domingo, 5 de dezembro de 2010

Salve as crianças dessa infância

Eu, definitivamente, sou de uma outra época. Lembro que, quando criança, costumava brincar na rua daquelas brincadeiras inocentes de que toda criança deveria brincar. Acredito até que aquelas eram as melhores brincadeiras de que uma criança pode participar. Brinquedos existiam, lógico, mas não eram essa parafernália eletrônica, esses verdadeiros milagres tecnológicos que se tem hoje em dia. O máximo de tecnologia que se empregava nos brinquedos do meu tempo era nos bonecos, bonecas, carros e outros brinquedos que vez por outro um dos meninos ou meninas de minha rua ganhava, depois de muito pedir aos pais por ter visto um comercial na televisão.
            Falando em rua, naquela época se brincava de verdade na rua, se tinha vizinhos, se ficava até tarde da noite brincando, apesar dos inúmeros chamados de nossas mães, que a cada cinco minutos abria o portão de casa e gritava “Menino, venha já pra casa”, a que sempre a resposta era “Só mais cinco minutos, mãe”, e ela sempre deixava, e esses cinco minutos eram eternos. Só entrávamos em casa quando quem vinha chamar era nosso pai, e ai sim as coisas mudavam de foco. Ele só fazia chamar uma vez, e o atendíamos prontamente.
            Sinto falta dos banhos de chuva e até mesmo das gripes e resfriados que pegávamos, que nos deixava acamados por alguns dias, impossibilitados de ir a escola, recebendo todos os carinhos e mimos de nossas mães.
            Sinto falta do futebol no campinho de terra batida, daquela bola dura e seca que chutávamos, da areia que ficava grudada em nossos pés e por vezes até ficava por dias e dias embaixo de nossas unhas, dos uniformes, que consistiam em “time com camisa” e “time sem camisa”. Sinto falta até das reclamações, por não ter escolhido esse ou aquele menino para nosso time e mesmo das reclamações quando um tinha que ser substituído, não por que não estivesse bem na partida, mas simplesmente por que o que estava fora nos perturbava tanto para entrar que tínhamos que sacrificar alguém para dar lugar àquele.
            Sinto falta dos álbuns de figurinha que nunca conseguíamos completar e das brincadeiras de “bafo”, em que um sempre acabava ganhando as melhores e mais raras figurinhas enquanto um outro acabava sem nenhuma.
            Sinto falta dos doces que se tinha na época, mas mais ainda das árvores que subíamos para tirar as frutas, e as saboreávamos ali mesmo, entre os galhos, a alguns metros do chão.
            Sinto falta até das eternas brigas quando se chegava imundo em casa depois de uma partida de futebol, quando nossas mães reclamavam e perguntavam como iriam fazer para tirar toda a sujeira daquela roupa.
            Sinto falta das brincadeiras no parque e, principalmente, dos circos, que, vez por outra, voltavam ao bairro. Nossa, que circo eram aqueles?! Aquilo sim é que é circo, com palhaço, luzes, cores e luzes.
Sinto uma grande falta dessa época e ouso dizer que até uma certa pena dessa nova geração que está aí, a geração internet, em que as crianças não sabem mais o que é brincar, não sabem mais o que é rua e nem sequer têm vizinhos. Isso mesmo: não têm vizinhos. Hoje em dia, o vizinho mais próximo que se tem é alguma outra criança que se conheceu através da internet, que mora a centenas de quilômetros! Essas crianças não sabem mais o que é brincar junto, o que é um jogo de tabuleiro, o que é brincar na rua. Rua? O que é isso? Ah, rua é onde os carros passam, não é? E se pode brincar na rua? Pensei que rua fosse só para os carros! Entristeço-me ao ver no que se resume ser criança hoje em dia.
Tecnologia e internet representam um grande avanço, sim, mas nada pode tornar uma criança refém dentro da própria casa; a infância, que passa tão depressa, não pode se resumir a isso.
Criança tem é que brincar, se sujar, descobrir; criança tem que ser criança. Pais, mães, tios, tias, padrinhos, vocês que tiveram, como eu, uma infância que deixou saudade, que, vez por outra, você se vê pensando nela, relembrando os bons momentos e as brincadeiras, resgate isso, tire as crianças que se mantém reféns em casa e dê a elas uma infância de verdade, um algo, nem que seja por um curto momento de que elas vão se lembrar pelo resto da vida.

sábado, 27 de novembro de 2010

Elegia à Saudade


Saudade, és das mais belas, tristes, alegres e complexas palavras da língua portuguesa. Difícil de traduzir, fácil sentir. Falar-te é sentir-te. Enche-se o peito e depois deixa-se soltar-te na boca, e como um suspiro, és aos poucos liberada. Enches não só nosso peito, mas todo nosso ser de Lembranças, esta outra palavra tão doce na boca quanto a mais doce lembrança que suscita.
No entanto, Saudade, tu és também cruel, como só as mais cruéis palavras sabem ser. Lembra-nos Solidão, a falta que uma pessoa, que algo nos faz. Trazes junto a ti esta companhia que nos faz tão mal, a Solidão, tão pesada, fardo que, muitas vezes, não estamos acostumados, que nunca queremos carregar. Solidão chega sem pedir, com seus sons fortes que impõe medo.
Mas, Saudade, tu, também trazes consigo outras palavras e sentimentos, como Sonho. Este tão terno, que nos faz-nos sonhar acordados, pensando nas esperanças de um retorno.
E tu, Retorno, que tanto nos tira o sono, por ti tanto esperamos, pois a nossa vida depende de ti! Saudade nos faz sonhar com o retorno que inebria nossos sonhos, pois é tão suave, chega tão natural como uma brisa no fim de tarde.
            Saudade, para o bem ou para o mal, nunca nos desvinculamos de ti, pois és inerente a nós, humanos, tão frágeis, facilmente domados por simples, delicadas, fortes e marcantes palavras.
Sentimos-te, vivemos-te, sofremos-te, Saudade, tu que nunca se aplaca em nosso peito, que muda de forma, mas nunca deixas de ser saudade, a doce, a cruel e irredutível Saudade.
            Saudade remete-nos a lugares e pessoas, na maioria das vezes, mas ela consegue abraçar tanto, tudo, que é impossível fugir de suas garras, que muitas vezes nos ferem o peito, de tanto pensar nela.
            Saudade, faz-nos acordar à noite, ver o que ninguém mais pode ver na escuridão, brincando com nossos sentidos. Faz-nos sentir cheiros, toques, calores, sabores e até mesmo escutar a tua voz sussurrante, ao pé do nosso ouvido.
            SAU-DA-DE, és bela em tua essência, mas cruel, em teus atos, e nós, homens, que nos julgamos tão fortes, mostramo-nos tão fracos a ponto de sermos tão facilmente domados por ti.

sábado, 20 de novembro de 2010

Amizade, o sentimento que sustenta o homem

Se o amor é o sentimento que move o homem, a amizade é o que o sustenta.
Assim como o amor, a amizade pode acontecer entre quaisquer pessoas, em qualquer lugar. Pode ser numa fila de banco, num corredor de ônibus, numa sala de aula, num ambiente de trabalho e até mesmo pela internet e sempre começa de uma conversa despretensiosa, que tinha tudo para durar apenas cinco minutos, mas perdura por toda uma vida. Amizade não tem preconceito, não tem cor, não tem idade. Amizade não tem explicação, mesmo por que não se busca isso numa amizade. No amor, até muitas vezes há um questionamento do tipo: “ah, por que amo tal homem?”, “por que e como fui amar de tal forma tal mulher?”. Na amizade, se é amigo, e ponto.
Não existe intensidade para se medir uma amizade, não existe (embora muita gente afirme isso) um melhor amigo; pode até existir um amigo mais próximo, um alguém com quem se tem uma maior afinidade, mas todos são igualmente amigos.
Quantas vezes não vemos ou não falamos com um amigo há anos, e quando os reencontramos tem-se a impressão de que se esteve com ele há dois dias? Quantas vezes não vemos uma pessoa há apenas uma semana e, quando o reencontramos, o abraçamos de tal forma como se fosse uma saudade tão intensa que já perdurava por séculos? Amizade é isso, não há tempo.
Muitas vezes, temos amigos que muitas vezes nem percebemos, mas que estão e sempre estiveram ali, presentes, como os pilares de uma construção, como os pilares responsáveis pela sustentação do homem, fortes, inabaláveis.
Há quem diga que por trás de um grande homem sempre há uma grande mulher, eu ouso afirmar que ao redor de um grande ser humano há amigos.
Amigos estão sempre presentes quando mais precisamos, e até mesmo quando não os percebemos, eles estão ali. Pensamos neles quando não pensamos. São as vozes que escutamos quando estamos em silêncio, são o silêncio do respeito, da paz, quando mais precisamos, são companhia mesmo quando estamos sós. Solidão não existe quando se tem amigos, pois eles nunca nos deixam estar e nos sentir sozinhos, mesmo quando estão distantes de nós.
Sempre há um bom ombro amigo por perto. Sempre há um abraço acolhedor de um amigo quando mais precisamos dele. Amigos têm esse dom, de estarem sempre perto. É uma espécie de premonição, uma ligação inexplicável que há entre as pessoas. Não há, talvez, nada que melhor defina a amizade do que calor. Sim, calor! Quando estamos perto de um amigo não há frio, pois reside nos braços, ombros e abraços de um amigo uma inesgotável fonte de calor, sempre pronta a nos acolher.
Amigos não precisam de palavras para se comunicar, um simples olhar basta, um sorriso estampado no rosto diz tudo, uma lágrima diz muito. Os ouvidos, sempre prontas para ouvir, têm uma a paciência inesgotável, e em suas bocas, em suas palavras, reside a sabedoria. Amigo, teus sobrenomes são sabedoria e paciência.
Muitas vezes te magoamos, amigo, por motivos diversos, por não lhe termos dado ouvidos da mesma forma que nos destes, mas não o fazemos por mal. Entenda-nos, por favor, compreenda  nossa natureza falha, humana. Somos todos humanos, falhos, erramos e pecamos, enquanto tu, amigo, és feito de natureza divina.
            Não se existe ex-amigo, pois amizade, quando verdadeira, não cessa, mesmo quando ambas as partes se magoaram, quando se machucaram. Amizade é como um fogo sagrado, de fonte inesgotável, que transmite infinito calor e luz. Há rusgas, há magoas, sim, entre amigos, mas há, acima de tudo, perdão, compreensão e respeito mesmo nas palavras não-pensadas proferidas.
            Amizade é como um verdadeiro amor, é pra sempre, é para toda uma eternidade. São sentimentos que muitas vezes se confundem, que se metamorfoseiam um no outro, mas que nunca deixam de ser uma espécie de amizade, que nunca deixam de ser uma espécie de amor.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Quer ser o primeiro a ganhar um exemplar de "Elegia à Saudade"?

Meu terceiro livro, Elegia à Saudade & outras histórias do Lugar das Palavras ainda não foi lançado, mas você pode ser o primeiro a ganhar um exemplar. Para isso basta deixar um comentário nesta postagem dizendo qual a crônica, artigo ou “crítica literária”, entre as que leu, a que mais gostou, e estará automaticamente concorrendo.
Super simples: deixou comentário, falou o título do texto que mais gostou, seja ele dos mais antigos, seja ele dos mais recentes, concorre.
O sorteio acontecerá no dia 25 de novembro e todos podem concorrer, seja morador do Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Amazonas, São Paulo, Japão, Portugal, Espanha, Estados Unidos ou Rússia, que o seu livro será enviado.
Você também poderá ganhar um exemplar da segunda edição de Uma História em Cinco Vozes e um de Espelho Quebrado.
Deixe sua opinião, participe e ganhe.