só o abandonamos ao provar sabor que tem a palavra Abraço, que tem um gosto forte, aconchegante, como uma xícara de chocolate quente numa noite de inverno.
            Há, também, palavras com o gosto ruim. Ódio, por exemplo, é uma palavra que tem um gosto amargo, que de tão ruim é capaz de, da boca, passar para todo o nosso corpo, como se só em pronunciá-las, tornássemos cheios de ódio, de um amargor que toma toda a nossa alma.
            Inveja tem um gosto que engana. Parece doce, mas de algo doce como um veneno colocado em algo que nos dão para beber. Pouco a pouco, o doce desaparece e fica o do veneno, que contamina nossa alma e não nos deixa mais sentir mais sabor algum, que não o do vício, que não o da inveja.
            Batalha tem sabor de fruta madura, que enfrentou todas as intempéries, lutou, sobreviveu, cresceu e amadureceu. Vitória, então, tem sabor de salada de frutas, saborosa como só ela o é.
            Amizade tem sabor de churrasco e feijoada aos domingos, de reunião na casa de amigos, de conversa jogada fora, de música alta que incomoda os vizinhos.
            Preguiça tem sabor de pão com manteiga, que comemos na segunda-feira pela manhã quando estamos para começar mais uma longa e estafante semana de trabalho.
            Trabalho tem um gosto bom, que eu não sei bem definir de que é, mas que às vezes enjoa e que não nos dá vontade de ir trabalhar em alguns dias.
            Há palavras que saboreamos de tal forma que esquecemos, mesmo, do mundo que nos cerca, só por estarmos inebriados por seu sabor, mas também há palavras com um gosto amargo, que demora a sair da boca. Há palavras azedas como um limão, amargas como aqueles remédios que nossas mães nos dão em nossa infância quando estávamos com febre, mas também há as saborosas e apetitosas como uma bela macarronada, as deliciosas e divinas como um belo pedaço de chocolate e suculentas como um belo e completo sanduíche.
            Palavras não foram criadas para serem jogadas ao vento, para serem usadas como armas mortais, como algumas o são. Palavras devem ser não só usadas, mas sim saboreadas. Experimente, sinta, fale, saboreei-as.