quarta-feira, 10 de setembro de 2014

As palavras não ditas

Faltou-lhe coragem. Passara tanto tempo esperando por aquele momento, ensaiara tantas vezes em frente ao espelho, imaginando-a bem ali, do outro lado da fina camada de vidro. Mas quando a teve ao alcance de um abraço, que viu seu lindo sorriso, as palavras ficaram presas na sua garganta, teimando em não lhe sair pela boca. Ela ficou vendo-o paralisado, confuso, esperando pelas palavras que tentava articular, mas completamente mudo. Ela abaixou os olhos, decepcionada com as palavras que não ouviu. Ele abaixou os olhos, decepcionado consigo mesmo. Esperara tanto por aquele momento, e quando acontecera, não fora se realizara. Disse, para si mesmo, um sem-número de vezes, que aquele não era o momento para falar aquelas palavras que ensaiara.
            Separaram-se. Nunca mais trocaram uma única palavra, um único olhar. Suas vidas tomaram rumos distintos, mas passaram a viver vidas artificiais, sem esquecer, em momento algum, o fato que nunca aconteceu. Ela ficava ouvindo os ecos das palavras que nunca ouviu e ele ficava a sentir o gosto das palavras que não conseguiu pronunciar. Se tudo tivesse acontecido como havia sido planejado, teria sido tão diferente...
            O tempo passa lentamente, gotejando dia após dia, e as palavras passaram a soar apenas como ecos distantes, tão distantes que nenhum dos dois mais as ouvia, e elas jaziam adormecidas, esquecidas, trancadas numa gaveta da memória.
            Um dia, ele, já velho, ao se olhar no espelho, se deu conta do quanto o tempo tinha passado sem que ele sequer se desse conta. Tentou se lembrar do momento exato quando o tempo tinha passado, de onde tinha ido parar o tempo que havia perdido, mas não conseguiu precisar como e quando isso tinha acontecido. Foi então que se lembrou daquele fatídico dia, daquele instante e das palavras não ditas. Chorou, envergonhado, de sua falta de coragem, depois se justificou, já que, naquela época, dizia agora para si mesmo, não poderia ter dito aquelas palavras.
            Saiu de casa e deixou que seus passos o guiassem livremente. Eles o levaram até um lugar que ele já não ia há tempos, do qual sequer se lembrava. Estava em tudo diferente, tendo envelhecido, tanto quanto ele, mas, mesmo assim, com a força da lembrança pela qual fora tomado, via-o exatamente como era outrora. Ele abraçou com os olhos todo aquele lugar.

            Fechou os olhos e caminhou por aqueles descaminhos empoeirados, com desníveis mil no chão onde pisava, até que se viu parado naquele mesmo lugar onde parara, onde as palavras emudeceram em sua boca. No chão ainda estavam as marcas de suas pegadas, já quase apagadas pelo tempo. Ele ficou ali, parado na mesma posição que ficara há tantos anos, com os olhos fechados, e pronunciou as palavras que deveriam ter sido ditas no passado. Um vento que passava ali as ouviu e as levou nos braços para depositá-las lá longe, onde a mulher as esperava. Ela não tinha mais o mesmo viço da juventude, mas, ao ouvir aquelas palavras ditas, mesmo vindas de tão longe, as palavras que ela sempre quis ouvir, se sentiu rejuvenescer, e a maior prova deste rejuvenescimento foi seu sorriso, lindo como sempre fora, como o desabrochar da primeira flor da primavera após um longo e gélido inverno.

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