terça-feira, 15 de março de 2011

Já chega. Perdi minha paciência e esperança com as rádios.

‘Tá bom, ‘tá bom, ‘tá bom... dessa vez passaram dos limites. E para eu falar que passaram dos limites é por que mais do que simplesmente passaram dos limites, mas sim, que se chegou ao fundo do posso. Sempre fui (e ainda sou) uma pessoa muito compreensiva, sempre fui muito de respeitar tudo, e até as coisas de que não gosto, procuro ver algum valor, algum sentido, nem que esse valor e esse sentido só tenha sentido para uma pessoa. Também sou uma pessoa muitíssimo paciente (e quem me conhece sabe disso), e que para me tirar a paciência só sendo algo de excessivamente excepcional, algo que me deixa verdadeiramente irritado ou decepcionado.
            O que tem me tirado a paciência, tem mexido comigo a ponto de tirar minhas noites de sono, chama-se música. Sim, a música (ou falta de boa música) tem me tirado a paciência. É sério. Nunca falei tão sério nas últimas semanas (nos textos que tenho colocado neste blog) como estou falando agora. Está simplesmente impossível se escutar uma música boa de verdade (ou pelo menos agradável) hoje em dia em qualquer rádio. É sério. Tente para ver (ou para ouvir, como queira), para confirmar o que estou dizendo.
            Tudo bem que a maioria das rádios mais populares, digamos assim, nunca se caracterizou por ter uma programação lá muito seletiva, mas pelo menos era possível se escutar uma música boa entre todos aqueles hits do momento que eram pedidos por todos aqueles ouvintes insanos que tinham coragem de ligar pedindo uma música. Escutar rádio, às vezes, era um verdadeiro exercício de paciência. Ficar horas e horas com o rádio ligado, sendo obrigado a escutar músicas de que não se gostava só para, no final da programação, ouvir aquela música... nossa, ouvir aquela música tinha o mesmo efeito que ganhar uma medalha por bravura, perseverança, uma verdadeira prova de coragem! Hoje, escutar rádio é algo que podemos chamar de causa perdida. Não me venham com desculpas e falando coisas do tipo “não é bem assim”, porque é, sim, e todos sabemos muito bem disso!
            A música, as rádios, chegaram ao fundo do poço, o que é lamentável. Escutar rádio é como fazer um teste de insanidade (uma pessoa sã de verdade é incapaz de fazer tal teste), pois não se ouve nada que possua um verdadeiro valor musical. Só se ouvem (as pessoas, ouvintes, só pedem!) os hits (ridículos, diga-se de passagem), do momento. É um tal de “vou não, quero não, posso não, minha mulher não deixa não”, ou a sua réplica, que diz “vou sim, quero sim, posso sim, minha mulher não manda em mim” (!). Isso sem contar as “cerejas dos bolos” (são tantas cerejas em tantos bolos que precisamos rezar para aguentar tudo isso!), as “músicas” que foram as mais tocadas no carnaval (que finalmente acabou – ufa!) e têm os videoclipes mais vistos no youtube (alguém sabe de quem foi a ideia de se permitir que todo mundo pode fazer um clipe e postar no youtube? Se souber, me diga, que eu mato esse infeliz das costa oca, para falar no bom nordestinês!), uma tal de “Dança do Street Fighter” e uma “Daança da Liga da Justiça” (por favor, não vá ao youtube quando terminar de ler este texto para ver tais videoclipes, pelo bem de sua sanidade mental. Acredite em mim. Eu os vi e posso assegurar que eles não valem a perda de 3 preciosos minutos de seu dia).
            Para mim já chega. Já dei todas as oportunidades, já gastei toda a minha paciência (e olhe que sou muito paciente, mas até a minha paciência tem limite), e resolvi que a partir de hoje não vou mais ouvir rádio, não vou, nem sob pena de morte, sintonizar uma “rádio popular, líder de audiência”, até o fim de meus dias. E resolvi aposentar, de forma definitiva, o meu velho aparelho de som, e para não dar um fim indevido a ele, optei por usá-lo como um artigo de decoração, ou uma verdadeira peça de museu (como queiram chamá-lo).

domingo, 13 de março de 2011

Um brinde aos que morreram


O sol mal aparecia por entre as nuvens e não ventava naquela manhã; os galhos das árvores de frente à grande construção não se moviam e não se ouvia o canto dos pássaros. No alto, nas guaritas sob os altos muros da penitenciária os guardas, cansados daquela monotonia, nem atentaram àquele homem que passava pela primeira porta e caminhava, de cabeça baixa, pelo pátio. Usava roupas velhas, que já tinham perdido as cores há tempos, mas que estavam limpas e bem passadas, como se tivessem sido guardadas especialmente para aquele dia. Seus cabelos estavam grandes e sua barba à fazer. Mantinha o semblante sério e olhava sempre pra frente, sem nunca desviar os olhos. Carregava às suas costas apenas uma pequena bolsa, onde estavam guardados apenas uns poucos objetos e duas ou três mudas de roupas.
            Esse homem havia contado cada dia que passara confinado naquela prisão. Tinha plena consciência de sua culpa e cometera os delitos que cometera por convicção naquilo que acreditava, mas por uma infelicidade, no dia em que havia sido fixado para se deflagrar a revolução, um alguém os delatara e os policiais, muitos policiais, apareceram, distribuíram pancadas, socos, atiraram para o alto e até em direção à alguns do grupo revolucionário. O homem se lembrava bem do som dos tiros, como um eco em sua cabeça, lembrava do barulho do grito das mulheres, da agitação dos homens, da preocupação estampada na face de cada um de seus amigos. Vira gotas de suor escorrendo pela face de cada um dos que estavam a seu lado. Mas ele, mesmo sabendo do perigo que corria, não fugiu. Ficou ali, sozinho, um homem contra centenas de policiais. Fora preso, julgado e condenado. Recebera a opção de ter a pena abrandada, caso resolvesse cooperar com as autoridades dizendo os nomes dos que tinham arquitetado aquele golpe, frustrado graças a intervenção da polícia. Mas o homem, sério perante o juiz, manteve-se firme em sua resolução e nada falou. Recebeu com o peito estufado a pena que lhe cabia como insurreto. E por ter sido o único pego, por não ter colabora, fora lhe dada uma pena exemplar.
            Em nenhum momento o homem se arrependeu, em nenhum momento ele guardou rancor daqueles que estavam fora, em liberdade, enquanto ele estava ali, enclausurado naquela prisão de paredes tão rígidas e altas quanto uma montanha. Imaginava que eles, que fugiram no momento do aparecimento da polícia, dariam prosseguimentos aos sonhos de liberdade que todos cultivaram, imaginava que ao sair daquela prisão iria encontrar as coisas tal qual havia sonhado. E todas as noites, antes de dormir, olhava para o céu através da minúscula janela existente na sua cela e ficava a ruminar sobre o que estaria a acontecer lá fora, onde ele em breve estaria.
            E de tanto contar os dias, finalmente chegava o de sua liberdade. Atravessar aquele pátio vazio, poder olhar para frente, andar de cabeça erguida era pelo que ele tanto esperava. Quando se aproximava do grande portão da penitenciária, viu um dos guardas, que se dirigiu a ele e o cumprimentou com um gesto, mas não lhe dirigiu uma palavra. Fazia tanto tempo que ele não recebia uma palavra de cortesia que se esquecera como as receberia quando atravessasse aquele pesado portão de ferro.
            O guarda abria lentamente o portão, olhando para o homem, como se o quisesse manter ainda mais alguns míseros segundos dentro daquela prisão, mas o homem nada disse. Apenas observava o homem que tinha diante de si. Quando o portão foi aberto, o suficiente apenas para ele passar, o homem olhou para trás. Era a primeira vez que o fazia, como se para se despedir daquele lugar que não pretendia voltar nunca mais. Soltou o ar, como se não quisesse levar para fora nada daquele lugar, nem o ar. Deu um passo, que pareceu a ele tão grande, para fora. Ao ouvir, atrás de si, o portão se fechando foi que respirou fundo, uma, duas e três vezes, como se para sentir o cheiro de sua liberdade. Deixou cair no chão a bolsa e abriu os braços, como se para abraçar a própria liberdade, restituída. Abraçou a si próprio e olhou ao seu redor, para ver todo o mundo a sua volta. Seus olhos, desacostumados a claridade do mundo fora das paredes da prisão, demoraram a acostumar-se, mas tão logo o fizeram, a expressão de felicidade ao sair da prisão dera lugar a incredulidade, pois nada do que ele imaginava encontrar aparecia diante de si. Tudo continuava do mesmo jeito, as coisas no mesmo lugar, as pessoas, nas ruas, com os mesmos semblantes. Ele se perguntava o que fora feito enquanto ele estivera preso, o que fora feito dos planos de revolução.
            Abaixou-se lentamente e pegou sua bolsa. Resolvera ir procurar aqueles companheiros, tão seus queridos noutros tempos, que com certeza lhe dariam informações sobre o que tinha sido feito em sua ausência.
            Como um de seus grandes amigos do passado tinha um pequeno estabelecimento comercial, onde comprava e vendia livros e discos usados, resolveu ir até lá.
             A cada passo que dava, o homem percebia o quanto tudo tinha se modificado nesse tempo em que ficara confinado. As ruas avenidas estavam mais largas, havia mais carros nas ruas, os ônibus mais lotados e as pessoas mais apressadas, com semblantes carregados, cansados, como se relutassem em sair de casa para irem ao trabalho. O homem via isso em cada face, de cada homem e mulher por que cruzava.
            Não demorou muito para chegar até o lugar que desejava, que havia, surpreendentemente, mudado muito pouco. Salvo uma ou duas lojas, novas, tudo continuava do mesmo jeito que dez anos atrás. Caminhou pela rua tentando se lembrar de como eram as coisas, cada detalhe, do dia em que ali estivera pela última vez. Ele viu um ou dois rostos conhecidos, que cumprimentou, mas estava tão mudado em sua aparência que essas pessoas nem responderam, tomando-o como um louco ou como um alguém que os tivesse confundido com outra pessoa. Mas o homem, apesar da decepção de não ter sido reconhecido, não ficou triste, pois a alegria que sentia ante a possibilidade de reencontrar seu velho amigo de juventude era por demais intensa para que algo pudesse estragar aquele seu dia.
            Caminhou até o meio da rua e ficou parado durante um tempo, olhando para a livraria que tinha diante de si. Consultava o endereço em sua cabeça, para ver se por acaso tinha se enganado. Mas não. O endereço era justamente aquele. Reconhecia o pequeno bar ao lado, que continuava do mesmo jeito, com o mesmo dono atrás do balcão. Via, do outro lado, a pequena loja de objetos de decoração, que de tão velhos, ninguém entrava pra comprar nada. Só em olhar para a vitrine, ver os mesmos tipos de peças de tantos anos atrás, soube que ainda era administrada pela mesma pessoa. Mas a loja de seu amigo, como havia mudado!
            Ainda hesitou em dar o primeiro passo em direção a livraria, que não reconhecia mais, mas seus pés o levaram instintivamente àquele estabelecimento comercial.
            Tal não foi a sua surpresa quando viu muitas pessoas ali dentro trabalhando, andando pra cima e pra baixo, guardando livros, vendendo-os. Procurou com os olhos seu amigo, mas não o encontrou. Perguntou-se se ele ainda era o dono daquela suntuosa livraria, pois, antes, lembrava-se muito bem, seu amigo era pouco afeito a essas coisas comerciais. Tinha aquela pequena loja de livros e discos apenas para poder sobreviver, para suster suas necessidades básicas. Lembrava das noites em que dormira ao lado das estantes, quando voltava de uma noite de bebedeira; lembrava que seu amigo, muitas vezes, dormia no sótão, por ter sido despejado do apartamento em que morava por atraso no pagamento; lembrava-se, principalmente, do homem que muitas vezes emprestava os livros, que os distribuía às pessoas que, ávidas por conhecimento, não podiam comprá-los. Agora, no entanto, ele via que aquele lugar tão seu conhecido se transformara numa livraria, em que os livros tinham que ser vendidos, não mais emprestados ou dados àqueles que queriam lê-los.
            Acordou de seu devaneio quando um vendedor o abordou, perguntando se ele procurava por algum livro em especial, inspecionando-o de alto a baixo. O homem ficou sem saber o que responder. Teve vontade de perguntar pelo seu amigo, quando o viu abrir a porta e passar por ele, sem o sequer reconhecer. O rapaz, vendedor, percebeu o olhar do homem e o deixou só.
            Não havia palavras que descrevessem a surpresa do homem ao ver o amigo. Não havia mais nada no rosto daquele estranho que lembrasse o antigo jovem idealista, que lutava e pregava por um mundo melhor. Seu rosto estava bem barbeado, com cabelos cortados bem rentes. Usava roupas novas, de uma marca famosa, bem passadas.
            Enquanto este conversava com um conhecido, o homem caminhou até onde seu amigo se detivera para ver se aquilo que seus olhos lhe mostravam era verdade.
            Passava a mãos nos olhos, como se teimasse em não acreditar no que via. Mas era verdade. Aquele seu antigo amigo não era mais o mesmo, havia se vendido, havia se vendido à outras idéias.
            O homem ficou tanto tempo a fitar o seu amigo, que não conhecia mais vendo-o daquele jeito, que acabou por chamar a atenção dele. Apertou a mão do homem com quem conversava e se dirigiu a ele.
            - Posso lhe ajudar, amigo? Está procurando algum livro? – perguntou ele, fitando-o nos olhos.
            Os dois homens ficaram a se olhar por um curto espaço de tempo. Um procurava no outro traços, resquícios do idealista de outros tempos, que fora engolido, que estava mascarado, disfarçado por trás daquelas roupas novas e bonitas, mas não encontrava. O outro via apenas mais um louco que entrava em sua livraria, que importunava seus clientes com sua presença e nunca comprava nada.
            - Não, amigo. Não estou procurando nada – respondeu ele, com a voz embargada pelas lágrimas.
            Para ele, um homem que fora preso por que acreditava em um ideal, que lutara com todas as suas forças por aquilo em que acreditava, e por isso tivera sua liberdade tomada e sua voz calada, era doloroso ver no que suas palavras e seus gestos deram: em nada. Então tudo pelo qual lutara não valera nada, as pessoas que ficaram livres para lutar, enquanto ele estava confinado entre altos muros e grades, esqueceram as palavras ditas no passado, os motivos pelos quais lutaram, e se venderam.
            Olhou mais uma vez para o comerciante que tinha diante de si e deixou o ar escapar de seus pulmões.
            - Não encontrei o que procurava aqui, amigo. Obrigado – disse ele e se retirou, mas antes tocou no ombro do amigo.
            Aquele gesto, tão seu característico de expressar gratidão aos amigos, fora reconhecido pelo outro, que só se lembrou disso, do homem que fora preso, depois que este se retirara. Ainda correu para a rua, a fim de encontrá-lo, mas ele não estava mais lá. Já tinha ido embora, para onde, ele não sabia.
             O homem caminhou ao léu durante horas, tanto que perdeu a noção do tempo. Sentia-se confuso com tudo que tinha visto. Os sonhos que havia nutrido não tinham se realizado, as sementes que ajudara a plantar não germinaram e estavam mortas, secas, naquele solo estéril que é a realidade. Nunca havia se sentido tão decepcionado com uma pessoa como se sentia naquele momento, com seu amigo. Em sua cabeça passava um filme em câmera lenta, de todos os momentos, desde o dia em que se conheceram até o dia daquela frustrada revolução, em que fora preso e separado daqueles ao lado de quem lutara.
            Depois de muito andar, o homem, já cansado e com fome, resolveu entrar num restaurante. Naquela hora o estabelecimento estava lotado, de forma que ele só encontrou lugar numa mesa nos fundos, ao lado de uma em que um grupo discutia com uma certa exaltação. Mas o homem não atentou para o que se discutia, e tão logo se sentou fez seu pedido ao atendente.
            Enquanto esperava seu pedido, ele ficou de olho na televisão, que estava sintonizada no canal de um jornal local. E só nesse momento, quando o assunto abordado pela repórter era política, foi que o grupo que estava a seu lado se calou. Todos, tão vidrados que estavam, que um rapaz que veio trazer um pedido teve que falar várias vezes para um dos homens, até que este tirasse os olhos da televisão e atentasse para o que estava acontecendo ao seu redor.
            Logo uma mocinha veio trazer o pedido e ele começou a devorar sua comida. Fazia tanto tempo que ele não sabia o que era uma refeição além daquela servida na prisão, que aquela que ele comia agora, mesmo não sendo das melhores, lhe parecia um manjar divino. Comeu tudo tão rápido que o atendente estranhou quando foi chamado novamente pelo freguês de barba e cabelos grandes que pedia outro prato. Quando a mesma mocinha da outra vez trouxe o segundo prato e o homem preparava-se para começar a comer, acabou-se o telejornal e o grupo que estava na mesa ao lado reiniciou a discussão, dessa vez com os ânimos à flor da pele. Discutiam-se os assuntos políticos. E o homem parou de comer para ouvir com atenção aquilo que diziam.
            Um dos homens que estava naquela mesa era o mais apaixonado, que falava de forma mais calorosa sobre o assunto em questão. Esse homem estava justamente de costas ao que escutava atentamente a conversa. Ele gesticulava, falava alto a ponto de chamar a atenção de outras pessoas que estavam no restaurante.
            “Se um homem desse tivesse defendido a nossa causa, há alguns anos, com certeza o resultado teria sido outro”, pensava o ex-presidiário. Era uma pena que aquele que falava defendia um ponto de vista tão mesquinho, posicionando-se claramente a favor dos que estavam no poder. Os outros companheiros de mesa tentavam-no dissuadi-lo, mostrar o quanto ele estava enganado. Mas por mais que se fizesse, por mais que se falasse, nada o demovia. “É bonito ver esse homem falar, só é uma pena vê-lo defender algo que não vale a pena”, continuava a pensar aquele que tinha parado de comer só para ouvir no que aquela discussão daria.
            Sua curiosidade era tamanha para ver o rosto daquele que resolveu se virar, e só não se meteu na discussão por motivos de educação. Mas se mostrava claramente interessado, para todos os que estavam sentando àquela mesa, no que se falava.
Os homens que estavam à mesa viram, então, aquele que se interessava pela discussão e resolveram chama-lo para se aproximar, e foi só então que aquele que falava calou-se por alguns instantes, para que o forasteiro se sentisse à vontade. Os olhos deste arregalaram-se de tal maneira que o aquele ficou a lhe fitar, estranhando a atitude daquele homem de aparência tão peculiar. Os dois ficaram a se encarar por um curto espaço de tempo, como se se reconhecessem. Mas os olhos daquele que se calou só viam um homem estranho, que não lhe lembravam absolutamente ninguém, enquanto este via seu velho conhecido de outros tempo, um dos que lutaram a seu lado, que cultivavam o mesmo ideal, e que, no entanto, estava ali, totalmente mudado. Seu jeito, sua paixão continuava a mesma, mas e as idéias?! Onde estavam aquelas idéias que ele tinha no passado?! Ele também tinha se vendido às novas idéias, à nova realidade?
Aquele que reconheceu no outro seu velho amigo foi o primeiro a desviar os olhos. Em seu semblante passou-se uma sombra de abatimento, de decepção. Só teve ânimo para cumprimentar aquele que há pouco defendia com tanta convicção idéias que combatera, um dia, em seu passado com tanto ardor e saiu do restaurante, com cabeça baixa. E, ao passar pelo rapaz que lhe atendera, pagou sua conta e recebeu deste algumas moedas de troco, que apoiou em seu dedo polegar e a fez rodar, depois a jogando para o alto, dando-a como gorjeta àquele que havia lhe atendido tão bem. A esse gesto, a esse jeito de mexer com a moeda, o outro homem, que observava tudo, reconheceu seu velho amigo, que fora preso. E levantou-se, para se desculpar por não tê-lo reconhecido. Mas ao tentar passar pelas pessoas no restaurante acabou perdendo-o de vista.
O decepcionado homem andou por horas a fio até que seu corpo inteiro se cansasse e passasse a clamar por alguns instantes de descanso. Foi só então quando ele parou e sentou-se num banco de uma praça. Já era tarde e as pessoas começavam a se dirigir para suas casas após um longo e estafante dia de trabalho. O homem ficou a observar essas pessoas sem ser notado por nenhuma delas. Deixou que seu corpo descansasse, que sua alma se aliviasse, momentaneamente, do que tinha passado naquele dia, das decepções que tivera. Estava tão livre de quaisquer pensamentos que sequer notou a música que chegava a seus ouvidos. Era uma música belíssima, que ele já tinha ouvido outras vezes naquele dia, em diversas rádios. Imaginou que aquela se tratava da música do momento, e aquele que a cantava, o melhor artista de todos os tempos da última semana. Era uma música bonita, que tocava até o fundo da alma. E ele ficou a escutá-lala por um longo tempo, até que, como se algo estalasse em sua cabeça, lembrou-se daquela voz que cantava.
“Não pode ser”, pensou ele, levantando-se bruscamente e correndo em direção ao local de onde o som vinha. Chegou até um pequeno bar, que tinha algumas mesas e cadeiras espalhadas em sua frente. O som que chegava a seus ouvidos lhe fisgara, de forma que o homem o seguia tal qual um louco.
- Quem é esse que está cantando? – perguntou o homem ao dono do bar de onde o som provinha.
O dono do estabelecimento olhou para aquele que lhe fizera aquela pergunta como se perguntasse de que planeta ele vinha, para não saber quem estava cantando!
- Como você não sabe?! É aquele dali, do cartaz pregado à parede na frente do bar – respondeu ele.
O homem então correu até o local que o outro lhe indicara e viu com seus próprios olhos aquilo que seus ouvidos já tinham descoberto e que sua cabeça teimava em não acreditar: aquele que cantava a tão bela música, aclamado por todos, tão famoso, era um dos amigos de sua juventude. Ele não estranhou o fato dele ter sido reconhecido, pois era o único artista, o único talentoso daquele grupo de jovens idealista. O que estranhara era o fato dele estar tão famoso, o que era incompreensível era o fato dele ter sucumbido à fama.
Ficou a fitar a foto de seu amigo de outros tempos, mais um dos que tinham lhe decepcionado, escutando a sua voz tão conhecida, imaginando o que tinha mudado não só com aquele que se tornara famoso, mas com todos os outros, o que havia ocorrido para todos terem mudado, para todos terem se entregado daquela maneira, por motivos tão vis: dinheiro, poder e fama. Se perguntava onde estavam aqueles jovens, tão seus conhecidos, que lutaram juntos, que sonharam juntos e que se diziam tão fiéis aos seus princípios. Ele não sabia!
Saiu daquele bar cabisbaixo, absorto devido a tudo pelo que passara naquele dia.
Já era noite. Quando deu por si, percebeu que estava na praia, olhando para o mar, tendo sob sua cabeça um céu estrelado e uma lua cheia belíssima, como ele não via há anos, desde que fora encarcerado. Os únicos sons que chegavam a seus ouvidos eram das ondas, que quebravam bem próximo de onde ele estava e de um grupo de jovens que estavam sentados embaixo de um posto, em bancos de pedra. Falavam alto, gesticulavam, faziam uma verdadeira baderna, que o homem fuçou a se perguntar o que faziam aquela juventude daquele tempo. Tinha visto outros jovens desde que saíra da prisão e todos agiam da mesma maneira. Era uma juventude que não se preocupava com nada, que não tinham uma ideologia definida, composta de pessoas que não tinha uma personalidade definida, bem diferente dos de sua época.
Estava a observar tais jovens que sequer percebeu que um homem se aproximara sorrateiramente dele.
- O que há com essa juventude de hoje? – perguntou ele.
O homem então se virou, assustado, pois se julgava sozinho.
- Como?
- Essa juventude de hoje, o que há com ela? É bem diferente das pessoas de meu tempo e do seu. São jovens que não têm idéias, que possuem tudo e ao mesmo tempo não possuem nada, que se julgam felizes em sua ignorância, que não sabem nada do mundo que os cerca, que não têm que lutar por nada, por ninguém, e não fazem isso nem por si mesmos... – ao terminar de fazer o seu breve discurso, o recém-chegado soltou um suspiro tão alto e doloroso que parecia que seu peito tinha sido transpassado por um punhal.
O homem, ainda sentado, virou-se para observar mais uma vez aqueles que estavam próximo a ele, e não deixou de dar certa razão àquele que falara tudo aquilo. Lembrou-se dos tempos de sua juventude, de quando vinha para aquela mesma praia com os amigos e ficavam horas a conversar, a discutir, a sonhar... soltou, assim como o outro, um suspiro longo e profundo, por si mesmo e pelos amigos. Olhou para o alto mais uma vez e viu que algumas nuvens encobriam parcialmente a lua.
Olhou então para o outro, que se mantinha calado, observando o mar. Este, ao ver que estava sendo observado, sorriu para o outro. Tirou de dentro da bolsa que trazia uma garrafa de bebida e dois copos, encheu os dois e o ofereceu àquele que o observava.
- Um brinde? – perguntou o que oferecia a bebida.
- Um brinde a quê? Um brinde a quem?
- Um brinde aos caras que não mais existem, que foram seduzidos, que se venderam, que mudaram de lado, que, enfim, morreram, que só existem em nossas memórias.
Os dois então tocaram seus copos um no outro e beberam de um só trago a bebida, que desceu queimando em suas gargantas. Depois, em silêncio, os dois foram absorvidos, cada um por seus pensamentos.

domingo, 6 de março de 2011

Conto da Cidade Fantasma

Aquela era uma cidade fantasma. Abandonada há décadas, até mesmo pelas almas dos que viveram e foram enterrados naquele velho cemitério localizado atrás da única igreja onde não era rezada uma missa há décadas. Até as árvores perderam a vida naquela cidade, com os troncos ressecados, inteiramente sem folhas e só não vinham inteiramente ao chão por que até os ventos não sopravam mais ali. O mato havia crescido nos primeiros anos por todos os lados, em todas as casas, no meio das ruas, mas depois deixou de crescer, secou, e jazia abandonado, em grandes tufos, por todos os cantos. Ali, animal algum pisava. Os pássaros não cantavam pela manhã, para saldar o novo dia que começava. O único rio que cortava a cidade não mais corria em direção ao mar. Ficou parado durante tanto tempo ali que acabou morrendo. Ali não havia estações do ano. No verão o sol jamais conseguia aparecer por entre as nuvens, no inverno não chovia, na primavera não havia vida para desabrochar e no outono as árvores não perdiam as folhas, pois já a haviam perdido há tempos.
            Não havia ninguém vivo que lembrava da existência daquela cidade, pois todos os que nasceram e, em algum momento da vida viveram ali, já estavam mortos ou tinham se esquecido completamente da cidade que um dia tivera vida. Não havia qualquer registro, dados e informações oficiais sobre a existência da cidade, de forma que ela não fazia parte da jurisdição de qualquer Estado ou País. Não havia placas indicando como chegar àquele lugar, mesmo por que, aquele lugar não existia. As rodovias que outrora levavam àquela cidade tinham sumido, como que consumidas pelo tempo. A antiga ferrovia também.
            Tudo ali era um completo e absoluto silêncio, pois não havia nenhum vivente por perto disposto quebrá-lo.
            Mas apesar de tudo, de todo o abandono, aquela cidade fantasma não estava totalmente morta.
            Um homem, em viagem de um lugar qualquer para um outro desconhecido, acabou se perdendo e saiu da estrada. Rumou sem destino por longas horas até que percebeu que a gasolina de seu carro estava acabando. Já era quase noite, e ele percebeu isso ao olhar para o relógio, pois pela janela do carro, olhando para o céu, não conseguiria distinguir que horas eram, se quem estava no céu era o sol ou a lua, já que não se via nenhum sinal de ambos.
            O barulho dos pneus do carro em contato com a terra e as pedras quebrou subitamente o silêncio naquela região deserta, mas logo o silêncio voltou a surgir quando o carro parou.
            O homem abriu a porta profundamente aborrecido. Só lhe faltava aquela mesmo: ficar no meio do nada, perdido, sem ninguém por perto. Bateu a porta com força ao fechá-la. Olhou ao redor, como que procurando alguém que pudesse lhe dar alguma informação ou ajuda, que pudesse pelo menos lhe dizer onde estava. Não encontrando, passou a mão no rosto, pensando no que poderia fazer naquele momento, naquele lugar. Olhou mais uma vez para o céu e de novo para o relógio, e percebeu que este havia parado. Tirou o relógio do pulso e o jogou no chão.
            - Que droga! Só me faltava essa agora – disse ele, consigo próprio. Começou então a dar alguns passos incertos, em qualquer direção, chamando por algum alguém. Mas ninguém lhe respondeu. Talvez só quem tenha lhe ouvido foi a cidade, que naquele momento, como que acordada em pleno sono, se mostrou, pela primeira vez em anos, a olhos mortais.
            A neblina que cobria a que outrora fora a entrada da cidade, afastou-se e o homem, ao ver aquela cidade sem vida que subitamente voltava a respirar, sentiu um arrepio correr por toda a sua espinha e um frio percorrer todo seu corpo.
            - Oi? Tem alguém aí? – chamou ele. Mas ninguém respondeu. Só então se deu conta de que estava completamente sozinho, na entrada daquela cidade.
            Hesitou por longos minutos, sem saber o que fazer. Pegou seu celular no bolso, mas para sua decepção, estava sem sinal. Chegou a tentar ligar para vários números, a fim de pedir ajuda, mas só o que ouviu foi o ruído estranho. Respirou fundo duas ou três vezes e com passos curtos e hesitantes, se dirigiu à cidade. A todo instante, olhava ao seu redor, a procura de alguém, de algo que lhe indicasse onde estava ou de pelo menos algum ser vivo. Aquela total ausência de vida ao seu redor lhe deixava inquieto. Mas precisava fazer algo, e continuou sua caminhada em direção à cidade, com cada passo mais lento do que o anterior.
            - Oi? Tem alguém aí? – tornou a chamar.
            Como o silêncio se fechava ao seu redor, ele retrocedeu e, ao olhar para trás, viu que a espessa neblina tinha descido, impedindo-o mesmo de ver seu próprio carro. Atemorizado, deu alguns passos incertos para o local onde julgava estar seu carro, mas tropeçou a acabou se machucando na queda.
            - Onde estou? Que cidade é essa? Onde foram as pessoas dessa cidade? – perguntava, como que sussurrando.
            À duras custas conseguiu se levantar e, mancando, foi caminhando até uma casa próxima de onde estava. Bateu na porta, chamou, mas não ouviu nada em resposta além do eco que reverberava pelos corredores e cômodos da residência. Empurrou a porta e viu que estava aberta, mas não ousou entrar na casa. Olhou para a rua, inteiramente deserta, viu as árvores nuas, mortas, inteiramente ressecadas. O único som que lhe chegava aos ouvidos era o de seus próprios passos.
            A cada dois passos que dava, ele parava e chamava, mas como nunca lhe chegava uma resposta, ele continuava a andar. Parou quando chegou a uma praça abandonada. Viu os bancos quebrados, um balanço com as correntes inteiramente enferrujadas e as pedras da calçada fora de lugar, como se alguém as tivesse retirado de seus devidos lugares, revirando-as.
            Já cansado e com a perna dolorida, ele se senta num banco daquela triste praça. Fica olhando ao redor, imaginando as pessoas que viviam ali e o que tinha acontecido a elas e à cidade para que o local tivesse se tornado aquilo que ele via diante de seus olhos.
            Perdido em seus próprios pensamentos, ele se esqueceu que estava sozinho num lugar desconhecido, até que ouviu um barulho longínquo, como de algo muito pesado sendo arrastado. Levantou-se de um salto e aguçou os ouvidos. Silêncio. Ele pensou que sua imaginação estava lhe pregando peças quando escutou novamente, o mesmo barulho, dessa vez mais próximo. E de novo e de novo. Assustado, procurou um lugar onde pudesse se esconder. Correu até uma casa grande, no final da rua, que estava com os portões e a portas abertas. Entrou e ficou escondido, num canto, agachado, abraçado às próprias pernas, esperando ouvir novamente aquele barulho, que ele não sabia do que se tratava. O único barulho que ouvia, no entanto, era o de sua própria respiração.
            Quanto tempo ficou ali, naquela posição, tremendo de medo, ele não sabia, mas tinha a impressão de que havia passado uma eternidade.
            A cidade inteira havia mergulhado, novamente, em seu mais completo silêncio, e ele resolveu sair de onde estava. Suas pernas ainda tremiam e seus passos eram inseguros. Percebeu que, do lado de fora, a neblina se adensara a ponto dele não conseguir enxergar absolutamente nada do que estava à sua frente. Chegou a esbarrar no portão de frente a casa e a tropeçar numa calçada. Caminhava com os braços esticados para frente, como se procurasse algo em que pudesse tocar. Tinha a impressão de que havia algo escondido naquela névoa, que o observava. Sentia um frio percorrendo todo o corpo e apressou os passos, para escapar daquilo que o estava escondido na névoa, mas parou quando esbarrou em algo. Algo se aproximava dele, e ele sentia isso. Escutou novamente aquele mesmo barulho, mais próximo, ao seu lado, junto ao seu ouvido. Suas pernas tremiam e algumas lágrimas começaram a lhe vir ao rosto. Sentia como se mil mãos lhe pegassem as pernas e o estivessem carregando para algum lugar. Tentou gritar, mas o silêncio ao seu redor era tão denso que sufocou sua voz. Sem mais forças para se manter de pé, ele desabou no chão, ainda consciente. Algo o estava sufocando de dentro pra fora e ele foi perdendo pouco a pouco a consciência. Sentia a neblina ao seu redor, densa, lhe abraçando, lhe engolindo pouco a pouco até que, por fim, fechou os olhos e caiu num sono profundo do qual nunca mais voltaria a acordar.
           

sexta-feira, 4 de março de 2011

Lançamento - Intimidade com Deus


Sinopse: Textos do Livro dos Salmos e comentários de natureza devocional, estimulando o cultivo da vida espiritual, nos quadros da relação com Deus, conforme a visão cristã. Citações de vários pensadores cristãos e orações relacionadas às temáticas dos Salmos, de Henri W. Nouwen, Anselm Grün, Madre Teresa de Calcutá, Thomas Merton, entre outros.