Eu, definitivamente, sou de um outro tempo. Sou do tempo em
que não havia redes sociais e para se conhecer gente nova na internet era
preciso se conseguir, num sábado a tarde ou nas madrugadas durante a semana,
uma vaguinha para entrar numa sala de bate-papo do UOL. Sou do tempo da
internet discada pela IG, da velocidade lenta de conexão, em que downloads
demoravam horas para serem concluídas. Baixar filme era uma tarefa para poucos,
em que se demorava um final de semana inteiro, isso se a conexão não caísse e
com isso ter que começar tudo de novo. Sou do tempo em que não havia MSN, Skype
e coisas afins. No máximo, podia se conversar com os amigos através do Icq. Nossa,
que saudade bateu agora desse tempo, das conversas com amigos, das madrugadas
passadas em claro numa agradável conversa. Nessa época, que não faz tanto tempo
assim, convenhamos, valorizávamos muito mais os momentos, as conversas, pois
eram tão raras, que encontrar um amigo online, quando o cumprimentávamos, era o
mesmo que abraçá-lo.
Sou do
tempo em que uma conversa, pela internet, numa sala de bate-papo, sempre se
começava com um “quer tc?”, quando, se a conversa evoluía, havia uma troca de
telefones e, se o negócio ficasse mais sério, marcava-se um encontro,
normalmente num shopping, para se passar algumas horas numa agradável
companhia. Como na época o uso da webcam era para poucos (pouquíssimos, na
verdade) e havia uma grande dificuldade quanto ao envio e recebido de arquivos
com fotos, tinha que existir todo um ritual e descrições para o encontro. Tinha
que se dizer exatamente como era, fazer uma descrição precisa e minuciosa de
sua aparência (1,73, cabelos pretos, olhos castanhos e uso óculos) e falar
exatamente como iria se vestir (calça jeans preta e camisa azul marinho). Mas sempre
havia as dificuldades de última hora, como, por exemplo, a roupa que havia
combinado de ir ao encontro estava suja. Então se corria ao telefone, para
dizer a pessoa que iria aparecer vestido de uma forma diferente, mas o telefone
só dava ocupado (provavelmente era a irmã mais nova que estava no computador). Mas
no fim, sempre se dava um jeito. Chegando lá, no local do encontro, começava a
angústia da espera. Cada pessoa que passava na frente usando jeans azul escuro
e camisa verde era ela. Mas não... Sempre a pessoa passava direto. E voltava a
se sentar, cada vez mais desesperançado. Será que a pessoa não viria? Será que
ela veio, passou por mim e resolveu voltar para casa? Mas aí ela aparecia e
passava-se junto uma agradável tarde. Às vezes se ia ao cinema, mas, na maioria
das ocasiões, ficava-se apenas conversando, jogando conversa fora. Talvez, quem
sabe, marcariam uma outra vez, talvez se tornassem mais amigos e próximos dali
pra frente, talvez nunca mais voltassem a se encontrar (nem mesmo na
internet!). São coisas da vida, de encontros e desencontros.
Por mais
que isso possa parecer estranho, eu tenho saudades desse tempo, das amizades
que fiz, muitas das quais conservo até hoje, das pessoas com quem, ainda hoje,
costumo encontrar, não mais no Icq, como eu gostaria, mas no MSN, que é
semelhante o uso, mais prático e com mais recursos do que o outro, sem dúvida,
mas não com o mesmo gosto e charme.
As amizades,
dessa época, eram fortes, duradouras e verdadeiras, não iniciadas num lugar
qualquer, numa rede social em que há de tudo, se fala de tudo, mas que parece
não haver muito espaço para valores de outras épocas, mas num ambiente
específico para isso, onde as pessoas realmente se encontravam para conversar e
ficarem amigas umas das outras.
A popularização
da internet, a internet banda larga, os computadores super potentes de hoje
facilitaram, sem dúvida, a nossa vida, mas, pra compensar, acaba com uma certa
magia característica de outros tempos, que parece que se perdeu, se esqueceu,
desaprendeu.
Por isso eu
sempre costumo dizer que as facilidades do mundo moderno acabaram com certas
magias, e por isso eu vivo eternamente em meu passado, para revivê-lo.
